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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Quando a escola pública também é um lugar de encontro com a arte
Guimarães tem projecto pioneiro para levar ensino artístico às escolas do primeiro ciclo através das AEC. No ano de lançamento há mais de 1600 crianças envolvidas.
“Leão”. “Felicidade”. “Malabarismo”. Cada criança escolhe uma palavra que resuma o universo dos palhaços. Algumas repetem-se, mas há quase tantas quantos os 19 alunos desta turma. Pouco depois, em grupos de três ou quatro, fazem pequenas dramatizações a partir do mesmo mote. Veremos leões a precisar de domador, andares desengonçados. Muitas caretas. A professora é uma mulher feliz: “Sinto neles uma grande alegria por estarem a fazer isto. É como se visse as emoções a saltar”.
Ana Sofia Freitas dá aulas de expressões artísticas a estes alunos da EB1 do Alto da Bandeira, em Guimarães, desde o início do ano lectivo. Tem outras quatro turmas nas Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC) do 1.º ciclo, fruto de um projecto pioneiro da autarquia que está a levar o ensino artístico às escolas. Depois de ter sido Capital da Cultura, em 2012, e tendo em conta a diversidade e qualidade dos equipamentos culturais de a cidade dispõe, havia a “responsabilidade de levar a cultura aos alunos”, defende a vereadora da Educação, Adelina Paula Pinto. Por estarem na responsabilidade directa do município, as AEC foram a “forma mais ágil” de o fazer.
O projecto chama-se Mais Dois e centra-se no teatro e na dança. Apesar de já ter havido outras iniciativas de ensino artístico em escolas públicas nacionais, esta é a primeira vez em que a iniciativa é feita tendo por base as AEC. A proposta é transformar estas actividades “em algo mais interessante do que aquilo que elas têm sido”, diz a vereadora da Educação. O objectivo do programa é duplo. Por um lado, “construir uma sensibilidade para as artes, a partir da escola” e, por outro, “construir melhores condições de aprendizagem, a partir do desenvolvimento do próprio aluno”, explica Elisabete Paiva, directora do serviço educativo da cooperativa municipal A Oficina — a mesma estrutura que gere Centro Cultural Vila Flor e o Centro de Internacional de Artes José de Guimarães —, que é parceira desta iniciativa. “Não vamos formar artistas”, avisa. Nem as artes serão mero instrumento para melhorar os resultados escolares dos alunos.
Este é o “ano zero” do Mais Dois, assumindo um carácter de projecto-piloto que deve servir de base para um modelo de trabalho a quatro anos — e que será avaliado por uma equipa de investigadores da Universidade do Minho. Todavia, mesmo em momento de lançamento, este ano há já mais de 1600 estudantes envolvidos, o que representa cerca de um terço da população do 1.º ciclo no concelho de Guimarães, em sete dos 14 agrupamentos de escolas do concelho.
Além das aulas, o programa inclui também duas actividades ao longo do ano lectivo que implicam o contacto directo dos alunos com artistas: uma saída para assistir a um espectáculo em auditório e o acolhimento de um projecto portátil — uma peça itinerante, um contador de histórias, uma oficina ou uma leitura encenada.
Ana Sofia Freitas é um dos 19 professores seleccionados pela autarquia para darem aulas no âmbito do Mais Dois. Nas últimas semanas estiveram em formação com artistas como os encenadores e coreógrafos Leonor Barata e Vítor Hugo Pontes e participar em oficinas de voz, movimento e ter contacto com a história da dramaturgia. Além dos docentes contratados para as AEC, também os professores-titulares de cada uma das 81 turmas foi convidado para a formação. Quase todos responderam à chamada. Enchem a sala de reuniões da Plataforma das Artes e da Criatividade, para ouvir responsáveis de outros projectos de ensino artístico que foram acontecendo nos últimos anos em escolas nacionais.
A formação é também uma oportunidade para estimular o contacto entre os professores das turmas do 1.º ciclo e os das AEC. O Mais Dois está a tentar facilitar esta relação, permitindo o cruzamento de matérias e de abordagens metodológicas. “Nem sempre temos muito tempo para o fazer”, confessa Sónia Faria, professora titular da turma da EB1 Alto da Bandeira. “Mas com esforço e boa vontade, acabamos por conseguir coordenar algumas coisas”.
A professora titular da turma de Ana Sofia começa a perceber as primeiras consequências positivas. Os alunos mais reservados estão a ficar desinibidos. E as suas aulas rendem depois das actividades com a professora do Mais Dois: “Este jogo do faz de conta que eles fazem aqui transforma-lhes a energia em calma e estão prontos para trabalhar”.
No início da sessão, a professora das AEC convida os alunos a tirarem os sapatos, para se sentirem mais confortáveis. As crianças aproveitam o pouco atrito provocado pelas meias para deslizarem no chão da sala polivalente. É um lugar amplo, junto do refeitório da escola, onde as crianças têm espaço à sua vontade. Mas nem sempre está disponível. Nos dias de chuva, o espaço é ocupado pelas aulas de Educação Física, que ficam sem hipóteses de usar o recreio da escola. Os alunos do projecto Mais Dois têm, por isso, que permanecer dentro da sua sala de aula e o trabalho da professora fica condicionado.
“É uma escola antiga, com chão em soalho. Se o ponho a fazer movimentos as professoras das salas de baixo ou do lado não conseguem trabalhar”, explica Ana Sofia Freitas. Este é apenas um dos choques que o projecto de Guimarães tem com as limitações das escolas públicas, sejam com as condições físicas como a da EB1 Alto da Bandeira ou com as regras com que a tutela desenhou o modelo das AEC.
Os horários disponíveis para estes professores têm dimensão reduzida — a maior carga lectiva é de 12 horas semanais —, o que implica vencimentos relativamente baixos. Esse facto afastou alguns interessados, entre os quais candidatos com formação superior em Teatro e Dança. Apenas Ana Sofia Freitas, formada em Dança, e outro colega têm formação específica. Os restantes professores das AEC têm o curso de Educação Básica.
Outro problema colocar-se-á dentro de cerca de um ano: as colocações nas AEC são anuais. Nada garante, por isso, que estes professores, com a experiência que vão adquirir ao longo de um ano de trabalho e com a formação que estão agora a receber no âmbito deste programa, fiquem novamente nas escolas de Guimarães. A autarquia está ainda a estudar uma solução, que poderá passar por incluir esta experiência como factor de valorização do concurso público. Apesar de todos os constrangimentos, o Mais Dois é um compromisso para manter, “a menos que o Ministério da Educação mude as regras das AEC”, garante a vereadora Adelina Paula Pinto: “Enquanto a responsabilidade for da autarquia, vamos continuar com o projecto”.
In: Público
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
“Um tipo todo torto que insiste em ter uma vida normal”
A pensão social de invalidez destina-se a quem tem rendimentos inferiores a 167,69 euros. Se for casado, 251,53 euros. João Sousa e Silva, com 30 anos, perdeu o direito à sua quando se casou.
Ela pediu-lhe que se casassem. Pensou muitíssimo antes de lhe fazer o pedido. Ouvira tantas vezes as pessoas mais importantes da sua vida, os seus pais, dizerem que aquela relação tinha tudo para correr mal. Onde já se vira uma rapariga saudável unir-se a um rapaz com um grau de incapacidade de 98%?!
— Então e se eu ficar surdo? — perguntou ele, que já mal vê, só dá pequenos passos, apoiado em alguém.
— Já pensei nisso tudo.
Pensara. Pensara em todos os cenários imagináveis. Pensara, sobretudo, no pior possível: ele, numa cama, incapaz de falar com ela, incapaz de a ouvir, capaz apenas de reagir ao seu toque. Por vezes, na brincadeira, punha-se a escrever palavras simples nas costas dele e ele punha-se a adivinhá-las. O nome dele: “João.” O nome dela: “Sofia.” A palavra que tantas vezes lhes vem à boca: “Amo-te.”
Ele também tinha medo. Ainda tem. “Tenho medo que se concretize o que ela teme. Eu sou um tipo todo torto que insiste em ter uma vida normal, o mais normal possível, num país que não está feito para isso. Nem posso sair à rua sozinho! Tenho calçada portuguesa à porta de casa. A maior parte está maltratada, mas, quando se fala em alterá-la, as pessoas vão aos arames. Pronto, querem os velhinhos e os deficientes dentro de casa. E assim conseguem, assim conseguem!”
A avaliar pelos últimos censos, 17,4% das pessoas entre os 15 e os 64 anos têm dificuldade em fazer pelo menos uma destas coisas: ver, mesmo com óculos; ouvir, mesmo com prótese auditiva; andar, descer ou subir degraus; sentar-se ou levantar-se, dobrar-se, esticar-se, levantar ou transportar, agarrar, segurar ou rodar algo; memorizar ou concentrar-se; comunicar, compreender ou fazer-se compreender. E tudo se agrava com a idade. Ultrapassa os 50% entre os maiores de 70 anos.
Estamos na sala de casa da mãe dele, que é a casa deles desde que, há quase um ano, se tornaram um casal com papel passado. Ele está sentado numa poltrona. E ela está bem junto a ele, sentada no braço da poltrona, um pouco torta, a sorrir. De vez em quando, solta uma pequena gargalhada.
Talvez esteja tudo naquele sorriso. Ele fá-la rir desde o princípio. Ela podia dizer-lhe qualquer coisa banal, como: “Ó João, vês isto aqui?” E rir-se ao ouvi-lo retorquir: “Ver! Tu sabes bem que eu não posso ver!” Ele brinca tanto com a sua situação que ela depressa aprendeu a fazer o mesmo.
Logo no início, não estava Sofia habituada ao desequilíbrio que João tem no andar, ele segurou-se no braço dela e ela olhou para um lado e para o outro e comentou: “As pessoas que olharem para nós hão-de pensar que apanhámos uma piela desgraçada.” E ele, divertido, contou-lhe que, certa ocasião, fora com uma amiga comprar cinco litros de vinho e ela lhe pedira que levasse a carga. Também aí ele se perguntou, como ela se perguntava naquele momento, o que diria quem olhasse para ele, “todo desengonçado, com uma box de cinco litros numa mão”. E a amiga pôs-se a imaginar: “Olha aquele, acabou-se-lhe o vinho e foi comprar mais!” Risos.
João Sousa e Silva sentia-se “casado” sem notário e padre, mas Sofia Casal e Silva queria ter firmeza nos passos e acreditava que essa firmeza seria maior se houvesse reconhecimento de humanos e bênção de Deus. Nunca pensaram que, casando, ele perderia direito à pensão social de invalidez.
A pensão destina-se a quem tem rendimentos inferiores a 167,69 euros. Se for casado, 251,53 euros. “Um político pode acumular até dois mil euros. Um deficiente pode acumular até 251,53. Isto é imoral”, insurgiu-se ele. Lembraram-lhe que nunca descontou para a Segurança Social. “É claro que não descontei! Não descontei porque não me deram oportunidade. Estou desertinho por descontar.” Os estudos disponíveis são esparsos, mas apontam para taxas de desemprego entre pessoas com deficiência e incapacidade duas vezes e meia superiores à média.
A voz do jovem, de 30 anos, altera-se ao falar neste assunto, que também afecta a mulher, quatro anos mais nova:
— O Estado decidiu que, casando, ou eu e a minha mulher viveríamos na miséria ou a minha mulher ganharia muito bem, o que não é o caso, e teria de me sustentar. Teria de ser um fardo. Não teria direito a ter qualquer dinheiro no bolso a não ser por caridade da minha mulher.
— Nunca seria por caridade! — atalha ela.
— É uma situação altamente indigna.
— É uma pensão não contributiva. Acaba o Estado por apenas garantir que a pessoa está…
— Ligada à máquina!
Escreveu para a Provedoria de Justiça a protestar. Explicaram-lhe, por escrito, que tal pensão “assenta na solidariedade de toda a comunidade, sendo as despesas inerentes às mesmas custeadas pelo Orçamento do Estado e, isto é, pela generalidade dos contribuintes”. “Perante tal circunstância, o Estado condicionou o acesso a estas prestações sociais aos rendimentos dos beneficiários e dos respectivos agregados familiares, apenas a elas podendo aceder os requerentes cujos proventos económicos próprios e dos respectivos agregados familiares sejam inexistentes ou mínimos.”
Na opinião de Fernando Fontes, da Universidade de Coimbra, que fez tese de doutoramento sobre o movimento de pessoas com deficiência em Portugal e está a fazer pós-doutoramento sobre violência e crimes de ódio, tudo isto combina bem com a ideia dominante de deficiente dependente de familiares. “A questão é que tem consequências terríveis”, salienta o especialista. Reforça a dependência, o cansaço, o desgaste da relação conjugal. Havendo violência, a vítima pode sentir-se tão destituída, tão dependente, que nem pede ajuda.
A luta pela vida independente, que surgiu nos Estados Unidos na década de 1970, só agora desponta em Portugal. É reivindicada por novos movimentos, como o (D)Eficientes Indignados. E por activistas como Eduardo Jorge, tetraplégico que a 23 de Setembro iniciou uma viagem de 180 quilómetros em cadeira de rodas — de sua casa, em Abrantes, até ao Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, em Lisboa. Já no ano passado, fez greve de fome junto à Assembleia da República até o Governo prometer avançar com legislação destinada a promover a vida independente dos cidadãos com deficiência. No mês passado, o Governo anunciou os primeiros projectos-piloto de formação de assistentes pessoais.
A busca pela normalidade é permanente. João veste calças de ganga rotas no joelho e T-shirt preta, como qualquer pessoa da sua idade, mas sente que tem mais necessidades e menos oportunidades, apesar de antes de ele nascer a Organização das Nações Unidas ter estipulado que as pessoas com deficiência têm os mesmos direitos e as mesmas responsabilidades que as outras.
— Uma pessoa como eu precisa de mais dinheiro, não de menos dinheiro. Não posso comprar um telemóvel de 20 euros, tenho de comprar uma coisa como deve ser.
— O telemóvel básico não está adaptado a ele.
— Preciso de calçado caro e não é luxo, é necessidade. Tenho de usar calçado seguro, que não me caia dos pés. Ainda há pouco saía sozinho, ia ao café ter com alguém, ia levar o lixo, ia ao banco pagar o condomínio, agora já não posso fazer isto. Não saio sozinho. Não posso apanhar o autocarro para ir à Acapo [Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal], preciso de apanhar boleia ou táxi.
Qualquer actividade corriqueira, como gozar uns dias de praia no Verão, implica cuidados. Nada de parque de campismo ou hostel. Só lugares com acessibilidade. A acessibilidade determina até a escolha da praia. E, neste primeiro ano, escolheram a do Paraíso, na Costa da Caparica.
— Eu detesto praia! Fui por causa da Sofia. Quis que tivesse um bocadinho de praia antes de eu ser operado, se não coitadinha…. E lá está, sai caríssimo.
— Não gostaste da praia? — pergunta ela.
— Gostei de andar à beira-mar contigo! A parte da areia é que… alcatroava aquilo tudo!
— Eu sei que é muito difícil para ti andar na areia, mas aquela praia é fantástica. Tem uma rampa espectacular e logo a seguir barraquinhas.
— Preciso de uma barraquinha. Não tenho agilidade para fugir do sol. Nem pele para estar ao sol, mas até fiz surf.
— Nem se via!
— Ia deitadinho na prancha.
Conheceram-se em 2012, no picadeiro, na Quinta do Pinheiro Manso, na periferia de Leiria. João tinha sessões de hipoterapia, abordagem que recorre ao passo, ao trote, ao galope de cavalo para melhorar a percepção do movimento humano. E Sofia, fisioterapeuta, ia lá levar um rapaz que estava a acompanhar.
Nada nele chamava a atenção dela. “Eu sou um estupor”, brinca ele. “Ela via-me, trombudo, num canto, a fumar como uma chaminé.” Poucas palavras trocavam. Um dia, puseram-se a conversar. Ela interessa-se muito por terapias alternativas. E ele tem neurofibromatose tipo 2, doença genética que afecta o sistema nervoso central e se caracteriza pela ocorrência de tumores.
Sofia acabara de aprender terapia sacro-craniana, técnica baseada no toque de suavidade extrema. Não se sentia ainda capaz de o ajudar. Contactaria os professores. Tantas vezes os ouvira dizer que podiam ajudar a resolver problemas que se pensavam sem solução. Eles não lhe responderam.
Esgotou-se o Verão. Ia o ano em Setembro quando tornaram a cruzar-se. Ela estava a entrar e ele estava a sair da Unidade de Cuidados Continuados Dr. Manuel de Aguiar, no centro de Leiria. A mãe dele, que sofre da mesma doença, estava nos cuidados continuados e ele, o cuidador, fora vê-la.
— Olá!
— Olá!
— Pois é! Desculpa! Nunca mais te disse nada. Os meus professores nunca mais me responderam e eu acabei por me esquecer.
“Foi um encontro espectacular”, goza ele. “Eu estava inchadíssimo, a tremer, por causa dos corticóides. Tinha feito mais uma cirurgia.” Ela lembra-se do que pensou ao vê-lo: “Ó, meu Deus!” Tinha de o ajudar. Ele telefonou-lhe volvido um só dia. Encontraram-se para conversar, com vagar. O quadro clínico dele parecia-lhe tão bicudo. Ela achava que não tinha arte para tamanha complicação, mas não queria deixá-lo sem resposta. Foi para casa pensar e escreveu-lhe: “Vou dar o meu melhor.” E ele dispôs-se a aceitar o melhor dela, fosse qual fosse o melhor dela.
João descobriu a doença aos 11 anos. “Foi-me levando coisas de que eu gostava de fazer. Apesar de ver mal, andava de bicicleta. Andar de bicicleta era a minha maior alegria. Ia comprar peças quando notei que alguma coisa estava mal. Não conseguia levantar bem os pés.”
Os médicos perceberam logo. A opacidade subocular pode ser o primeiro sinal da doença. Ele sempre vira mal. E neurofibromatose tipo 2 fora diagnosticada à mãe dele aos 29 anos, ia ele nos oito. Teve de ser operado. Uns tumores comprimiam-lhe a medula. “A minha estrutura óssea ficou comprometida.”
Durante meses, usou uma ortótese da cintura ao queixo. Parecia a pintora Frida Kahlo. Um dia, fartou-se de tanto desconforto: tirou aquilo. “É pá, não preciso assim tanto de andar com a coluna tão direitinha! Prefiro ficar um bocado marreco e sentir-me um bocado bem no dia-a-dia.”
Naquela altura, não tinha grande noção do que lhe estava a acontecer. Entristecia-o não poder andar de bicicleta, mas tinha alternativa: os videojogos. Passava horas agarrado às consolas. Apareceram-lhe outros tumores. Regressou à mesa de operações. “Fiquei com a mão esquerda muito afectada. Deixei de poder jogar com consolas. Virei-me para o computador.”
Não é que não perca a paciência, não pragueje, não solte palavrões. “Palavrões, digo um, dois, 20, 30, 50. Sou um malcriado de primeira. A questão é que não posso desistir. Desisto e depois? Como é que faço? Não tenho feitio para isso! Felizmente, sou bastante plástico. Vamos ver até quando…”
Sofia gaba-lhe a resiliência — aquela mistura de optimismo, confiança, capacidade de manter a calma perante a adversidade, habilidade para analisar o ambiente, posicionar-se no melhor ponto. “Ele quer andar para a frente”, diz ela. Ainda há pouco, com uma lupa digital, conseguia ver as letras no teclado, escrever depressa. “De há dois meses para cá, a perda de visão agravou-se. Ainda se revoltou, mas já consegue escrever outra vez”, prossegue ela. O teclado tem sinais que o ajudam a orientar-se.
Usa tecnologias de assistência. Fala com o telemóvel e com o computador e o telemóvel e o computador “falam” com ele. Não em todos os programas. É nisso que está a trabalhar. Tem uma utopia: “Se não todas, pôr pelo menos a maior parte das aplicações a funcionar com suporte de leitor de ecrã”, isto é, com resposta sonora.
Não se limita a imaginar. Fez licenciatura e mestrado em Informática no Instituto Politécnico de Leiria. “Teve 19 valores na tese de mestrado”, orgulha-se ela. Registou a patente de um método para aumentar a acessibilidade e interacção em transportes públicos. Está a fazer doutoramento na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. O seu objectivo é introduzir etapas de acessibilidade no desenvolvimento de software — projectos Web e aplicações móveis.
Não vai à universidade. “Vou lá nas avaliações e vamos ver até quando.” Ao ouvi-lo, Sofia dá-lhe uma palmadinha no ombro. E ele percebe naquele gesto um modo de lhe pedir que não diga tal coisa, mas continua: “Não tenho bolsa, não tenho apoios, não tenho dinheiro. E as propinas têm de se pagar.”
“As minhas idiossincrasias apontam para investigação”, resume. “É o que sei fazer. É o que posso fazer. E dá-me muito prazer. Gosto de estar em frente ao computador, de ler, de pensar, de escrever. Gosto de tecnologia, de saber o que existe, de desenvolver novas soluções, de optimizar.”
Por duas vezes candidatou-se a bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia. “Faço o projecto e na avaliação aparecem críticas a dizer que há coisas que não estão esclarecidas e as coisas estão ultra-esclarecidas. Com o meu jogo de cintura, precisava de uma coisa mais previsível.”
A experiência diz-lhe o quão necessário seria avançar na acessibilidade digital. E não está a pensar só nos deficientes, como ele. “Queremos pessoas activas aos 70 anos? Essas pessoas vão ver mal, ter menos destreza, ter problemas de audição, precisar de condições de acessibilidade.”
Arranjou uma empresa disposta a acolhê-lo na modalidade estágio de inserção para pessoas com deficiência ou incapacidade. Temeu que o recusasse. O Sistema de Verificação de Incapacidades atribuiu-lhe 98% e no Instituto de Emprego e Formação Profissional disseram-lhe que os manuais não contemplam casos de incapacidade acima de 90%. “Não sei por que me deram 98 e não 95 ou 90%, por exemplo. Sou uma cenoura que por acaso escreve uns artigos científicos!”
Um dia depois desta conversa receberia notícias: “A questão dos ‘mais de 90% de incapacidade’ existe, mas a pessoa venceu, ou seja, a informática não foi chamada. A pessoa responsável disse-me para não me preocupar, se houver problema, é com ela! Agora, preparo-me para fazer o melhor na empresa.” Começou no passado dia 14. Pela primeira vez nos seus 30 anos de vida, entrou numa empresa como trabalhador, a GAIP Consultores, em Gândara dos Olivais. Tem um ano pela frente.
Dia feliz, aquele. Mesmo assim, não tanto como o do casamento de ambos, na Igreja de Santo Agostinho. Ele gostou da ideia de se casar na igreja do santo cientista. E ela gostou da ideia de se casar numa igreja luminosa e sem degraus. Muito perto da unidade de cuidados continuados onde, por acaso, se reencontraram, ela a entrar com um paciente, ele a sair para apanhar um táxi.
Tanto riso nas fotografias de casamento. Dele, dela, mas também dos pais de Sofia, que tão mal reagiram quando souberam que a filha gostaria de passar mais tempo com João. Não era só por causa da doença, era também a religião. Ele é ateu. Ela faz parte do Caminho Neocatecumenal, um itinerário de formação católica. Ela ia buscá-lo para sessões de terapia sacro-craniana. Conversavam durante a meia dúzia de quilómetros que separam a casa dele, na Guimarota, da casa dela, em Marrazes. As conversas alongavam-se, depois, via Internet. Falavam de livros, de música, mas também da saúde e da doença, da vida e da morte, da amizade e do amor. Ela toca saxofone. Um dia, convidou-o para ir com ela e alguns amigos a um concerto da Orquestra de Jazz de Leiria. Era 21 de Dezembro de 2012. Pelas previsões dos maias, o mundo deixaria de existir, pelo menos, tal como o conhecíamos, nesse dia. E foi isso mesmo que aconteceu ao mundo deles. Quando João apareceu, Sofia correu para ele: “Estava desertinha de te ver!” Mal acabou de dizer aquilo, pensou: “Ai meu Deus, o que é que eu disse!” Ficou baralhada. Ficou até zangada. Aquela ânsia não era profissional. Como acontecera aquilo? Não era suposto sentir aquilo por um paciente. Apaixonara-se ao fazer terapia?
— Nunca me tinha acontecido e já tinha tratado outros rapazes bem bonitos — diz ela, agora.
— Não tanto como eu!
— É verdade.
Dias depois, no fim de uma sessão de terapia sacro-craniana, foram sozinhos até à margem do rio Lis. Sentaram-se num banco de madeira. Declararam-se. Beijaram-se. Quando ela tornou a casa, os pais estavam com os cabelos em pé. O pai ordenou-lhe que deixasse de falar com João. E ela chegou a telefonar-lhe a dizer que não se podiam voltar a ver, mas tudo aquilo lhe parecia tão absurdo que pouco depois voltou atrás. Para os pais, aquela relação não tinha sentido; para eles, tinha.
“Apesar das divergências de crenças, os valores são os mesmos”, acredita a rapariga. “E vi que nutria por ele um sentimento muito grande, muito genuíno de o querer ver bem, de o querer ver feliz e, pronto, tenho aquela mentalidade de que Deus providenciará, faço tudo o que estiver ao meu alcance e a partir daí acredito que há mais ajudas — de pessoas, de Deus.” Pôs todos os pontos em todos os is, não fosse o diabo tecê-las: “Não queria brincar. Tinha de ser uma coisa séria. Não ia deixar de ser crente. Não exigiria que ele fosse.”
Pensou tanto no que lhes estava a acontecer: “Queria perceber muito bem se não estava a iniciar uma relação para salvá-lo, se não estava a agir como uma madre Teresa de Calcutá. Fui percebendo que não era nada disso.” As pressões extremas prosseguiam — pais, amigos dos pais, familiares, amigos. “Diziam tantas coisas. Tinham medo. O que trouxe o medo? Evitamento. Quando começaram a ter contacto com o João, perceberam o que eu vi nele: uma pessoa fantástica.”
Primeiro foi a mãe dela. João precisa de caminhar. Caminha todos os dias, devagar, junto ao Lis. Antes de ir para a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, em Julho de 2013, Sofia pediu à mãe que o acompanhasse. Ela começou por dizer-lhe que não, mas fê-lo. Durante três semanas, todos os dias foi buscá-lo. “Conversávamos imenso”, recorda ele. A reformada professora do ensino básico ficou rendida e contagiou o marido, responsável pelos transportes de uma empresa.
Já casada, Sofia apanhou um grande susto. Há semanas, João regressou ao bloco operatório dos Hospitais da Universidade de Coimbra. “Foi angustiante. Fiquei cinco horas sem saber dele. Deixaram-me vê-lo a seguir à operação. Quando o vi acordado, com aqueles bracitos no ar, foi maravilhoso. Ele falava, dizia piadas.” Passou as noites num hostel e os dias no hospital, a ajudá-lo. “Desejava estar lá. Tinha de estar lá e acabou. E senti um grande prazer em vê-lo a recuperar.”
Têm falado muito em ter filhos. Foram a uma consulta de genética ver se podem. Há 50% de probabilidade de passarem a doença ao bebé. Para garantir que tal não acontece, têm de recorrer à procriação medicamente assistida. Podem fazer um diagnóstico genético pré-implantatório.
— Não estou disponível para gerar uma criança com esta doença. Sei o que isto custa, não sou inconsciente.
— Dada a minha crença, estava disponível para aceitar uma criança doente. Acredito que podia ser feliz, mas eu nunca passei por lá.
— Eu sou contra. Não quero correr o risco de gerar alguém que tenha de viver na ansiedade em que eu vivo, na perspectiva de ficar surdo com uma mulher saxofonista. Como é que isto é possível?!
É o novo desafio: salvar a audição de João. Encontrar forma de fazer um tratamento quimioterapêutico que está disponível em Manchester, no Reino Unido. “Salvar a audição é uma coisa importante para toda a gente, mas torna-se premente quando a pessoa já é cega, não é? Ainda nem tivemos acesso ao orçamento. A primeira consulta são 500 libras.” Resta saber se o Estado comparticipa. “Há gente, muito humana, a tentar fazer com que isso aconteça. Depois, há a parte economicista que não se importa que eu fique surdo, cego, incontactável com o mundo.”
In: Inclusão
domingo, 26 de outubro de 2014
Para eles... a vida não tem limites
A vida pregou-lhes uma grande partida, eram muito novos. Falharam as pernas, os braços, a visão. Ouviram "não podes, "não voltas a poder". Fizeram ouvidos moucos e passam os dias a superar-se.
O Nuno Vitorino, a Lina Pimental e o Nélson Lopes têm graves deficiências físicas e tiveram de fazer outras contas à vida. Dizem que os problemas não limitam os sonhos. Pelo menos até que lhes provem o contrário. Não lhes têm provado.
Superaram as limitações físicas, seguiram com a vida e, mais do que isso, desafiaram-se e superaram-se. São três dos nossos Stephen Hawking, o físico inglês, amante de atividades radicais que, agora, surge num disco dos Pink Floyd. E que recentemente passou por Lisboa numa viagem de cruzeiro.
Nuno Vitorino fazia full contact e iniciava-se no bodyboard quando um tiro da espingarda que ele e um amigo manuseavam o deixou tetraplégico (tinha 18 anos). O seu mundo foi trocado pelo Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão. Hoje tem 37 anos, a maioria vividos numa cadeira de rodas. O próximo desafio: fazer tow-in. Dito por outras palavras, "surf com reboque" e "dropar" as ondas gigantes de McNamara. Se o conseguir, será a primeira pessoa com deficiência a fazê-lo. Ele já escolheu o local: o ilhéu da Papoa, em Peniche.
In: DN
sábado, 13 de setembro de 2014
Inclusão
A conquista dos Direitos Humanos está associada à ampliação da igualdade para todas as pessoas. Em 1994, uma conferência realizada pela UNESCO produzia um documento que viria a chamar-se Declaração de Salamanca e que visava a inclusão de todos os alunos no ensino regular. O novo paradigma incluía todas as crianças numa educação inclusiva, para todas. A qualidade do ensino assumia o compromisso de que ninguém ficaria para trás. A pedagogia passaria a centrar-se na criança e na capacidade de encontro com as necessidades desta. E as necessidades educativas especiais deixariam de estar à margem, mas passariam a fazer parte integrante do espaço educativo, das escolas. A dignidade roubada era assim restituída. E muitas pessoas, muitas famílias, aumentariam as suas oportunidades de felicidade. E assim foi. Só que a inclusão não beneficia apenas os mais frágeis. O acesso ao ensino regular foi uma conquista que beneficiou toda a sociedade, todas e todos saímos a ganhar. E é por isso urgente que o caminho feito não abrande. Se uma criança ficar para trás, toda a sociedade ficará com ela. A sua derrota, será a nossa derrota. A sua humilhação, será a nossa humilhação. E por isso o exemplo a dar, sobretudo aos mais novos, é o de que o valemos muito - sem excepção. E que esse valor, irrevogável, seja reconhecido na lei, seja um efectivo compromisso da sociedade em geral, de cada um de nós em particular!
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Bom Ano Letivo
Gostaria de começar por desejar a todos os visitantes, seguidores e amigos um excelente ano letivo. De seguida convido-vos a ver um filme (que alguns já deverão ter visto) para começarmos o ano com uma pequena (grande) reflexão.
O filme encontra-se no youtube e é "Da série Dharmalog para Crianças (e também para adultos): "Festa nas Nuvens" (Partly Cloudy) é um curta de animação de 5 minutos da Pixar Animation Studios (lançado originalmente na abertura do filme "Up! Altas Aventuras", também da Pixar, de 2009) que diverte e inspira pela história entre o pássaro Peck e a nuvem Gus, que, juntos, devem criar e entregar bebês de todas as espécies do mundo animal no planeta Terra. Outras nuvens entregam bebês mais "normais", enquanto a missão de Peck é especialmente delicada pois os bebês são de espécies um pouco mais difíceis -- como jacaré, carneiro e porco-espinho. A sutileza da comunicação entre os dois, o senso de missão e companheirismo se destacam nessa história aparentemente apenas divertida do estúdio que criou Vida de Inseto, Monstros, Up!, Wall-E e a série Toy Story, e ganhou 27 Oscars até agora."
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Os “ses” dos Direitos Humanos
Cada vez estamos mais enfronhados nesta discussão dos “ses” e parece que muitas vezes já desistimos de reivindicar a inequívoca universalidade dos Direitos Humanos.
A história está recheada de momentos em que nações se digladiam em nome de interpretações diferentes de um mesmo texto.
Lembremo-nos das guerras religiosas entre, por exemplo, católicos e protestantes, que, com diferentes interpretações da mesma Bíblia, nela encontraram justificação suficiente para chegar a algo tão extremo como travar uma guerra. Estas guerras buscando justificação em diferentes interpretações do mesmo texto não são exclusivas dos cristãos nem sequer das guerras de religião. Durante a designada “Guerra Fria”, os blocos “ocidental” e “soviético” acossavam-se com as suas interpretações da Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH): um bloco culpando o outro por atentar contra os direitos civis e políticos, o outro bloco culpando o primeiro pelo desrespeito pelos direitos sociais. Aprendemos daqui que não basta dispor de um texto por mais consensual, claro e inequívoco que ele se apresente: sempre, esse texto será palco de múltiplas interpretações e será usado para legitimar posições que se encontram em campos opostos.
É consensualmente reconhecido que os Direitos Humanos são uma unidade indivisível (não se pode aceitar e “escolher” só alguns deles…), interdependentes (só o reconhecimento cabal de todos os direitos assegura a existência real de cada um deles) e universais (devem aplicar-se a todos os indivíduos e a todas as sociedades políticas, sem exceção). Destas características dos Direitos Humanos, é certamente o seu caráter universal que mais é ameaçado hoje em dia. A grande pergunta e o grande desafio neste aspeto é: “Os Direitos Humanos são mesmo universais?”
Sabemos da complexidade da resposta: no plano mundial, o mapa do cumprimento efetivo dos Direitos Humanos é extraordinariamente dececionante. Darei cinco rápidos exemplos: 1) existem milhões de pessoas que vivem sob regimes ditatoriais, 2) existe no século XXI escravatura e tortura, 3) largos extratos populacionais são refugiados do seu país (batemos recentemente este triste recorde), 4) o acesso à educação, saúde e subsistência básica é ainda inacessível para uma maioria da população mundial, 5) há milhares de milhões de pessoas em situação de pobreza extrema. Isto no panorama mundial. Mas… como se comporta a universalidade dos DH entre nós?
Frequentemente, ouvimos opiniões que procuram ligar os Direitos Humanos não a um direito universal e inalienável mas a uma condição de merecimento. Assim, não bastaria ser pessoa para usufruir dos Direitos Humanos, seria preciso um julgamento sobre o merecimento que essa pessoa deveria ter para poder usufruir deles. Os Direitos Humanos têm que ser merecidos? E qual é o patamar a partir do qual eles se encontram satisfatoriamente exercidos?
Vejamos por exemplo o caso da Educação. Dizer e cumprir que “Todos têm direito à educação” (art. 26.º da DUDH) é louvável mas… têm direito até que nível de Educação? E a formação profissional é um direito? E a educação de qualidade é um direito? E o apoio em caso de dificuldades escolares, é um direito? E a escola a tempo inteiro é um direito? E a educação Inclusiva é um direito? Na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2006), introduz-se um conceito curioso que é o de reasonable accomodations (traduzido para português por “adaptações razoáveis”). Curioso porque remete para uma interpretação do que é “razoável” ou “satisfatório” ou “adequado”. E, aqui, estamos a pisar um terreno aberto a diferentes interpretações: o que é razoável para uns pode ser inaceitável para outros.
E assim se juntam diferentes “ses” aos Direitos Humanos. Direito à Educação? Sim… e até onde? Até haver meios, técnicos disponíveis, possibilidades, orçamento, se estiver no tempo certo e no lugar certo… Cada vez estamos mais enfronhados nesta discussão dos “ses” e parece que muitas vezes já desistimos de reivindicar a inequívoca universalidade dos Direitos Humanos. Direitos Humanos para todos, porque todos têm uma dignidade intrínseca e a possibilidade de realização autónoma e plena de projetos de vida. Agora é tempo de lembrar que direitos não têm “ses” e esta palavra, “se”, está ausente dos documentos fundadores, reguladores e inspiradores dos Direitos Humanos. É muito importante, no momento de crise de finanças e de valores que estamos a atravessar, reafirmar que não basta um cumprimento formal, um “faz de conta”, uns “serviços mínimos” para assegurar a universalidade dos Direitos Humanos. Precisamos de continuar a bater-nos por Direitos Humanos que não sejam uma cosmética, que não sejam só uma formalidade. Densificar os Direitos Humanos? Sim, é isso: torná-los mais espessos, mais complexos, mais sólidos, mais direitos e mais humanos. Sem “ses”.
Por: David Rodrigues
Professor universitário, presidente da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial
In: Público
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Cascais implementa método "connect" junto de crianças com necessidades educativas especiais
Originário do Institute Frank Porter Granham, Carolina do Norte, o método Connect baseia-se no conhecimento de que o desenvolvimento das crianças com necessidades educativas especiais é influenciado pelas relações que estabelecem com os adultos de referência e o seu grupo de pares e que a intervenção em idade pré-escolar é fundamental para potenciar o seu desenvolvimento e permitir a sua participação no contexto de grupo.
A metodologia Connect, de ensino aprendizagem, envolve a participação ativa dos agentes educativos, promovendo a transposição para a prática das suas orientações, baseadas na evidência de boas práticas a nível nacional e internacional.
Este projeto foi apresentado no Congresso Internacional ”Embracing Inclusive Approaches” que se realizou em Braga nos dias 14 a 17 de julho, pela equipa do Departamento de Educação e Desporto/ Divisão de Intervenção Educativa da Câmara Municipal de Cascais. Participaram neste Congresso organizações não-governamentais, políticos, investigadores e profissionais de educação da Europa, Ásia Central, América do Sul, América Central e América do Norte.
O Município de Cascais desenvolve projetos na área da Inclusão desde 2008, tendo qualificado profissionais de educação, apoiado as suas famílias e promovido a participação ativa da comunidade para o sucesso educativo.
Via Facebook
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
DEFICIÊNCIA E PARTICIPAÇÃO
(...)
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
(...)
António Machado,
Defendo com muita frequência que o verdadeiro critério de avaliação das políticas e práticas de inclusão envolvendo as pessoas com deficiência, considerando grandes domínios da vida das comunidades como educação, vida social e profissional, é o seu nível de participação nos diferentes contextos em análise.
Participação é interagir e envolver-se com a comunidade e com todas as pessoas da comunidade na generalidade das actividades de acordo, evidentemente com competências e capacidades, de qualquer um, e não só das pessoas com deficiência.
A grande questão, já o tenho referido, é que, apesar do empenho e investimento que é colocado no trabalho e apoio a estas pessoas, muitos de nós não acreditamos que eles … são capazes. No caso de se tratar de pessoas com deficiência mental a situação é ainda mais óbvia.
Texto de Zé Morgado
sábado, 9 de agosto de 2014
Projeto de inclusão inovador alcança impacto nacional
O Centro Escolar de Alcobaça foi este ano palco de um esforço de inclusão inovador a nível nacional, com o projeto “Férias para Todos”, assente no anterior “Escola para Todos”.
Helena Rolim, da Associação Carisma d’Emoções e mãe de uma menina com necessidades educativas especiais, foi uma das impulsionadoras deste projeto. “Queríamos provar que era possível haver férias para todos e que as crianças com necessidades especiais poderiam realizar atividades com os outros e não atividades específicas só para eles”, afirmou a professora. As férias da Páscoa foram um sucesso e alargaram-se ao período de verão com atividades variadas, entre equitação, vela, praia e momentos de estudo também.
“Descobrimos depois que a nível nacional ainda nada disto tinha sido experimentado”, contou Helena Rolim. Foi por isso que os responsáveis foram contactados para apresentar este projeto na Semana da Educação perante centenas de professores, o que sugere que o projeto “pode ser replicado a nível nacional”.
In: O Alcoa via FB
Via: Incluso
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
AS FÉRIAS DOS MENINOS COM NECESSIDADES ESPECIAIS
Um trabalho oportuno do Público, no qual colaborei, aborda uma matéria raramente objecto de referência pública, a oferta de actividades de férias acessíveis a crianças e adolescentes com necessidades especiais.
Na verdade, em tempo de férias abundam as referências à oferta sem fim para actividades de férias destinadas aos mais novos pelo que seria importante e interessante perceber se esta oferta é, ou não, acessível a crianças e adolescentes com necessidades especiais.
O trabalho apresentado e os exemplos envolvendo pais mostram, sem surpresa, que o envolvimento destas crianças neste tipo de actividades é baixo e que as estruturas receptivas à sua presença não são suficientes. Parece-me também claro que esta situação não decorre fundamentalmente de eventuais custos acrescidos mas de uma cultura e visão que importa alterar.
Este cenário é, não podia deixar de ser, coerente com as dificuldades enormes que crianças e jovens com necessidades especiais e as suas famílias sentem para que o seu quotidiano, a sua vida, a diferentes níveis, seja tão próxima quanto possível das outras crianças e adolescentes com as mesmas idades, ou seja, que possam aceder e participar, da forma que conseguem, nas actividades que se julgam importantes para crianças e adolescentes.
Também nas férias e nas actividades próprias das férias há muita estrada para fazer em direcção à participação de todas as crianças.
PS - A propósito deste texto enviaram-me esta informação:
"A Câmara Municipal de Sintra no âmbito do Programa à Descoberta dos Tempos-Livres promove até 30 de agosto, em parceria com as Direções dos Agrupamentos de Escola, as Associações de Pais e Instituições de Solidariedade Social, parceiros da Componente de Apoio à Família, uma resposta de ocupação de tempos-livres, através da oferta de atividades diversificadas, nos respetivos estabelecimentos de ensino da rede pública.
Através deste Programa está a ser garantida a integração de cerca de 30 alunos, com necessidades educativas especiais, que frequentam as unidades de educação especial do concelho e simultaneamente garantir uma oferta com qualidade e securizante para as crianças atendidas e suas famílias.Para a garantia desta resposta especializada, tem sido essencial a colaboração dos Centros de Recursos para a Inclusão, Centro de Educação para o Cidadão com Deficiência – CECD e o Centro de Educação e Reabilitação de Deficientes de todo o País - CERCITOP, através da disponibilização dos seus técnicos e terapeutas, que promovem o apoio direto aos alunos, em contexto de programa de verão, acompanhados pelos docentes de educação especial e assistentes operacionais, que em cada Agrupamento de Escolas, AE Agualva - Mira-Sintra, AE D. Maria, AE Leal da Câmara, AE Prof. Agostinho da Silva, AE Queluz Belas e AE Ruy Belo, asseguram o enquadramento destes alunos."
Texto de Zé Morgado
domingo, 3 de agosto de 2014
Aceitam o meu filho autista no campo de férias?
Os pais queixam-se de não terem respostas para os seus filhos quando estes têm necessidades educativas especiais.
Esta é uma questão que "num plano de direitos humanos e do ponto de vista social e cultural já não é aceitável”, diz Sara Martins, membro da direcção da Dar Resposta e mãe do Guilherme, um jovem de 13 anos com autismo. Embora a oferta para os tempos livres dos mais novos cresça, as férias das crianças com necessidades educativas especiais (NEE) continuam a ser uma realidade à parte. E o problema é "essencialmente cultural", reforça a mãe.
“Há pessoas que acham que entre as necessidades especiais não constam os campos de férias”, diz o psicólogo e docente do IPSA- Instituto Universitário José Morgado, já com experiência de 40 anos em educação inclusiva. Ponto com o qual Sara Martins concorda relembrando que actualmente se assiste “a uma falta de consciencialização de que estas crianças e jovens têm o mesmo direito que os outros a aceder a este tipo de pedidos”, para além do facto de que problemas logísticos nas férias todos os pais têm.
Então, por que têm de perguntar os pais destas crianças se aceitam os seus filhos quando nenhum outro pai o tem de fazer? “A dificuldade da inclusão numa actividade de Verão é proporcionalmente directa à dificuldade que nós, pais, vivemos no reivindicar e fazer valer a inclusão dos nossos filhos noutros contextos”, como por exemplo, na escola, explica Sara Martins.
Armazéns sem inclusão
Além das Unidades de Ensino Estruturado introduzidas nas escolas, os campos de férias que incluam apenas pessoas com NEE funcionam como “guetos” que, para Sara Martins são “perfeitos armazéns onde não há inclusão” e onde as crianças são “segregadas do resto dos jovens da sua idade”. Actividades só para meninos com multideficiências, autismo ou trissomia 21 são um retrocesso na caminhada para a plena inclusão, alerta a mãe. A inclusão é todas as crianças poderem brincar com todos e os benefícios estão mais do que provados, reforça.
Ainda assim, David Rodrigues, docente na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa e presidente da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial, relembra que a organização de actividades por parte de associações que lidem com a deficiência é a “comprovação da dificuldade que os pais têm em colocar os filhos em contextos inclusivos”. E esta oferta é a solução que estas entidades encontram para aliviar os pais, acabando por ser, muitas vezes, as únicas hipóteses que têm.
Contudo, chegadas as férias, as famílias continuam a perguntar às organizações das actividades e campos de férias se aceitam os seus filhos e a resposta continua a ser um redondo “não”. Grande parte desta não-aceitação deve-se ao facto de as entidades pensarem tanto numa readaptação do seu plano de actividades como na inclusão de exercícios terapêuticos. E, no exacto momento em que estas mudanças são feitas, a actividade deixa de ser inclusiva.
Poderá ser necessária uma mudança de pensamento, que actualmente já é visível em algumas iniciativas. O jovem Guilherme já esteve num campo de férias onde fez canoagem, slide, rappel e outras actividades. "Se calhar não fez a quantidade de vezes que os outros fizeram, mas houve o cuidado de criar o ambiente propício para que experimentasse. A adequação muitas vezes passa por isto, não passa por ter actividades diferentes”, conta a mãe Sara Martins, dizendo ainda que não se pode esperar que as crianças, com ou sem necessidades especiais, experienciem as actividades da mesma forma.
Vera Fernandes, membro da administração da sede da UPAJE- União para a Acção Cultural e Juvenil Educativa, menciona que nos campos de férias por eles organizados, sempre que possível, estas crianças fazem as mesmas actividades que todas as outras. “Claro que com um maior número de adultos a apoiar as crianças”, acrescenta.
Este é um apoio adicional que requer sensibilidade e que também se verifica nas actividades desenvolvidas pela cooperativa de solidariedade social TorreGuia, em Cascais. Segundo Ana Cristina Bernardo, directora desta cooperativa, uma das alternativas encontradas para que crianças com deficiência fossem incluídas nas actividades conjuntas foi a de terem “duas crianças com necessidades especiais integradas num grupo de dez”. Explica que este rácio permite “ter os recursos humanos adequados” não sendo “necessário o financiamento adicional nem por parte da autarquia nem dos pais”, já que vêm estabelecendo parcerias com a câmara de Cascais mas também com os agrupamentos de escolas do concelho.
Crianças com rótulos
Mesmo existindo boas práticas, a sociedade continua a colar o rótulo nestas crianças, os pais continuam a lutar para que este se descole e as promotoras de actividades de tempos livres, regra geral, continuam a dizer “não”. Justificações? Infra-estruturas inadequadas, recursos humanos pouco qualificados e pouca verba para assegurar o bem-estar destas crianças.
“A falta de recursos não é desculpa” na medida em que muitos pais se disponibilizam para pagar custos adicionais chegando a apresentar também algumas soluções, avança José Morgado. As instituições têm as suas limitações mas em casos em que, por exemplo, os terapeutas das crianças disponibilizem os seus serviços, as entidades poderiam incluí-los, sugere Sara Martins.
Na pausa lectiva deste ano, o Guilherme está a frequentar a Escola Salesiana de Évora e Sara Martins colocou ambas as questões – custos adicionais e recursos humanos. As respostas foram uma surpresa: “Não vamos cobrar mais dinheiro porque o Guilherme tem deficiência”, aceitando ainda uma primeira visita às instalações com a presença da terapeuta do jovem que explicou a todos como deveriam lidar com o autismo.
Nos casos em que as crianças são aceites, tanto José Morgado como Sara Martins relembram um outro problema: como é feito esse acolhimento. O investigador afirma que “muitas vezes, as crianças estão entregues, mas não estão incluídas”. Sara Martins diz que esta é uma situação idêntica à da escola quando “acha que basta tê-los lá dentro que já é inclusiva”, proferindo depois o discurso de "nós somos inclusivos mas ele não se mistura com os outros, o que é que nós podemos fazer?". A mãe responde: “Criar estratégias para a inclusão acontecer”.
Férias mas não em guetos
A aceitação das propostas das famílias pode ser um primeiro passo. Sara Martins diz ser necessário regulamentar a inclusão destas crianças nas actividades de tempos livres porque, "assim como a escola não se pode recusar a ter um aluno com deficiência, os campos de férias para funcionarem tinham que ter previstas situações em que acolhiam” estas crianças.
Para David Rodrigues, salvaguardar nos regulamentos esta inclusão seria um avanço claro. Mas as barreiras que se erguem nestes processos são muitas e, na sua opinião, deveria pelo menos estar assegurada a necessidade de uma explicação para anão-aceitação.
Quanto à lei, esta contempla um apoio aos portadores de deficiência nos tempos livres mas essas respostas não são inclusivas acabando por criar os tais “guetos” que Sara Martins critica. “É possível criar-se um quadro de incentivos, de apoios ou de compromissos por parte do Estado português”, parcerias entre autarquias, Instituto Nacional de Reabilitação (INR), ministérios da Segurança Social e da Saúde para que existam “todas as condições de acessibilidade, qualquer que seja a deficiência”, sugere.
O presidente da Pró-Inclusão dá ainda outra sugestão: “podiam ser incentivadas parcerias tanto entre as escolas e instituições de educação especial como com as instituições de tempos livres”, onde se fizesse “um planeamento de modo a que se percebesse quantas crianças são e como seria feita a integração delas”. Esta preparação (muitas vezes tardia) deveria ser feita com algum tempo para que se “pudesse pensar de uma maneira mais harmoniosa” nas férias destes miúdos.
Por Patrícia Pinto da Silva
Texto editado por Bárbara Wong
sábado, 2 de agosto de 2014
Eu Sou Assim - Reportagem RTP 1
Um programa sobre pessoas com aquilo a que chamamos de "deficiências". Um rapaz com trissomia 21, outro paraplégico, outro cego, e outro surdo mostram como são os seus dias e como se adaptaram à vida do dia a dia.
Via: Facebook
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Conferência: Direitos Fundamentais da Criança e Educação Inclusiva
Realizou-se ontem (28/05/2014), na Assembleia da República, uma conferência dedicada aos "Direitos fundamentais da criança e educação inclusiva".
Podem consultar aqui os Documentos associados ao evento:
Programa [formato PDF]
Nota Curricular - Dr. Laborinho Lúcio [formato PDF]
Nota Curricular - Dr. David Rodrigues [formato PDF]
Apresentação Professor David Rodrigues - A Inclusão como Direito Humano Emergente [formato PDF]
A Inclusão como Direito Humano Emergente - Professor David Rodrigues [formato PDF]
Registo fotográfico [formato PDF]
Links associados ao evento:
Gravação áudio [formato MP3]
Gravação vídeo [Streaming] [Download]EDUCAÇÃO INCLUSIVA NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA. "Sonhar não custa, o que custa é viver"
Na Assembleia da República realizou-se hoje (28/05/2014) um encontro dedicado aos "Direitos fundamentais da criança e educação inclusiva".
Algumas notas muitas vezes por aqui reafirmadas.
A educação inclusiva não decorre de uma moda ou opção científica, é matéria de direitos pelo que deve ser assumida através das políticas e discutida na sua forma de operacionalizar. Aliás, poderá afirmar-se, citando Biesta, que a história da inclusão é a história da democracia, a história dos movimentos que lutaram pela participação plena de todas as pessoas na vida das comunidades, incluindo, evidentemente a educação.
Os tempos que vivemos são tempos de exclusão, de competição, de desregulação ética e de oscilação de valores. Veja-se a preocupante subida da votação em ideias políticas de direita pouco favoráveis à inclusão que se verificou nas eleições europeias.
Os sistemas educativos, incluindo o nosso, parecem ter entrado numa deriva de "normalização", todos devem aprender tudo ao mesmo tempo, as metas curriculares assim o determinam, sem intenção ou capacidade de acomodar a diversidade, a característica mais óbvia de qualquer grupo de alunos.
A educação, em termos globais, podemos dizer de cidadania, transforma-se na aprendizagem normalizada e acrítica de competências instrumentais que se devem demonstrar em exames sucessivos.
Os exames, muitos exames irão funcionar, em nome da promoção da excelência e do rigor, como um crivo sucessivo criando grupos de excluídos. Destes, os que tenham maiores dificuldades ou deficiência serão, é só esperar mais um pouco, encaminhados para as instituições, pelo menos grande parte do tempo, como já acontece, aliás, com muitos alunos abrangidos pelo prolongamento da escolaridade obrigatória e que estão na escola a que pertencem, quando estão, não mais do que 5 horas ao abrigo de normativo que se diz promotor de inclusão. Aliás, são cada vez mais frequentes as situações de crianças cujas famílias são "aconselhadas" a mantê-los mais tempo em casa, pois a escola não tem, ou assume que não a possibilidade de os acomodar como seria de esperar. Os outros, com mais capacidades mas também excluídos pelos exames, muitos exames, serão encaminhados para o ensino vocacional, designação que só por si, como dizia hoje Laborinho Lúcio, é bizarra, pois de vocacional (de vocação) tem nada, os miúdos são empurrados para essas prateleiras.
Os pais desesperam por apoios e respostas às necessidades dos filhos que, apesar da retórica dos sucessivos governos, continuam por estruturar em qualidade e suficiência.
Finalmente, como sempre afirmo, o melhor critério de inclusão, qualquer que seja a dimensão considerada, é a participação, a pertença, o envolvimento. Vamos percebendo pelos relatos e pelas experiências que a participação é baixa. Muitos alunos com condições especiais estão na escola mas não "participam", estão no seu "canto" (este canto pode ter várias designações). Dito de outra maneira, estão "entregados", não estão "integrados".
Finalizo com a referência à história contada na primeira pessoa pelo João e que representa uma acusação fortíssima, "Tenho 22 anos e frequento o 12º ano. Tenho necessidades educativas especiais e estive integrado numa turma até ao 9º ano. Fazia o que os meus colegas faziam, gostava deles e sentia-me bem com eles. Agora, apenas assisto à aula de História, não gosto de estar assim, querem que eu vá tirar um curso de jardinagem ou de lavandaria, coisa de que eu não gosto. Gosto de música, museus, organizar eventos. Só queria poder fazer isto".
O João recorda-me um outro jovem com uma deficiência motora significativa que questionado num documentário televisivo sobre se acreditava que alguma vez teria possibilidade de uma viver uma vida “como a das outras pessoas”, família, emprego, etc. O rapaz respondeu que às vezes sonhava com isso, mas o problema é que, disse ele, “sonhar não custa, o que custa é viver” .
Terá mesmo que ser assim?
Texto de Zé Morgado
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Consigo - Episódio 18
No Consigo desta semana, visitamos a cidade do Rock e damos destaque ao projeto social do Rock in Rio, que está quase a começar. Mostramos de que forma os Pais em Rede se apoiam mutuamente em Oficinas de Pais, e apresentamos-lhe ainda a professora de ensino especial Vera Pialgata, da associação Nós, e o fotojornalista da Lusa Mário Cruz, que se deixou inspirar pelo mundo de quem não vê.
O Consigo, em parceria com o Instituto Nacional para a Reabilitação, procura mudar mentalidades e mostrar o que de bom se vai fazendo pela inclusão dos cidadãos com necessidades especiais.
A juntar a quem nasce com deficiência, Portugal tem muitos cidadãos incapacitados pela guerra colonial, pelo elevado número de acidentes rodoviários e, cada vez mais, pela idade. Por isso, é urgente valorizar a diferença e tornar o país mais inclusivo.
Desde a saúde à educação, novas tecnologias ou turismo, o Consigo é feito de reportagens sobre casos de sucesso, inovações, informação útil e boas práticas.
Um magazine capaz de transmitir uma mensagem de solidariedade entre iguais.
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