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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

"Mal-Entendidos"


Recentemente deparei-me com o novo livro do Prof. Dr. Nuno Lobo Antunes, que aborda as Perturbações do Desenvolvimento Infantil, “Mal-entendidos - Da Hiperactividade à Síndrome de Asperger, da Dislexia às Perturbações do Sono”. O título, só por si sugestivo, levantou-me alguma curiosidade, mas a reputação do autor fez o resto.


O Prof. Dr. Nuno Lobo Antunes é Neurocirurgião de créditos reconhecidos e descreve-nos, no seu livro, casos verídicos de crianças/jovens, com um desenvolvimento atípico, cujos comportamentos durante muito tempo foram encarados como inexplicáveis. O autor procura esclarecer e dar resposta às inúmeras dúvidas que se apoderam de quem trabalha/intervém directa ou indirectamente com estas crianças/jovens. 

Ao lê-lo, vemo-nos envolvidos por um misto de sentimento e razão, mas sempre abordado de forma correcta do ponto de vista científico, junta-se a este facto a autenticidade e a emotividade dos casos relatados. 

Como é afirmado no livro “devem existir em Portugal cerca de cem mil crianças com perturbações de desenvolvimento” (p.16), daí ser imprescindível tanto a divulgação, deste facto, como a tomada de atitude perante o mesmo. É fundamental que os diagnósticos sejam precisos (ou o mais possível), que a intervenção seja o mais precoce e coerente possível e acima de tudo que exista uma grande interacção entre todos os meios/agentes envolvidos, para que não aconteçam perdas/danos para a criança. 

Este é um livro que desmistifica de forma “simples” alguns “mal-entendidos” bem visíveis na nossa sociedade. As crianças de que o Prof. Dr. Nuno Lobo Antunes nos fala são “crianças…iguais a todas as outras. São novelos de fios de várias cores. Se só virem uma, é bom que olhem outra vez” (p.237). É fundamental haver uma maior intervenção/inclusão da sociedade civil, para que dessa forma possamos falar de uma verdadeira integração destas crianças/jovens. 

É certo que “Por vezes o Capuchinho Vermelho perde-se no bosque e não há beijo que resgate a Bela Adormecida”, mas compete-nos a nós, agentes intervenientes no processo de desenvolvimento de crianças/jovens, lutar para que existam “histórias que tenham um final feliz”. “E não deixem o Espelho Mágico dizer a nenhuma criança que há alguém mais belo que ela”( Sinopse ). 

Estamos perante um livro cativante, repleto de informação e dotado de um carácter humano de louvar. 

Antunes, N.L. (2009) “Mal-entendidos - Da Hiperactividade à Síndrome de Asperger, da Dislexia às Perturbações do Sono. As respostas que procura. ”Ed: Verso de Kapa

Por: Nelson Santos

Publicado nos Cadernos de Educação de Infância, n.º 90

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

As minhas leituras - Resumo: "A criança que não queria falar"

Hoje dou início a um novo espaço no blog. Este será um espaço de resumo dos livros que vou lendo.

Espero que seja do agrado de todos.

Numa das minhas visitas, em busca de livros para a minha investigação, encontrei um livro que me despertou a curiosidade pelo seu título, ”A criança que não queria falar”.

Acabei por comprá-lo e ansiosamente comecei a lê-lo. Fiquei definitivamente "preso".

Estamos perante uma história verídica, uma história de uma menina de seis anos de idade, abandonada pela mãe, separada do irmão mais novo e que “até então apenas conheceu um mundo onde foi severamente maltratada e abusada”.

Sheila ficou apenas à guarda do pai, que durante os primeiros anos da vida dela esteve preso, preso por assalto e agressão. Depois de ter sido liberto ficou durante muito tempo no hospital devido a álccol e consumo de droga.

Durante estes longos períodos de tempo, Sheila com apenas quatro anos de idade, foi entregue a um centro de protecção de menores, onde lhe "descobriram" graves cicatrizes e fracturas provocadas por maus-tratos. Acabaram por voltar a confiar a menina ao pai. Esta passou a viver numa barraca com apenas uma divisão, num acampamento de imigrantes.

A casa não tinha aquecimento, nem água, nem electricidade!

Uma criança com esta história de vida não poderia viver sem perturbações a nível mental ou física. Ela é pequena e frágil, devido a subnutrição e graves problemas mentais.

Sheila, com apenas seis anos, raptou um menino de três anos, levou-o para um bosque, amarrou-o a uma árvore e pegou-lhe fogo.

Nesse momento começa o desenrolar da história. Sheila é encaminhada para um hospital psiquiátrico, mas... não há vagas. A única solução que parece aceitável, viável é a entrada, embora provisória, numa escola especializada, solução esta que foi aceite. 

A sua entrada na sala e na escola foi bastante atribulada. Torey, a professora da sala, já tinha o máximo de alunos na sua sala. Mas, como era urgente e como seria uma situação provisória, ela acabou por aceitar e passou ficar com nove crianças.

Sheila não se adaptou e acabou por aterrorizar as outras crianças e toda a comunidade escolar. Existiram alguns episódios trágicos que fizeram Torey entrar em desespero, levando as auxiliares da escola a recusarem serviço de vigilância durante os almoços. Torey, depois de alguns dias, acaba por aperceber-se de que tinha algo muito grave em mãos, de que teria de dedicar todas as suas forças para ajudar esta criança.

Depois de algumas "batalhas" começam a criar-se laços muito fortes entre as duas. Sheila, começou a ganhar vontade de ir para a escola e começou a sentir felicidade por estar lá.

Este livro descreve-nos, de forma exemplar, o quanto a vida pode ser cruel e o quanto nós podemos lutar contra as nossas maiores fraquezas… mas acima de tudo como os laços e afectos são importantes, como cativar alguém muda a nossa vida.

Entretanto deixo-vos com algumas citações que considerei muito interessantes:

"Interrogam-me muitas vezes sobre o meu trabalho. Talvez a pergunta mais comum seja: Não é frustrante?

"Não é frustrante?", perguntam os alunos universitários, "conviver diariamente com violência, pobreza, droga e alcoolismo, abuso sexual e físico, negligência e apatia?" "Não é frustrante?", pergunta o vulgar professor primário "trabalhar tanto e receber tão pouco em troca?" "Não é frustrante?", perguntam todos, "saber que o maior sucesso obtido será provavelmente uma aproximação da normalidade; saber que estas crianças tão pequenas foram condenadas a viver uma vida que, pelos nossos padrões, nunca será produtiva, responsável ou normal? Não é frustrante?"

Não. Na verdade, não é. Trata-se simplesmente de crianças, por vezes frustrantes, como todas as crianças o são. Mas elas também são de uma extrema ternura e de uma incrível percepção. Só a loucura parece permitir que seja dita toda a verdade. Contudo, estas crianças são ainda mais do que isso, são corajosas. (…)

Algumas destas crianças vivem com pesadelos tão medonhos nas suas cabeças, que cada movimento fica imbuído de um terror desconhecido. Algumas vivem debaixo de uma violência e perversidade impossível de expressar por palavras. Algumas vivem sem a dignidade concedida aos animais. Algumas vivem sem amor. Algumas vivem sem esperança. No entanto, aguentam. E, na sua maioria, aceitam, por desconhecerem outro tipo de atitude."

(Hayden, T., A criança que não queria falar)