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quinta-feira, 14 de maio de 2015

Seminário "Dislexia e Hiperatividade em debate".

No dia 23 de maio de 2015 terá lugar na Universidade Católica Portuguesa - Viseu o Seminário intitulado "Dislexia e Hiperatividade em debate".

Pretende ser um espaço para a partilha de conhecimentos e saberes, de reflexão alargada, atual e sistematizada, sobre estas problemáticas.

Contará com a presença de conferencistas com vastas e significativas obras publicadas, a nível nacional e internacional, neste âmbito, designadamente, a Professora Doutora Helena Serra (Presidente da Associação Portuguesa de Dislexia - DISLEX) e o Professor Doutor Carlos Nunes Filipe (Professor da Nova Medical School – Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa).

Mais informações e inscrição em: www.crb.ucp.pt ou 232 419 500

Informação recebida via email.


domingo, 16 de março de 2014

Jogar à forca e fazer rimas ajuda crianças com dislexia

Brincadeiras como o jogo da forca, procurar letras, sílabas e palavras em revistas, ou fazer rimas, ajudam as crianças a ultrapassar problemas de dislexia, defende o especialista em apoio terapêutico-pedagógico Renato Paiva, em livro a lançar na quinta-feira.

Da mesma forma, cantigas e lengalengas com números ou jogos de tabuleiro, como o "Monopólio", são considerados "essenciais" para crianças com dificuldades em matemática.

No livro "O Segredo para Alcançar o Sucesso na Escola", o autor desafia os pais a espalharem espuma de barbear numa mesa e pedirem aos filhos para desenharem sílabas ou letras.

Ao professor, recomenda que em vez de salientar que o aluno cometeu 14 erros, realce antes que escreveu corretamente 76 palavras.

Para uma criança hiperativa, o especialista recomenda aos professores que lhe atribuam tarefas curtas e que trabalhem matérias mais difíceis de manhã, quando o aluno está mais concentrado.

Renato Paiva sublinha também a importância de elogiar os momentos em que a criança com um problema de atenção consegue estar atenta, "evitando chamar a sua atenção sempre que está desconcentrada". Esta técnica revela-se "uma ótima mais-valia", considera.

O autor preconiza ainda exercícios de treino da respiração que ajudam os alunos a conseguir uma maior concentração nos testes.

O livro, dirigido a estudantes, pais e professores, é lançado na próxima semana pela Esfera dos Livros.

A obra aborda problemas de dislexia, erros de ortografia, dificuldades nos cálculos matemáticos, pouca atenção nas aulas, bem como falta de confiança e motivação.

As questões de organização e as relações entre professores e alunos, os bloqueios que alguns apresentam perante os testes ou na relação com os colegas integram o texto, que contém dicas e conselhos ao longo de 300 páginas.

"Não há fórmulas, nem pilulas mágicas que resolvam estas dificuldades. No entanto, há estratégias que podem servir de orientação e suporte aos pais que querem apoiar os filhos", escreve Renato Paiva.

In: DN online

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O aluno com Dislexia

Um sofrimento muitas vezes solitário e silencioso

São cada vez mais os casos de pais que acorrem até mim para fazer uma avaliação compreensiva de dislexia do seu filho(a).

Chegam a maior parte das vezes com o coração demasiado apertado dizendo que já não sabem mais o que fazer. É o acompanhamento dos trabalhos de casa por eles mesmos, são as explicações, são os apoios escolares e nada parece resultar.

- "O meu filho não aprende como os outros. Tem imensas dificuldades na leitura e a escrita... é só erros!

Estas perguntas antes de serem feitas pelos pais ou pelos professores já há muito habitam na cabecinha da criança. Ela é a primeira a constatar que é diferente dos seus pares, ela é a primeira a perguntar-se: "Se os meus amigos conseguem ler e escrever corretamente, porque é que eu não sou capaz?"

É a partir desta constatação sofrida que a autoestima do aluno começa a baixar significativamente ao ponto de se julgar "burro", menos capaz, menos inteligente... Tudo "menos".

Confirmado o diagnóstico de dislexia urge desmistificar o termo junto dos pais e sobretudo junto do aluno. Ser disléxico nada tem a ver com inteligência, aliás estes alunos apresentam um Q.I. igual ou superior ao esperado para a sua faixa etária.

Quando lhes digo isto, eles suspiram sempre "quase" de alívio, como se uma tonelada de problemas se esbatesse ali mesmo! Digo-lhes, ainda, que a nossa "missão" para além de uma reeducação especializada é descobrir a sua área forte (normalmente, ligada às artes, música, desporto...). E eles ficam muito surpreendidos pela possibilidade de descobrir essa "tal área forte"! E de facto esta "descoberta" é muito importante, será uma forma de eles recuperarem a sua autoestima, o seu autoconceito e de voltarem a gostar de ir à escola.

O diagnóstico, a desmistificação, a reeducação nos processos da leitura e da escrita acrescida à descoberta e otimização da área forte de cada um, diz-me a experiência, são fatores-chave para ultrapassar o sofrimento solitário e silencioso de que estas crianças e jovens são "vítimas" durante muitos anos, quando não diagnosticadas.

O aluno com dislexia devidamente intervencionado pode fazer tudo o que os outros fazem, com o dobro do esforço é certo, mas com a firmeza na crença de que nada o impede intelectualmente. 

Estes alunos devem ser referenciados nas escolas pelos pais ou professores ou técnicos de saúde, terapeutas... o mais precocemente possível, para que seja elaborado um relatório técnico-pedagógico para poderem usufruir de algumas medidas educativas consagradas no Decreto-Lei 3/2008, nomeadamente: apoio personalizado (fundamental); adequações no processo de avaliação (não cotação dos erros tipo, por exemplo, a leitura dos enunciados, provas escritas mais curtas e frequentes...) e em última estância dependendo caso a caso, as adequações curriculares. Estas medidas farão parte do programa educativo individual do aluno e protegê-lo-ão legalmente, incluindo nos exames nacionais.

Por: Manuela Cunha Pereira

In: EDUCARE

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dislexia: do ensino básico ao superior

Poucos estudos se têm debruçado acerca do percurso escolar das crianças disléxicas. E menos ainda relatam as dificuldades enfrentadas por quem alcança o ensino superior.

"Algumas crianças, ainda que muito inteligentes, não passam da tarefa de aprender a ler à de ler para aprender." Entender a dislexia, assegura Cláudia Coelho, psicóloga, implica perceber como o cérebro lê. "Não se trata de uma capacidade sensorial, mas sim cognitiva." As dificuldades de aprendizagem que a caracterizam são de origem neurobiológica. Em 2003, a Associação Internacional de Dislexia definiu-a como sendo "inesperada em relação a outras capacidades cognitivas e à existência de uma instrução adequada na sala de aula". 

Apesar da investigação produzida na área da dislexia ter mapeado as suas origens, faltam estudos sobre as suas consequências pessoais, profissionais e sociais. Foi a pensar nisso que Cláudia Coelho inquiriu 41 pais sobre o seu educando disléxico e também ex-alunos com a mesma problemática de dois agrupamentos de Viseu. 

Apresentado no encontro "A Dislexia em Tese" realizado no passado sábado, na Escola Superior de Educação Paula Franssinetti, no Porto, o estudo permitiu um retrato fiel sobre a situação atual dos alunos e ex-alunos. Dos 33 alunos que permanecem na escola, 48% frequentam o ensino secundário, 33% estão no 3.º ciclo e 9% no ensino superior. Dos oito alunos que abandonaram os estudos, 87% fizeram-no no 3.º ciclo. 

A sinalização precoce da dislexia do aluno tem fortes implicações no seu futuro escolar e pessoal. O estudo de Cláudia Coelho mostrou que 46% dos alunos foram sinalizados logo no 1.º ciclo, 34% no 2.º ciclo e 15% apenas no 3.º ciclo. Em cada um dos ciclos, a maioria dos casos foi diagnosticada no 3.º, 5.º e 7º anos. 

A intervenção realizada pela escola foi outra das vertentes analisadas. Segundo as respostas dos pais, 95% dos alunos beneficiaram de apoio educativo. No entanto, 59% não sabem se este apoio foi feito ou não por um professor da Educação Especial, 29% afirmam que sim e 12% que não. Aliado ao apoio educativo, a investigadora concluiu que 49% dos alunos não beneficiavam de medidas de educação especial, 44% sim e 7% dos pais não sabia dizer. Concretamente sobre que tipo de medidas eram essas, 44% dos alunos realizavam testes diferentes, 56% não; 71% tinham mais tempo para fazer os testes, 29% não beneficiavam desta medida.

O estudo permitiu ainda concluir que a tristeza e insegurança andam de mãos dadas com a dislexia. A maioria dos alunos sente dificuldades ao nível da leitura e da escrita. E o modo como afetavam o seu percurso escolar, pessoal e profissional gera sentimentos de vergonha e revolta. Apesar disso, 12 dos alunos manifestaram vontade de prosseguir estudos ao nível superior.

Diana Silva teve a mesma vontade e conseguiu. A dislexia foi-lhe diagnosticada apenas no 5.º ano. E o seu percurso escolar teve os mesmos contornos penosos que outros tantos disléxicos experimentam. Sofreu de depressão, lutou contra a própria vontade de não ir à escola. Os pais assistiram quase impotentes a tudo, foram mal aconselhados pelos professores da filha. Até finalmente Diana foi considerada elegível para a Educação Especial. Hoje, é estudante do curso de Criminologia, da Universidade Lusíada, no Porto.

A frequência com que alunos disléxicos chegavam às suas turmas, motivou Catarina Mangas, a interessar-se pelos seus percursos académicos. O estudo da docente na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Leiria (IPL) foi também apresentado durante o encontro nacional "Dislexia em Tese"."A pesquisa em adultos é escassa, apesar dos casos terem vindo a aumentar", assegura. Só a nível nacional, em 2009, num total de 816 alunos sinalizados com necessidades educativas especiais, a dislexia afetava 73.

Num nível onde a leitura é vital para o sucesso académico, Catarina Mangas sublinhou a importância da intervenção e do esclarecimento do corpo docente sobre a problemática. Pelo contrário, a sua investigação permitiu concluir que "os professores têm uma noção muito geral sobre o que é a dislexia." Entre os entrevistados, nenhum referiu o uso de estratégias diferenciadas para estes alunos.

Contrariando a ideia generalizada que os disléxicos prosseguem estudos nas áreas de maior criatividade, Catarina Mangas não encontrou prevalência de alunos na área das artes, "mas antes espalhados por vários cursos, incluindo nos de educação". Na maioria dos inquiridos a sinalização da dislexia foi feita tardiamente, apenas no ensino superior. As razões? "Testes inconclusivos, ou uma família que não ajudou no diagnóstico porque acreditavam que os filhos poderiam ultrapassar as dificuldades..."

Seja qual forem as razões, "os alunos identificam as suas dificuldades nos outros colegas, mas preferem manter a sua dislexia no silêncio", constata a docente. "Conseguem evitar ao máximo ler e escrever e utilizam não as palavras que querem mas os sinónimos onde não têm problemas." Não sendo leitores fluentes, os alunos acumulam grande nervosismo em momentos de avaliação, sendo que o seu insucesso académico está diretamente relacionado com a dislexia.

Uma legislação que regule a passagem dos disléxicos pelas universidades e politécnicos. A transferência dos processos individuais relativos às dificuldades e às medidas educativas de que beneficiam do ensino secundário para o superior. E mais tempo para a execução dos exames. São medidas que os participantes no estudo gostariam de ver implementadas. 

Aumentar o respeito por estes alunos implica conhecer melhor a problemática, alerta Catarina Mangas: "A escola inclusiva também deve ser reconhecida no ensino superior".

Por: Andreia Lobo

In: Educare

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Centro de dislexia em Viseu

A aprendizagem da leitura e da escrita é central na vida de todos nós, sendo o seu domínio com mestria um forte indicador do sucesso escolar de cada aluno. No entanto, para os alunos com dislexia, a leitura e a escrita não são competências desenvolvidas com a mesma facilidade como nos restantes alunos, acarretando em todos eles um efeito marcadamente negativo nas suas vidas, tanto ao nível académico, como pessoal e até emocional. Só uma atempada identificação, seguida da intervenção ajustada a cada caso, é que poderão quebrar este ciclo negativo.

Com o objetivo promover um maior conhecimento desta realidade por parte dos professores e outros técnicos de educação, sem esquecer os pais, uma vez que são eles que estão na melhor posição para fazer o despiste atempado de cada situação de risco foi criado na Universidade Católica Portuguesa um Centro de Dislexia. Este assenta em quatro pilares: investigação, formação, avaliação e intervenção, sendo uma aposta claramente ganha ao responder às necessidades da nossa região mas também aos interesses atuais relativos à investigação e à formação neste campo tão vasto como é o da dislexia.

Objetivos:

  • Realizar investigação no âmbito das dificuldades específicas de aprendizagem da leitura e da escrita;
  • Dinamizar encontros científicos e ações de formação na área da dislexia;
  • Avaliar e reeducar crianças com dificuldades específicas de aprendizagem da leitura e da escrita;
  • Potenciar o melhor envolvimento e intervenção psicopedagógica das respetivas escolas;
  • Orientar o envolvimento e intervenção educativa da família;
  • Promover a compilação de metodologias e materiais de intervenção disponíveis;
  • Dinamizar a criação de recursos de intervenção cientificamente validados.
Destinatários: Professores, encarregados de educação, profissionais de saúde, estudantes e demais interessados.

Informações e marcações:
Telefone: 232 419 500
E-mail: centrodislexia@crb.ucp.pt 

Mais informações aqui.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Disléxicos também têm sonhos!

Recentemente, um docente afirmava achar estranho a avalanche de relatórios que atestam dislexia e questionava-me se também eu não achava um exagero haver tantas crianças com dislexia.

"Tenho uma filha disléxica de 10 anos. É uma menina disciplinada e responsável, sempre teve notas razoáveis ou boas. Quando mudou para o 5.º ano começou a luta, porque avisei a diretora de turma que a menina deveria ser sinalizada com dislexia. Resposta: vamos esperar pelos resultados do 1.º período. Resultado: a menina teve 3 a Matemática e 4 a todas as outras disciplinas (sem nos esquecermos que para isso ela está no colégio das 8:30 às 17:30 e depois segue para o acompanhamento particular duas vezes por semana até as 19:00 e a seguir vai para casa fazer os deveres e estudar muitas vezes até as 22:00 só com um intervalo para jantar), mas fui informada que uma criança com estas notas não pode ser sinalizada. Será justo uma criança que se esforça e cujo sonho é estar no quadro de excelência e que nunca alcançará não por falta de esforço, mas sim por uma lei pouco justa, pois se ela não se esforçasse e tivesse notas baixas então já teria direito a sinalização!? Trabalha muito e não tem qualquer recompensa."

Só podemos analisar a reflexão aqui apresentada enquadrando-a no contexto escolar atual. Pelo facto de à escola chegarem com muita frequência relatórios com diagnóstico de dislexia, estes são olhados já com alguma desconfiança. Recentemente, um docente afirmava achar estranho a avalanche de relatórios que atestam dislexia e questionava-me se também eu não achava um exagero haver tantas crianças com dislexia. Quanto a isto, parece-me que, tal como afirma Octávio Moura, especialista na área: "Infelizmente existem alguns falsos positivos no diagnóstico da dislexia, não só porque em determinados locais tudo é dislexia e as crianças saem sempre de lá com esse diagnóstico, mas também porque alguns técnicos encontram-se mal preparados para efetuarem o diagnóstico desta perturbação da aprendizagem que é complexa, que implica uma avaliação específica em diversas funções neurocognitivas (existem evidências científicas e um amplo consenso internacional sobre as áreas deficitárias na dislexia e as funções a serem avaliadas) e a necessidade de uma avaliação diferencial cuidada." Os falsos diagnósticos acabam por ter repercussões muito negativas, porque os pais "agarram-se" a eles e têm muita dificuldade em aceitar que o que motiva as dificuldades dos filhos não se trata realmente de uma dislexia, mas de um problema de outra ordem, que exige um outro tipo de intervenção. Gostaria de voltar a sublinhar que esta descrição é referente a um contexto global, que não pode ser menosprezado, dado que é no seu seio que os relatórios chegam e são analisados.

Quanto à sinalização, parece-me que esta mãe se refere à necessidade de que a sua filha seja referenciada para a educação especial. Referenciação esta que, segundo ela, é travada pelos razoáveis ou bons resultados escolares obtidos. O que é referido como objetivo do Decreto-Lei n.º3/2008, que regulamenta o acesso è educação especial, é que este visa "a criação de condições para a adequação do processo educativo às necessidades educativas especiais dos alunos com limitações significativas ao nível da atividade e da participação num ou vários domínios de vida, decorrentes de alterações funcionais e estruturais, de carácter permanente, resultando em dificuldades continuadas ao nível da comunicação, da aprendizagem, da mobilidade, da autonomia, do relacionamento interpessoal e da participação social". Mesmo que esta menina fosse sinalizada/referenciada para educação especial, o que se verificaria ao elaborar o relatório técnico-pedagógico (relatório onde constam os resultados decorrentes da avaliação, obtidos por referência à Classificação Internacional da Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, da Organização Mundial de Saúde) é que esta não apresentaria provavelmente alterações significativas ao nível da atividade e participação, decorrentes de alterações graves das funções do corpo, e, por isso, não integraria o regime educativo especial, dado que à luz da legislação atual não reuniria condições para tal.

Dado que ainda temos "pano para mangas", a reflexão continuará num próximo artigo.

Por: Adriana Campos

In: Educare

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Petição quer mudança de regras dos exames para disléxicos

A Associação Portuguesa de Dislexia (Dislex) considera que a decisão do Júri Nacional de Exames (JNE) de recusar a leitura do enunciado da prova a alunos disléxicos prejudicará milhares de estudantes. A Dislex fez uma petição onde exige a alteração das orientações. 

Perante o caso de uma aluna disléxica a quem o JNE recusou apoio na realização dos exames de 9.º ano; a Dislex lembra os estudantes do secundário, que estão prestes a realizar exames de acesso ao ensino superior. 

“Apesar de isso não estar legislado, é prática corrente nos exames de 9.º, 11.º e 12.º anos a prova ser lida a um disléxico, precisamente como é lida a alguém que tenha cegado recentemente”, disse ao PÚBLICO Helena Serra, presidente da Dislex, sublinhando que "a mudança vai ter efeitos dramáticos” na vida desses alunos.

Num documento que circula em forma de petição e que foi enviado a várias entidades, entre as quais a Assembleia da República e o Ministério da Educação, a presidente da Dislex considera que a decisão do JNE revela "total alheamento” em relação às características e necessidades” de alunos com dislexia. “O seu principal problema reside precisamente na compreensão da leitura (lentidão, hesitações, alterações, confusão ou não articulação das ideias com desfocagem de respostas); no bloqueio emocional e possível desistência que a pressão da situação lhes causa." argumenta. 

Helena Serra, investigadora, professora e autora de várias obras sobre psicopedagogia especializada, foi precisamente a autora da "Ficha A" – que é validada pelo JNE e procura garantir que os alunos com dislexia não são penalizados por erros ou omissões cometidos na resposta escrita às questões. A investigadora assegura, contudo, que aquele instrumento é “insuficiente” e considera “incompreensível” que seja recusada a leitura da prova a alunos que, “com também essa adequação, revelam os saberes exigidos e, às vezes, uma ainda maior criatividade do que os outros, em geral”.

Outros casos

Segundo a dirigente da Dislex, apesar de o caso da menina do 9.º ano a quem foi recusada a leitura do teste ter sido mais mediatizado, “a preocupação é vivida em milhares de escolas e de famílias”. Para a explicação do problema e da forma como ele é sentido remete para um requerimento apresentado ao JNE por uma professora de uma escola do ensino secundário, que, nota, tem investigação aprofundada “na área da compreensão leitora” dos disléxicos.

No texto em que reitera o pedido de leitura de prova para dois dos seus alunos, um do 11.º, outro do 12.º ano, aquela docente, Maria de Fátima Almeida, admite que “poderá haver alunos disléxicos que, devido a uma intervenção precoce adequada, tenham desenvolvido todas as competências instrumentais necessárias a uma leitura compreensiva”. Sublinha, contudo, que “partir-se do princípio de que todos os alunos disléxicos desenvolveram essas competências e, portanto, compreendem o que lêem, vai contra aquilo que os estudos centrados na compreensão da leitura, nomeadamente de alunos disléxicos, mostram”. 

“Os alunos que frequentam o 3.º ciclo e o ensino secundário, até já poderão efetuar uma leitura aparentemente fluente e com uma velocidade próxima do esperado”, mas “mantêm uma dificuldade particular em descodificar palavras que não encontraram antes, e, em geral, têm dificuldades persistentes com a consciência fonológica, nomeação rápida e tarefas verbais de memória de curto prazo”, refere Maria de Fátima Almeida no documento. Aqueles défices, explica, resultam do facto de “a descodificação ocorrer não por automatização, mas como resultado de esforço”.

Os dois alunos desta docente, em particular, têm beneficiado da leitura dos enunciados ao longo do percurso escolar. Segundo explica na nota enviada ao JNE, com base na legislação que prevê adequações do processo de avaliação de alunos com necessidades educativas especiais de caráter permanente (Decreto-Lei n.º 3/2008). 

Aquela é, contudo, outra questão pouco pacífica, na medida em que, como refere Helena Serra, “a legislação não define que a dislexia é uma capacidade permanente”. “Os dados científicos indicam que sim, que ainda que os problemas sejam atenuados, nunca são completamente resolvidos. Para além disso, têm de ser tido em conta os diferentes graus de gravidade da dislexia”, diz Helena Serra. Realça, a propósito, que “não é por acaso que, ao adequarem as formas de avaliação a cada um dos alunos, os professores, nas escolas, têm entendido que muitos dos que têm dislexia necessitam, entre outros apoios, da leitura orientada”.O JNE tem outra perspectiva, como se percebe da apreciação que faz numa nota enviada à comunicação social, a propósito da queixa da mãe da criança a quem foi negada a leitura do enunciado. Nela escreve, de forma crítica, que “algumas escolas generalizavam certas condições especiais de realização das provas de uma forma pouco criteriosa, em particular a medida ‘leitura de enunciado por um professor’”.

Dizendo basear-se na legislação em vigor, o JNE determina que nas provas nacionais os alunos com dislexia podem usufruir de uma tolerância de 30 minutos, além do tempo fixado para as provas; e ainda que são classificados de forma específica, com base na “Ficha A”. É taxativo na afirmação de que àqueles estudantes, “cujas provas de avaliação externa são já classificadas com o apoio da Ficha A (…), não pode ser autorizada a leitura dos enunciados”.

Aquela ficha contém informação relativa às dificuldades específicas de cada aluno disléxico, podendo ser assinalados, na área da expressão escrita, campos associados ao desenvolvimento linguístico, à ortografia, aos traçados grafomotores e à linguagem quantitativa”. Em todos estes campos, sempre que são assinalados com dificuldades específicas da dislexia de cada aluno, “o professor classificador pode adaptar os critérios de classificação das provas de forma a não penalizar o aluno pelos erros ou omissões cometidos”, aponta o JNE.

In: Público

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Dislexia: Designer cria tipografia que facilita leitura

Clique no link abaixo para ver um vídeo que demonstra vários exemplos desta tipografiaEsta notícia tem conteúdo multimédia, clique aqui para visualizar
Um designer holandês criou um tipo de letra especial destinado a tornar mais fácil a vida das pessoas que sofrem de dislexia. Chama-se "Dyslexie" e, de acordo com um estudo independente, funciona mesmo.

Christian Boer, que é, também ele, disléxico, começou a desenvolver o projeto enquanto ainda estudava, em 2008. O primeiro passo foi tentar otimizar a tipografia de uma forma que fosse eficaz consigo próprio e, depois de o ter conseguido, recrutou outros oito disléxicos desconhecidos para o ajudar.

Durante a segunda fase do processo, convidou-os a ajudá-lo a redefinir o formato das letras até que a leitura se tornasse, efetivamente, mais fácil e, antes de o conseguir, precisou de muitas e muitas horas de trabalho.

"Posso dizer que trabalhei na vírgula durante quatro horas e, para aperfeiçoar a letra 'a' foram necessárias mais de 12 horas', contou o designer à Co.Design, evidenciando o esforço por trás de cada uma das letras e sinais de pontuação.

Uma das características mais marcantes deste tipo de letra é um "peso" extra, acrescentado às suas pontas de modo a torná-las mais carregadas, o que, segundo Boer, auxilia na experiência de leitura.

A nova tipografia foi testada através de um estudo independente da Universidade de Twente, na Holanda, e mostrou ser bastante funcional: 21 alunos foram sujeitos à leitura de textos escritos neste tipo de letra e, ao fazê-lo, observou-se que cometiam menos erros.

"Espero conseguir ajudar os disléxicos, de modo a que a luta diária nesta sociedade de informação seja um pouco menos dura", acrescentou Boer. De acordo com o criador desta nova tipografia, a "Dyslexie" não é "uma cura, mas pode funcionar como uma espécie de cadeira de rodas".

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Como conhecer o cérebro dos disléxicos

Os disléxicos são pessoas normais que, surpreendentemente, no período escolar, apresentam dificuldades de leitura e, em geral, problemas, também, com a ortografia e a organização da escrita. Como ajudar pais, especialmente mães, de disléxicos? O presente artigo mostra como os pais, docentes e psicopedagogos, conhecendo o cérebro dos disléxicos, poderão ajudá-los a ler e compreender o texto lido.

A leitura, como sabemos, seja para disléxicos ou não, é uma habilidade complexa. Não nascemos leitores ou escritores. O módulo fonológico é o único, no genoma humano, que não se desenvolve por instinto. Realmente, precisamos aprender a ler, escrever e a grafar corretamente as palavras, mesmo porque as três habilidades linguísticas são cultural e historicamente construídas pelo Homo sapiens. 

A leitura só deixa de ser complexa quando a automatizamos. Como somos diferentes, temos maneiras diferentes de reconhecer as palavras escritas e, assim, temos diferenças fundamentais no processo de aquisição de leitura durante a alfabetização. Esse automatismo leitor exige domínios na fonologia da língua materna, especialmente a consciência fonológica, isto é, a consciência de que o acesso ao léxico (palavra ou leitura) exige conhecimentos formais, sistemáticos, escolares, gramaticais e metalinguísticos do princípio alfabético do nosso sistema de escrita, que se caracteriza pela correspondência entre letras e fonemas (vogais, semivogais e consoantes). A experiência de uma alfabetização exitosa é importante para nossa educação leitora no mundo povoado de letras, literatura, poesia, imagens, ícones, símbolos, metáforas e diversidade de media e textos.

A compreensão do valor da leitura em nossas vidas, especialmente na sociedade do conhecimento, é base para desmistificarmos o conceito inquietante da dislexia e do cérebro dos disléxicos. A dislexia não é doença, mas compromete o acesso ao mundo da leitura. A dislexia parece bloquear o acesso de crianças especiais à sociedade letrada. Deixa-as, então, lentas, dispersas, agressivas e em atraso escolar. Os docentes, pais e psicopedagogos que lidam com disléxicos devem por isso seguir alguns princípios ou passos para atuação eficiente com aqueles que apresentam dificuldades cognitivas na área de leitura, escrita e ortografia. Vamos descrever cada um deles a seguir.

Princípios de atuação

O primeiro princípio ou passo é o de se começar pela descrição e explicação da dislexia. Uma criança com deficiência mental, por exemplo, não pode ser apontada como disléxica, porque a etiologia de sua dificuldade é orgânica, portanto, de natureza clínica e não exclusivamente cognitiva ou escolar. Claro, é verdade que um adulto, depois de um acidente vascular cerebral, poderá vir apresentar dislexia. Nesse caso, trata-se, realmente, de uma dislexia adquirida, de natureza neurolinguística e que só com o apoio médico é que podemos intervir, de forma pluridisciplinar e, adequadamente, nesses casos. 

Assim, tanto para a dislexia desenvolvimental (também chamada verdadeira porque uma criança já pode herdar tal dificuldade dos pais) como para a dislexia adquirida (surge após um AVC ou traumatismo), importante é salientar que os docentes, pais e psicopedagogos, especialmente estes últimos, conheçam melhor os fundamentos psicolinguísticos da linguagem escrita, compreendendo, assim, o processo aquisição da habilidade leitora e os processos psicológicos envolvidos na habilidade. Realmente, sem o conhecimento da arquitetura funcional, do que ocorre com o cérebro dos disléxicos, durante o processamento leitor, toda a intervenção corre o risco de ser inócua ou contraproducente.

Os processos leitores que ocorrem nos cérebros dos leitores, proficientes ou disléxicos, podem ser descritos através de quatro módulos cognitivos da leitura: (1) módulo percetivo, como o nome sugere, refere-se à perceção, especialmente a visual, importante fator de dificuldade leitora; (2) módulo léxico, nesse caso, refere-se, por exemplo, ao traçado das letras e à memorização dos demais grafemas da língua (por exemplo, os sinais diacríticos como til, hífen, etc.); (3) módulo sintático, este, tem a ver com a organização da estruturação da frase, a criança apresenta dificuldade de compreender como as palavras se relacionam na estrutura das frases; (4) módulo semântico, este, diz respeito, pois, ao significado que traz as palavras nos seus morfemas (prefixos, sufixos, etc.).

Não é uma tarefa fácil conhecer o cérebro dos disléxicos. Por isso, um segundo passo é o aprofundamento dos fundamentos psicolinguísticos da lectoescrita. A abordagem psicolinguística (associando a estrutura linguística dos textos aos estados mentais do disléxico) é um caminho precioso para o entendimento da dislexia, uma vez que apresenta as conexões existentes entre questões pertinentes ao conhecimento e uso de uma língua, tais como a do processo de aquisição de linguagem e a do processamento linguístico, e os processos psicológicos que se supõe estarem com elas relacionados. Aqui, particularmente, é bom salientar que as dificuldades lectoescritoras são específicas e bastante individualizadas, isto é, os disléxicos são incomuns, diferentes, atípicos e individualizados em relação aos demais colegas de sala de aula bem como aos sintomas manifestados durante a aquisição, desenvolvimento e processamento da linguagem escrita. 

Nessas alturas, todos os que atuam com os especiais devem pensar o que pode estar ocorrendo com os disléxicos em sala de aula. Os métodos de alfabetização em leitura levam em conta as diferenças individuais? Os métodos pedagógicos, com raras exceções, propõem-se a ser eficientes em salas de crianças ditas normais, mas tornam-se ineficientes em crianças especiais. Por isso, cabe aos docentes, em particular, e aos pais, por imperativo de acompanhamento de seus filhos, entender melhor sobre os métodos de estudos adotados nas instituições de ensino. Os métodos de alfabetização em leitura são determinantes para uma ação eficaz ou ineficaz no atendimento educacional especial dos disléxicos, disgráficos e disortográficos. A dislexia é uma dificuldade específica de leitura e, como tal, nada mais criterioso e necessário do que o entendimento claro do processo da leitura ou do entendimento da leitura em processo. 

Não menos importante que o entendimento dos métodos de leitura, adotados nas escolas, devem ser objeto de preocupação dos educadores, pais e psicopedagogos as questões conceituais, procedimentais e atitudinais sobre a dislexia, disgrafia e disortografia. O que pensam as escolas sobre as crianças disléxicas? O que sabem seus professores e gestores educacionais sobre dislexia? Mais do que simples rótulos das dificuldades de aprendizagem da linguagem escrita, a dislexia é uma síndrome ou dificuldade revestida de conceitos linguísticos, psicolinguísticos, psicológicos, neurológicos e neurolinguísticos fundamentais para os que vão atuar com crianças com necessidades educacionais especiais. Reforça-se, ainda, essa necessidade de compreender, realmente, o aspeto pluridisciplinar da dislexia, posto que muitas vezes é imperiosa a interlocução com outros profissionais que cuidam das crianças, como neuropediatras, pediatras, psicólogos escolares e os próprios pais das crianças. 

Na maioria dos casos de dislexia, disgrafia e disortografia, a abordagem mais eficaz no atendimento aos educandos é a psicopedagógica (ou psicolinguística, para os linguistas clínicos) em que o profissional que irá lidar com as dificuldades das crianças aplicará à sua prática educacional aportes teórico-práticos da psicopedagogia clínica ou institucional aliados à pedagogia e à psicologia cognitiva e à psicologia da educação. São os psicolinguistas que se voltam para a explicação da dislexia e suas dificuldades correlatas (disgrafia, dislexias). Hipóteses como défices de memória e do princípio alfabético (fonológico) são apontadas, pelos psicolinguistas, como as principais causas da dislexia.

O terceiro passo para os que querem entender mais sobre dislexia é dar especial atenção à avaliação das dificuldades lectoescritoras. A avaliação deve ser trabalhada como ato ou processo de coleta de dados a fim de se melhor entender os pontos fortes e fracos do aprendizado da leitura, escrita e ortografia dos disléxicos, disgráficos e disortográficos. Enfim, a atenção dos psicopedagogos deve dirigir-se para a avaliação das dificuldades em aquisição da linguagem escrita. Nesse sentido, um caminho seguro para a avaliação da dislexia, disgrafia e disortografia é pela via do reconhecimento da palavra. O reconhecimento da palavra começa pela identificação visual da palavra escrita. Depois do reconhecimento da palavra escrita, deve ser feita avaliação da compreensão leitora, especialmente no tocante à inferência textual, de modo que levando a efeito tais procedimentos, ficarão mais explícitas as duas etapas fundamentais da leitura e de suas dificuldades: descodificação e compreensão leitoras.

O quarto e último passo para o desenvolvimento de estratégias de intervenção nos educandos com necessidades educacionais especiais em leitura, disgrafia e disortografia é o de observar qual dos módulos (percetivo, léxico, etc.) está apresentando défice no processamento da informação durante a leitura. Portanto, é entendermos como o cérebro dos disléxicos funciona durante o ato de leitura. Neste quarto passo, é imprescindível um recorte das dificuldades leitoras. A dislexia não é uma dificuldade generalizada de leitura, ou seja, não envolve todos os módulos do processo de leitura. 

Descoberto o módulo que traz carência leitora, através de testes simples como ditado de palavras familiares e não familiares, leitura em voz alta, questões sobre compreensão literal ou inferência textual, será mais fácil para os psicopedagogos, por exemplo, atuar para compensar ou sanar, definitivamente, as dificuldades leitoras que envolvem, por exemplo, aspetos fonológicos da descodificação leitora e da codificação da escrita: o princípio alfabético da língua materna, isto é, a correspondência letra-fonema ou a correspondência fonema-letra. 

Se o que está afetado se refere ao campo da compreensão, os psicopedagogos poderão propor atividades com conhecimentos prévios para explorar a memória de longo prazo dos disléxicos que se baseia no conhecimento da língua, do assunto e do mundo (cosmovisão). Quando estamos diante de crianças disléxicas com dificuldades relacionadas com a compreensão estamos, decerto, diante de casos de leitores com hiperlexia, parafasia, paralexia ou, se estão, também, sobrepostas dificuldades em escrita, ao certo, estaremos diante de escritores também com hiperlexia, parafasia, paragrafia - termos clínicos que, uma vez explicados, iluminarão os psicopedagogos que atuam com disléxicos e disgráficos. A paralexia é dificuldade de leitura provocada pela troca de sílabas ou palavras que passam a formar combinações sem sentido. A parafasia é distúrbio da linguagem que se caracteriza pela substituição de certas palavras por outras ou por vocábulos inexistentes na língua. A ciência e a terminologia, realmente, apontam mais claramente as raízes dos problemas ou dificuldades na leitura, escrita e ortografia.

Por: Vicente Martins

In: Educare

domingo, 10 de abril de 2011

InfoCEDI n.º 32 subordinado ao tema As Crianças e a Dislexia



Já está disponível para consulta e download o nosso InfoCEDI n.º 32. Esta é uma compilação abrangente e actualizada de dissertações, estudos, citações e endereços de sites sobre As Crianças e a Dislexia.

Todos os documentos apresentados estão disponíveis on-line e pode aceder a eles directamente do InfoCEDI, Aqui

quinta-feira, 3 de março de 2011

Será que a minha filha é disléxica?

"Eu tenho uma filha de 8 anos de idade e foi-lhe detetada dislexia. Contudo a professora não admite nem acredita que a criança sofra desta dificuldade de aprendizagem. Gostaria que me ajudassem, isto é, gostaria que me dissessem a partir de que idade se pode detetar a dislexia." 

Ana Cristina Pires

Antes de responder à questão colocada, é importante fazer algumas considerações, algumas delas "politicamente incorretas ". O elevado número de crianças que apresentam relatórios com diagnóstico de dislexia poderá justificar a atitude de rejeição da professora aqui referida. Muitos destes relatórios levantam imensas dúvidas e levam a suspeitar que quem avaliou as crianças não teve em consideração todos os critérios necessários para que o diagnóstico fosse efetivamente rigoroso. As informações transmitidas por esta mãe são tão reduzidas que apenas é possível levantar questões relacionadas com as muitas situações com que sou confrontada no dia a dia.

A confusão que gira à volta do termo dislexia é tão elevada que por vezes não é fácil chegar a um consenso. Para que se possa falar em dislexia, é necessária a existência de um problema neurológico que provoque uma dificuldade duradoura na aprendizagem da leitura, em crianças com capacidade intelectual normal ou acima da média para a faixa etária, escolarizadas e sem qualquer perturbação sensorial e psíquica. Face a isto, vamos analisar várias hipóteses.

Consideremos uma criança exposta a um contexto de grande violência no seio da família: se apresentar dificuldades de aprendizagem nos primeiros anos de escolaridade será disléxica ou não conseguiu fazer a aprendizagem da leitura pelo facto de emocionalmente não existirem condições para tal? Um aluno não aprendeu devidamente o mecanismo de leitura porque é disléxico ou porque apresenta défice cognitivo ou alguma perturbação sensorial? Uma criança é disléxica ou a mudança frequente de professora e de método nos primeiros anos de escolaridade não facilitou o processo de aprendizagem da leitura?

Com todas estas questões quero apenas demonstrar que o diagnóstico de dislexia não pode ser feito sem um cuidadoso e minucioso estudo da situação. Parece-me que este estudo aprofundado nem sempre é feito e, por isso, há tanta desconfiança em relação ao diagnóstico "disléxico(a)". Quando a escola receciona relatórios de um determinado técnico que apresenta quase sempre o mesmo texto, em que quase só o nome da criança é alterado, é normal que a desconfiança surja...

Desconheço os motivos do desacordo entre esta mãe e esta professora, mas parece-me que seria importante haver uma reunião alargada, em que o técnico que avaliou a criança também estivesse presente, para esclarecer melhor a situação.

Nesta questão da dislexia surge geralmente um problema adicional. Os pais cujos filhos têm dificuldades de leitura gostariam de contar com mais apoio ao nível escolar, nomeadamente de um apoio efetivo de técnicos especializados neste âmbito. O que acontece é que o número de professores da educação especial escasseia e por vezes não são suficientes para acudir a este tipo de situações.

Ainda quanto à pergunta colocada por esta mãe, segundo vários autores, não se pode fazer um diagnóstico definitivo de dislexia antes dos 7 anos, ou antes de pelo menos um ou dois anos de aprendizagem escolar, pois antes de estarem reunidas estas condições certos erros são bastante frequentes.

Quando uma criança é considerada disléxica isso significa que apresenta dificuldades no âmbito da leitura. Quando existem problemas desse tipo, independentemente de haver ou não acordo relativamente ao diagnóstico, o importante é identificar as dificuldades específicas daquela criança e trabalhá-las. Discutir eternamente o diagnóstico não conduzirá certamente à solução do problema. 

Por: Adriana Campos 

domingo, 26 de dezembro de 2010

Ler é o melhor tratamento

O atraso na aquisição da linguagem no início da infância pode ser um primeiro sinal de alerta para possíveis problemas de linguagem e de leitura. Mais tarde, quando a criança começa a falar, surgem as dificuldades de pronúncia: frases curtas e palavras mal pronunciadas, com omissões e substituições de sílabas e fonemas.
A memorização de canções e lengalengas é igualmente difícil. Já em idade escolar, as crianças têm um progresso muito lento na aprendizagem da leitura e ortografia. O discurso é pouco fluente, com pausas e hesitações, a escrita é irregular e a ortografia é desastrosa.

Aprender a ler e a escrever é relativamente fácil para a maioria das pessoas. Contudo, para os disléxicos, esta aprendizagem é mais complicada. Embora possuindo um nível de inteligência médio ou superior, crianças, jovens e até mesmo adultos são frequentemente adjectivados de "burros" ou "preguiçosos", graças a uma sociedade que cruza os braços e espera que o problema se resolva. Mas a dislexia não é uma perturbação que aparece na idade escolar e desaparece na vida adulta: passa de pais para filhos e é um "fardo" que se tem de carregar por toda a vida. A intervenção precoce é fundamental, uma vez que ajuda a minimizar as manifestações da dislexia.

Em Portugal, o tratamento desta perturbação tornou-se um negócio. Diariamente, surgem novos produtos e fórmulas que prometem soluções definitivas para a dislexia. Uma falsa esperança para os pais, que agem em prol do bem-estar dos filhos. E, por outro lado, uma fonte de rendimento para as empresas que divulgam esses produtos. Lentes prismáticas, palmilhas, sapatos e colchões ortopédicos, programas de treino psicomotor, a utilização de leitoris (para apoiar livros) ou apoios para os pés e, mais recentemente, meias, não curam a dislexia. Este problema não tem na sua origem um défice visual ou problemas psicomotores e posturais.

A leitura é o melhor tratamento para a dislexia, cujas manifestações variam de pessoa para pessoa, consoante o grau de severidade, de precocidade e a eficiência da intervenção. Vulgarmente definida como uma perturbação a nível da leitura e da escrita, a dislexia, quando não tem uma intervenção atempada e eficiente, pode afectar a auto-estima, a autoconfiança, a motivação em relação à aprendizagem e, consequentemente, conduzir ao abandono escolar. 

DISLEXIA TRATADA NA UNIVERSIDADE

A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), em Vila Real, é a única universidade portuguesa a dispor de uma unidade de diagnóstico e tratamento da dislexia. Esta unidade, criada em 2005 por ‘teimosia' da professora e investigadora Ana Paula Vale, recebe crianças provenientes de todo o País, que têm à disposição dois psicólogos a tempo inteiro. Os programas de intervenção são feitos especificamente para cada caso.
"HÁ LACUNAS NO ENSINO": Paula Teles, Psicóloga Educacional, especialista em dislexia
Correio da Manhã - Quais os défices associados à dislexia?

Paula Teles - Há um défice fonológico, ou seja, dificuldade na identificação e discriminação dos sons da linguagem oral. Paralelamente, existe um défice de atenção, da memória de trabalho e visual e também ao nível da automatização.

- Os professores sabem lidar com alunos disléxicos?

- Não. Há uma grande lacuna nas universidades a este nível. Os professores precisam de ter consciência de que a percentagem de crianças com dificuldade de leitura é elevada. Essas dificuldades são visíveis logo no 1.º ano de escolaridade

- Como devem ser ensinadas?

- O professor deve fazer trabalhos específicos e sistemáticos com cada criança, com leitura, ortografia e caligrafia. Há diferentes tipos de dificuldade e graus de aprendizagem.

"SEMPRE SOUBE QUE IA FICAR BOA"

Bruna Francisco, de nove anos, herdou a dislexia do pai, Miguel Francisco, de 36 anos. Tendo em conta a sua experiência enquanto disléxico, o primeiro pensamento de Miguel foi: "A minha filha está tramada." No entanto, os receios em relação ao futuro da criança não se concretizaram. 

Os pais foram alertados pela professora, mas já desconfiavam que algo se passava. "A Bruna tinha muita dificuldade em ler, andava desmotivada e evitava a leitura. Tinha boas notas a todas as disciplinas, menos a Português", explicou Miguel. Bruna tinha sete anos quando soube que era disléxica. Lia apenas sete palavras por minuto. "Fiquei abalada mas sempre soube que ia ficar boa." E a prova foi superada. Actualmente, graças aos intensos exercícios de leitura e ortografia, Bruna frequenta o 4º ano de escolaridade e tem um nível de leitura equiparado ao 5º ano. O esforço e a dedicação de Bruna também contribuíram para o êxito de mais uma batalha contra a dislexia. E o pai comprova. "Um dia, quando ia no carro, começou a ler as placas com os nomes das cidades", recorda Miguel. 

Em casa, Bruna ajuda o pai a minimizar os efeitos da dislexia. Na escola, conta com o apoio dos colegas - alguns deles também sofrem desta perturbação. Contrariamente ao que acontece com muitas crianças, incompreendidas pelos colegas de turma e também pelos professores, Bruna nunca foi alvo de troça ou posta de parte. "Os meus colegas gostavam de mim e brincavam comigo", garante. Abandonar os estudos, como acontece com muitos disléxicos, desmotivados pelas barreiras linguísticas impostas pelo seu problema, não está nos planos da menina. A disciplina preferida é o Português e, quando crescer, quer ser farmacêutica. 

PERFIL

Bruna Francisco descobriu aos sete anos que sofria de dislexia. Agora tem 9 anos e, no 4.º ano, tem um nível de leitura equiparado ao do quinto ano.

PIOR ABANDONO ESCOLAR DA OCDE

Entre os 30 países que são membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Portugal é o que regista a maior taxa de abandono escolar. De acordo com dados da OCDE relativos a 2007, apenas 73% dos portugueses tinham completado o ensino obrigatório. Em 1998, os números eram bem mais negros: a taxa de abandono escolar ascendia aos 82%. 

De acordo com a avaliação da OCDE, a ‘medalha de ouro' vai para a República Checa, com apenas nove por cento de abandono escolar, seguida dos EUA (12 por cento) e do Canadá (13 por cento). 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Cinco em cada 100 crianças são disléxicas

A palavra "mar" tem três sons: m-a-r. Se uma criança não os consegue separar pela sua audição, o mais provável é ter dislexia. O primeiro estudo em Portugal demonstrou uma prevalência de 5,4%. A reeducação é a única ajuda possível.

O estudo foi coordenado pela investigadora da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Ana Paula Vale, 53 anos, que pretendeu "compreender melhor as manifestações da dislexia nas crianças portuguesas".

É que, ao invés de outros países, por cá sabia-se muito pouco sobre esta perturbação do desenvolvimento. Por causa dele, do estudo, vai receber, em Maio de 2011, o Prémio "Seeds os Science 2011", na categoria de Ciências Sociais e Humanas, atribuído pelo Jornal "Ciência Hoje". "Muito relevante", considera a docente.

Com o apoio de Fernanda Leopoldina Viana e Ana Sucena Santos, da Universidade do Minho, foram testadas 1460 crianças dos distritos de Vila Real e Braga. Destas, 5,4% demonstraram prevalência da dislexia. Ou seja, dificuldades em ler e escrever, mas particularmente em escrever, problemas de velocidade de processamento e défices de memória verbal (curto prazo). As características mais específicas têm a ver com as do vocabulário português.

Ana Paula Vale nota que, apesar de a criança com dislexia ter dificuldades "em fazer análises sobre a organização dos sons da fala", o domínio da linguagem em termos da comunicação do dia-a-dia "não está perturbado". Constatou mesmo que a grande maioria "até tem uma inteligência normal ou mesmo superior".

Embora em Portugal não existam estudos específicos, em Inglaterra e nos EUA provou-se que a dislexia tem "impactos negativos e consequências drásticas, quer na vida académica quer na vida profissional e pessoal". As crianças com este distúrbio tendem a ter uma "auto-estima reduzida, problemas de motivação e auto-imagens pouco edificantes".

A reeducação é a única forma de corrigir ou atenuar o problema, sendo que também aqui não existem milagres: uma vez disléxica, disléxica para sempre. As manifestações e as dificuldades é que podem ser recuperadas a tal ponto de não se distinguir uma criança que sofre da perturbação de outra normal. Mas em situações de stresse ou cansaço, Ana Paula Vale admite que "o desempenho baixa sempre um pouco".

Escusado será dizer que o desempenho escolar de uma criança com dislexia é naturalmente afectado por aquela perturbação do desenvolvimento. Ana Paula Vale defende que se deveriam criar mecanismos de ajuda a estas pessoas. Segundo diz, a lei já lhes dá tempo extra para fazerem exames nacionais, mas na sala de aula raramente acontece.

A Unidade de Dislexia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro é a única do país em contexto universitário. Foi criada em 2005 por Ana Paula Vale, "por teimosia, por ter pedidos de pessoas que queriam saber se os filhos sofriam daquele distúrbio".

A estrutura de serviço à comunidade faz diagnóstico especializado às perturbações do desenvolvimento da linguagem e da dislexia, bem como de outras perturbações que podem estar associadas: défice de atenção, perturbações da memória ou discalculia (desordem neurológica que afecta a habilidade de uma pessoa compreender e manipular números). "Quem tem dislexia não tem necessariamente as outras, mas muitas vezes tem", afiança a investigadora.

A reeducação feita naquela unidade tem duas fases: o diagnóstico e a intervenção. A primeira tem uma duração de duas horas e custa 45 euros; a segunda é dividida em várias sessões, cada uma a 26,5 euros. O dinheiro conseguido serve para pagar os vencimentos dos dois psicólogos que ali trabalham permanentemente e para a compra de material. "A Unidade de Dislexia paga-se a si própria."

A Unidade tem crescido e recebido pessoas de todo o país. Chegou a ter lista de espera, mas neste momento já consegue dar resposta aos pedidos à medida que eles chegam. Neste momento tem 25 crianças em processos de intervenção.

domingo, 4 de abril de 2010

Dislexia

As crianças com dislexia têm dificuldades para ler, escrever e interpretar textos. O diagnóstico precoce costuma ajudar a diminuir os problemas...

Neste vídeo podemos observar algumas estratégias...

quarta-feira, 10 de março de 2010

Maior parte das crianças com dislexia deixou de receber apoio do ensino especial


A Confederação de Pais e Associação Portuguesa de Dislexia (APD) querem que o Governo altere o funcionamento do ensino especial e dizem que a maior parte das crianças com dislexia ficaram de fora do sistema, avança a TSF.

A presidente da APD, Helena Serra, explica que, com a classificação que foi introduzida pelo anterior Governo, a grande maioria das crianças disléxicas deixou de receber apoios especiais. E isto porque “a classificação é cega», afirma Helena Serra, lamentando que os professores nem sequer tenham formação para lidar com este tipo de alunos.

Nos próximos dias, a APD vai pedir um encontro com a ministra da Educação para lhe apresentar um conjunto de propostas para o ensino especial. E espera que a nova ministra, Isabel Alçada, esteja mais sensível para esse problema, aceitando colocar nas escolas um coordenador para os alunos que necessitam de um apoio especial.

Num estudo divulgado recentemente, a FENPROF denunciava que, com a mudança de regras, houve cerca de 20 mil crianças com necessidades educativas especiais que ficaram fora do sistema, a maior parte alunos disléxicos, hiperactivos ou sobredotados. A federação de professores denunciava também a falta de professores com formação adequada

O Governo rebate todas estas críticas. A responsável do ministério da Educação pelo ensino especial, Filomena Pereira, garante não ter recebido qualquer queixa, e assegura ainda não haver falta de professores.

A Confederação das Associações de Pais, embora considere positiva a criação de escolas de referência para as crianças com necessidades educativas especiais, contesta o facto de ficarem muito distantes da grande parte dos estudantes que são obrigados a passar todo o dia longe de casa. Filomena Pereira admite que o Governo venha a dar resposta a este problema e diz que está também a avaliar a necessidade de alargar o número de escolas com ensino bilingue para crianças surdas.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Crianças com dislexia sem ajuda no ensino público

"José Pedro Varela, de 13 anos, aprendeu desde pequeno a viver com dislexia. "Foi-se adaptando e construiu a sua vida em torno da dislexia. Faz tratamento desde a terceira classe, que passa pelo apoio à leitura e à escrita", contou ao DN a mãe, Conceição Moreira. Mas a família não conseguiu encontrar ajuda no ensino público: "Não sabiam lidar com uma criança assim. A Escola Egas Moniz em Guimarães queria excluí-lo do ensino por deficiência. Ele não teria aulas de Português."

A doença do José, segundo os especialistas, atinge 12% das crianças e as escolas não estão a acompanhar devidamente estes miúdos. O alerta é da presidente da Associação Portuguesa de Dislexia, Helena Serra, que adianta que há cada vez mais menores com este problema. "O número de rapazes é superior ao feminino, numa relação de três para um, e tem-se verificado um aumento de crianças disléxicas no ensino obrigatório", disse ao DN Helena Serra. Mas "só os casos mais graves de dislexia têm acompanhamento especial", garante, por seu lado, Teresa Alves, professora especializada em educação especial do Agrupamento de Escolas Eugénio de Andrade. Segundo esta docente, na maioria das vezes, só cegos e deficientes são considerados alunos com necessidades, beneficiando de um programa personalizado dado pela professora da disciplina e de uma série de condições especiais de avaliação.

Já o neuropediatra Nuno Lobo Antunes, que acompanha miúdos com dislexia, diz que é muito importante os alunos terem apoio de pais e professores Só assim estas crianças "conseguem ter uma vida boa, quase normal"."

por Joel Balsinha

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dislexia

Um vídeo que esclarece um pouco sobre a Dislexia:



Definição Dislexia

É diferente de dificuldades gerais de aprendizagem da leitura;
É diferente de qualquer tipo de problema de leitura ou instrução.
É um abuso frequente mas incorrecto.

As dificuldades situam-se ao nível cognitivo e neurológico e não existe uma explicação evidente, isto é, quando o indivíduo reúne condições favoráveis para a aprendizagem da leitura e mesmo assim manifesta dificuldades severas de aprendizagem daquela, então tem dificuldades específicas de leitura.

A Definição proposta pela Associação Internacional de Dislexia, 2003, diz que:

“Dyslexia is a specific learning disability that is neurobiological in origin. It is characterized by difficulties with accurate and/or fluent word recognition and by poor spelling and decoding abilities. These difficulties typically result from a deficit in the phonological component of language that is often unexpected in relation to other cognitive abilities and the provision of effective classroom instruction. Secondary consequences may include problems in reading comprehension and reduced reading experience that can impede growth of vocabulary and background knowledge.”
(Lyon, Shaywitz, & Shaywitz, 2003, p. 2)
A dislexia é muitas vezes inesperada em relação a outras capacidades cognitivas e à existência de uma instrução adequada na sala de aula.As consequências secundárias podem incluir problemas com a compreensão da leitura e redução da experiência de leitura que são capazes de impedir o crescimento do vocabulário e de conhecimentos de base.

Dr.ª Anabela Carvalho 02-10-2009