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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Avaliar professores é fácil?

A avaliação de um professor não pode ser uma actividade episódica, pontual e descontinuada. É uma actividade projectada no futuro.

Não! A avaliação de professores não é uma tarefa simples. Que o digam os supervisores que, durante décadas, promoveram a formação inicial e permanente dos nossos docentes. Para avaliar professores requerem-se características pessoais e profissionais especiais, para além de uma formação especializada e de centenas de horas de treino, dedicadas à observação de classes e ao registo e interpretação dos incidentes críticos aí prognosticados.

Cuidado com as ratoeiras! Quem foi preparado para avaliar alunos não está, apenas pelo exercício dessa função, automaticamente preparado para avaliar os seus colegas…

A avaliação de professores é uma tarefa complexa. Desde logo, requer um perfil específico do avaliador. Ou seja, nem todos os professores reúnem as condições para avaliarem. O avaliador terá que ser uma pessoa com conhecimentos especializados, com enorme sensibilidade, com capacidade analítica e de comunicação empática, com experiência de ensino e elevada responsabilidade social. Terá que ser um profissional que sabe prestar atenção, sabe escutar, sabe clarificar, sabe encorajar e ajudar a encontrar soluções, sabe dar opiniões, e que sabe ainda negociar, orientar, estabelecer critérios e assumir todo o risco das consequências da sua acção.

É necessário que domine com rigor as técnicas de registo e de observação de aulas, conheça as metodologias de treino de competências, os procedimentos de planeamento curricular, e as estratégias de promoção da reflexão crítica sobre o trabalho efectuado.

Escolher um avaliador obriga a uma selecção aturada, fundamentada, baseada em critérios de indiscutível mérito e, depois, a uma demorada formação específica e especializada. Para que uma avaliação tenha consequências, o avaliado não pode ter quaisquer dúvidas sobre o mérito do avaliador.

Avaliar é uma tarefa periscópica. O avaliador é chamado a pronunciar-se sobre inúmeros domínios sobre os quais se reflecte o pluridimensional acto de ensinar. Quando avalia, olha o professor sobre variadíssimos ângulos e prismas: aprecia o professor enquanto pessoa, como membro de uma comunidade profissional, como técnico qualificado na arte de ensinar e como especialista das matérias que ensina.

Por outras palavras o avaliador avalia o professor em vertentes tão diferenciadas quanto o são o seu ser, o seu saber e o seu saber fazer. Logo, o avaliador tem que estar atento a um grande número de variáveis que intervêm na função docente: variáveis de produto, de processo, de presságio, de carácter pessoal e profissional…

O avaliador recolhe elementos que permitam avaliar, e depois classificar, o professor enquanto tenta responder às seguintes questões: Onde ensina? O que é que ele ensina? Como é que ensina? O que aprendem os seus alunos? Como se auto avalia? Que capacidade tem para reformular a sua actuação? Com que profundidade domina as matérias que pretende ensinar?

O avaliador não trabalha com o professor apenas na sala de aula. Ele tem que apreender o modo como o professor se envolve com os seus alunos numa situação de classe, mas também como este se implica junto da comunidade escolar e na sociedade que envolve a escola. Porque trabalha com ele como profissional, mas também enquanto pessoa.

Formar um avaliador leva tempo, elevadas doses de paciência, muito treino e conhecimento especializado. A escolha de um avaliador não pode ser casual e, sobretudo, não pode depender de critérios político-administrativos.

Porquê? Porque o avaliador tem que saber verificar não só o que os professores fazem, mas também como o fazem e, simultaneamente, garantir a melhoria da qualidade da sua intervenção na sala de aula, bem como a qualidade do produto, isto é, da aprendizagem dos alunos.

Por isso mesmo a avaliação de um professor não pode ser uma actividade episódica, pontual e descontinuada. A avaliação de um professor requer uma actividade continuada, porque importam mais as actividades de reformulação que venham a ser consideradas do que o simples diagnóstico da sua actual situação. A avaliação de um professor é então uma actividade projectada no futuro.

Avaliar um professor é, pois, dizíamos, uma tarefa muito, mesmo muito complexa. Simples, muito simples mesmo, é avaliar governante que pensa ser possível reduzir a avaliação dum professor a uma mera empreitada administrativa, compilada em duas páginas de panegíricos ou de recriminações.

Por: João ruivo

Professor universitário


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Questões sobre a avaliação dos professores

O processo da avaliação dos professores para acesso à carreira está ainda longe de estar resolvido. Não adianta fazer manobras de diversão dizendo que é um assunto encerrado, que até foi decidido por Governos anteriores e que a contestação a esta prova é manipulada por umas poucas de pessoas desordeiras e mal-intencionadas. Estas opiniões, que têm sido veiculadas por pessoas responsáveis no Ministério da Educação (ME), procuram construir uma parede de normalidade e de certezas numa prova que está eivada de incorreções. 

Recentemente, o Conselho Científico do Instituto de Avaliação Educativa considerou por unanimidade que esta prova não era válida para os fins a que se propunha. Esta posição de um órgão independente, onde têm assento os representantes das associações de professores das disciplinas curriculares, não mereceu qualquer comentário do ME, como se fosse mais uma daquelas “ações desordeiras”. Afinal, o que será preciso mais, depois deste parecer, depois da contestação da comunidade científica das Ciências da Educação, depois da contestação dos sindicatos mais representativos da profissão, para que o ministério, de uma maneira honesta e cidadã, arrepie caminho? 

Antes de mais, cabe dizer que a avaliação de professores é um processo essencial. Há muito que se devia saber (e atuar em conformidade) que a avaliação pode e deve ter uma função formativa e apontar áreas e justificações que podem melhorar o desempenho profissional. Os professores não são iluminados e inspirados por forças sobrenaturais: são inspirados pela análise reflexiva das suas práticas, pelos conhecimentos que adquirem e pelas atitudes que desenvolvem face à sua profissão. Assim, deve-se pugnar por uma avaliação que seja útil e ética, isto é, uma avaliação formativa. Como disse antes, a avaliação regular e formativa é essencial ao longo da carreira. 

E no que respeita à entrada na carreira? Vejamos: é facilmente compreensível que, havendo mais candidatos do que vagas, existe a legítima possibilidade do empregador, neste caso o ME, usar processos de seleção que lhe permitam recrutar os melhores profissionais. Estes processos de seleção, no caso de um serviço público, devem ser escrutinados e conhecidos. Penso que não colhe o argumento que as instituições de formação são acreditadas e isso basta. Todos sabemos que há critérios e bitolas de classificação diferentes, já para não falar em todo o conjunto de práticas e modelos de formação que não permitem aquilatar com base só na classificação do curso a qualidade de um profissional diplomado. Isto não constitui uma desconfiança: é uma simples constatação da heterogeneidade de modelos de formação. 

Mas então quais são as questões com a avaliação dos professores para a entrada na carreira? São múltiplas, mas gostaria de comentar três delas: 

a) A presente avaliação não avalia o que pretende avaliar. Uma avaliação séria deveria fornecer dados sobretudo em três áreas: conhecimentos específicos sobre Ciências da Educação e das matérias que irão ser lecionadas, desempenho da profissão (ex: competências de planeamento, de intervenção, de interação, de avaliação, de cooperação de diferenciação do currículo, etc.) e atitudinais (atitudes mais ou menos positivas face ao papel da educação, da escola e do progresso dos alunos). Nenhuma delas é satisfatoriamente avaliada nesta prova; 

b) Realizar uma prova sobre conhecimentos gerais é humilhante para qualquer profissional. Procurar selecionar pessoal com base em “questões de algibeira” menoriza o profissional e não dá qualquer informação sobre a sua capacidade profissional. Estes resultados são falaciosos fossem eles aplicados a professores, a membros do Governo, a médicos, etc.; 

c) Diz-se que os 15% de professores que “chumbaram” na prova deram erros ortográficos inaceitáveis. Mas depois de toda a parafernália justificativa da adequação da prova em termos de conhecimentos gerais e específicos, não ficou claro se este assunto dos “erros ortográficos” não é um critério inesperado e de repente se tornou decisivo. 

Para resolver esta trapalhada avaliativa, há vários modelos e possibilidades. Por exemplo, que exista um ano probatório; por exemplo, que a componente de trabalho de projeto ou estágio nos mestrados em Ensino seja repensada, em colaboração com o Ministério da Educação; por exemplo, que exista uma supervisão do estágio profissional que permita uma dupla certificação: para a escola de formação e para o Ministério da Educação. 

Há muitas possibilidades se houver o desejo de ser ético, de enfrentar problemas complexos com justiça e com competência. Enquanto o discurso for que “os professores não querem avaliação” e “os que se opõem são mal-intencionados”, vamos continuar a fazer de conta que tudo está bem. Vai-se continuar a cometer incorreções e injustiças. E pior: vamos continuar a erosão de prestígio e de confiança que a profissão de professor ter sido alvo nos últimos anos.

Por: David Rodrigues

In: Editorial da Newsletter n.º 80 da Pró-Inclusão: Associação Nacional de Docentes de Educação Especial

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Avaliação dos professores

Enquanto o discurso for que “os professores não querem avaliação” e “os que se opõem são mal-intencionados”, vamos continuar a fazer de conta que tudo está bem.

O processo da avaliação dos professores para acesso à carreira está ainda longe de estar resolvido. Não adianta fazer manobras de diversão dizendo que é um assunto encerrado, que até foi decidido por Governos anteriores e que a contestação a esta prova é manipulada por umas poucas de pessoas desordeiras e mal-intencionadas. Estas opiniões, que têm sido veiculadas por pessoas responsáveis no Ministério da Educação (ME), procuram construir uma parede de normalidade e de certezas numa prova que está eivada de incorreções.

Recentemente, o Conselho Científico do Instituto de Avaliação Educativa considerou por unanimidade que esta prova não era válida para os fins a que se propunha. Esta posição de um órgão independente onde têm assento os representantes das associações de professores das disciplinas curriculares, não mereceu qualquer comentário do ME, como se fosse mais uma daquelas “ações desordeiras”. Afinal, o que será preciso mais, depois deste parecer, depois da contestação da comunidade científica das Ciências da Educação, depois da contestação dos sindicatos mais representativos da profissão, para que o ministério, de uma maneira honesta e cidadã, arrepie caminho?

Antes de mais, cabe dizer que a avaliação de professores é um processo essencial. Há muito que se devia saber (e atuar em conformidade) que a avaliação pode e deve ter uma função formativa e apontar áreas e justificações que podem melhorar o desempenho profissional. Os professores não são iluminados e inspirados por forças sobrenaturais: são inspirados pela análise reflexiva das suas práticas, pelos conhecimentos que adquirem e pelas atitudes que desenvolvem face à sua profissão. Assim, deve-se pugnar por uma avaliação que seja útil e ética, isto é, uma avaliação formativa. Como disse antes, a avaliação regular e formativa é essencial ao longo da carreira.

E no que respeita à entrada na carreira? Vejamos: é facilmente compreensível que, havendo mais candidatos do que vagas, existe a legítima possibilidade do empregador, neste caso o ME, usar processos de seleção que lhe permitam recrutar os melhores profissionais. Estes processos de seleção, no caso de um serviço público, devem ser escrutinados e conhecidos. Penso que não colhe o argumento que as instituições de formação são acreditadas e isso basta. Todos sabemos que há critérios e bitolas de classificação diferentes, já para não falar em todo o conjunto de práticas e modelos de formação que não permitem aquilatar com base só na classificação do curso a qualidade de um profissional diplomado. Isto não constitui uma desconfiança: é uma simples constatação da heterogeneidade de modelos de formação.

Mas então quais são as questões com a avaliação dos professores para a entrada na carreira? São múltiplas, mas gostaria de comentar três delas:

a) A presente avaliação não avalia o que pretende avaliar. Uma avaliação séria deveria fornecer dados sobretudo em três áreas: conhecimentos específicos sobre Ciências da Educação e das matérias que irão ser lecionadas, desempenho da profissão (ex: competências de planeamento, de intervenção, de interação, de avaliação, de cooperação de diferenciação do currículo, etc.) e atitudinais (atitudes mais ou menos positivas face ao papel da educação, da escola e do progresso dos alunos). Nenhuma delas é satisfatoriamente avaliada nesta prova;

b) Realizar uma prova sobre conhecimentos gerais é humilhante para qualquer profissional. Procurar selecionar pessoal com base em “questões de algibeira” menoriza o profissional e não dá qualquer informação sobre a sua capacidade profissional. Estes resultados são falaciosos fossem eles aplicados a professores, a membros do Governo, a médicos, etc.;

c) Diz-se que os 15% de professores que “chumbaram” na prova deram erros ortográficos inaceitáveis. Mas depois de toda a parafernália justificativa da adequação da prova em termos de conhecimentos gerais e específicos, não ficou claro se este assunto dos “erros ortográficos” não é um critério inesperado e de repente se tornou decisivo.

Para resolver esta trapalhada avaliativa, há vários modelos e possibilidades. Por exemplo, que exista um ano probatório; por exemplo, que a componente de trabalho de projeto ou estágio nos mestrados em Ensino seja repensada, em colaboração com o Ministério da Educação; por exemplo, que exista uma supervisão do estágio profissional que permita uma dupla certificação: para a escola de formação e para o Ministério da Educação. 

Há muitas possibilidades se houver o desejo de ser ético, de enfrentar problemas complexos com justiça e com competência. Enquanto o discurso for que “os professores não querem avaliação” e “os que se opõem são mal-intencionados”, vamos continuar a fazer de conta que tudo está bem. Vai-se continuar a cometer incorreções e injustiças. E pior: vamos continuar a erosão de prestígio e de confiança que a profissão de professor ter sido alvo nos últimos anos.

Por: David Rodrigues

Professor universitário, presidente da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial

In: Público

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Portugal é dos poucos países onde quem avalia escolas não assiste às aulas

Apenas Estónia e Hungria estão na mesma situação, segundo um relatório da rede europeia Eurydice, que aponta também para a participação limitada de pais e estudantes no processo.

Portugal está entre os três países na Europa onde a avaliação que é feita às escolas não contempla a observação de aulas por parte dos inspectores de educação.

A conclusão é de um relatório sobre qualidade no ensino publicado, esta semana, pela rede europeia Eurydice. O documento aponta também limitações à participação dos pais e dos estudantes neste processo, ainda que, genericamente, coloque o sistema de ensino nacional ao lado da maioria no que toca às diferentes práticas de avaliação seguidas. De acordo com este relatório europeu, além de Portugal só na Estónia e na Hungria é que os inspectores de educação não têm prevista a observação de aulas nos mecanismos de avaliação, que servem para assegurar a qualidade do ensino. Na maioria dos países, a prática seguida contempla um número mínimo de aulas a que devem assistir durante o processo de avaliação. Este valor está definido à partida e pode abranger entre 50% dos professores do país (no caso das escolas da comunidade de língua alemã da Bélgica) e os 70% (na Islândia).

Todavia, os autores deste documento, patrocinado pela Comissão Europeia, valorizam o facto de, entre as reformas actualmente em discussão para o modelo de avaliação do ensino português, estar prevista a observação do que se passa nas salas de aula como uma metodologia para a avaliação externa dos estabelecimentos de ensino. De resto, esta orientação foi introduzida no programa de formação dos técnicos da Inspecção-Geral de Educação e Ciência (IGEC), órgão tutelado pelo Ministério da Educação e Ciência encarregue da avaliação externa das escolas.

A apreciação do sistema de ensino português consta do relatório Assuring Quality in Education — Policies and Approaches to School Evaluation in Europe (Garantir a qualidade na educação — políticas e abordagens de avaliação das escolas na Europa), produzido pela rede Eurydice — que avalia 31 sistemas de ensino europeus, incluindo todos os Estados-membros da União Europeia, bem como a Islândia, Noruega, Turquia e Macedónia. O documento aponta também limitações à participação dos pais e dos alunos no processo de avaliação das escolas. Em Portugal, apenas uma amostra de estudantes e pais, ou representantes seus nos órgãos de gestão escolar, são consultados, ao passo que “na maioria dos países, todos os alunos e seus pais são consultados por meio de questionários”, dizem os investigadores da Eurydice.

Parte do trabalho desta rede europeia passou pela elaboração de um mapeamento extenso relativamente às práticas de avaliação da educação nos vários países. No caso de Portugal, à avaliação externa — responsabilidade da IGEC e que é feita, tipicamente, a cada cinco anos — junta-se a avaliação interna das próprias escolas. Esta prática tornou-se obrigatória a partir de 2002, mas o relatório refere que “não existem normas ou quadros de referência comuns”, sendo os estabelecimentos de ensino “livres para determinar os seus próprios procedimentos”.

Apesar das limitações apontadas, Portugal aparece ao lado da maioria dos sistemas de ensino europeu em todas as práticas relacionadas com a avaliação escolar. Segundo o relatório, a avaliação externa dos estabelecimentos de ensino é a prática mais comum de garantia de qualidade na educação (26 dos 31 sistemas de avaliação usam-na, incluindo o português), sendo mesmo obrigatória na maioria dos casos. As principais etapas do processo de avaliação são também comuns à maioria dos países e incluem análise preliminar, visitas às escolas e produção de relatórios com conclusões e recomendações.

Tal como no caso português, a maioria dos países tornam os resultados da avaliação públicos, sem qualquer tipo de reservas. Em todos os sistemas de ensino com avaliação externa as escolas são convidadas a implementar medidas destinadas a melhorar a qualidade das suas práticas. Em 12 dos países, incluindo Portugal, estes procedimentos são obrigatórios e prevêem a entrega de um plano de acção que aborde as deficiências identificadas.

O relatório elenca ainda outros mecanismos de garantia de qualidade existentes em Portugal, como o Conselho Nacional de Educação — que produz recomendações não vinculativas — e o trabalho do Instituto de Avaliação Educacional na elaboração de exames nacionais padronizados, cujos resultados são vistos como um instrumento para “identificar os problemas no sistema de ensino e de apoio à tomada de decisão”.

In: Público

terça-feira, 19 de março de 2013

Andreas Schleicher:”A avaliação não é o Santo Graal da educação”

"A avaliação de professores é um assunto controverso, mas cada vez mais países avaliam os seus docentes", admite Andreas Schleicher, porta-voz da OCDE em matérias de educação. O EDUCARE.PT ouviu-o numa webinar transmitida do Encontro Internacional sobre Profissão Docente, em Amesterdão.

"Os professores mudam as nossas vidas, mas quem assegura a sua competência profissional?" Com esta pergunta, Andreas Schleicher deu o mote no discurso de apresentação do relatório "Usando a avaliação para melhorar o ensino", elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e ao qual o EDUCARE.PT dará atenção noutro artigo. Trata-se de um "assunto controverso", reconhece o responsável pela área da educação, com propósitos e critérios nem sempre claros aos olhos dos docentes e falta de consenso sobre quem a deve fazer.

Os dados recolhidos pela OCDE revelam que oito em cada dez professores consideram a avaliação "justa e útil" para o seu trabalho; um em cada quatro confirma que tem impacto no seu desenvolvimento profissional; um em cada dez vê os seus efeitos refletidos no salário, mas três em cada quatro consideram que a avaliação não traz reconhecimento à sua capacidade de inovar nem à qualidade do seu ensino.

Contrariar o descrédito
Contrariar algum descrédito quanto à utilidade da avaliação do desempenho docente implica transparência dos processos, garante Schleicher: "É preciso haver clareza quanto às suas consequências." Até porque os professores esperam beneficiar das suas boas avaliações, diz o responsável pelo relatório. E acrescenta: "Se o propósito da avaliação não é claro vai perder a confiança dos professores e ter um impacto negativo."

Os professores portugueses sabem bem do que fala o responsável da OCDE. Em Portugal, a contestação à implementação do sistema de avaliação docente pela ministra Maria de Lurdes Rodrigues assumiu proporções nunca vistas, com greves, vigílias e manifestações por todo o país durante anos. Que, em última análise, conduziram ao afastamento da ministra.

Os receios da classe assentam no desconhecimento da resposta a esta grande questão: Avaliar para quê? Segundo a OCDE, a avaliação deve ter dois objetivos: o desenvolvimento profissional do professor, pelo que deve fornecer informação válida aos avaliados; e a sua responsabilização, o que implica uma definição de "boa prática de ensino" e a criação de um sistema de incentivos para motivar os professores ao seu alcance.

Como e para quê?
Avaliar como e com quê? Entre os países-membros objeto de estudo no relatório "Usando a avaliação para melhorar o ensino", a OCDE constatou uma grande variedade de critérios e instrumentos de avaliação. Comum a quase todos os modelos está o recurso à observação de aulas. A razão parece óbvia: é na sala de aula que efetivamente se dá a prática letiva. Mas não foram apenas os professores portugueses que reagiram mal a este instrumento. Mal explicado, o processo de observação pode suscitar no professor um sentimento de que está a ser vigiado, alerta a OCDE.

Diminuir a desconfiança, insiste Schleicher, implica continuar a aprimorar os instrumentos para a avaliação, de modo a torná-la mais justa e adaptada ao meio onde se inserem as escolas. O recurso à autoavaliação, outro dos instrumentos usado com frequência entre os vários países, é imprescindível diz Schleicher, já que "encoraja os professores a refletir sobre a sua prática".

Outras formas encontradas pelos países para avaliar os professores geram menos consenso. No México, por exemplo, os docentes são submetidos a exames. Controversa é também a inclusão dos resultados escolares obtidos pelos alunos ao longo do ano ou em exames nacionais no processo de avaliação do docente.

Na China a avaliação tem em conta a responsabilidade social do professor, entendida como o contributo dado para a comunidade onde se insere. Isto, para além da avaliação da qualidade da instrução e da capacidade de criar um bom ambiente na sala de aula, vertentes por norma comuns a todos os modelos de avaliação. A diversidade é muito bem vista pela OCDE assegura Schleicher: "É importante haver múltiplos critérios e instrumentos."

Instituído o processo de avaliação, é necessário definir o que fazer com os resultados. Avaliar para quê? Entre os países da OCDE, 16% dos professores afirmam que a avaliação tem impacto real na sua progressão na carreira; 27% consideram que tornou o seu trabalho mais atrativo. 

Tendo o desenvolvimento profissional como objetivo, na Alemanha os resultados da avaliação servem para identificar capacidades que os professores têm mas não usam nas suas aulas. Poucos são os países onde a avaliação influencia diretamente os salários, na maioria este impacto é sentido de forma indireta, através da progressão na carreira.

Apesar do otimismo que percorre o relatório da OCDE, Schleicher mostra-se ciente que os problemas dos sistemas educativos não desaparecem só porque os docentes são avaliados. "A avaliação não é o Santo Graal da educação", embora "muitos países tenham provado que através dela é possível melhorar a qualidade do ensino", conclui.

In: Educare

segunda-feira, 11 de março de 2013

Avaliação docente em Portugal não corresponde às boas práticas propostas pela OCDE

Relatório chama a atenção para a “combinação mal sucedida” existente em alguns países entre os resultados obtidos pelos docentes na sua avaliação e aqueles que são alcançados pelos estudantes.

Nem os resultados obtidos pelos alunos podem ser ignorados na avaliação docente, nem esta pode ser efectiva se não tiver no seu centro o que acontece em sala de aula, defende a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) num relatório divulgado nesta sexta-feira.

Em Portugal, devido à forte contestação de sindicatos e movimentos de professores, foi deixada cair a proposta de Maria de Lurdes Rodrigues no sentido de os resultados dos alunos contarem para a avaliação docente, e a observação das aulas passou a ter, em regra, um carácter facultativo.

No seu relatório Teachers for the 21st Century – Using Evaluation To Improve Teaching [Professores para o século XXI – Usar a avaliação para melhorar o ensino], a OCDE parte do princípio enunciado no título: o de que a avaliação docente deve contribuir para a melhoria do sistema de ensino e não apenas para a progressão na carreira. Frisando que “os resultados obtidos pelos estudantes são o critério essencial para o sucesso de um sistema de ensino” e que os “professores contam” no que respeita ao sucesso académico dos estudantes, a OCDE dá conta de que continua a existir, em alguns países, uma “combinação mal sucedida” entre os resultados obtidos pelos docentes na sua avaliação e aqueles que são alcançados pelos estudantes.

“Em alguns países, a grande maioria dos professores obtém as classificações mais altas na avaliação docente desenvolvida a nível nacional e, no entanto, o desempenho dos estudantes é insatisfatório”, constata-se no documento que antecede a realização da Terceira Cimeira Internacional sobre a Profissão Docente, que decorrerá no próximo dia 13, em Amesterdão.

Esta é a situação que se vive em Portugal. Segundo a OCDE, “esta combinação insatisfatória entre a mensagem enviada aos professores e o desempenho do sistema educativo no que respeita aos resultados obtidos pelos alunos reforça a importância de se utilizar sistematicamente os resultados dos alunos na avaliação dos docentes”.

Uma medida que chegou a estar contemplada no primeiro modelo de avaliação docente proposto pela ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, mas que foi deixada cair na sequência da forte contestação que motivou. Nuno Crato já revelou que é partidário desta ligação, mas admitiu que não existem ainda condições para aplicá-la.

"Não estamos ainda em condições de avaliar de uma forma objectiva os resultados dos alunos em todas as disciplinas, uma vez que nem todas são sujeitas a exames", explicou durante a negociação do modelo de avaliação actualmente em vigor. Aplicando esta medida sem que esteja generalizada a aplicação deste instrumento de avaliação externa corre-se o risco de que esta seja um "incentivo à inflação das notas pelos professores", acrescentou.

No seu relatório, a OCDE reconhece que será sempre difícil “identificar o contributo específico de um professor no desempenho dos alunos”, uma vez que a aprendizagem é um processo “influenciado por muitos factores”. “O efeito que os professores têm nos alunos é também cumulativo”, recorda-se, frisando que os alunos “não são só influenciados pelos seus professores actuais, como também pelos que tiveram antes”.

Nesse sentido, defende-se a importância de se desenvolverem modelos que permitam seguir o trajecto individual de cada aluno durante toda a sua permanência no sistema educativo, através dos quais seja possível também identificar o contributo de cada professor.

Observação das aulas
Estando em alta a constatação de que “a qualidade dos professores influencia os resultados dos estudantes”, onde poderá esta ser melhor avaliada do que em sala de aula? É aqui, “quando os professores interagem com os seus alunos”, que são revelados “muitos dos aspectos centrais da prática de ensinar”, o que leva a que “a avaliação docente esteja firmemente ancorada na observação das aulas” por outros professores ou avaliadores externos. É o que se passa “em quase todos os países" analisados. Portugal é a excepção destacada neste relatório, uma vez que, salvo alguns casos, “a observação das aulas é um dos itens facultativos na avaliação docente".

No modelo de avaliação adoptado pelo actual Governo a observação de aulas será feita por avaliadores externos (no anterior estava a cargo de professores da mesma escola) e é obrigatória para os professores que estão no primeiro ano da sua actividade, para os que estejam nos 2.º e 4.º escalões da carreira docente, para os que se candidatam a um “excelente” ou que tenham tido a menção de “insuficiente” na última avaliação. Este procedimento deveria ter sido iniciado já este ano lectivo, mas o Ministério da Educação e Ciência (MEC) decidiu adiá-lo para o próximo de modo a garantir que os avaliadores externos tenham formação para o efeito.

Em Novembro passado, o Conselho das Escolas, um órgão consultivo do MEC que representa os directores, pediu a imediata suspensão do processo de avaliação, alegando, entre outras razões, dificuldades com a observação de aulas.

Numa entrevista ao PÚBLICO, em Maio passado, o analista da OCDE Paulo Santiago, que coordenou o relatório sobre a avaliação no sistema de ensino português, frisou que Portugal é mesmo “um caso extremo” na organização, uma vez que “não existe ainda nas escolas uma cultura de porta aberta, permitindo que professores observem aulas de outros colegas”. Portugal é também “quase um caso único” na OCDE no que toca à “relutância de professores e dos próprios directores em fazer um juízo profissional sobre outros colegas”, acrescentou.

Segundo um inquérito realizado em 2008, cerca de 30% dos professores portugueses indicaram nunca ter sido avaliados ou recebido qualquer feedback sobre o seu trabalho por parte de outros colegas ou do director da escola.