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domingo, 20 de outubro de 2013

As crianças não são meras questões administrativas

Estes pais tiveram a coragem de partilhar a história dos seus filhos com o ministro. Enviaram-lhe mais de 100 mensagens contando quem são, mostrando que como qualquer criança têm nome, rosto, amigos e que gostam de ir à escola.

Corte-se. É assim que governam. Não há área que escape impune e de corte em corte vamos vendo arrasadas as nossas vidas. Uma escola com turmas de 20 alunos? Cortem-se turmas e aumente-se o número de alunos em cada uma. Poupa-se no professor, as crianças ficam prejudicadas, mas é a crise. E é assim para tudo. O ensino especial não é exceção. As crianças com Necessidades Educativas Especiais (NEE) têm sido um alvo deste governo. São dispendiosas, requerem (mais) atenção... corte-se!

Passado mais de um mês do início das aulas ainda são muitos os professores por colocar e muitos são os alunos que não podem ir à escola. Alunos que podem não ser como os outros, mas que são tão cidadãos e com tantos direitos como qualquer um de nós, como qualquer uma das crianças dentro da sala de aula.

O Ministro Nuno Crato numa entrevista à SIC, dia 12 de Outubro, teve a insensibilidade e a desfaçatez de dizer que "(...) eles [os alunos com NEE] estão integrados nas turmas, mas não estão (...) pertencem à turma, mas dadas as suas necessidades, eles na realidade não convivem com os alunos dessa turma (...) É mais uma questão administrativa (...)".

Um grupo de onze associações de pais com filhos com deficiência uniram-se depois destas declarações e decidiram tomar ação denunciando a falta de cumprimento dos princípios base da escola inclusiva. Exigem a redução do número de alunos por turmas para 20 como previsto na lei, e a colocação dos professores de ensino especial que faltam, para que muitos dos seus filhos possam ir à escola.

Estes pais tiveram a coragem de partilhar a história dos seus filhos com o ministro. Enviaram-lhe mais de 100 mensagens contando quem são, mostrando que como qualquer criança têm nome, rosto, amigos e que gostam de ir à escola. Que é lá que aprendem, que é na escola e com a integração numa turma regular que se desenvolvem e que não são meras questões administrativas.

A integração destas crianças numa sala de sala regular não é só benéfico para elas, mas para todos. A sociedade é composta por todos e todos devem ter parte nela. Se as crianças estão na escola para aprender não só a matéria mas também o que é a convivência em sociedade, negar-lhes a partilha desta realidade é torná-los mais pobres, mais ignorantes.

E é isso que choca nas declarações do ministro. É a segregação insinuada. É o pensamento fascista.

Estes pais coragem que enviaram as mensagens dos seus filhos ao ministro, merecem todo o apoio e uma resposta clara, porque nenhuma criança é uma mera questão administrativa. A aposta na educação é uma aposta no futuro de todos. A integração destas crianças hoje na escola será a integração delas mais tarde na sociedade. Uma sociedade que com a participação de todos só poderá ser mais forte.

Eu também deixo um recado ao ministro por parte dos meus filhos: “Somos a Marta e o Rodrigo, temos 12 e 8 anos. Andamos em escolas públicas em Lisboa. Todos os dias convivemos e aprendemos com os colegas com necessidades educativas especiais que temos na sala de aula. Todos somos alunos das nossas escolas. Não somos nem queremos ser uma mera questão administrativa”.

Corte-se no ministro.

Por: Rita Gorgulho

sábado, 17 de julho de 2010

Bem vindo à Holanda

Este é um texto excelente...Por mais que o leia não me canso...Simplesmente brilhante!

Frequentemente sou solicitada a descrever a experiência de dar à luz uma criança com deficiência - uma tentativa de ajudar pessoas que não têm com quem compartilhar essa experiência única, a entendê-la e imaginar como é vivenciá-la.

Seria como ...

Ter um bebé é como planear uma fabulosa viagem de férias - para a Itália! Você compra montes de guias, faz planos maravilhosos. O Coliseu. O David de Michelangelo. As gôndolas de Veneza. Você pode aprender algumas frases simples em italiano. É tudo muito excitante.

Após meses de antecipação, finalmente chega o grande dia. Você arruma as suas malas e embarca. Algumas horas depois você aterra. O comissário de bordo chega e diz: - "Bem vindo à HOLANDA !"

"HOLANDA!?! " diz você - "O que quer dizer com Holanda?? Eu escolhi a Itália! Eu devia ter chegado à Itália. Toda minha vida eu sonhei em conhecer a Itália".

Mas houve uma mudança no plano de vôo. Eles aterraram na Holanda e é lá que você deve ficar.

A coisa mais importante é que eles não te levaram a um lugar horrível, desagradável, cheio de pestilência, fome e doença. É apenas um lugar diferente. Logo, você deve sair e comprar novos guias. Deve aprender uma nova linguagem. E você irá encontrar todo um novo grupo de pessoas que nunca encontrou antes. É apenas um lugar diferente. É mais baixo e menos ensolarado que a Itália. Mas, após alguns minutos, você pode respirar fundo e olhar ao redor... e começar a notar que a Holanda tem moinhos de vento, tulipas e até Rembrandts e Van Goghs.

Mas, todos que você conhece estão ocupados indo e vindo da Itália... e estão sempre comentando sobre o tempo maravilhoso que passaram lá. E por toda a sua vida você dirá : "Sim, lá era onde eu deveria estar. Era tudo o que eu tinha planeado." E a dor que isso causa nunca, nunca irá embora... porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa.

Porém... se você passar a sua vida toda remoendo o fato de não ter chegado à Itália, nunca estará livre para apreciar as coisas belas e muito especiais... sobre a Holanda.

Emily Perl Knisley