quarta-feira, 2 de março de 2011

“Não é meu...”

Primeira situação: o moço havia chegado à sua nova escola nesse dia, expulso de outra e bem recomendado: "É uma criança mimada e desobediente." Quando pendurou o seu casaco, derrubou dois e não fez menção de os apanhar. Fui ao seu encontro. Olhei para os casacos caídos. E o moço falou: "Não fui eu!"

Fitei-o, calma e insistentemente. O moço voltou à fala: "Não são meus!"

Voltei o meu olhar para os casacos. O moço voltou atrás, apanhou-os e pendurou-os nos cabides de onde os tinha arrancado.

No fim da tarde, uma senhora entrou na escola, dirigiu-se ao vestiário, pegou no casaco do moço, atirando um outro casaco ao chão. Não se baixou para o apanhar.

Segunda situação: portas fechadas, o avião acabava o abastecimento de combustível. A tripulação avisava ser proibido o uso de telemóveis. Os telemóveis tocavam. Muitos passageiros faziam ouvidos de mercador, ligando para familiares e amigos.

O avião chegou ao final da pista, preparava-se a partida - "Eu insisto, minha senhora! Faça o favor de apertar o cinto da sua filha".

"Ela não deixa colocar o cinto. Não consigo convencê-la."

Quando a mãe insiste - "Vá lá, meu anjinho, deixa a mãe pôr o cinto!" - apanha uma sonora bofetada do anjinho. A mãe encolhe-se. Sorri para a hospedeira de bordo: "Não vê que é uma criança..."

Durante a viagem, a criancinha premiu o botão de chamada, exasperando a hospedeira. Plantou os sapatos sujos em cima do assento, arrancou e destruiu tudo a que pôde deitar a mão. Impunemente, até ao fim da infernal viagem.

O avião aproximava-se do local de desembarque. Três vezes se escutou o apelo: "Por favor, permaneçam sentados até à paragem completa do avião". Repetido o apelo em língua inglesa, os passageiros levantados (mãe e filhinha incluídos) não voltaram a sentar-se. Presumo que fossem surdos, ou que não fossem ingleses...

Terceira situação: um jovenzinho de aspeto boçal descalçou-se, inundando o autocarro de um cheiro nauseabundo. Pousou um pé no espaldar do assento à sua frente. A passageira da frente sentiu o contacto do pé (e do odor), encolheu-se e voltou o rosto para a janela.

A moral da história... Provavelmente, quase todos os protagonistas destes exemplares episódios terão andado na escola. Quem os ajudou a crescer? Certamente, os jovenzinhos tiveram pais, parentes e amigos. Educação, essa não tiveram.

A Hanna Arendt dizia que as pessoas que não quisessem ter responsabilidade pelo mundo não deveriam ter filhos e que "os pais não exercem a sua autoridade e deixam os seus filhos nas mãos de chefetes que os lançam no conformismo e na delinquência".

A educação deveria começar na domus e continuar no seio da escola e da cidade, porque os filhos não nascem com manual para uso dos pais e urge assegurar o preceito de Napoleão: a educação de uma criança começa vinte anos antes de ela nascer. Porém, os infantes são "guetizados" em instituições de rituais sem sentido e entregues à TV, às consolas de jogos, à Internet... Será preciso proteger as crianças da demissão das famílias? Ter-se-á de inibir o poder paternal?

A escola talvez possa ser um dos lugares de reparação dos males da deseducação, quando instituir estruturas de convivencialidade, um permanente e equilibrado diálogo com as famílias. Quando for um lugar onde a autoestima ande a par com a heteroestima, onde cada ser seja individualmente responsável pelos atos de todos os outros. Onde autoridade rime com liberdade e a firmeza possa rimar com delicadeza. 

Por: José Pacheco

In: EDUCARE

terça-feira, 1 de março de 2011

Dislexia


“Co-educação” de volta...

“Eles e elas aprendem melhor separados” era o título de uma extensa entrevista feita com um professor americano – David W. Chadwell – que foi publicada no número 354 da revista “Sábado”. Basicamente este professor defende que rapazes e raparigas aprendem melhor – ficam mais bem preparados e confiantes – se forem educados em escolas separadas por género.

Para as pessoas, entre as quais eu me incluo, que defendem a Inclusão na Educação este assunto merece uma reflexão. Vale a pena continuar a procurar a homogeneidade na escola? Rapazes para um lado, raparigas para o outro, alunos com deficiência para um lado, alunos sem deficiência para o outro, alunos ciganos para um lado, alunos não ciganos para o outro, etc. etc.? O assunto é extenso mas deixarei algumas opiniões que possam animar a discussão:

1. Antes de mais o autor chama a esta divisão de género “diferenciação”. Ora nós pensamos que diferenciar (por exemplo o currículo) é proporcionar estratégias e, eventualmente, objectivos diferentes a alunos diferentes. Mas a diferenciação que o este autor propõe significa separar os alunos “à priori”, isto é, a diferenciação é feita não no ensino mas no recrutamento das escolas e das turmas. É uma ideia digamos, original, de diferenciação.

2. Antes, as escolas eram separadas por género. (Ainda nos lembramos das escolas “centenário” terem de um lado escrito “sexo feminino” e “sexo masculino”). Quando se pensou acabar com esta divisão com base no género isso foi considerado um problema pedagógico. Apareceram então numerosos livros sobre “co-educação” que procuravam resolver os “grandes problemas” que se criariam com a educação conjunta de rapazes e raparigas. Esses livros estão hoje esquecidos porque rapidamente se verificou que afinal não existiam “grandes problemas” e a “co-educação” não era merecedora de tanta estranheza. Regressar a uma educação baseada no género é um anacronismo e retoma um debate que se mostrou não ter pertinência nem relevância.

3. Diz-se que os resultados académicos são melhores se rapazes e raparigas forem educados separadamente. Aqui está uma afirmação que suscita as maiores dúvidas: de que resultados académicos estamos a falar? De todas as áreas? Sob que tipo de ensino? Diferenciado? Uniforme? Em que idades, graus e matérias se verificam estes “melhores resultados”? E, se existem estas diferenças de aproveitamento, então elas devem servir para aprendermos como é que se ensinam os “piores” para chegarem a “melhores”, não para necessariamente para os separar.

4. Por hipótese meramente académica, vamos imaginar que sim, que os resultados académicos são melhores com escolas separadas. Mas... a escola é só resultados académicos? Não deve ser. A escola é uma estrutura complexa e retirar-lhe complexidade é empobrece-la. Por exemplo o que seria uma escola se fosse proibido qualquer conflito? Teria melhores resultados? E se tivesse, ainda assim a quereríamos?

Precisamos de escolas que saibam lidar e não eliminem a complexidade. Ser rapaz ou rapariga é certamente diferente (até porque a construção social de um e de outro é diversa) mas essa diferença está embutida em toda a sociedade e eliminá-la da escola infringe os direitos dos alunos de serem educados numa escola que efectivamente os prepare para uma vida em comum, solidária, capaz de negociação e capaz de reconhecer e aprender com as diferenças dos outros.

Por: David Rodrigues
Presidente da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial

In: 1ª newsletter de Março da Pró-Inclusão: Associação Nacional de Docentes de Educação Especial (PIN-ANDEE)

Lançado portal sobre epidermólise bolhosa

A epidermólise bolhosa é uma doença genética rara e sem cura. Caracteriza-se pelo aparecimento de bolhas e lesões na pele e nas membranas mucosas. Estima-se que em Portugal nasçam por ano duas crianças com esta doença.
 
 

Projecto "Som e Silêncio" pretende despertar o interessa das crianças pela língua gestual

No passado dia 18 de Janeiro foi apresentado, no Ateneu Artístico Vilafranquense, o projecto "Som e Silêncio", que pretende incutir nas crianças do ensino regular o interesse pela língua gestual. O projecto acústico, da autoria da cantora Paula Teixeira, é uma iniciativa da Associação Nova Frente Juvenil e conta com o apoio do Governo Civil de Lisboa e da UNICEF.

"Som e Silêncio", que se assume como uma comunhão entre a Música e a Língua Gestual Portuguesa, visa, de acordo com presidente da Associação Nova Frente Juvenil, do Sobralinho, João Pedro Baião "fomentar nas escolas e nos alunos o interesse pela aprendizagem da língua gestual". Através de um pequeno concerto foi ensinado às crianças "o básico da língua gestual", numa primeira fase, que posteriormente incluirá aulas mais formais e grupos de trabalho.

O concerto contou com a participação de uma plateia muito receptiva e perspicaz, composta por mais de 450 crianças. Após a sessão, todos estes pequenos ficaram a saber o alfabeto, os dias da semana, os animais e, ainda, algumas palavras especiais, como "amigo", "obrigado", "gosto muito de ti" em língua gestual. Para além destes conteúdos, houve ainda tempo para alguns êxitos de Paula Teixeira como "Promessa", "Muda", "Sinto-te Aqui", entre outros, ao som dos quais as crianças pularam, dançaram e cantaram quer oralmente quer por meio de gestos.

O projecto é apoiado pelas câmaras municipais de Vila Franca de Xira, Loures, Odivelas, Azambuja, Mafra e Lisboa, que levarão cerca de 500 crianças, do 1.° ao 9.° ano de escolaridade.

"O Som e Silêncio" está a chegar também a escolas secundárias, muitas vezes por solicitação no âmbito de projectos desenvolvidos pelos alunos em Área de Projecto. O objectivo é chegar aos alunos que não têm necessidades educativas especiais para lhes despertar interesse em aprender a linguagem utilizada por outras crianças, com problemas de surdez. O projecto pode ser desenvolvido em escolas, auditórios, salões, bibliotecas, museus ou locais ao ar livre.

In: Ajudas