sexta-feira, 3 de abril de 2015

UM MUNDO PRÓPRIO QUE (QUASE) SÓ ELES ENTENDEM

Uma viagem ao universo complexo das crianças autistas. Em todo o mundo, cinco em cada dez mil sofrem deste problema. Em Portugal, uma nova aplicação ajuda a desenvolver competências

Guiados pelo neuropediatra Nuno Lobo Antunes e por Teresa Brandão, consultora científica no centro CADIN, procuramos conhecer melhor o autismo na infância. Entre connosco no mundo das crianças autistas e compreenda-as melhor. Estima-se que, em todo o mundo, cerca de cinco em cada dez mil crianças sofre de autismo, patologia que se traduz no défice cognitivo e perturbações comportamentais, de sociabilização e linguagem, com reflexo no seu comportamento. Especialistas afirmam que resulta de uma perturbação do desenvolvimento do sistema nervoso que afeta o funcionamento cerebral a vários níveis e que ocorre ainda antes do nascimento.

A diversidade de diagnóstico, tanto pelas áreas afetadas como pela gravidade, justificam a designação de perturbações do espectro do autismo. A sua origem é complexa. Parte da responsabilidade recai sobre os genes, mas o autismo pode estar igualmente associado a rubéola materna, doenças metabólicas ou a síndrome do X frágil, este último talvez uma das explicações para que quatro em cada cinco casos sejam do sexo masculino. Ter já um filho com autismo aumenta a probabilidade, como refere Nuno Lobo Antunes, «cerca de três por cento, uma incidência semelhante à que se verifica nos gémeos falsos».

«Pelo contrário, nos gémeos verdadeiros a probabilidade de ambos serem autistas pode atingir os noventa por cento. É uma realidade complexa que não implica um gene mas um conjunto de genes», explica. Definitivamente abandonada está a ideia de que o autismo resulta da falta de carinho materno. Apesar de afetar o comportamento, a sua origem não está nas emoções, como exemplifica o especialista, «não há nenhuma ligação definida entre aspectos emocionais na gravidez e o aparecimento do autismo. É o resultado de uma disfunção cerebral. Nasce-se autista».

A importância do mínimo detalhe

Na maioria das vezes é apenas aos dois, três anos, que o autismo é detectado, pois «envolve dificuldades de sociabilização e comunicação e, antes de ter sido atingido um ano de idade, esses aspectos ainda não estão suficientemente desenvolvidos», afirma o neuropediatra Nuno Lobo Antunes. Em alguns casos mais raros, a criança pode evoluir normalmente nos primeiros anos, contudo, por norma, este período de desenvolvimento não excede o terceiro ano de vida.

Nos primeiros meses, as alterações podem ser muito subtis, como a falta de contato ocular com a mãe ao mamar, uma postura demasiado rígida ao colo ou pouca recetividade ao contacto físico. Numa fase posterior, destaca-se a expressão facial ou comportamento fora de contexto, e o pouco interesse por aquilo que a rodeia. Por exemplo, a criança não aponta, não olha para onde a mãe está a olhar, não chora ou não se defende quando lhe tiram um boneco da mão. Isolamento, dificuldade em interagir com as pessoas, interesses restritos e ações repetitivas são outros indícios que devem colocar os pais em estado de alerta.

Dicionário ilustrado

Um dos principais sinais de alarme surge com a aquisição da linguagem que, nestas crianças, pode ocorrer onze meses mais tarde, sendo que cerca de nove por cento nunca chega realmente a falar. Muitas vezes, a linguagem pode limitar-se à vocalização, ao uso repetitivo ou inadequado de expressões, vocabulário limitado e até à criação de um idioma próprio. Noutros casos verifica-se uma regressão. A criança, que dizia algumas palavras, deixa de o fazer.

A ausência de comportamentos de imitação

A ausência de comportamentos de imitação (peça-chave no desenvolvimento infantil) torna a aprendizagem mais difícil. Um dos trunfos a usar é a memória visual, mais apurada do que a auditiva. Ao ilustrar as palavras com imagens ou desenhos a criança obtém pistas visuais que a ajudam a concentrar-se e a reter a informação. Perguntas como «o que é isto?» são de evitar pois funcionam como fonte de ansiedade.

Manual de ajuda

Brincar ao faz de conta ou fazer jogos de grupo típicos da infância não despertam interesse nestas crianças. Por vezes, a fraca resposta a estímulos externos leva os pais a pensar que se trata de surdez. Algumas parecem imunes à voz mas têm sensibilidade extrema a sons comuns como o do telefone, outras possuem um limiar à dor elevado. A perceção sensorial varia, caso a caso. Com uma capacidade cognitiva, em regra, reduzida (calcula-se que em cerca de setenta e cinco por cento das situações) existem, no entanto, casos em que as crianças autistas têm aptidões fora do comum, como, por exemplo, uma memória acima da média.

O autismo caracteriza-se por comportamentos desajustados, repetitivos e pela tendência em seguir rotinas rígidas, o que leva as crianças a sentirem-se perturbadas quando há alterações ao seu ambiente, como uma simples mudança de lugar à mesa. Organizar um horário em que a sequência de atividades diárias da criança (por exemplo, o ato de levantar-se, tomar banho e vestir-se) esteja representada através de figuras ajuda a estruturar a sua rotina e a saber que comportamento é esperado em cada situação.

Atuar logo

Uma intervenção precoce só é possível se houver um diagnóstico precoce. Fazer o acompanhamento médico da criança e alertar o pediatra caso exista uma perturbação de comportamento, comunicação ou sociabilização permitem identificar o problema e encaminhá-la para uma consulta especializada. Visto muitas das alterações comportamentais serem pouco visíveis em termos biológicos ou na estrutura cerebral, o diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na observação e avaliação de comportamentos.

Uma vez identificadas as áreas em que a criança apresenta dificuldades, é elaborado um plano de intervenção específico, com base em terapias comportamentais. Embora existam fármacos para combater alguns sintomas associados a esta patologia, como a ansiedade ou a falta de concentração. «Não existem medicamentos, nem vitaminas, que curem o autismo ou que melhorem a capacidade de sociabilização e empatia. Portanto, são utilizadas técnicas comportamentais para tentar minorar e melhorar o comportamento das crianças com perturbações do espetro autista», afirma Nuno Lobo Antunes.

Educação especial

A especificidade de cada caso obriga a um plano de ação individual e, com as técnicas adequadas, é possível desenvolver capacidades, nomeadamente em termos de comportamento, linguagem, interação social. Embora se estime que apenas cerca de um terço dos casos de autismo atinja um certo grau de independência, verificam-se progressos na fase escolar, sobretudo no que se refere ao funcionamento social. Frequentar uma escola comum revela-se importante, pois permite o contato com outras crianças e a integração social.

A par da ajuda especializada, os pais desempenham um papel determinante, tanto pela forma como encaram a disfunção como pelas estratégias que usam para lidar com ela. Convém lembrar que, apesar de não estar na origem do problema, o meio envolvente pode ajudar a que progrida. Fomentar o contato regular com outras crianças, estimular a aprendizagem através do jogo, música ou objeto favorito, criar situações em que a criança tem de tomar iniciativa e, sobretudo, estar atento às suas reações, gostos e necessidades são gestos importantes. Tudo para que o seu filho se sinta parte do seu mundo. Que é também o dele!

Técnicas que ajudam o seu filho a aprender melhor

Existem vários comportamentos que podem auxiliar o seu filho:

1. Atenção e concentração

- Utilizar estímulos visuais, nomeadamente objetos, fotos e desenhos.

- Minimizar as distrações.

- Selecionar os estímulos como a cor favorita.

- Na escola, é aconselhável que a criança se sente junto da educadora, para que haja menor dispersão.

2. Interação social

- Motivar brincadeiras com crianças de idades similares (grupos de duas, três).

- Usar objecos de grande dimensão (como bolas) que incentivam o jogo social.

- Promover a interação adulto-criança, com alternância de papéis.

- Dar-lhe oportunidade e tempo para reagir ou responder.

- Seguir as pistas ou iniciativas da criança, sempre que apropriado.

3. Comunicação e linguagem

- Comunicar combinando fotos, objetos e palavras.

- Exagerar no tom de voz e expressões faciais.

- Ser persistente e sistemático.

- Usar frases curtas, simples e palavras conhecidas.

- Responder às intenções de comunicação mostradas pela criança.

- Colocar objetos à vista, mas fora de alcance, para que tenha de pedir.

- Apostar imitação de cantigas com gestos e lengalengas.

A aplicação portuguesa que também pode ajudar

O projeto português Enforcing Kids, dedicado ao autismo, desenvolveu, em meados de 2014, uma aplicação para crianças com distúrbios de autismo acompanhadas por adultos e/ou terapeutas. «Regra geral, para muitas dessas crianças, as sessões de terapia não são regulares e existem períodos de interrupção, podendo ocorrer retrocessos como consequência desta irregularidade, o que faz com que os tratamentos não sejam tão eficazes. Torna-se assim importante que a terapia se estenda à casa e que os pais possam ter ao seu alcance ferramentas que os ajudem e que possam ser utilizadas na próxima sessão de terapia para uma avaliação do progresso da criança», justificam os responsáveis pela iniciativa.

A app Enforcing Kids aproveita as potencialidades dos tablets e resolve os problemas de interrupção das terapias. «Os jogos, que podem ser configurados pelos terapeutas e pais, seguem a lógica das sequências e, portanto, exploram as dificuldades que estas crianças têm ao formulá-las. Assim se desenvolvem áreas, como a matemática, a música, as ciências ou as pequenas rotinas do dia a dia. A ideia é alargar o mundo real ao mundo virtual do jogo, onde a criança pode ver, para cada passo da sequência, um conteúdo multimédia (imagem ou vídeo) que o ilustra», acrescentam os especialistas.

Texto: Manuela Vasconcelos com Nuno Lobo Antunes (neuropediatra) e Teresa Brandão (consultora científica no centro CADIN)

Ciclo de Seminários Educar na e para a diversidade: Tecnologias de Apoio para a Inclusão (TAI)

Ciclo de Seminários Educar na e para a diversidade: Tecnologias de Apoio para a Inclusão (TAI) organizado pelo Centro de Formação de Escolas António Sérgio, de que se anexa programa e cuja inscrição pode ser realizada aqui.


Recebido por email.

A vida nas escolas é menos atraente?

As mais recentes medidas dos políticos da educação que visam o regresso a uma conceção conservadora do papel da escola e da função dos docentes (aumento do número de alunos por turma, segregação por níveis de aprendizagem, municipalização das escolas, entre outros) colocam na ordem do dia, e uma vez mais, a defesa da escola pública.

Não estranha, que nesta escusada conjuntura de desalento e de fortes emoções, os profissionais do ensino com mais consciência social e cultural vejam os perigos que espreitam a escola democrática, erguida sobre a estrutura de ensino elitista que o Portugal do após Abril herdara da ditadura.

Convenhamos que o então ainda sonho de pensar uma escola que promovesse a igualdade de oportunidades e atenuasse as desigualdades sociais se viria a revelar como um dos grandes mitos educativos das últimas décadas do século XX.

Porém, tal não invalida que, mesmo os mais céticos, não reconheçam que as democracias europeias estão longe de poder inventar uma outra instituição capaz de corresponder, com tanta eficácia, às demandas sociais, quanto o faz ainda hoje a escola pública de massas.

Mesmo sabendo que fenómenos mais ou menos recentes, como o são o abandono e o insucesso escolar, a reprodução das desigualdades dentro da comunidade educativa, a incapacidade de manter currículos que valorizem para a vida, a erosão das competências profissionais dos docentes, acompanhada pela perda de estatuto remuneratório e social, são problemáticas que colocam em causa os pressupostos dessa mesma escola pública.

Hoje, a vida nas escolas é muito menos atraente para quem nelas estuda e trabalha e a desmotivação dos professores e dos educadores acentua-se com a degradação das suas condições de trabalho.

Todos sabemos, ou julgamos saber, como deve ser e o que deve ter uma escola pública que promova a aprendizagem efetiva dos seus aprendentes e o bem-estar e a profissionalidade dos seus formadores.

Todavia, há uma questão que introduz toda a entropia nestas instituições, e esta surge quando os governos se deitam a fazer contas sobre quanto custa garantir esses direitos. Sobretudo, quando os políticos sabem que todo o investimento em educação só produz efeitos a longo prazo.

Não queremos uma escola pública que seja de baixa qualidade. Por isso estamos com todos aqueles que afirmam ser urgente relançar a escola pública pela igualdade e pela democracia. Uma escola que seja exigente na valorização do conhecimento, e promotora da autonomia pessoal. Uma escola pública, laica e gratuita, que não desista de uma forte cultura de motivação e de realização de todos os membros da comunidade escolar. Uma escola pública que reconheça que os seus alunos são também o seu primeiro compromisso, que seja lugar de democracia, dentro e fora da sala de aula, que se revele enquanto espaço de aprendizagem, e que se envolva no debate, para refletir e participar no mundo de hoje.

Formar a geração de amanhã não é tarefa fácil. Mas será certamente inconclusiva se escrutinarmos a escola e o trabalho dos professores apenas segundo critérios meramente economicistas, baseados numa filosofia de desenvolvimento empresarial numa filosofia de gestão neoliberal.

A escola é muito mais que isso: é filha de um outro espaço social e de um outro tempo matricial. Logo, se o quisermos, neste assunto nada se deveria confundir, quando claramente estabelecidas as fronteiras sociais do quadro de competências e dos objetivos de missão de cada uma daquelas instituições.

Defender a escola pública, nesta conjuntura de inexplicável desvario ideológico, é muito urgente. Para tal, revela-se necessário que voltemos a exigir políticas públicas fortes, capazes de criar as condições para que a escolaridade obrigatória seja, de facto, universal, inclusiva e gratuita e se assuma, sem tibiezas, que o direito ao sucesso de todos é um direito fundador da democracia e dos Estados democráticos.

Por: João Ruivo

DO AUTISMO E DA CONSCIÊNCIA



Por cá não temos, creio, situações esta natureza mas é bom ter consciência, estamos no Dia Mundial da Conciencialização do Autismo, que temos crianças "guetizadas" dentro de escolas, sem contactos significativos como os seus colegas, sem intervalos ou espaços de refeição conjuntos.

Temos também pais convidados a não deixar as crianças tanto tempo na escola.

E temos também muitos casos de boas práticas, de bem estar de crianças e famílias.

O muito que se andou e o muito que falta andar.

Texto de Zé Morgado

Autismo: uma viagem ao desconhecido

No Dia Mundial da Consciencialização do Autismo a TSF conta-lhe a história de João Fernandes. Tem 21 anos e foi-lhe diagnosticada a doença aos quatro anos. Não fala e é dependente de acompanhamento contínuo.

Porque vive "na sua própria concha" foge quando a supervisão abranda. Há 15 anos, a notícia do diagnóstico foi um choque para a família e o confronto com uma sociedade sem preparação e sensibilidade para o autismo fizeram com que os pais abdicassem de um emprego estável e tivessem criado o seu próprio negócio para "vigiar" o filho.

Mesmo assim, uma vez mais pelo João, tiveram de o encerrar parcialmente o negócio. Mantiveram a gestão do Parque de Campismo do Luso, mas fecharam o restaurante.

Para o João, o dia começa agarrado a uma bola de futebol. É talvez aquilo que o deixa mais feliz. E diz-se talvez porque ninguém entra no mundo em que vive João Fernandes. 21 anos de um mundo próprio, só seu. A bola rola até à chegada da carrinha do CAO (Centro de Atividades Ocupacionais) de Casal Comba, a instituição que o acolheu recentemente.

Foi entre os três e os quatro que Ana Maria e Sílvio Fernandes perceberam que algo de errado se passava com o mais novo dos quatro filhos. Deixou de falar, de lavar os dentes ou de se vestir sozinho. Sintomas que confundiram até os médicos, que lhe diagnosticaram uma surdez. «Começou a esconder-se atrás do sofá e a não responder ao chamamento. Começou a urinar de novo nas calças. Imediatamente vimos que alguma coisa se estava a passar. Levámo-lo para um centro de desenvolvimento em Coimbra e eles acharam que o João estava a desenvolver uma surdez», conta.

O João não estava surdo e os pais não queriam ouvir, meses depois, o verdadeiro diagnóstico. O autismo era um mundo ainda mais desconhecido em 1996.

Já são décadas de luta para consciencializar a sociedade que os rodeia, incluindo a própria escola. «Foi um virar de vida porque onde vivemos não havia escola adequada para o colocar. Os professores já andavam apavorados, mas eu tinha que o matricular. Houve, logo à partida, uma rejeição».

Acabou por ir para a primária do Luso, onde foi criada uma sala Teach, entretanto encerrada. O João passou para a Mealhada, a 6 quilómetros de casa, na adolescência. Mas, à medida que foi crescendo foram diminuindo as ofertas e os últimos anos foram passados na Palhaça, perto de Aveiro. Sem transporte assegurado para os 150 quilómetros diários, de ida e volta, os pais fecharam o restaurante que geriam, para continuar a apoiar o filho.

«Resolvemos fechar o restaurante e o pai ia levá-lo todos os dias de manhã, voltava e ia de novo busca-lo ao final do dia. Isto aconteceu durante quatro anos e meio, mas fomos sempre batalhando outras vagas mais perto de nós», acrescenta.

A boa notícia chegou a 23 de dezembro do ano passado. O João vinha finalmente para mais perto de casa. Com ela, a esperança de reabrirem o restaurante.

Aos 21 anos, João Fernandes, é um autista que não fala e os pais acham que a sociedade ainda não está preparada para a diferença. Mas, pretendem com pequenos passos fazer chegar longe a mensagem e por isso «não escondemos o João de ninguém e vai connosco para todo o lado».

No Dia Mundial da Consciencialização do Autismo, o Parque de Campismo do Luso terá a sua receção decorada em tons de azul, aderindo assim ao movimento "Light It Up Blue", que pretende apelar à atenção da população em geral para a doença.

Miguel Midões

In: TSF