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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Regras em crise

"Já não sei mais o que fazer... dou-lhe tudo! Ele tem computador, telemóvel topo de gama, televisão no quarto e leitor de MP3."

A elevada frequência com que me tenho confrontado com afirmações semelhantes a esta, tem-me deixado verdadeiramente preocupada. Os pais que fazem afirmações deste tipo têm geralmente filhos problemáticos, sendo frequentemente chamados à escola porque estes não cumprem regras nem respeitam os adultos. Em termos educativos, entramos na onda do dar muito, mas exigir pouco. Muitos dos nossos alunos sabem que o mau comportamento não será penalizado, nem na escola, que infelizmente tem poucos meios para impor autoridade, nem em casa. Depois de dois ou três dias em que o castigo vigora, o coração do pai ou da mãe amolece e, portanto, rapidamente se reconquista tudo o que se perdeu na sequência dos maus comportamentos na escola. Como não há consistência em termos educativos, rapidamente a criança/o jovem volta a apresentar distúrbios de comportamento, porque afinal os castigos, se existirem, são de tão curta duração que a/o leva a aprender que "o crime verdadeiramente compensa". Não é difícil um jovem pensar "Para que é que vou mudar de atitude, se mesmo sendo arrogante e mal-educado poderei usufruir de telemóvel, televisão no quarto e de todas as outras mordomias que felizmente tenho sempre ao meu alcance?". O meu contacto frequente com alunos não me deixa qualquer dúvida relativamente à veracidade da teoria apresentada. Recentemente, devido ao comportamento disruptivo de um grupo de alunos que frequentam um CEF (Curso de Educação e Formação), dizia uma aluna: "Eu estou a esforçar-me por melhorar o meu comportamento, porque a minha mãe me tirou o telemóvel e as saídas com as minhas amigas. Só poderei voltar a ganhar isto, se o meu comportamento melhorar." Outro aluno, cujo pai fora também alertado para a importância de aplicar algumas penalizações em consequência do seu mau comportamento, dizia arrogantemente: "O meu pai não me tirou nada."

Quando estes jovens são encaminhados para o Serviço de Psicologia e Orientação, procuro que os pais compreendam que os filhos não sofrem de nenhum problema psicológico e o processo de mudança passa pelo estabelecimento de regras e limites por parte da família. Ora este processo esbarra de imediato com muitas dificuldades, pois o trabalho que os pais deveriam iniciar nos primeiros anos de vida começa apenas na adolescência, quando a omnipotência e tirania dos jovens já é reinante. Nos primeiros seis anos de vida, a interiorização das regras e a tomada de consciência dos limites são mais fáceis de integrar.

É de sublinhar que alguns destes pais nunca impuseram limites, por considerarem que os comportamentos disfuncionais dos filhos seriam o resultado deste ou daquele problema familiar e não o fruto da inexistência de autoridade; outros, porque dizer "não" e manter o "não" dá muito mais trabalho que dizer "sim". Contrariamente ao que estes pais supõem, no fundo, as crianças gostam de ouvir "não", uma vez que este significa que há alguém acima delas que as ajuda a resolver o que não conseguem resolver sozinhas, e que toma conta delas, protegendo-as contra eventuais riscos.

Usando as palavras do Dr. Daniel Sampaio: "É preciso afirmar, sem subterfúgios, que não se pode educar sem autoridade, quer no contexto da família quer no ambiente da escola. Há temas que não são negociáveis na interacção com os filhos: o respeito pelos mais velhos, a proibição da linguagem obscena, o cumprimento dos horários, a obrigatoriedade de trabalhar ou estudar, a manutenção dos limites da privacidade geracional, a necessidade de cumprir em conjunto os rituais familiares (festas significativas, datas de habitual festejo, férias da família), entre outros."*

É portanto urgente que os pais compreendam que ao imporem disciplina desde cedo estão a promover o autocontrolo dos filhos e a ajudá-los a serem capazes de estabelecer os seus próprios limites.

* Extraído de "Notícias Magazine".

VÍDEOS RELACIONADOS COM ESTE TEMA
Regras e limites
Por: Adriana Campos

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Modificação de comportamentos (1 de 4)


Saber dar ordens

Todas as crianças, em determinadas alturas da sua vida precisam que se lhes diga o que devem fazer ou o que se espera delas. É o primeiro passo da aprendizagem: a palavra (o segundo, como já vimos em texto anteriores, é a acção). Principalmente os filhos mais pequenos têm muitas vezes de ser ensinados antes de se lhes poder ser exigido que façam algumas coisas por si. Não vamos dizer a uma criança de sete anos "estuda" ou "arruma o quarto" se nunca lhe explicámos ou mesmo demonstrámos como isso se faz. Será necessário primeiro ajudá-la a realizar essas tarefas, várias vezes, até nos apercebermos, em função da sua idade e do seu grau de desenvolvimento, que ela já é capaz de as executar sozinha. Se necessário, devemos desmontar uma ordem mais complexa em pequenos passos e ensinar cada um deles em separado, até que todo o conjunto possa ser realizado sem problemas.

As nossas ordens devem ser dadas de uma forma directa e objectiva, sem ambiguidades. "Tem cuidado" não é o mesmo que "Não atravesses a rua sozinho". "Porta-te com juízo" não é o mesmo que "Não batas no teu irmão". Não vale a pena pensar que eles vão entender o que queremos se não formos objectivos nos nossos pedidos. Pode até ser que sim, mas não vale a pena correr o risco.

Por: Pediatra Paulo Oom
In: I online

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

"Time-out" e "1-2-3", duas técnicas para lidar com as birras do seu filho

É muito comum ouvir os pais dizer, independentemente da nacionalidade,  que se uma bofetada não os matou quando eram pequenos, também não é isso que vai fazer mal aos seus filhos.

Estamos a falar de um castigo físico na educação que, apesar de alguma forma ser aceite a nível social, tem mais efeitos negativos do que alguns pais desejariam. Não só porque acabam por se arrepender a seguir, como percebem que não tem efeitos práticos em termos de aprendizagem para os filhos.

Uma bofetada, um açoite, só serve para mostrar a incapacidade do adulto em lidar com a criança, a impotência perante aquele filho/a. A educação deve basear-se na comunicação, na imposição de limites e regras desde muito cedo, no auxílio à criança para lidar com as contrariedades que vão aparecendo.

E como vê a criança o castigo? Quando agiu mal, sabe que será castigada, sendo que o castigo servirá para aliviar o seu sentimento de culpa pelo mal causado.

Quando o castigo é físico, e se é frequente, insensibilizará a criança. Os gritos são também de evitar, pois só lhe mostram que conseguiu o que de facto a criança queria: a atenção dos pais.

Há estratégias para lidar com o mau comportamento das crianças, sem castigos físicos ou gritos. Deixo-lhe aqui duas: o “time-out” e a técnica 1-2-3.

Para acalmar a criança e acalmar-se a si, pode retirar o seu filho  do local onde aconteceu a asneira e levá-la para um outro lugar onde possa estar sentado, mas sem distracções. Deve explicar-lhe que ficará ali uns minutos até se acalmar e que não pode sair enquanto não lhe for permitido.

Esta técnica, denominada  “time-out”, não é um castigo. Tem como objectivo ajudar a criança controlar-se internamente, a acalmar-se e a pensar no que fez.
Durante o “time-out “não deve dar-lhe atenção, nem mesmo para lhe explicar que o que fez foi errado. Fazê-lo neste momento é contraproducente e acabará por tornar esta técnica ineficaz.

Outra questão a ter em conta é o tempo que a criança deve permanecer no “time-out”.  O cálculo a fazer é de um minuto por cada ano de vida, sendo uma técnica que pode ser aplicada a partir dos dois anos de idade.  

Para uma criança de dois anos ficar dois minutos ficar quieta, sentada, já vai ser uma eternidade. Não deve ser deixada sozinha mais tempo, pois acabará por se chatear, distrair e voltar a fazer uma asneira.

A contagem 1-2-3 é uma variante do “time-out” e pode ser usada mesmo com os adolescentes. Partimos do mesmo princípio, temos uma birra a que queremos pôr termo, um comportamento que não queremos que continue. De novo, não adianta explicar, dialogar, persuadir, pois todo e qualquer diálogo só servirá para alimentar o problema.

Vai somente contar até três: 1-2-3.

Esta contagem tem por finalidade  dar o tempo necessário ao seu filho para se acalmar e para se reorganizar emocionalmente. Pode explicar-lhe que vai contar até três e que, quando acabar, terminará também o choro e a birra.

A contagem deve ser lenta, dando tempo entre cada número: 1-2-3, sem comentários seus pelo meio, sem responder à criança ou contra-argumentar.  Nem é necessário que mantenha contacto ocular.

Deve só dizer : “Vou começar a contar: 1… (pausa) a criança ou o jovem, continuarão a insistir na birra; 2 … (pausa)  começarão a perceber que não vale a pena continuar a testá-lo ou a manipulá-lo,  e começarão a enfraquecer a sua fúria, começam a organizar-se internamente e  quando chegar a 3 tudo deverá ter terminado.

Não há mais comentários. Será a “bonança depois da tormenta”.

Por: Zélia Parijs, psicóloga

In: JN online

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Trabalhar em equipa

QUANTAS VEZES já passámos pela situação de, perante um comportamento menos adequado da criança, pai e mãe não estarem de acordo sobre a melhor forma de agir? E quantas vezes já assistimos a uma criança tirar partido dessas diferenças de forma a conseguir o melhor de dois mundos? Todos os pais são diferentes. Têm temperamentos diferentes, personalidades diferentes, foram educados de forma diferente. Também o seu estilo educativo será seguramente diferente. Não podemos esperar, assim, que eduquem os seus filhos de forma exactamente igual. No entanto, a coerência entre o casal é um dos pilares para uma disciplina eficaz, pelo que os pais devem combinar com antecedência o que fazer perante determinados comportamentos dos seus filhos. Nas situações em que os pais são apanhados desprevenidos, um deles pode tomar o controlo da situação. E o outro nunca o deve criticar em frente da criança. Pelo contrário, o que se espera dele é apoio, mesmo que não esteja completamente de acordo com a atitude tomada (e mesmo que a criança saiba que ele não está de acordo). Apoiar não significa concordar. Pai e mãe não têm de estar de acordo em relação a todas as regras mas, em frente da criança, devem mostrar que estão de acordo com o que o outro disser. Nessas alturas, estarem de acordo sobre a forma de proceder é mais importante que a questão em si. Ultrapassar as divergências de forma construtiva envia à criança uma mensagem poderosa sobre a forma de resolver os conflitos.

Pai e mãe não são clones. É natural que sejam diferentes. Só não precisam de ser muito e devem respeitar-se mutuamente.
In: I online

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Estabelecer algumas regras é fundamental

Todas as casas precisam de regras. É irreal pensarmos que podemos sobreviver sem elas. Podem ser poucas, devem ser simples, mas precisam de existir. Caso contrário a anarquia instala-se mais depressa do que possamos imaginar, principalmente se tivermos vários filhos.

Mas existem alguns princípios básicos quando se estabelecem regras em casa.

Em primeiro lugar as regras devem ser sentidas como necessárias. Não temos de fazer regras apenas por fazer, como mero exercício de autoridade. As regras devem ser essenciais para evitar conflitos e todos aprenderem a viver em comum debaixo do mesmo tecto. As regras "todos arrumam o seu quarto no sábado de manhã", "todos devem fazer os trabalhos de casa antes do jantar", "não se grita" ou "não se bate" são facilmente entendidas por todos como necessárias e úteis.

Em seguida, na construção das regras, todos devem ser ouvidos, filhos inclusive. Se a criança participar na elaboração da regra a possibilidade de a cumprir é muito maior. Se necessário, a regra deve ser explicada à criança. Não é justo que tenham de ser a mãe ou o pai a arrumar todos os quartos da casa. Se os trabalhos de casa forem realizados antes do jantar, todos podem passar um momento em conjunto durante o serão antes de irem dormir. Gritar não ajuda a resolver os problemas, apenas perturba o ambiente, e a violência não é uma forma aceitável de resolver os conflitos.

In: I online

Deixar actuar as consequências naturais

Deixar as crianças aprenderem com os seus erros é uma das armas mais poderosas que os pais têm ao seu dispor quando querem estimular comportamentos adequados nos seus filhos.

As consequências naturais seguem naturalmente um determinado acontecimento e têm a enorme vantagem de pouco ou nada exigirem dos pais. Por vezes, não fazer nada é o melhor que podemos fazer e apenas temos de deixar que o mundo ensine à criança quais as consequências dos seus actos.

Esta estratégia pode ser aplicada sempre que não esteja em causa a saúde ou segurança da criança. Se não arranjou o brinquedo que partiu, ninguém arranja por ela, se não arrumou o quarto, ninguém arruma por ela, se não quer pedir um brinquedo emprestado, ninguém pede por ela. Se os pais resolvem todos os problemas pela criança impedem que ela se torne independente e não contribuem em nada para que ela se sinta competente e confiante. Pelo contrário, se deixarmos a criança aprender com as consequências dos seus actos estimulamos a sua independência, a confiança em si mesma e a sensação de competência para resolver os seus problemas.

Se pretendemos fazer algo, o nosso papel deve ser o de ajudar a criança a encontrar uma solução para o problema que enfrenta (geralmente é bem simples e ela já a conhece há muito tempo) mas deve ser ela a colocá-la em prática. Nós apenas mostramos o nosso apoio e enaltecemos as suas decisões correctas.

O resto é com ela.

In: I online

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Ceder ou não ceder?


A incapacidade por parte dos pais em impor limites claros aos mais novos está a ter consequências catastróficas. Numa tentativa de compensar os filhos, às vezes não sei bem de quê, os pais dão, dão e dão.


"A minha filha, que tem 2 anos e 9 meses, tem sido criada pelos avós. Como eles fazem tudo o que ela quer, esta faz birras constantemente. Como mãe acabo também por ceder aos seus comportamentos, fazendo tudo o que ela quer. Sinto-me mal com isto, porque sei que estou errada. O que fazer?"
Cláudia M.

Errar não tem mal; o que tem mal é persistir no erro, sobretudo quando se tem plena consciência de que este está a ser continuamente repetido. Nesta situação concreta, acredito que esta mãe, à semelhança de muitas outras, só é permissiva em termos educacionais porque não tem a noção exacta do que isto pode implicar. A incapacidade por parte dos pais em impor limites claros aos mais novos está a ter consequências catastróficas. Numa tentativa de compensar os filhos, às vezes não sei bem de quê, os pais dão, dão e dão.

Dão o que têm e não têm, trabalham horas a fio para lhes dar umas sapatilhas ou umas calças de uma marca substancialmente cara e, no fim, constatam que os filhos não fazem nada pela vida e são verdadeiramente ingratos. Face a isto, perguntam os pais: mas porquê? A resposta está à vista: dar não chega. É preciso exigir. Sem exigência não há crescimento, não há autonomia, não há responsabilidade... Não é por acaso que nas escolas os professores se queixam que os meninos estão cada vez mais infantis e irresponsáveis. As famílias são cada vez menos numerosas e as crianças podem ser tratadas como verdadeiros príncipes, pois os pais têm capacidade para fazer tudo, não necessitando obrigatoriamente da colaboração dos filhos para a realização de tarefas, nas quais, no passado, estes eram envolvidos, nomeadamente tomar conta dos irmãos. Claro está que não há bela sem senão, uma vez que é óptimo as crianças estarem mais protegidas, mas, por outro lado, como nada lhes é exigido, ficam autênticos bebés, mesmo quando em termos etários era suposto que já tivessem alguma autonomia. 

Não é por acaso que atrás referi que, em termos educativos, a permissividade é uma verdadeira catástrofe... Digo-o porque o constato dia a dia na minha prática profissional. São muitos os pais, sobretudo quando os filhos chegam à adolescência, que analisam o erro do passado e concluem que deveriam ter sido mais rigorosos na imposição de regras e limites. O número de pais que aos 12, 13 anos assumem a sua incapacidade para controlar os filhos é demasiado grande para não nos questionarmos...

Que posso eu dizer a esta e a muitas outras mães que, na altura de dizer "não", acabam, em resultado da pressão dos filhos, por dizer "sim"?... Digo que não estão a ajudar os vossos filhos a crescerem equilibradamente, que é preciso limites para desenvolver o sentido de responsabilidade e autonomia, que a falta de regras não é promotora de uma boa auto-estima. Que posso dizer mais? Que vejo todos os dias filhos desorientados, porque lhes faltou ouvirem a palavra "não"...

Num atendimento realizado recentemente com uma jovem de 18 anos que tentara suicidar-se, esta disse-me algo muito curioso: "Transmitiram-me sempre uma visão tão cor-de-rosa da vida, que não fui capaz de lidar com esta primeira grande contrariedade que me surgiu." Queremos tanto que os nossos filhos sejam felizes que, nesta tentativa de os pouparmos, esquecemo-nos de que é fundamental aprenderem a lidar com a frustração e com as barreiras que naturalmente fazem parte da vida.

Resta acrescentar que, quando os avós deseducam, aos pais cabe a missão de, obrigatoriamente, educarem!

De: Adriana Campos



sábado, 19 de junho de 2010

Padres dificiles niños con problemas parte 1

Esta é a primeira parte do documentário "Padres difíciles niños con problemas" onde é apresentado um caso de uma criança com problemas de comportamento e onde se analisam esses comportamentos problemáticos.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Uma história real de indisciplina (Parte 2: Uma estratégia de resolução)

Os resultados são surpreendentes. Todos querem participar. De início, apenas escrevem para os amigos, pelo que os alunos mais populares recebem muitas mensagens e os menos populares ficam sem nenhumas. Por isso, o trabalho do professor não acaba aqui.

No último artigo falei de uma turma com problemas de disciplina. Referi sumariamente diversas regras que devem ser observadas nessas situações e sugeri várias estratégias. 


Prometi para depois a descrição de uma estratégia que foi utilizada com bastante sucesso na modificação dos comportamentos disruptivos e na entreajuda e coesão da turma para atingir esse objectivo. Alerto, desde já, para o facto de o sucesso desta estratégia ter de ser integrado no trabalho global feito com a turma e com cada um dos alunos mais problemáticos. 

Mas antes de descrever a estratégia a que me tenho referido, deixem-me recuar à última quinzena do mês de Julho de 1997, em que, terminadas as aulas e as tarefas burocráticas, voei para Canterbury, em Inglaterra, onde frequentei um curso intensivo para professores de Inglês, com o apoio do programa LINGUA. Aquele curso de "Whole Brain Learning"... O que aprendi sobre a forma de mobilizar todo o cérebro para rentabilizar a aprendizagem e de como ensinar para conseguir esses objectivos! As vantagens que retirei da imersão no mundo da língua inglesa, a tempo inteiro, para "refrescar" as minhas competências nesse domínio! Se quiser repetir a experiência, terei que o fazer em férias, momento em que terminam as incontáveis tarefas burocráticas que se sucedem ao fim das aulas. Como sobreviver sem metade das férias? Mudam-se os tempos...

Regresso agora à estratégia específica a que me tenho referido, complementar a várias das que podem ser utilizadas para fomentar a disciplina numa turma, e que visa melhorar as relações entre os alunos (entre todos os alunos), para que nenhum seja excluído; visa levar cada aluno a olhar para os aspectos positivos de cada um dos outros e a ter os seus reconhecidos por eles; e visa, ainda, incentivar a melhoria de atitudes, comportamentos e valores de todos eles. Aprendi-a em Canterbury, no referido curso. Consiste na troca, entre os alunos, de mensagens de apreço, elogio ou agradecimento, por características positivas deles ou por actos por eles realizados. Explica-se aos alunos que, apesar de o respeito pela privacidade ser importante, o professor tem que ler essas mensagens antes de as entregar aos destinatários, para evitar "batota", ou seja, mensagens com conteúdos depreciativos.

Não sendo a escrita das mensagens de carácter obrigatório, o professor entrega, aos alunos que pretendam, papéis que podem ter cores ou formas mais apelativas (por exemplo, recortados com uma tesoura especial). Cada aluno escreve as mensagens que quiser, referindo o destinatário, a data e assinando, após o que as devolve ao professor. Este verifica o conteúdo. Se não for aceitável, explica os motivos a quem o redigiu. Nas restantes situações, faz chegar as mensagens aos seus destinatários. Os resultados são surpreendentes. Todos querem participar. De início, apenas escrevem para os amigos, pelo que os alunos mais populares recebem muitas mensagens e os menos populares ficam sem nenhumas. Por isso, o trabalho do professor não acaba aqui. Continua a incentivar a participação dos alunos na actividade, mas desta vez apelando a que escrevam a quem ainda não escreveram, para que todos recebam mensagens, já que todos têm aspectos positivos ou fazem acções que merecem elogio. Por isso, deverão evitar escrever aos melhores amigos, procurando, antes, elogiar, incentivar e valorizar outros colegas. A certo ponto, a turma apercebe-se da necessidade de melhorar o comportamento e surgem mensagens de incentivo à mudança para os alunos mais problemáticos.

Aqui ficam exemplos de algumas mensagens reais:

- "Obrigado por me teres ajudado na aula de Português. És um amigo fixe."

- "Obrigada por me teres ouvido sobre aquilo e não teres contado a ninguém. És uma boa amiga. Posso contar contigo."

- "Parabéns por não teres mandado bocas na aula de História de hoje. Continua assim. Vais conseguir."

- "Obrigado por me teres deixado entrar no jogo hoje no recreio."

E assim cada aluno aprende a ver os aspectos positivos de cada um dos outros e a respeitar todos; cada aluno verifica que tem qualidades que são apreciadas pelos colegas, todos vão ganhando vontade de melhorar ou de ajudar os outros a melhorarem. Reforço a ideia de que esta estratégia não "vive" sozinha, mas enquadrada num trabalho global. Termino dizendo que também pode ser utilizada em turmas com bom comportamento, com os mesmos objectivos de fomentar em cada aluno a valorização de si próprio e de cada um dos outros, a aceitação da diferença e a melhoria das relações interpessoais.

Que saudades de Canterbury e do tempo em que a burocracia ainda não esmagava os professores e eles podiam aproveitar o tempo mais produtivamente!

quarta-feira, 17 de março de 2010

O poder da relação

Só me ocorre uma palavra para descrever este artigo...Brilhante!!!

Destaquei uma frase no artigo...espero que a encontrem, é, na minha opinião, a lição mais importante a retirar...

"No desempenho da minha actividade profissional tenho constatado que são os professores que estabelecem com os alunos uma relação de maior proximidade que mais sucesso obtêm na sua prática profissional. A proximidade de que falo tem peso e medida...

Para o bem e para o mal quase tudo se constrói a partir das relações que estabelecemos com os outros. É através destas que vamos construindo uma imagem do mundo, do outro e de nós próprios mais ou menos colorida ou a preto e branco.

Recordo frequentemente uma aula na faculdade em que o professor relatava a história de um indivíduo que acompanhava em consulta. Este cometera um homicídio de um familiar muito próximo, não me recordo qual o grau de parentesco, dando posteriormente um tratamento horripilante ao cadáver da vítima. Face ao nosso ar de repúdio o professor imediatamente fez questão de sublinhar que a natureza daquele homem era semelhante à nossa: 'somos todos seres humanos, embora fosse nosso desejo que ele se pudesse enquadrar numa outra espécie'.

Esta foi uma grande lição, na verdade, o que nos diferenciava daquele que tanto repúdio nos causara era provavelmente o facto de termos vivido rodeados de relações e contextos muito diferentes dos daquela pessoa. Aquela reflexão, apesar de aparentemente elementar, ainda me ajuda actualmente a olhar para a realidade de uma forma diferente.

Também numa intervenção terapêutica é fundamental o estabelecimento de uma relação securizante com o cliente. As técnicas de intervenção podem ser excelentes, mas se o estabelecimento da relação falhar tudo o resto com grande probabilidade também falhará. Esta mensagem é transmitida durante cinco anos de formação aos estudantes de Psicologia. Não sei se uma mensagem idêntica é também transmitida na formação de professores. Também para eles o estabelecimento de relações positivas com os alunos é o caminho mais curto para o sucesso escolar.

No desempenho da minha actividade profissional tenho constatado que são os professores que estabelecem com os alunos uma relação de maior proximidade que mais sucesso obtêm na sua prática profissional. A proximidade de que falo tem peso e medida, ou seja, é uma proximidade que leva os alunos a sentirem que são importantes para os professores e que ao mesmo tempo os inibe de quebrar as regras previamente estabelecidas, regras essas que são fundamentais para o bom desempenho de qualquer actividade.

Poderia relatar muitas histórias que demonstram o poder da relação afectiva na melhoria do comportamento e da aprendizagem do aluno. A história que seleccionei, para ilustrar tudo o que referi anteriormente, além de mostrar o poder das relações de proximidade demonstra como o humor e a criatividade são também muito importantes na educação. O protagonista desta história verídica é um aluno muito carenciado económica e afectivamente. A mãe é alcoólica e o pai não assume qualquer responsabilidade pela sua educação. O único que dá algum apoio ao José é um irmão mais velho. O José tem muitas dificuldades de aprendizagem e por isso já repetiu várias vezes o primeiro e o segundo ciclos. O acontecimento que vou relatar passou-se quando este frequentava pela segunda vez o 5.º ano. Para terminar a caracterização do protagonista falta acrescentar que frequentemente tirava os professores do sério em resultado do seu mau comportamento.

A professora Etelvina ministrava a disciplina de História na turma em que este aluno estava inserido. Um dia soube, por um aluno da turma, que o José lhe chamava a 'Bruxa Má'. Após ter conhecimento deste facto chegou à aula e disse: 'Olhem, eu gosto muito de contos infantis, daqueles que metem reis, princesas, anões, príncipes e bruxas. Por isso a partir de hoje eu passo a ser a Bruxa Má e o José o meu Príncipe encantado'. O José, segundo a descrição da professora, ficou todo orgulhoso com aquela designação e passou a ter um comportamento completamente diferente. Convém acrescentar que a professora a partir daquele dia passou a chamar-lhe sempre o 'meu príncipe encantado'.

Para quê mais palavras, esta história diz muito mais do que tudo aquilo que eu quisesse acrescentar..."


De: Adriana Campos