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sexta-feira, 28 de junho de 2013

"Os pais são insubstituíveis na educação dos filhos"

Não são receitas mas "orientações simples" para os pais investirem mais na comunicação com os filhos. António Estanqueiro é professor do ensino secundário e escreveu Comunicar com os Filhos, publicado pela Editorial Presença.

Na escola, o filho porta-se mal. Não sabe estar em sala, queixam-se os professores. A culpa é dos pais? António Estanqueiro, que tem a experiência das aulas de Filosofia do ensino secundário, lançou um livro dirigido aos encarregados de educação. Pede-lhes que invistam mais na comunicação em casa, que escutem e recomenda-lhes que amem incondicionalmente, mesmo quando os filhos não querem falar.

Enquanto professor, sente que os alunos chegam pior à escola, daí a necessidade de escrever este livro?

Nas escolas, verifica-se que muitos alunos, crianças e adolescentes, não têm o devido acompanhamento em casa, passam demasiado tempo ligados ao computador, à televisão ou à Internet, sem qualquer supervisão dos adultos. Isso é preocupante. Na maioria dos casos, não há desinteresse dos pais, mas apenas falta de disponibilidade para dar atenção aos filhos. Escrevi este livro para ajudar os pais interessados, que querem investir mais na comunicação com os filhos, acompanhar a sua vida escolar e transmitir regras e valores. Apresento orientações simples, sem a pretensão de dar receitas. Os pais são insubstituíveis na educação dos filhos.

Acredita que o problema maior entre pais e filhos é a falta de comunicação? Porquê?

Acredito que a chave da relação educativa está na qualidade da comunicação. Os pais terão dificuldade em cumprir a sua missão de primeiros educadores se comunicarem pouco ou mal. Quem quer educar os filhos, deve escutar com atenção, falar sem tabus, dialogar com abertura de espírito, elogiar com sinceridade, repreender de forma construtiva e amar incondicionalmente. Qualquer educador tem de ser um bom comunicador, usar o melhor possível a linguagem verbal e não verbal.

Este é um problema só das famílias ou também da escola? Até que ponto a comunicação não funciona entre os alunos e os professores? Até que ponto essa falta de comunicação não é a principal responsável pelo mau comportamento dos alunos?

O mau comportamento ou a indisciplina dos alunos é um fenómeno complexo. Há diversos factores condicionantes da indisciplina, uns mais ligados à origem familiar e social dos alunos, outros mais relacionados com a escola e os professores. Em primeiro lugar, a indisciplina depende da experiência relacional que o aluno vive na família, desde a infância. Pais demasiado autoritários, excessivamente permissivos ou ausentes não promovem o desenvolvimento equilibrado dos filhos. Tudo piora quando os pais desvalorizam a escola e criticam os professores, na presença dos filhos. Evidentemente, a indisciplina pode depender também das práticas pedagógicas dos professores. Os bons professores revelam competência científica, pedagógica e relacional. São modelos de comunicação. Sabem falar e escutar. Mostram compreensão e respeito pelos alunos. Tentam prevenir ou resolver conflitos, através do diálogo e da negociação.

No seu livro sublinha a importância da comunicação entre pais e filhos porque tem a percepção de que estes não comunicam?

Em geral, os pais procuram comunicar bem com os filhos. Acredito que muitos podem e devem comunicar melhor. O primeiro segredo da comunicação está na arte de escutar os filhos com disponibilidade e atenção. Escutar os filhos até ao fim, sem interromper o seu discurso, não implica concordar com tudo o que eles dizem. Implica tentar compreender, antes de falar. Quem escuta, tem mais hipótese de ser escutado.

E o que se faz quando os filhos não querem comunicar? Quando os pais estão disponíveis mas eles não o querem fazer?

Os filhos, sobretudo os adolescentes, só dizem o que querem, quando querem. Os pais ficam preocupados quando sentem que, apesar de todos os seus esforços, os filhos evitam conversas, não partilham a sua vida, não contam os seus problemas, não pedem conselhos. Por mais que custe, os pais devem ter paciência, respeitar o silêncio dos filhos, mantendo disponibilidade para o diálogo. O mais importante é que os pais estejam atentos, para prevenir comportamentos de risco ou para ajudar os filhos quando eles mais precisam, por exemplo quando são vítimas de bullying.

O que fazer quando os pais fazem as perguntas e os filhos não respondem? Castiga-se? Como?

Fazer perguntas pode promover a qualidade da comunicação. Por isso, os pais sensatos cuidam o que perguntam e o modo de perguntar. É natural que os pais queiram saber se os seus filhos adolescentes andam em más companhias, se fumam, se bebem demais nas festas, se experimentam drogas ou se têm relações sexuais desprotegidas. Mas eles não gostam de responder a perguntas indiscretas sobre assuntos mais íntimos. Preferem falar com os colegas e os amigos ou guardar silêncio. Se os pais exigem respostas, sob a ameaça de castigos, é provável que os filhos se defendam com mentiras. O autoritarismo corta a comunicação. Parece-me mais prudente ser compreensivo. Só a atitude de compreensão garante que os filhos poderão confiar nos pais e fazer-lhes confidências no futuro.

Educa-se pelo exemplo. E quando o exemplo é bom e eles não o seguem? Porque se educa pelo exemplo não só em casa como na escola.

Os filhos aprendem por observação e imitação dos comportamentos de pais, professores, colegas, amigos e figuras públicas. Como se vê, os pais são os primeiros educadores, mas não são os únicos. Não podem proteger sempre os filhos das más companhias, nem das influências negativas dos meios de comunicação (sobretudo televisão e Internet). A melhor atitude dos pais é ajudar os filhos a reflectir criticamente sobre os modelos de comportamento que a sociedade de consumo oferece e dar bom exemplo na sua vida pessoal e social. Também os professores devem assumir-se como bons modelos para os seus alunos. O segredo da educação está na coerência entre o que se diz e o que se faz. Os actos educam mais que as palavras.

O que fazer quando os pais falam com o DT e este tem como única resposta a defesa dos colegas e da escola? Até que ponto a escola não está aberta aos pais?

Considero que a relação entre a escola e a família tem vindo a melhorar, embora persistam ainda obstáculos à comunicação. Actualmente, muitos pais responsáveis acompanham os filhos em casa e comunicam regularmente com os directores de turma. Por sua vez, os bons directores de turma valorizam a participação dos pais na escola, não os chamam apenas para dar “más notícias” sobre o comportamento ou o aproveitamento dos filhos. A prática habitual dos directores de turma é prevenir ou resolver os problemas dos alunos, através do diálogo com os pais. Quando os pais fazem críticas precipitadas e injustas aos professores, é natural que os directores de turma tenham uma atitude mais defensiva. A cooperação entre pais e professores, num clima de diálogo e respeito mútuo, contribui para a formação integral dos alunos.

ENTREVISTA A ANTÓNIO ESTANQUEIRO

Por: Bárbara Wong

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Há respostas que estão no comportamento dos pais

Mikaela Övén dedica-se à parentalidade e educação de crianças. Tem três filhos, um blogue, participa em seminários e está disponível para ir a escolas. E aconselha a olhar para dentro. 

Comportamentos inadequados, atitudes fora do normal, birras, trabalhos de casa, hiperatividade, dúvidas na maneira de lidar com os filhos, perguntas que procuram respostas. São estas as principais questões que "batem à porta" de Mikaela Övén, de origem sueca a viver em Portugal há 11 anos. É mãe de três filhos e depois dos nascimentos decidiu centrar-se na área da parentalidade e educação de crianças. Tem um blogue, participa em seminários, em cursos, dá orientação e aconselhamento familiar. Licenciada em Recursos Humanos, é coach e practitioner em Programação Neurolinguística e facilitadora certificada pela Family Lab. Mikaela está disponível para ouvir os pais e ir às escolas fazer workshops ou prestar consultoria. 

Será que há algo de errado com o meu filho? O que vou fazer com ele? Estas perguntas repetem-se. Mikaela Övén aconselha a olhar para dentro, antes de olhar para fora. "Procuro que os pais pensem mais no que podem fazer em relação a eles próprios, antes de se focarem tanto em mudar o comportamento da criança. Como acredito que todas as crianças colaboram de alguma forma com os pais/adultos, a resposta está no nosso comportamento", refere ao EDUCARE.PT. Ser mãe ou pai é, na sua opinião, "um belo curso de desenvolvimento pessoal". 

O tempo não estica, a maior parte dos pais passa muito tempo no trabalho, as horas para estar com os filhos acabam por encurtar. E quando os problemas surgem, muitas vezes, procura-se uma receita para lidar com os comportamentos dos mais pequenos. A autora do blogue Mama Mia quer, antes de tudo, perceber as situações com que tem que lidar e evita dar dicas generalizadas. "Acredito profundamente que o presente mais bonito que um pai ou uma mãe pode dar ao seu filho é cuidarem bem deles próprios. E a resposta da harmonia da família e do bem-estar dos filhos está aí", afirma. 

Os pais sabem ser pais nos dias de hoje? Mikaela acredita que sim e que a maioria tem uma enorme vontade de ser bons pais e assume esse desejo como um objetivo sempre presente na cabeça. "Os pais pensam e refletem muito sobre a parentalidade. Mas como duvidam das suas capacidades, como não confiam na sua intuição e como têm falta de auto-estima, há momentos em que desistem por causa da pressão do dia a dia, por exaustão, por falta de paciência, por causa de familiares, das escolas", refere. 

Muitos pais continuam à procura de uma receita, de uma fórmula para educar os filhos, um "quick fix" para resolver o problema xis. Mikaela sublinha que é importante os pais pararem para ouvir os seus corações com tempo. Pode ser que assim encontrem soluções. Pode ser que assim "entendam que há relações que temos de cuidar todos os dias".

Centrar atenções nas relações que se criam com os filhos é um passo importante. Tentar controlar ou domar comportamentos é um caminho que não deve ser seguido. Não há pais perfeitos. Ponto final. "Pergunto-me o que é o crescimento harmonioso. Acho que isso se baseia nas relações que existem na família. Acho que procuramos, mais uma vez, muitas coisas fora de nós como resposta a essa necessidade de criar mais harmonia", refere. Na sua opinião, é preciso autenticidade e intenção naquilo que se faz, nas atividades em que se colocam os filhos. "Acredito que as crianças vão crescer harmoniosamente quando têm relações em casa que refletem isso mesmo". "Claro que há formas que ajudam, mas se os próprios pais não fizerem o trabalho principal... então não vai acontecer", acrescenta. 

Os paradoxos também acontecem. Uma geração informada, mas, na sua opinião, desorientada. "Acho que a geração de pais de hoje nunca foi tão informada. Nunca soube tanto sobre educação e desenvolvimento de crianças. No entanto, acho que não houve nenhuma geração tão perdida...", comenta. Recua ao passado, ao tempo em que as pessoas se regiam pelas normas da sociedade, pela igreja, pelos valores cultivados em família. Depois, o mundo ficou mais complicado. "E como as pessoas procuram mais fora do que dentro, as coisas tornam-se mais complexas. Porque as respostas não estão nos livros", alerta. Mikaela Öven insiste que as famílias têm de olhar para dentro. Até porque, na sua perspetiva, há técnicas e métodos que enchem páginas de livros e que podem não servir de nada na prática. 

Neste momento, Mikaela Övén colabora com uma escola. Trabalha no desenvolvimento dos valores-base desse estabelecimento de ensino. Um projeto onde também colabora com a associação de pais e em que meteu nos planos workshops e tertúlias para os pais das crianças. 

Informações: 


Por: Sara Oliveira

In: Educare

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Indisciplina na sala de aula: o respeito começa na infância

A indisciplina na sala de aula não é um assunto fácil de abordar. Há casos que ultrapassaram os muros das escolas, tornados públicos e comentados até à exaustão. A comunidade escolar sabe que o tema é delicado. Há mais casos ou menos tolerância para a má educação dentro das escolas? Como lidar com o assunto? O que fazer para que as faltas de respeito não se tornem numa rotina? Os exemplos são importantes, as relações interpessoais devem merecer toda a atenção e o desenvolvimento de competências de autocontrolo e autorregulação na infância pode fazer toda a diferença. 

Para Maria José Araújo, docente e investigadora da Escola Superior de Educação do Porto, é preciso alguma atenção a abordar ao tema da indisciplina em contexto escolar. "Temos de ter cuidado para não remeter a discussão desta problemática para o contexto da escola pública e, nesta, para o Ensino Básico, achando que a escola pública é o 'armazém' de todas as desgraças socais". Na sua opinião, os casos mais difíceis de resolução não se podem generalizar sob pena de se ser injusto com alunos e professores. "Frequentemente a dificuldade de discutir a questão da disciplina e/ou falta dela na escola é porque se misturam coisas de âmbitos muito diferentes. Misturam-se aspetos legais, sociais, morais, éticos, etc.", aponta. 

A escola, pública ou privada, é o local onde crianças e jovens passam grande parte do seu tempo e é olhada como uma instituição que deve promover a participação e a justiça. E há uma pergunta que, segundo a investigadora, deve ser feita. "A questão que se coloca e como é que os estudantes podem participar ativamente nos processos que lhe dizem respeito?" "Se os alunos não se sentem parte da escola não a respeitam e compete aos professores mostrar o que é o respeito. "Que esforço temos nós, professores, de fazer para ajudar os estudantes a compreender que a escola é, também, deles? Esta é uma questão central." 

A docente lembra que há estudos interessantes à volta do tema, que há resultados que nunca chegam a ser analisados nas escolas, quando a comunidade educativa deveria estar atenta para discutir questões que lhe dizem diretamente respeito. "Os assuntos de interesse para a escola têm de ser discutidos internamente com todos: professores, diretores, funcionários e estudantes." Por outro lado, Maria José Araújo defende que a intervenção dos pais é fundamental. "Não enquanto 'proprietários' dos filhos, mas enquanto cidadãos empenhados, a todos os níveis da vida social, que respeitam os direitos dos seus filhos que estão legitimamente inquietos com o seu presente e também com o futuro imprevisível que os espera." "É este o esforço que todos temos de fazer." 

Criar cumplicidades
O esforço deve começar bem cedo. A psicóloga Paula Monteiro tem visitado vários infantários para conversas com pais sobre o processo de educação dos filhos. A realidade tem-lhe mostrado situações complexas. "Muitas vezes, os pais não estão preparados para lidar com os filhos quando chegam a casa." Falta de tempo, trabalho na cabeça, paciência esgotada, mil e uma coisas para tratar. Mas a disciplina começa em casa e na primeira infância. 

"Há crianças que não têm competências desenvolvidas de autocontrolo, de autorregulação, de socialização, e isso só se consegue através da disciplina", afirma Paula Monteiro. "É necessário adotar algumas estratégias que permitam desenvolver as competências de autocontrolo", refere. Há pequenos gestos no dia a dia que ajudam nesse caminho. Nas conversas que vai mantendo nas palestras que dá nos infantários, a psicóloga tem vindo a chamar a atenção para a importância de desligar a televisão na hora das refeições e sentarem-se todos à mesa. Planificar atividades em conjunto, esperar pela sua vez para falar, estabelecer uma hora de ir para a cama, retirar a televisão dos quartos, preparar a mochila na véspera, escolher a roupa que se vai usar no dia seguinte, são alguns dos exemplos que costuma abordar. "É importante otimizar o tempo que se passa com os filhos, criando laços, criando cumplicidades", diz. E isso, assegura, aumenta o sentido de responsabilidade dos mais pequenos. 

Margarida Gaspar de Matos, psicóloga e investigadora da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa, aborda o assunto da indisciplina, em primeiro lugar, pelo lado das relações interpessoais. Os exemplos são muito importantes. "Quando os adultos estabelecem uma cultura onde o mais forte é o mais grosseiro e o mais rude, e onde o que grita mais alto é o que aparenta mais poder... enquanto modelos destes cenários abundarem em circuitos públicos, entre adultos, aí começa a ser difícil convencer os jovens a fazer de outro modo", observa. 

Tentar copiar o que se vê é uma prática comum e, segundo a investigadora, as relações interpessoais estão a ser modeladas por "exemplos pouco corteses", como telenovelas, séries televisivas, videojogos, relações entre políticos. "E este modelo social é passado aos jovens que o adotam como um modo de relação." Uma realidade que poderia ser repensada. "Esta descortesia e desrespeito pela afabilidade nas relações interpessoais não é apanágio da juventude: os jovens espreitam-na em casa, entre professores, na televisão, na rua, nas lojas e apreendem o 'estilo', depois, muitas vezes, quando o usam não tomam a devida distância face aos contextos", acrescenta. 

Segundo Margarida Gaspar de Matos, as pessoas estão mais exigentes nas situações de indisciplina e de bullying nas escolas, mas só ficam assustadas porque, na sua opinião, nem sempre o mediatismo dado aos casos tem sido a estratégia mais adequada para lidar com essas questões. Agressões a professores, indisciplina, má educação na sala de aula são fenómenos diferentes entre si e diferentes do bullying. "A indisciplina está muito associada, por um lado, ao insucesso escolar, ao desinteresse pela escola e à falta de expectativas de futuro e face ao papel da escola e da aprendizagem/escolaridade nesse futuro", refere. A "tremenda desvalorização do papel do professor" é também um aspeto a ter em conta. 

A legislação existe, o problema tem sido a sua concretização. "Em várias questões educativas, as coisas são implementadas sem haver um estudo de necessidade e de viabilidade; as coisas mudam sem serem avaliadas e sem terem tido tempo de dar frutos, e professores e alunos andam confusos com tanta entropia." E a confusão desmotiva. "Uns professores desmotivam, outros adoecem, outros nem ligam, outros afligem-se de mais. E os alunos, uns lá se vão aguentando, mas muitos não desenvolvem as suas qualidades pessoais e académicas, outros entram em trajetórias alternativas, desviantes e antiescola ou, pelo menos, antiaulas". Em seu entender, faz falta uma cultura de coesão social e de equidade na diferença e uma competência de regulação das relações interpessoais com normas de cortesia. "Se os adultos fizerem isso, as crianças vão aprender mais depressa do que se forem violentamente admoestadas", comenta. 

Manuela Sousa é professora do 1.º ciclo e, nos seus anos de serviço, não tem tido casos graves de indisciplina. "Mas há alunos com falta de regras básicas de educação que depois se refletem na aprendizagem", conta. O que se passa em casa tem muita influência, muito peso nesta matéria. E há casos em que os pais e encarregados de educação, quando são chamados às escolas, não aceitam o que lhes é dito. "Os encarregados de educação não aceitam que os filhos tenham dificuldades de aprendizagem. E, por vezes, os alunos têm comportamentos que sabem que serão protegidos pelos pais", revela. 

O que fazer? Restabelecer a autoridade do professor é, na sua opinião, um passo importante para que os casos de indisciplina dentro da sala de aula não aumentem. "Não podemos castigar os alunos. Não podemos pôr um aluno fora da sala. É antipedagógico fazer a mesma coisa mais do que duas vezes", comenta. Além de relembrar que a figura do professor tem autoridade, Manuela Sousa sugere a realização de campanhas de sensibilização junto de pais e encarregados de educação, que envolvam professores e psicólogos, no sentido de explicar como se educa um filho.

Por: Sara Oliveira

In: Educare

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A criança e a disciplina

"A disciplina é o segundo presente mais importante que um pai pode dar a uma criança. O amor vem em primeiro lugar."

T. Berry Brazelton

Um dos objetivos essenciais da educação, a ser alcançado a longo prazo, com constantes avanços e recuos, é ensinar os filhos a serem disciplinados, orientando-os para que ajam de maneira aceitável e aprendam a conviver com regras e limites:

- Em pequenos, conseguir que tenham, desde cedo (primeiro dia de vida), uma rotina para fazerem as suas refeições, tomar banho e dormir sem muitas confusões.

- Quando maiores, que façam adequadamente os trabalhos de casa, sejam educados, aprendam a cumprimentar as pessoas, agradecer um presente, sem nunca perderem a iniciativa própria.

- Na adolescência, que saibam aceitar horários para chegar a casa, tenham responsabilidade e autonomia com as suas tarefas escolares e os seus pertences.

Estes são apenas alguns exemplos, pois os limites variam muito em função do que é esperado em cada cultura e em cada família.

Todo o lar deve ter as suas próprias regras, que devem ser respeitadas e aplicadas coerentemente e com o comum acordo dos pais (tarefas domésticas, mesada, televisão, horários para dormir, etc.).

É natural que um dos pais assuma o papel de disciplinador, mas se esse papel não for igualmente partilhado por ambos, os filhos podem ver um dos pais como o "bom" e o outro como o "mau" - situação que é muito difícil de reverter. É, por isso, fundamental uma partilha constante de cuidados.

Existem várias formas de disciplina. Seguem-se algumas que vale a pena experimentar:
• Avisos - ajudam a criança a estabelecer limites e a prepará-la para a mudança;
• Silêncio - como são constantemente interpeladas, corresponde a uma forma surpreendente de captar a atenção da criança;
• Fazer uma pausa - cessa o mau comportamento e permite aos pais acalmarem-se;
• Repetir as coisas, da forma certa - ao incentivar as boas ações vamos encorajar a criança, o que lhe permitirá readquirir autocontrolo e sentir-se recompensada;
• Reparar - leva a criança a pedir desculpas e fá-la entender que "o crime não compensa";
• Perdão - incentivo para melhorar o seu comportamento. É importante a criança sentir que pode ser perdoada;
• Planeamento - os pais enfrentam em conjunto os problemas, levando a criança a planear e a resolver problemas;
• Humor - uma forma agradável de ultrapassar os problemas, "quebrar o gelo", sem nunca entrar no gozo.Formas que se revelaram inúteis:
• Castigos corporais;
• Vergonha, humilhação;
• Lavar a boca com sabão;
• Comparar as crianças umas com as outras;
• Suprimir comida ou usá-la como recompensa;
• Deitar mais cedo ou fazer uma sesta extra (a criança pode associar o ato de dormir a situações negativas, o que pode provocar alterações no sono);
• Retirar o afeto, ameaçar com o abandono - a criança não se sente amada, sente medo.

"Educar é conviver com a criança, caminhar a seu lado e não por ela, podendo oferecer o seu exemplo, que é uma das melhores formas de ensinar e nunca esquecer que para educar é necessário tempo para dar dedicação e amor."

E. Pisani Leite

Por: Bárbara Pereira, com a colaboração da Dra. Carla Sá, pediatra do Hospital de São Marcos de Braga

In: Educare

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

As birras acontecem porque há dois mundos diferentes

Mário Cordeiro afirma que é preciso perceber o que está em causa quando a "dona birra" aparece. É preciso explicar aos mais pequenos que, por vezes, é necessário mudar de jogada. O pediatra aborda os medos e as birras no seu último livro.


As birras fazem parte da vida e os medos também. Da vida dos mais novos e dos mais velhos. O que fazer quando não há maneira de convencer a criança a tomar banho? O que dizer quando os berros se ouvem no supermercado porque a compra não é satisfeita? Como contornar o choro quando o prato chega à mesa? Que estratégias usar quando se quer adiar os trabalhos de casa de amanhã? Mário Cordeiro diz que os pais não se devem sentir envergonhados, cansados ou esgotados com as birras. Elas existem e o importante é compreendê-las para saber como contorná-las.


As birras não significam um comportamento anormal ou desviante. Nada disso. "As birras são a expressão daquilo que é a frustração, quando mal assumida, gerida e metabolizada. Temos desejos e expectativas, e temos a realidade. E o fosso entre um lado e outro pode ser grande, sobretudo quando colocamos as fasquias muito altas e, simultaneamente, consideramos que a nossa vida é péssima", explica o pediatra ao EDUCARE.PT. O autor de O Grande Livro dos Medos e das Birras, livro recentemente editado, diz que, quando mal gerido, o hiato de frustração conduz à raiva, à vitimização, perplexidade, incompreensão, agressividade.


Os sentimentos multiplicam-se e crescer é um processo complexo. No caminho, é preciso aprender a lidar com as frustrações e os mais velhos devem mostrar aos mais novos que o mundo não acaba hoje, que há muito para fazer e que mudar de jogada, ou arranjar novas estratégias, fazem parte do prazer de viver. "Aprender a gozar o que se tem e não chorar sempre pelo que não se tem". A eterna insatisfação não conduz a lugar algum. "Mais do que não fazer birras é aprender a fazê-las, em qualquer idade", refere.


O que se tem e o que se quer podem não coincidir, o fosso entre os dois mundos pode ser grande, mas o importante é ter planos B na manga. "As crianças, por terem menos experiência e sabedoria, entenderem pior os seus sentimentos e não terem uma visão sistémica do mundo, além de serem, por default, muito 'umbiguistas', narcísicas e egocêntricas, ficam num emaranhado de sentimentos que não sabem gerir". Quase num beco sem saída. "Enquanto não arranjarem uma 'saída para a crise', entram em disrupção corporal, incapacidade de pensar e, por vezes, agressividade extrema e violência". Há casos em que basta uns minutos para se recomporem e voltarem ao sítio.


Não há milagres, nem receitas infalíveis, para prevenir birras. "Mas há bom senso, compreensão do 'enredo' da dona birra, perceção do que está em causa". E como explicar a uma criança que o seu comportamento é duvidoso? Com firmeza afetiva, dando um tempo para refletir e ajudá-la a ultrapassar o mau momento. Sempre mostrando que a disponibilidade é total.


Explicar que nem tem de abdicar dos seus desejos - quando muito, terá de adiá-los -, nem que a sua vida é má e rasteira. O que não pode ser permitido são manifestações violentas: cuspir, morder, arranhar, bater, atirar com coisas, etc."


Birras em miúdos, adultos caprichosos? Não há uma associação direta. "Há crianças mimadas no mau sentido, ou seja, têm tudo o que querem e, portanto, não se habituam a que o mundo do real é o mundo do possível e não do desejo e da fantasia. Quando acontece serem contrariadas ficam sem saber o que fazer". "Mas é verdade que uma criança que se habitua a fazer birras e, sobretudo, a ver as birras triunfarem e serem uma excelente moeda, nunca aprenderá a deixar de ser narcísica e omnipotente", adianta o pediatra.


O livro de Mário Cordeiro pretende transmitir aos pais, educadores e todos os interessados que as birras e os medos fazem parte do dia a dia e que há perigos em não saber dar a volta a essas situações. Numa parte mais conceptual, o autor aborda o medo da morte. "É um livro que, para mim, fala de nós próprios enquanto seres humanos, e acho que os leitores vão gostar dessa perspetiva.".


In: Educare

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Pedir desculpa

PEDIR DESCULPA deve ser, para todos, uma coisa simples. Quando verificamos que errámos é isso que devemos fazer. Todos queremos educar os nossos filhos desta forma mas não nos podemos esquecer que o mais importante é o exemplo e esse vem sobretudo dos pais. Em múltiplas situações do dia-a-dia, pedir desculpa deve ser a coisa mais natural. 

Muitas vezes um pedido de desculpas da criança não parece muito genuíno e é feito mais por medo das represálias que possa vir a sofrer por parte dos pais, do que por convicção. Muitos pedidos de desculpa exigidos às crianças são meros exercícios de hipocrisia e apenas ensinam a criança a mentir de forma convincente.

Por esta razão, um pedido de desculpas não deve nunca ser forçado. Tem de ser espontâneo e surgir naturalmente da boca da criança. Se, por teimosia, e apesar de aconselhada a isso, a criança não o quer fazer no momento em que se portou mal, o melhor é retirá- -la do local de brincadeira e conversar com ela mais tarde. O pedido de desculpas pode surgir então. 

Quando o pedido de desculpas é dirigido aos pais devemos aceitá-lo de imediato e sem fazer mais comentários. A única frase aceitável é "fico contente por estares a pedir desculpa", como forma de reforçar esse comportamento. Mais tarde, com mais calma, podemos conversar com a criança sobre o sucedido para que ela não repita o que fez de errado. 

Por: Pediatra Paulo Oom

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Retirar privilégios

Não tenho dúvidas de que os nossos filhos assumem que, muito daquilo que têm, o têm por direito próprio. Para muitos deles, a nossa função como pais inclui proporcionar-lhes a melhor vida possível, rodeados de tudo aquilo que consideram imprescindível e seu por direito.

Retirar privilégios consiste em privar a criança ou o jovem, temporariamente, de alguma coisa de que gostam, como consequência de algo que fizeram mal. Pode ser utilizado vezes sem fim e, em muitos casos (principalmente acima dos cinco anos), é a medida mais eficaz para que os nossos filhos aprendam que na vida nem tudo é garantido e que algumas coisas são um privilégio que pode ser retirado, se eles não corresponderem às nossas expectativas.

Podemos utilizar este método para um grande número de situações, incluindo as que envolvem brinquedos, televisão, computador, internet ou situações agradáveis (como estar com os amigos, por exemplo).

Não podemos, no entanto, prometer o que não vamos cumprir. Frases como "Nunca mais vês televisão" só servem para nos desacreditar em frente dos filhos, pois eles sabem perfeitamente que não vamos conseguir cumprir a ameaça. Por outro lado, não devemos, igualmente, considerar como privilégio e ameaçar retirar algo fundamental para o bem-estar dos nossos filhos, como a alimentação ou horas de sono. 

Por: Pediatra Paulo Oom

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Pôr de castigo

Por vezes a única forma de pôr fim de imediato ao mau comportamento e conseguir que os nossos filhos se comportem como queremos e achamos mais adequado é pondo-os de castigo. Isto significa que, durante algum tempo, a criança fica sozinha num local escolhido por nós, tendo tempo para se acalmar e pensar um pouco nas razões de ali estar, levando-a isso (esperamos nós) a modificar o seu comportamento numa próxima oportunidade. Este método pode ser utilizado a partir dos três anos.

Mas se isto parece relativamente simples, muitos pais podem testemunhar mil e uma peripécias que os levaram à beira de um ataque de nervos quando tentaram pôr uma criança de castigo. Sabe porquê? Porque pôr de castigo não é fácil, é uma arte. E como tal tem os seus segredos para que seja bem sucedida.

Tudo começa por, face a um comportamento inadequado, avisar a criança de que, se o repetir ou não parar, vai ficar de castigo. Pode ser utilizada a técnica de contar até três. Este aviso tem de ser dado com uma voz firme e calma. Nada de gritos ou irritação, pois isto só distrai a criança da mensagem que queremos transmitir. Se a mensagem for dada de forma clara e tranquila, a criança não vai ter dúvidas de que falamos a sério. Se nos descontrolamos damos um péssimo exemplo de comportamento e o que podemos ensinar pondo-a de castigo perdemos com a perda de controlo que transmitimos. 

Pediatra Paulo Oom

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Contar até três

Existem inúmeras situações em que podemos utilizar a técnica de contar até três, que tem enorme sucesso se for usada regularmente e de forma correcta. Que significa isto? Significa que contamos até três apenas com números inteiros, nada de dois... dois e meio... dois e três quartos... como se estivéssemos com medo de aplicar as consequências. 

Para isso mais valia contar até dez, o que seria um exagero, pois dávamos à criança nove (!) hipóteses de se continuar a portar mal. 

Por outro lado, quando a situação é recorrente e a criança não tem qualquer dúvida de que se está a portar mal, nada de explicações desnecessárias. Demasiadas explicações apenas tiram força à lição que queremos dar. Por vezes pode ser necessário explicar porque não queremos determinado comportamento: quando é uma situação nova, quando se trata de uma situação grave ou pouco usual ou, dada a situação e a idade da criança, ela não percebeu que se portou mal. Tirando estas excepções, nada de esclarecimentos. Apenas acção.

Por vezes a atitude da criança é mais grave e exige uma estratégia diferente: algumas situações são suficientemente graves para não darmos à criança várias hipóteses de se portar mal. Nessas situações o "três" deve surgir de imediato. Por vezes a contagem pode envolver diferentes comportamentos, sendo a criança posta de castigo quando se atinge o "três".

Pediatra Paulo Oom

Uma segunda oportunidade

Muitas vezes preferível a qualquer outro método, o melhor que temos a fazer é dar aos nossos filhos uma segunda oportunidade quando eles se portam mal. Não significa que ignorámos o mau comportamento ou que não nos importamos com aquilo a que acabámos de assistir. Pelo contrário: reparámos, não o aprovamos, mas achamos que aquela criança pode e sabe fazer melhor.

Esta forma de proceder é muito útil com as crianças mais novas, pois representa uma oportunidade para treinar aquilo que os pais consideram o comportamento mais correcto. Pode ser utilizada para as boas maneiras à mesa mas também para fazer a cama, arrumar o quarto, pôr a louça na máquina, fazer os trabalhos de casa com uma letra bonita, cumprir com as regras de um jogo e muitas outras situações. De uma forma geral, pode ser aproveitada sempre que sabemos que a criança sabe comportar-se devidamente mas por qualquer razão não o fez e nós achamos que ela merece uma hipótese para se redimir. É também uma forma muito útil quando não temos a certeza se a criança sabe qual a forma correcta de actuar pois estamos a dar-lhe atenção enquanto ela executa a tarefa pela segunda vez, podendo ajudá-la se necessário (casos de fazer a cama ou arrumar o quarto, por exemplo). 

No entanto, se usada repetidamente, esta forma de actuar perde o seu efeito, pois a criança passa a usar o mau comportamento apenas para chamar a nossa atenção. Por isso mesmo, a técnica da repetição apenas deve ser utilizada de forma pontual.

Pediatra Paulo Oom

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Ajude os seus alunos a melhorar a auto-estima

A auto-estima é muito importante para que os miúdos tenham sucesso escolar. Os alunos com baixa auto-estima têm um desempenho mais pobre. São inseguros e não participam activamente nos debates propostos pelo professor. Sentam-se ao fundo da sala e baixam-se, quando sabem que o professor se prepara para chamar alguém para ir ao quadro.

Leia as nossas dicas e ajude os seus alunos a construírem a auto-estima e a melhorarem o seu desempenho global na sala de aula. 

1 - Faça-os participar. Evite entrar no "jogo deles". Eles querem ser esquecidos, passar despercebidos. Pois, não lhes dê esse gostinho. Peça-lhes ajuda. Mas assegure-se que eles fazem bem as coisas, caso contrário poderá ser pior. Crie um sinal secreto com eles. Por exemplo, diga-lhes que de todas as vezes que você se aproximar de sua carteira e colocar a sua mão sobre ela, eles serão chamados para a próxima. Isso dá-lhes tempo para pensar na resposta e alivia a ansiedade. 

2 - Dê-lhes uma tarefa. Torne-os responsáveis por alguma coisa. Afinal de contas, a biblioteca precisa de ser organizada e o animal de estimação da sala de aula tem de ser alimentado. O importante é que os faça sentirem-se úteis e importantes. Aos poucos, os seus alunos começam a sentir-se mais valorizados, necessários e orgulhosos por terem realizado algo.

3 - Faça deles um herói. Envolva-os num programa de auxílio a alunos. Os mais novos sempre admiram os mais velhos. Deixe-os ser o tutor de um aluno mais novo. Eles que lhe dêem explicações de matérias que dominem. Ao sentirem que conseguem ajudar outra criança e, ainda por cima, serem um modelo para ela, vai, de certeza, abrir-lhes o ego. Os benefícios para ambos os estudantes seriam incalculáveis. 

4 - Reconheça os sucessos dos seus alunos. Sempre que eles fizerem bem um exercício, ajudarem outro aluno ou lhe fizerem um recado, reconheça-o. Isso incentiva-os a continuar no bom caminho, a terem orgulho de si próprios e a formarem uma auto-estima cada vez mais sólida.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Dizer "não" de outras formas

Quando é preciso interromper um mau comportamento ou responder negativamente a uma pergunta dos nossos filhos, o "não" é a palavra mais forte e a mais utilizada. 

Mas se usada por sistema perde a sua força. Por isso, por vezes temos que ser criativos e usar alternativas, o que pode ajudar a criança a aceitar melhor a nossa recusa. Frases como "hoje não, mas amanhã podemos falar sobre isso outra vez" ou "vou pensar sobre isso" podem servir para aliviar a tensão quando o "não" é proferido muitas vezes. Podemos também estabelecer um prazo dizendo "sim, mas só depois de..." ou "sim, mas só quando..." o que são também formas de tornar mais aceitável, por parte da criança, a nossa resolução de não ceder naquele momento. Pode também ser útil dar informação em vez de simplesmente dizer "não" como por exemplo "penso que é proibido correr nesta loja". Todas estas alternativas fazem com que a palavra "não" seja proferida e ouvida menos vezes, não a deixando perder a sua força.

Se a criança é dada a birras ou amuos, temos de estar preparados para o que vem depois, mas não deixar que esse tipo de manipulação modifique a nossa resposta. Há que manter a calma e seguir em frente. É importante ser coerente e honrar as nossas palavras. Isto pode ser mais complicado quando não estamos sozinhos com a criança, mas em público, como no supermercado ou no centro comercial.

Pediatra Paulo Oom

sábado, 7 de maio de 2011

Um olhar, um aviso

OUTRA FORMA que temos para desencorajar o mau comportamento dos nossos filhos consiste em mostrar-lhes, de forma simples, que não aprovamos o comportamento que estão a ter naquele momento. Tal como falamos no "sair de cena" da semana anterior, também aqui o nosso esforço é mínimo, pelo que, se for eficaz, é uma das formas de actuação preferidas por muitos pais.

Esta forma de actuar capta a atenção da criança por ser inesperada. Quando ela pensa que vai ouvir alguma repreensão, um sermão ou ser posta de castigo, o pai ou a mãe apenas olham para ela, em silêncio. Nada mais é necessário. Nenhum esforço adicional. Nenhuma ordem, nenhuma reprimenda, nenhum sermão. Mesmo assim o objectivo é alcançado. Esta atitude tem a vantagem de não exigir esforço da nossa parte. Pode ser seguida, mais tarde, se for necessário, de uma conversa entres os pais e a criança. 

É uma forma de actuação que pode não resultar nas crianças mais novas (geralmente antes dos cinco anos) que necessitam que lhes seja dito de forma mais concreta o que devem fazer. Pode também perder força se for utilizada com muita frequência. Nas crianças mais pequenas, por vezes olhar em silêncio não basta e a criança deve ser lembrada de uma regra que deve cumprir. Esta atitude tem a vantagem de não exigir esforço, mas pode tornar-se cansativa e perder algum efeito se forem necessárias muitas repetições.

Se isso acontecer outras

medidas devem ser postas em prática.

Por: Pediatra Paulo Oom

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Sair de cena

Para além de ignorar ou não dar atenção, existem outras formas, mais elaboradas, de mostrar à criança que não queremos presenciar o seu comportamento incorrecto. Chamo-lhes "sair de cena". Aqui a criança sabe que estamos a assistir a uma birra mas a informação que deixamos passar é algo do género "Eu sei que estás a fazer uma birra, mas não vou ceder a essa chantagem. E como não quero assistir à tua birra vou fazer outra coisa". Para ela isto tem um efeito inesperado pois o que ela queria era que nós, cansados de mais um dia de trabalho, cedêssemos àquela manipulação e a deixássemos fazer o que quer. Quando saímos de cena a actriz fica sem público e o espectáculo deixa de fazer sentido. Em poucos segundos, a birra acaba.

Algumas crianças são mais persistentes e seguem-nos pelas divisões da casa, reiniciando a birra sempre que nos encontram. Esta atitude exige muita força de vontade dos pais, que a partir do momento em que a tomam não podem voltar atrás.

Quando esta atitude de "sair de cena" é posta em prática, por vezes, no início, o comportamento da criança piora, porque ela acha que não está a portar-se suficientemente mal para conseguir atrair a nossa atenção. Mas passada essa fase, e se formos persistentes, o comportamento melhora sempre.

Esta forma de actuar é ainda mais eficaz se combinada com dar atenção à criança, encorajá-la e elogiá-la quando está a portar-se bem.

Pediatra Paulo Oom

sexta-feira, 22 de abril de 2011

E não se pode castigar?

OS CASTIGOS SÃO a única forma que muitos pais conhecem de conseguir uma disciplina eficaz nos seus filhos e por isso utilizam-na com frequência. Para eles, a ideia é que a criança precisa de sofrer para aprender, e que sem algum tipo de sofrimento, seja físico seja psicológico, a criança nunca irá obedecer a regras ou conhecer os limites para o seu comportamento. No entanto, o castigo é apenas uma forma de disciplina, longe de ser a única. E, lamento informar, geralmente a menos eficaz, pois ensina à criança principalmente o que não deve fazer e não o que deve fazer.

A criação de um bom ambiente familiar é o alicerce da disciplina. Sem um ambiente cheio de amor e diversão, onde todos sabem ouvir e sabem escutar e onde a coerência, a consistência e a flexibilidade estão presentes, é impossível existir uma disciplina eficaz. Logo em seguida, a melhor forma de educar os nossos filhos é através de mensagens positivas, que estimulam os comportamentos que consideramos adequados e aumentam a auto-estima das crianças. Chegados aqui, temos de perceber que há algumas situações em que o que pretendemos é terminar com um comportamento inadequado. E é aqui que está a dúvida: como aplicar correctamente os castigos para que consigam pôr fim ao comportamento indesejado, ao mesmo tempo que permitem à criança o controlo das suas emoções e dos seus impulsos e a levam a compreender que o mau comportamento tem consequências.

Pediatra Paulo Oom

In: I online

Simplesmente não lhes ligar

Ignorar uma atitude é uma das melhores formas de levar ao seu desaparecimento. Se a criança percebe que determinado comportamento não está a produzir os efeitos desejados, acaba por o abandonar. Tal como dar atenção é uma das principais armas ao nosso dispor quando pretendemos estimular a criança a portar-se bem, também o inverso é verdade: não dar atenção é uma das melhores formas de levar os nossos filhos a eliminarem comportamentos incorrectos.

Ignorar é mais fácil que outras atitudes possíveis, por exemplo, pôr de castigo. É também uma atitude que exige pouco esforço por parte dos pais, porque não envolve contacto físico, verbal ou visual com a criança.

Como é óbvio, apenas podemos usar esta estratégia quando a saúde ou a segurança da criança não está em risco. É uma forma inteligente de não termos que estar constantemente a repreender os nossos filhos por pequenas coisas que eles fazem propositadamente para nos provocar, como quando fazem caretas, lançam olhares, deitam a língua de fora, chamam a atenção, fazem birras ou choram por tudo e por nada.

Não deve ser uma estratégia a utilizar quando as faltas são mais graves, como, por exemplo, quando dizem palavrões, insultam, fazem gestos grosseiros, batem nos irmãos, correm ao atravessar a estrada ou desobedecem deliberadamente aos pais.

Pediatra Paulo Oom

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Sair de cena

O erro frequente cometido por muitos pais, mesmo os mais bem-intencionados, quando chega a altura de aplicar um castigo consiste em emprestar muita emoção ao que fazem. Qualquer castigo é mais eficaz aplicado com calma e tranquilidade, usando um tom de voz sereno e firme. Muita irritação leva-nos a fazer coisas erradas, como gritar, humilhar, censurar ou mesmo bater na criança. Não é nada boa ideia aplicar um castigo quando estamos muito zangados. Nessas alturas o melhor é acalmar um pouco, de preferência longe da vista da criança (aquilo a que chamo "sair de cena"), e voltar ao assunto algum tempo depois, já mais calmos e emocionalmente controlados.

Além disso, a irritação do pai ou da mãe desvia a atenção da criança para algo secundário: a certa altura a criança está apenas preocupada com aquele estado de espírito dos pais e não com o que fez de mal ou o que podia ter feito de diferente.

Pior ainda: a irritação dos pais pode levar a criança a repetir o mau comportamento sempre que desejar chamar a atenção. Já descobriu que aquele comportamento é extremamente eficaz para conseguir a atenção dos pais.

Evitar este erro - muita emoção na altura de aplicar um castigo - é fundamental para que a disciplina seja eficaz.

Por: Pediatra Paulo Oom

quinta-feira, 10 de março de 2011

A arte de negociar

Negociar é uma arte que os pais (e os filhos) devem aprender. Quando a criança cresce, e principalmente quando chega à adolescência, a negociação adquire um papel muito importante na educação e no estabelecimento da disciplina. Pode ser utilizada em qualquer idade, mas é desejável que antes dos 12 anos seja pontual e depois dessa idade tenha uma importância crescente.

É claro que algumas coisas não são negociáveis. Em cada casa e em cada família algumas regras não podem estar constantemente ou mesmo pontualmente a ser alteradas de acordo com as necessidades de momento. Não bater, não gritar, não roubar, não mentir ou não dizer palavrões são exemplos de normas que não devem ser negociáveis. Mas aparte estas poucas excepções, muito pode ser negociado, incluindo outras regras, horários a cumprir ou as consequências da quebra de algumas normas. Para tudo isto a negociação deve ser encorajada, o que pode ter duas consequências desejáveis. Por um lado a criança treina as suas competências na diplomacia, em fazer ver os seus pontos de vista e em tentar convencer os outros (neste caso os seus pais) da justeza dos seus argumentos. Não poderia existir melhor ambiente que o familiar para um jovem treinar esta competência que tão útil lhe poderá ser mais tarde com amigos, colegas de emprego, professores ou patrões. Por outro lado, ao sentir que os pais estão dispostos a negociar, e que a sua opinião foi tida em conta antes de tomada a decisão, os filhos mostram-se naturalmente mais dispostos a cooperar, mesmo quando o resultado final não foi aquele que desejavam.

Por: Paulo Oom

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

As recompensas também educam

Recompensar a criança por aquilo que fez bem é um acto natural e desejável. A criança, para além da satisfação própria do dever cumprido, tem a gratificação adicional de um prémio oferecido pelos pais, em sinal do seu apreço pelo cumprimento de determinado objectivo. O problema está na forma e no conteúdo desse prémio.

A principal recompensa que uma criança pode ter é a atenção, o encorajamento e o elogio dos pais. Nada é tão forte e tão estimulante a curto, médio e longo prazo, como a aprovação das suas atitudes pelos pais. Esta é a recompensa que deve ser usada com maior frequência, superando qualquer outra.

No entanto, existem, claro, outras formas de recompensar a criança pelos seus esforços de corresponder às expectativas dos pais.

Uma delas é a recompensa social que envolve, para além da atenção e dos estímulos verbais, como o encorajamento e o elogio, o contacto físico (quem não gosta de um abraço, um beijo ou uma carícia?) ou o envolvimento em actividades que são do gosto da criança após um comportamento adequado, como um jogo, ler uma história, fazer um passeio a pé ou de bicicleta, desenhar ou fazer construções em barro ou plasticina.

As recompensas deste tipo são muito gratificantes para as crianças e também para os pais, pois, além de cumprirem o seu objectivo, de premiar um comportamento adequado, estreitam a relação entre pais e filhos ao estimular a brincadeira em conjunto.

Por: Pediatra Paulo Oom

In: I online

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Aprenda a limitar o tempo

Muitas vezes é mais fácil conseguir que a criança faça o que pretendemos se estabelecermos um tempo limite para a realização de uma tarefa.

Esta forma de incentivo é mais fácil se a tarefa for transformada numa brincadeira ou num desafio. Quando um dos meus filhos não queria ir para a escola de manhã, havia sempre algo que resultava: uma corrida até ao portão de entrada. A excitação do desafio e da brincadeira sobrepunham-se sempre à falta de vontade para entrar na creche. E todos os dias lá íamos nós em correria desde que fechávamos a porta do carro até ao portão da escola. Se ele ganhava (o que acontecia com muita frequência), o prazer era ainda maior e tudo o resto era esquecido.

Outra forma de jogar com o tempo é conseguida através da utilização de um cronómetro. Não precisa de ser nenhum aparelho de última geração. O relógio do forno ou um despertador servem perfeitamente.

Pode ser usado, por exemplo, durante as refeições, quando a criança parece que até a água mastiga. Usar um cronómetro é uma forma inteligente de marcar um tempo sem nos envolvermos emocionalmente na contagem. Quando somos nós a contar podemos ter tendência para contar mais rápido (se estamos sem paciência) ou mais lento (se queremos desculpar a criança) e estamos sempre sujeitos ao "só mais um bocadinho" ou ao "está quase". Pelo contrário, um cronómetro ou um despertador não podem ser emocionalmente manipulados pela criança.

Por: Pediatra Paulo Oom