terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ACAPO recebe certificação de qualidade

A ACAPO recebe hoje uma certificação de qualidade. A distinção é atribuída pela Associação Portuguesa de Certificação, entidade acreditada e reconhecida no âmbito do Sistema Português da Qualidade.

Professores deviam aprender Braille

O Braille deve integrar os planos de estudo da formação de professores para ajudar a que os alunos cegos tenham acesso à leitura e escrita, defende a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO).

«A educação de uma criança cega privada do Braille está comprometida. Seria o mesmo que tentar educar uma criança normovisual sem lhe ensinar a ler ou a escrever, substituindo a leitura e a escrita pela passagem de informações orais», compara o presidente da ACAPO, Carlos Lopes.

Em vésperas do Dia Mundial do Braille, que se assinala terça-feira, Carlos Lopes lembra que é fundamental que as escolas tenham recursos técnicos e humanos que possibilitem a utilização do Braille por parte de um aluno cego.

Por isso, defende que «as entidades de ensino superior responsáveis pela formação de docentes incorporem uma componente académica sobre o Braille».

Outro dos entraves ao direito pleno à educação e informação é a carência de obras literárias ou científicas transcritas para Braille.

Não há estimativas fiáveis da produção em Braille de livros em língua portuguesa, mas a ACAPO assegura que é «manifestamente reduzida». E quando acontece nunca é feita pelas editoras, mas por entidades que se dedicam a apoiar quem tem dificuldades visuais.
«Deve ser prestada especial atenção a todos os sectores que concorram para o total acesso à informação e, assim, garantir às pessoas cegas a igualdade de oportunidades», refere Carlos Lopes à Lusa.

O presidente da ACAPO lamenta ainda a ausência de dados sobre os portugueses que sabem Braille e considera crucial realizar um estudo de caracterização de sistema de leitura e escrita.

«A ACAPO considera de enorme relevância a realização de um estudo de caracterização da utilização do Braille por parte das pessoas cegas, que nos permitisse conhecer quem, como e quando utiliza o Braille, mas também qual a relação já posta em evidência por estudos internacionais, entre o ensino e a utilização do Braille e o sucesso escolar e profissional», refere o dirigente associativo.

Por: Lusa/ SOL

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Reconstruindo a imagem profissional do professor

Do individualismo às comunidades educativas Quando ouvimos a palavra professor qual é a imagem que nos assalta? Penso que será quase unânime a resposta: uma pessoa diante de uma turma que transfere através da oralidade os conteúdos do programa e que no fim da semana faz uma ficha de avaliação. Contudo, nós temos a percepção de que para que um aluno atinja plenamente as suas potencialidades, o professor tem necessariamente de fazer muito mais do que o que foi descrito na imagem anterior.

O profissionalismo docente não se compadece em aceitar este modus operandi por parte do professor, se o que desejámos é que o aluno seja bem-sucedido. Os "verdadeiros" profissionais da educação utilizam muitas ferramentas diferenciadas para avaliar como os seus alunos aprendem, bem como para saber aquilo que eles já sabem. Eles usam esta informação para ajudar os alunos a avançarem do ponto da aprendizagem onde se encontram até ao ponto aonde precisam de ir. Os professores organizam actividades, materiais e a instrução com base nos conhecimentos que os alunos detêm e também de acordo com o nível de desenvolvimento que se espera que estes atinjam. Os professores devem ter uma ideia clara sobre as concepções que os alunos têm daquela disciplina. A partir destas interpretações, quer elas sejam positivas ou negativas, o professor poderá começar a fazer o design das lições. Ao fazer a adaptação dos currículos nacionais tendo em consideração as avaliações referidas, o professor poderá mais facilmente tornar acessíveis os conteúdos aos alunos que apresentem mais dificuldades ou que tenham necessidades educativas especiais.

Os professores que agem como profissionais normalmente criam situações de aprendizagem activa para os seus alunos através da organização de debates, do desenvolvimento de pesquisas, de trabalhos de escrita, de envolvimento na avaliação, no uso da experimentação e através da construção de modelos, da escrita de artigos, e construção de produtos em adição ao ouvir e ler informação, assistir a simulações e fazer uso das novas tecnologias.

A capacidade de comunicar com os mais jovens é também decisiva para um bom professor. Esta capacidade passa por gostar de estar com os mais novos, da exuberância barulhenta dos seus comportamentos e do intenso questionamento, uma vez que estes fazem parte do seu processo de crescimento como pessoas. Comunicar com os mais jovens significa criar empatia, significa procurar compreender a realidade através dos seus olhos, o que nem sempre acontece nas salas de aula. Rogers há décadas atrás referia que poderemos assistir a milhares de interacções em sala de aula sem nunca nos cruzarmos com um caso de comunicação clara, de cuidado sensível, de compreensão empática.

Os professores que agem como profissionais esperam que os seus alunos alcancem níveis de qualidade e de excelência muito elevados e por isso mesmo eles próprios agem desse modo, servindo de modelos para os seus estudantes. Eles também dão um feedback constante aos seus alunos o que lhes propicia uma informação preciosa para constantemente reverem os seus modos de trabalho e estudo com vista a alcançar os padrões de qualidade e de excelência desejados.

O envolvimento das famílias nos processos de ensino-aprendizagem é também muito importante uma vez que estreita os laços entre os dois microssistemas mais importantes dos quais os alunos participam: a escola e a família.

Os laços com os restantes professores são de cooperação criando um clima de formação positivo que funciona como um dos pilares das aprendizagens qualitativas dos alunos. As escolas onde estes professores actuam transformam-se, assim, em comunidades de aprendizagem, as quais se constroem a partir da necessidade colectiva de pertença. As comunidades de aprendizagem são feitas de pessoas que partilham um objectivo comum. Elas colaboram para aproveitar as forças individuais, respeitando e incluindo a variedade de perspectivas e activamente promovem oportunidades de aprendizagem. Os resultados esperados são a criação de um vibrante e sinergético ambiente, a melhoria do potencial individual dos seus membros, e a possibilidade de que novos conhecimentos possam ser criados.

Por: Cristina Sousa

Transitar de ciclo aos 8 anos

Anteriormente era possível completar o 1.º ciclo do Ensino Básico em três anos, menos um do que o habitual, neste momento uma criança com oito anos pode transitar para o 2.º ciclo. Em 2005, a lei estipulava que um aluno só podia deixar o 1.º ciclo com 9 anos, mas, mesmo assim, havia escolas que aceitavam os sobredotados de 8 anos. A mudança mais recente já está publicada em Diário da República. O que permite que os mais pequenos com capacidades de aprendizagem excepcionais e os que entraram na escola com 5 anos possam passar para o 2.º ciclo com apenas 8 anos.

"Cada caso é um caso e mesmo os sobredotados são todos diferentes", avisa a psicóloga Paula Monteiro, que acompanha famílias na resolução de várias problemáticas. Em seu entender, é preciso ter em conta vários factores antes de transitar um aluno de 8 anos para o 2.º ciclo ou retê-lo no 1.º. A maturidade e a estabilidade emocional da criança são duas variáveis que, na sua opinião, têm de ser bem ponderadas antes de se tomar uma decisão.

É necessário, portanto, perceber quais as vantagens e desvantagens para o aluno ao acelerar a sua mudança de ciclo. Segundo Paula Monteiro, mesmo nos casos das crianças com capacidades de aprendizagem excepcionais é preciso analisar bem se é preferível continuar a motivá-las ou se a transição será mais benéfica.

Para a investigadora Maria José Araújo, do Centro de Investigação e Intervenção Educativas da Universidade do Porto, a questão não se pode resumir à idade da criança. A cultura escolar e as experiências dos mais pequenos, o meio onde crescem, o que assimilam, são também importantes neste assunto. "Se as crianças fossem avaliadas pela sua capacidade de brincar, a questão da idade não se colocava", constata. "As crianças não se definem pela sua idade biológica", acrescenta.

Transitar de nível de ensino mais cedo do que o habitual? Para Maria José Araújo esta pergunta não deve ser colocada. "A questão tem essencialmente a ver com o tipo de cultura escolar que temos, com as oportunidades que as crianças têm antes de entrar para a escola e dentro do contexto escolar." Os factores culturais falam mais alto do que os biológicos quando o assunto é concluir o 1.º ciclo em três anos. "Como as crianças são todas diferentes e têm diferentes ambientes e experiências de vida, o que está aqui em causa é a possibilidade de a instituição escolar estar atenta a todas as crianças e às suas especificidades e possibilidades. Se as competências exigidas pela escola para passar de ano ou de ciclo estiverem cumpridas, é bom que isso aconteça", refere.

Os mais pequenos sabem muitas coisas, mas tudo depende das oportunidades que lhes são dadas para evidenciarem o que sabem. "O discurso do 'sucesso' ou do 'insucesso', dos sobredotados ou dos incapazes, enfatiza a natureza das crianças, individualiza as aprendizagens e esquece as questões culturais. Esquece as exigências da cultura escolar e os percursos e conhecimentos das crianças", afirma. A transição de ano ou de ciclo deve, na sua opinião, acontecer quando as crianças estão preparadas para o desafio seguinte.

Amélia Josefina, professora primária há mais de 30 anos, teve dois casos de sucesso. Dois alunos que entraram na escola com 5 anos e que transitaram para o 2.º ciclo antes de fazerem 9 anos. Mesmo assim, a docente considera que normalmente as crianças que entram com 5 anos, e que completam os 6 até Dezembro, são imaturas, notando-se um grau de dificuldade nomeadamente na apreensão de noções de Matemática mais abstractas e que se repercute na interpretação de textos, no Português. Por isso, há algumas reservas nessa passagem antecipada.

No caso dos alunos que sobressaem, que revelem capacidades de aprender acima da média, Amélia Josefina defende que a transição deve ser feita caso os professores considerem que o percurso do aluno assim o justifique. Mas aqui é importante não esquecer apenas os níveis de aprendizagem, mas também ter em consideração a parte emocional. "Os processos devem ser muito bem feitos e analisados", afirma. 
 
In: EDUCARE

Símbolos ajudam daltónicos

Entrar no hospital, fazer a triagem de Manchester e não precisar de ajuda para saber qual o serviço a que tem de ir é agora uma realidade para os daltónicos. As cores dos serviços vão passar a ser acompanhadas por símbolos que permitem a sua identificação. O sistema, destinado a auxiliar os daltónicos a orientarem-se, já está a ser utilizado no Hospital de São João, no Porto, e irá chegar a todo o Serviço Nacional de Saúde.

O facto de o sistema de triagem usado nos serviços de Urgências ser feito através de cores e de haver pessoas que não as conseguem distinguir esteve na base da investigação. A solução chegou com o projecto do designer e professor da Universidade do Minho Miguel Neiva. O catedrático inventou um código de cores universal para os daltónicos.

"Pensei em algo que pudesse dar independência aos daltónicos", explica Miguel Neiva. A ideia surgiu em 2000 e destinava-se a uma tese de mestrado. A pouca informação que havia sobre esta perturbação e o objectivo de criar algo que fosse útil aos daltónicos levaram o designer a dedicar sete anos da sua vida à investigação.

Pegou no conceito das cores primárias e criou um símbolo simples que as representasse. Combinando esses três símbolos, obteve os símbolos de todas as outras cores.

O código de cores estava criado mas Miguel Neiva ainda esperou um ano e meio para garantir o reconhecimento e a acreditação da comunidade científica e académica mundial. Em Maio de 2010, o sistema foi finalmente aplicado. Em Dezembro, foi implementado na área da Saúde através do Hospital de São João.

Para já, o código ColorAdd está nas linhas existentes no chão dos corredores do hospital que orientam os utentes para os diversos serviços. Posteriormente, será implementado nas pulseiras de triagem.

No futuro, todos os hospitais públicos com triagem de Manchester irão adoptar este sistema.

O código também já está a fazer sucesso além-fronteiras. Exemplo disso é o interesse demonstrado por um hospital novo de Inglaterra.

Já neste mês, um dos hospitais de Lisboa irá incluir o ColorAdd nos fármacos administrados no seu bloco operatório.

PERFIL

Miguel Neiva criou o sistema de identificação de cores para daltónicos, registado com a marca ColorAdd. É designer e professor na Universidade do Minho. O projecto surgiu da sua tese de mestrado sobre a indústria têxtil. A investigação demorou sete anos, mas já começou a ser aplicada.

DISCURSO DIRECTO

"O CÓDIGO É A SIMULAÇÃO DOS TRÊS CONES DO OLHO": Falcão Reis, Director de Oftalmologia do Hosp. S. João

Correio da Manhã – O que é o daltonismo?

Falcão Reis – É uma anomalia ocular. A discromatopsia, que é o termo científico, é adquirida ou congénita. Esta divide-se em três tipos: confusão entre vermelho e verde, outras tonalidades de vermelho e verde e as várias tonalidades de azul e amarelo.

– Como vê este código de cores?

– O código é muito bem pensado porque se baseia em três símbolos básicos. No olho há três cones: azul, verde e vermelho. O código é a simulação dos três cones.

– Qual a utilidade do código?

– Acho muito útil porque o daltonismo é uma situação muito vulgar e este é o único projecto que existe a nível mundial para ajudar estas pessoas.

TINTAS E LÁPIS COM COLORADD

O código de cores ColorAdd já está a ser utilizado pela empresa de tintas CIN e pela fábrica de lápis Viarco. Os dois exemplos mostram a abrangência da aplicação deste sistema. Tanto pela diversidade de códigos para expressar as diferentes cores e suas tonalidades, como pelo facto de crianças e adultos começarem a assimilar este sistema.

PÚBLICO REJEITA COR DE BOLA

Quando a Adidas criou a bola de futebol Jabulani em tons de laranja, estava longe de imaginar a rejeição por parte do público masculino. Um grupo de pessoas daltónicas queixou-se de que não via as bolas, tanto nos jogos ao vivo como nas transmissões televisivas. Resultado: a bola teve de mudar de cor.

As bolas iriam ser utilizadas nas competições organizadas pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional nesta época mas nem chegaram a sobreviver à pré-época desportiva. Para os espectadores daltónicos, o esférico laranja – muito parecido com o vermelho – era confundido com o campo verde.

Após as queixas recebidas na Liga durante o mês de Julho, o organismo contactou o fabricante, que se comprometeu a alterar a cor das bolas. A mudança foi feita a partir de Novembro. As Jabulanis deixaram de ser laranjas para adoptar uma cor bem mais clara: o branco.

O MEU CASO: CARLOS DO CARMO

"VEJO CINZENTO NAS CORES INTERMEDIÁRIAS"


Carlos do Carmo foi um dos primeiros a conhecer o sistema de identificação de cores e a saber da sua aplicação no sistema hospitalar. Isto porque o fadista também é daltónico. "Cores fortes, como o verde, o branco, o preto, o vermelho, o amarelo, o azul, eu distingo. Mas depois há umas cores intermédias em que para mim é tudo cinzento", explicou.

Apesar de enaltecer a implementação do código ColorADD no sistema hospitalar, reconhece que a sua utilização noutras áreas será muito útil. Principalmente no seu caso pessoal, em que precisa de ajuda para combinar as peças de roupa. "Ao longo da vida fui ajudado pela minha mulher em termos de combinação de roupa, uma vez que a minha actividade é pública e tenho que ir para cima de um palco. Imagine o que é eu pôr uma gravata verde com uma camisa cor-de--rosa, vou estragar tudo", contou.

Carlos do Carmo faz parte dos 8% de homens que sofrem de daltonismo. Tal como quase todos os daltónicos, nunca pensou que esta perturbação fosse motivo para investimento. Foi com surpresa e, sobretudo, alegria que soube do código universal criado por um designer português. "Parece-me uma coisa do maior interesse, que está a ser aceite um pouco por todo o Mundo", defendeu. Agora, o essencial, diz, é aplicar o projecto com crianças em idade escolar.

PERFIL

Carlos do Carmo nasceu em Lisboa há 70 anos. É filho de Lucília do Carmo, uma das maiores fadistas do século XX, e de Alfredo de Almeida, livreiro. Começou a sua carreira no fado em 1963. Sofre de daltonismo.