sexta-feira, 4 de maio de 2012

Vendas de medicamentos para concentração aumentaram 78% em cinco anos

Ontem, um pediatra alertou para o facto de a ruptura de stock de um medicamento para a atenção poder empurrar crianças para o insucesso escolar e a reprovação. Vendas sugerem que há cada vez mais crianças e jovens medicados

Quando B. chegou ao primeiro ciclo andava a correr à volta das carteiras na sala de aula. Hoje tem 12 anos e toma medicação para a concentração há dois. Marina, com sete filhos, vê o fenómeno por dois ângulos: é mãe e educadora de infância. Os dois rapazes mais velhos passaram por avaliações de neuropediatras, nenhuma aconselhando de forma taxativa os medicamentos. Mas os médicos deixaram-na à vontade e B. e T., com 10 anos, começaram a fazer a medicação: o mais velho para o desafio constante da autoridade e a impulsividade; o mais novo para superar as dificuldades provocadas pela dislexia e fazer render melhor o tempo na escola. “Sinto que seria diferente se tivessem tido uma educação pré-escolar mais estruturada, com objectivos e aprendizagens orientadas para a concentração e a memória. Ficam com ferramentas muito melhores para lidar depois com a guerra da escola e os novos desafios”, diz.

Depois de 12 anos numa IPSS, está agora num colégio onde as crianças, aos três anos, já fazem exercícios de leitura e matemática informais e têm um programa para treinar a concentração e a organização. “Tem muito a ver com os estímulos, e medir resultados. Não tem de ser aprender a ler, pode ser aprender marcas de carros. Não digo que a escola deva substituir os pais, mas quem é que hoje tem tempo para chegar a casa e brincar com eles aos legos ou aos jogos de tabuleiro?”

Embora não seja fácil ter uma percepção do número de crianças e jovens medicados em Portugal para problemas do foro do défice de atenção e hiperactividade, as vendas dos três medicamentos estimulantes do sistema nervoso usados nestes distúrbios mostram uma tendência de consumo crescente. Segundo dados da consultora IMS-Health cedidos ao i para as transacções entre armazenistas e farmácias, entre 2007 e 2011 o número de unidades vendidas de Concerta, Rubifen e Ritalina (princípio activo metilfenidato) aumentou 78% para 196 749 embalagens no ano passado. Nos primeiros três meses deste ano foram vendidas cerca de 65 mil unidades destes medicamentos, um aumento ligeiro em relação ao primeiro trimestre de 2011 (61 200).

Embora o fenómeno da “geração ritalina” seja um tópico de discussão comum nos últimos anos, os dados não permitem uma leitura inequívoca. Ontem o tema voltou a estar em cima da mesa depois do alerta do pediatra do desenvolvimento Miguel Palha a propósito da ruptura do stock de um destes medicamentos (o Rubifen) nas farmácias. À Lusa, o especialista diz que, porque a substituição de medicamentos nem sempre é viável e porque as alternativas são mais caras, a ausência de um medicamento está a levar pais e pediatras ao desespero: “As crianças querem estudar e não conseguem. Sem estudo e concentração não conseguem boas notas. Estão a ser empurradas para o insucesso e até para a reprovação”, disse.

DOIS MOVIMENTOS Se para o pediatra Mário Cordeiro o apelo é algo exagerado, por fazer depender o sucesso estritamente da medicação, a psicóloga Maria João Ferro acredita que há dois movimentos que podem explicar tanto o apelo de Miguel Palha como o aumento das vendas de metilfenidato e algum exagero na prescrição: “Acho que temos mais informação e as crianças que, de facto, estão bem diagnosticadas e a fazer medicação podem não progredir se o tratamento for interrompido. Por outro lado, há casos subvalorizados. A minha dúvida é se em Portugal se faz a escada toda de avaliação até à medicação.” Da mesma opinião é Linda Serrão, presidente da Associação Portuguesa de Crianças Hiperactivas. Embora acredite que o aumento das vendas não reflicta necessariamente os diagnósticos, sublinha que continuam a existir crianças bem e mal avaliadas. “Há profissionais a fazer diagnósticos aos três anos, há crianças a tomar medicação que não precisam, mas também famílias que precisavam de dar medicação aos filhos e não conseguem, por ser cara.”

Maria João Ferro admite que têm aumentado os pedidos de avaliação, tanto de médicos como por iniciativa dos pais. E alerta que, embora haja abordagens comportamentais importantes, há casos em que a medicação é a solução. “Estamos a falar de uma perturbação neurobiológica, com vários gradientes. Se tivermos um bom centro de desenvolvimento, tenho poucas dúvidas de que as coisas sejam mal feitas. Mas pode haver outros profissionais que os medicam por tudo e por nada.” De qualquer forma, sublinha, o aumento das crianças e jovens medicados não é um problema exclusivo do país. “Há investigações que apontam para a hereditariedade, há outras que apontam para que a falta de exercício e intelectualização da sociedade possam aumentar a agitabilidade, mas neste momento não temos uma causa para o défice de atenção e a hiperactividade. Mas são dois problemas que convém não misturar: os casos bem diagnosticados, com alterações neurobiológicas, e os meninos que se metem neste saco.”

Realidades que se misturam na prática. Para Marina, a frustração e os maus resultados dos dois filhos na escola acabam por pesar mais do que um diagnóstico fechado, com apoio dos médicos. Mas assume que é muito um problema de maturidade e de degradação das relações e dos hábitos das crianças, porque o estilo de vida mudou. Na hora da verdade, o comprimido acaba por ser mais fácil e dar mais segurança a pais e crianças.

In: I online

Revista Lusófona de Educação - Educação Inclusiva

O blog Educação Especial, editado pela colega Susel Gaspar, divulga a revista Lusófona de Educação nº 19 (2012) dedicada à educação inclusiva. 

Publico parte do editorial.

Para este número da Revista Lusófona de Educação lançámos o desafio aos nossos colaboradores de refletir e fazer refletir sobre a temática da Inclusão social e educativa, numa tentativa de desconstruir o conceito, para o reconstruir em toda a sua pertinência, atualidade e necessidade, e de o operacionalizar em termos sociais e educativos. 

Falar de Inclusão ou sobre inclusão “virou moda” nos discursos sociais, políticos e educativos, mas cada um entende-a como lhe convém ou como a circunstância o recomenda. Se é bem verdade que falar de inclusão é, por si só, um ato de exclusão é mais verdade que muita exclusão se faz (in)conscientemente sob o “chapéu” da suposta inclusão, abrangendo, entre outros, o género, a etnia, a religião, a pobreza, a imigração ou a deficiência. 

Porque a Educação é o nosso campo de atuação mais próximo e porque o discurso da nossa política educativa não tem determinado as práticas inclusivas, reportemo-nos ao tão controverso decreto-lei 3/2008, de 7 de janeiro, normativo que orienta a organização e o funcionamento da Educação especial ou escola inclusiva e educação inclusiva, como é referido no seu preâmbulo. Os quatro anos passados sobre a publicação do mesmo só vieram confirmar e reafirmar as críticas na altura formuladas. 

Hoje temos maior consciência do retrocesso que foi, relativamente à legislação vigente, na altura, consubstanciada no decreto-lei 319/91, de 23 de agosto, e no Despacho conjunto nº 105/97, de 01de julho, embora, na altura, se reconhecesse que necessitava de ajustamentos. Todavia, não era previsível que o fosse promovendo uma política de contornos conservadores e retrógrados, que facilitam a exclusão e limitam o acesso à educação inclusiva, para os alunos em situação de deficiência, em especial dos surdos, cegos, multideficientes e com perturbações do espectro do autismo. Ao restringir a sua aplicação aos alunos em situação de deficiência (necessidades educativas especiais de caráter permanente), resultante da aplicação da Classificação Internacional da Funcionalidade (CIF), que pôs de costas viradas os vários técnicos intervenientes na sua aplicação, propicia a segregação e não cumpre os princípios enunciados no seu preâmbulo, consignados nos princípios internacionais de direitos humanos. É consensual que as necessidades educativas especiais não são um exclusivo das crianças e jovens em situação de deficiência. 

A criação de escolas de referência para alunos surdos e para os alunos cegos e com baixa visão, as unidades de ensino estruturado para alunos com perturbações do espectro do autismo e as unidades de apoio especializado para alunos com multideficiência e surdocegueira congénita são, sem dúvida, uma boa resposta para alguns profissionais que não querem sair da sua zona de conforto, mas nunca o serão para defender o superior interesse das crianças e dos jovens. 

Uma boa parte das unidades (generalizar é sempre arriscado) são uma forma de ir buscar mais recursos, sinalizando, por vezes, crianças e jovens que de outro modo teriam lugar efetivo na turma à qual estão agregados, sendo estes alunos obrigados a conviver, quase exclusivamente, com crianças e jovens com a mesma ou outra deficiência pior que a sua (até as refeições são feitas em tempos desencontrados e, por vezes, as ditas unidades são instaladas fora do edifício escolar). A experiência havida com as classes especiais, criadas em 1946 e extintas nos anos setenta, entre outras, provou que as experiências de segregação, prejudicam gravemente as aprendizagens mútuas, o processo de socialização e a futura inclusão na sociedade. A segregação encapotada de inclusão não é, certamente, a solução. 

O fato de os docentes de Educação especial serem nomeados para exclusivo atendimento aos alunos considerados com necessidades educativas especiais de caráter permanente, definindo melhor a identidade destes docentes, abriu ainda mais o fosso entre os dois sistemas, o regular e o especial, já que se radicalizou a desresponsabilização dos professores do ensino regular por todos os alunos da sua turma e a proliferação de espaços onde são ensinados, em conjunto e por professores especiais, os alunos que não são desejados nem pelo sistema regular nem pelos professores. 

Recuar a modelos do passado, em vez de os pensar em função das dinâmicas do presente e das perspetivas do futuro não pode ser o caminho para uma escola que se quer universal e a dar resposta a cada um dos seus alunos. Não é previsível que o governo agora empossado, dado o cariz das medidas que têm vindo a ser tomadas e a filosofia que lhes está subjacente, possa preocupar-se em alterar as práticas educativas, no sentido da construção de uma escola equitativa, onde todos tenham lugar para aprender e para participar com os colegas e os amigos da sua comunidade (...).

Isabel Sanches, António Teodoro

Para consultar a revista, aqui.

Via: Incluso

quinta-feira, 3 de maio de 2012

I Simpósio sobre Aquisição da Língua Gestual

O Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa vai realizar entre 21 e 23 de março de 2013 o I Simpósio sobre Aquisição da Língua Gestual, que reunirá especialistas europeus, norte-americanos e portugueses.

Este simpósio tem como finalidade promover a disseminação de conhecimentos sólidos resultantes de investigação na área da aquisição de uma língua e muito particularmente na aquisição das línguas gestuais e destina-se, essencialmente, a investigadores na área da aquisição de uma língua, investigadores na área das perturbações específicas, docentes de crianças em idade escolar, docentes de ensino especial, psicólogos na área do desenvolvimento, terapeutas da fala, médicos otorrinos e médicos pediatras do desenvolvimento.

Mais informações sobre o programa do simpósio, prazos e regulamento para submissão de comunicações e inscrições poderão ser obtidas aqui.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A Inclusão Escolar e Social de Crianças/Jovens com deficiência: Qual o Papel dos Pais?


Call center inovador apoia clientes em língua gestual

A Vodafone lançou, na passada sexta-feira, um serviço inédito de apoio a clientes em Língua Gestual Portuguesa (LGP) para surdos e pessoas com deficiência auditiva, tornando-se a primeira empresa nacional a disponibilizar um call center destinado, em particular, a esta comunidade.

Em nota de imprensa, a companhia explica que este serviço de apoio a clientes tem como intuito "colmatar as dificuldades específicas na comunicação com clientes possuidores de deficiência auditiva" e será possível através de uma vídeochamada gratuita para o número 12717 entre as 9.00h e as 20.00h durante os dias úteis.

Segundo a Vodafone, a implementação desta linha de apoio exigiu a criação de uma equipa de assistentes de call-center fluentes em LGP que, durante o período de formação, foram acompanhados por uma intérprete profissional e pelo presidente honorário da Associação Portuguesa de Surdos, Professor João Alberto Ferreira.

Por meio de um trabalho conjunto, ambos adequaram e transpuseram para Língua Gestual Portuguesa todos os módulos de formação de atendimento ao cliente que, anteriormente, passavam somente pela comunicação por voz. 

Além disso, dada a inexistência em LGP de determinadas palavras específicas do léxico das telecomunicações, a empresa esclareceu que foram adaptados gestos para designar, por exemplo, "pen de acesso à Internet", "tarifário" ou "rede", gestos esses que serão introduzidos na comunidade utilizadora da língua de forma gradual.

Desde 2005 que, no âmbito da sua política de responsabilidade social, a Vodafone Portugal disponibiliza tarifários com condições especiais e equipamentos adaptados para pessoas com incapacidade comprovada igual ou superior a 60%, "visando contribuir eficazmente" para a sua "integração" na "Sociedade de Informação".