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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Português descobriu o que acontece no cérebro antes de fazermos um movimento

Rui Costa e colegas descobriram que a decisão para fazer um movimento simples como levantar o braço depende de dois circuitos neuronais diferentes e não de um só. Descoberta pode ter implicações no tratamento de sintomas de doenças como a de Parkinson.

Luzes, neurónios, acção: foi através da observação desta sequência de acontecimentos que uma equipa de cientistas, com participação portuguesa, conseguiu mostrar que são necessárias duas rotas diferentes de células nervosas para se gerar movimento.

Utilizando uma nova técnica, Rui Costa, neurocientista que trabalha na Fundação Champalimaud, em Lisboa, e colegas, puseram em causa o que se pensava ser a função de cada uma das rotas – defendia-se que uma servia para accionar um determinado movimento, outra para inibir o mesmo movimento. Mas, afina,l o comando para começar uma acção é mais complexo, mostra um estudo publicado nesta quarta-feira na edição online da revista Nature.

O que é uma acção: levantar o braço, caminhar até à casa de banho ou saltar de uma ponte? As três, mas a terceira necessita de um processo mental mais complexo para a tomada de decisão. O tipo de acção que Rui Costa e os colegas do Instituto Nacional do Abuso de Álcool e do Alcoolismo, nos Estados Unidos, estudaram prende-se mais com as duas primeiras. São esses movimentos mais simples que são afectados por doenças do sistema nervoso como a de Parkinson ou a coreia de Huntington.

Essas doenças afectam os gânglios de base, estruturas bem definidas no cérebro compostas por células nervosas que estão abaixo do córtex. Uma das actividades que são levadas a cabo pelos neurónios destas estruturas conduz à tomada de decisão para a iniciação ou não de movimentos mais simples.

Sabia-se que dois circuitos diferentes que partem destes gânglios afectavam esta decisão. Um dos circuitos é directo e o outro tem mais intermediários e, por isso, chama-se indirecto. A doença de Parkinson, que é inibidora desses movimentos, e a coreia de Huntington, que provoca movimentos musculares descontrolados, afectam estes dois circuitos. Por isso, teorizou-se que o circuito directo servia para activar o movimento e o indirecto servia para o inibir.

Mas faltava uma observação experimental. “Nunca se conseguiu medir directamente a actividade destes neurónios”, diz Rui Costa ao PÚBLICO. O trabalho, que começou quando Rui Costa ainda estava nos Estados Unidos, ultrapassou esta dificuldade experimental e mostrou que aquela hipótese parece estar errada.

As células nervosas de cada circuito têm identidades diferentes e produzem proteínas únicas. A equipa criou ratinhos que produziam proteínas fluorescentes em cada um dos circuitos. Estas proteínas emitiam mais luminosidade quando os neurónios se activavam. Com uma pequeníssima fibra óptica instalada no cérebro dos ratinhos e ligada a um contador de fotões, os cientistas conseguiram medir a actividade dos dois circuitos neuronais separadamente.

Depois, puseram os ratinhos a iniciar um movimento e mediram a actividade do circuito directo e do indirecto. “Menos de um segundo antes de iniciar o movimento, os dois circuitos ficavam mais activos, depois iniciava-se o movimento”, conta Rui Costa. “Para iniciar um movimento consciente, é necessário os dois circuitos estarem activos”, conclui.

Os cientistas não fizeram nenhuma experiência que testasse a actividade dos circuitos quando uma acção era inibida. Só se verificou que, quando os ratinhos se mantinham parados, os dois circuitos estavam menos activos.

Não se sabe qual a função de cada um dos circuitos. Uma das possibilidades é que, enquanto um circuito está a activar uma acção, o outro acaba por inibir todas as outras, explica Rui Costa.

Mas estes resultados podem ajudar “a melhorar o tratamento dos sintomas das doenças neuronais”, diz o investigador. “O próximo passo é tentar manipular a actividade destes circuitos, de forma a controlar o movimento.”


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Cérebro: Estímulos na infância favorecem formação

Além de promover uma maior autonomia intelectual, uma infância rodeada de livros e brinquedos educativos favorece a formação da estrutura do cérebro, revela um estudo norte-americano que se prolongou por quase 20 anos e cujos resultados foram divulgados na reunião anual da Sociedade para a Neurociência dos EUA.

A investigação liderada pela neurocientista Martha Farah, da Universidade da Pensilvânia, aponta para um “período sensível”, no início da vida, durante o qual o desenvolvimento do cérebro é fortemente influenciado por fatores ambientais. De acordo com este estudo, quanto maior for a estimulação mental das crianças até aos 4 anos, mais desenvolvidas serão as partes do cérebro que lidam com linguagem e ações cognitivas durante a sua adolescência.

Através de estudos com gémeos idênticos e não idênticos, a ciência já tinha provado que os genes desempenham um papel importante no desenvolvimento do córtex cerebral, a estrutura fina que suporta funções mentais superiores. Mas pouco se sabia sobre a forma como as experiências iniciais de vida influenciam o desenvolvimento do córtex.

Para investigar, a equipa da Universidade da Pensilvânia recrutou 64 meninos e meninas de estratos sociais mais baixos e acompanharam as crianças desde o nascimento até ao final da adolescência. Os investigadores visitaram, em sua casa, as crianças quando tinham 4 anos idade e, depois, aos 8 anos para avaliar o ambiente, registando dados como o número de livros e brinquedos educativos presentes em casa e o nível de apoio que recebiam dos pais.

Mais de 10 anos depois da segunda visita à casa dos participantes, que entretanto se tornaram adolescentes, os investigadores realizaram ressonâncias magnéticas para obter imagens detalhadas dos seus cérebros. Os resultados indicam que o nível de estimulação mental que uma criança recebe em casa com a idade de 4 anos determina a espessura de duas regiões do cérebro na adolescência tardia, sendo que uma maior estimulação torna o córtex mais fino. 

A pesquisa mostrou que o ambiente de casa aos oito anos tem um menor impacto sobre o desenvolvimento dessas regiões cerebrais, enquanto outros fatores - como a inteligência da mãe e a qualidade da educação - não resultou em qualquer alteração morfológica do cérebro.

À medida que o cérebro se desenvolve produz mais sinapses, ou conexões neuronais, que são necessárias, explica. as ligações cerebrais que não são precisas são depois eliminadas num processo conhecido como “poda sináptica” (synaptic pruning, em inglês) que é altamente dependente da experiência pessoal.

Os resultados sugerem que a estimulação mental no início da vida aumenta o grau em que ocorre a poda sináptica no lobo temporal lateral. A poda reduz o volume de tecido do córtex. Isto faz o córtex mais fino, mas também torna o processamento da informação mais eficiente.

“Como em todos os estudos observacionais, não podemos realmente falar sobre a causalidade, mas parece provável que a estimulação cognitiva experimentada no início da vida levaram a alterações na espessura cortical”, disse a investigadora citada pelo jornal online ScienceNow.

Martha Farah acrescenta, no entanto, que a pesquisa ainda está em fase inicial e que mais trabalho é necessário para obter uma melhor compreensão de como exatamente a vida inicial e as experiências têm impacto na função cerebral.

Estudos anteriores já tinham provado que as experiências adversas, como a negligência infantil, abusos e pobreza podem impedir o crescimento do cérebro. a nova investigação confirma que a infância é um período de “extrema vulnerabilidade e que os pais podem ajudar as crianças a desenvolver suas habilidades cognitivas, proporcionando um ambiente estimulante.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Abreviaturas nos SMS altera processamento de linguagem

A utilização de abreviaturas e símbolos nas mensagens de texto enviadas por telemóvel (SMS) ou Internet pode alterar a forma de processar do cérebro, modificando a própria linguagem, defendeu, em entrevista à Lusa, o neuropsicólogo Michael Corballis.

Para o neuropsicólogo neozelandês, que está hoje em Portugal para participar na conferência "A Origem da Linguagem", as mudanças acontecerão "em pequenas doses".

"Os novos media [textos de SMS ou na Internet] podem alterar a linguagem em pequenas doses. Por exemplo, nos SMS, as pessoas usam abreviaturas e símbolos que podem ter pequenos efeitos na forma como o cérebro processa a linguagem".

Apesar desta evolução ser natural até porque "a linguagem está continuamente a mudar e a diversificar-se", Michael Corballis duvida que o futuro traga uma língua universal.

"Existem hoje em dia mais de 6.000 línguas no mundo, o que torna muito pouco provável a existência de uma linguagem universal", afirmou.

Embora reconheça que as rádios, televisões e Internet proporcionem uma "maior universalidade", o cientista lembrou que "as pessoas tendem naturalmente a defender a sua língua e a preservar as diferenças".

Mesmo os gestos e as expressões faciais, que são tidos como comuns à população mundial, não podem considerar-se uma linguagem universal, alerta Michael Corballis.

"A comunidade científica ainda não tem certeza se os gestos podem ser considerados uma linguagem universal, porque não se trata de uma linguagem no sentido estrito", explicou, adiantando que "muitos gestos variam consoante as culturas, o que dificulta perceber o quão universais são".

De acordo com o neuropsicólogo, as expressões do rosto são "provavelmente as mais universais, mas refletem mais as emoções do que afirmações".

A origem da linguagem vai estar hoje em destaque no Instituto de Ciências da Saúde, em Lisboa, onde o neozelandês vai explicar as suas teorias sobre o assunto.

Michael Corballis é professor benemérito de psicologia na Universidade de Auckland, na Nova Zelândia.

Doutorado pela Universidade de McGill, no Canadá, foi presidente da Sociedade Internacional de Neuropsicologia e publicou cinco livros sobre psicologia cognitiva e neurociência, dos quais o mais recente é "Da Mão para Boca -- As Origens da Linguagem".

"A linguagem humana é diferente da linguagem dos animais porque é suscetível de criar combinações e permite aos seres humanos uma variedade infinita de afirmações", defendeu à Lusa.

In: DN online

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Investigadores do Porto e Minho distinguidos com Prémio Grünenthal Dor

Investigadores das universidades do Porto e do Minho foram distinguidos com o Prémio Grünenthal Dor, o galardão de mais alto valor distribuído em Portugal no âmbito da investigação da dor.

A Fundação Grünenthal atribuiu o prémio de Investigação Básica 2010, avaliado em 7.500 euros, ao trabalho "Papel da noradrenalina na facilitação da dor no encéfalo: estudos em modelos de dor crónica", da autoria de Isabel Martins, Deolinda Lima e Isaura Tavares, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP/IBMC) e do Instituto de Biologia Molecular e Celular.

O prémio de Investigação Clínica, também de 7.500 euros, foi entregue ao trabalho "Eficácia da associação de Carbamazepina com o bloqueio analgésico periférico com Ropivacaína no tratamento da Nevralgia do Trigémio" da autoria de Laurinda Lemos, Pedro Oliveira, Sara Flores e Armando Almeida, do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) e do ICVS/3B's - Laboratório Associado da Universidade do Minho.

As cientistas da FMUP/IBMC descobriram, em colaboração com as Universidade de Groningen (Holanda) e da Carolina do Sul (EUA), um circuito neuronal que aumenta a dor através da libertação de um neurotransmissor (noradrenalina) e que deverá ser responsável pelo desencadear do mecanismo de alerta, explica o IBMC, em comunicado enviado à Lusa.

O comunicado acrescenta que o "mecanismo de alerta da dor é um 'sistema de sobrevivência' que nos permite responder rapidamente à dor, protegendo-nos de estímulos causadores de danos e ensinando-nos a não repetir acções que causem dor".

De acordo com Isaura Tavares, coordenadora geral deste trabalho, "o próximo passo é perceber de que forma o mecanismo de alerta se desregula quando existe dor crónica, e avaliar se um estado de alerta contínuo poderá relacionar-se com a presença de outras patologias, como a depressão, por exemplo".

Foi ainda atribuída uma Menção Honrosa ao trabalho "As neurotrofinas Factor de Crescimento Nervoso (NFG) e Factor de Crescimento Derivado do Cérebro medeiam a dor referida e a hiperactividade vesical que acompanham a cistite crónica", colocado a concurso por um grupo de investigadores da FMUP/IBMC.

O Júri do Prémio Grünenthal Dor 2010 foi presidido pelo Presidente da Fundação, Walter Osswald, e contou com a participação de mais seis personalidades médicas designadas pela Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED) e pela Sociedade Portuguesa de Reumatologia (SPR).

Os Prémios Grünenthal Dor, criados em 1999 pela Fundação Grünenthal, contemplam um valor pecuniário total de 15.000 euros, igualmente distribuídos pelo Prémio de Investigação Básica e pelo Prémio de Investigação Clínica.

A Fundação Grünenthal é uma entidade sem fins lucrativos que tem por fim primordial a investigação e a cultura científica na área das ciências médicas, com particular dedicação ao âmbito da dor e respectivo tratamento.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Nova unidade de Estimulação Cerebral em Coimbra

Os Hospitais da Universidade de Coimbra estão apostados em revolucionar o tratamento de doenças psiquiátricas e neurológicas. E a nova Unidade Não Invasiva de Estimulação Cerebral está já pronta a receber doentes.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Escrever à mão mantém o cérebro mais activo

Investigadores norte-americanos descobriram que escrever manualmente ajuda a decorar conceitos e a aprender com mais facilidade fórmulas e símbolos. Os médicos portugueses encontram muitas vantagens na dactilografia, mas continuam a defender o abandono do uso dos computadores.

Antes de enviar um processo ao patrono, Cátia Nunes, advogada estagiária, escreve-o sempre primeiro à mão . Só depois é que transcreve o texto para o programa no computador. "Utilizo sempre o mesmo método. Se escrever à mão, as ideias fluem melhor. Consigo estruturar melhor o raciocínio. Ao computador, há palavras que não me ocorrem", confessa a rapariga de 25 anos, que vive em Coimbra.

Escrever à mão, seja cartas, relatórios ou mesmo trabalhos da escola, está cada vez mais em desuso. E nas salas de aulas os cadernos deixaram quase de fazer parte da decoração, e são cada vez mais substituídos pelos computadores.

No entanto, um novo estudo indica que a escrita manual é fundamental para decorar conceitos, aprender uma língua ou manter o cérebro activo.

Graças a testes e imagens recolhidas através de ressonâncias magnéticas, investigadores da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, concluíram que escrever à mão traz muitas vantagens, uma vez que são estimuladas e activadas mais conexões cerebrais, o que favorece a aprendizagem de fórmulas e também de símbolos.

"Quando escrevemos à mão, a palavra que imprimimos no papel está memorizada como um todo, como símbolos, sai como uma unidade única de significação", explica o neurologista do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, Alexandre Castro Caldas.

"Quando utilizamos o computador, o cérebro processa letra a letra, com base numa memória visual dos caracteres que se quer teclar. Na base está o acto de soletrar, um processo mais lento."

Para o director do Instituto de Ciências da Saúde, da Universidade Católica Portuguesa, é preciso desenvolver o processo da escrita à mão quando se é criança, porque ele favorece a elasticidade do cérebro, o que vai permitir desenvolver outras capacidades cognitivas como decorar ou exprimir pensamentos de forma mais clara.

"A escrita à mão é uma habilidade que deriva da arte de traduzir ideias e palavras numa linguagem gráfica legível", define também o neuropsicólogo e presidente do Instituto da Inteligência, Nelson Lima.

Rosa Evangelista tem 66 anos. Nunca teve computador e também não pensa vir a adquirir um. Não porque não possa, mas porque simplesmente não quer. "Nem nunca cheguei a ter máquina de escrever. Os meus filhos e amigos estão sempre a perguntar o porquê de não comprar um computador cá para casa. E eu respondo que não me seduzem. Gosto demasiado de escrever à mão e de ler para ficar agarrada a uma máquina, como eles fazem", conta a professora reformada das disciplinas de Português e Francês.

Na altura em que dava aulas na Escola Secundária da Sé, na Guarda, até o formulário dos testes os alunos recebiam sempre escrito à mão. "Eles já não estranhavam e como tenho uma letra muito redondinha nunca tive problema para entenderem a minha letra."

Para Rosa, o computador não traz muitas vantagens, "facilita demasiado", acredita.

"Vejo as novas gerações a escrever cada vez pior, e, como consequência, a falar cada vez pior. São as abreviaturas e os códigos que utilizam entre eles. Deixaram de saber escrever sem erros gramaticais por causa do corrector do computador", acusa, defendendo a escrita à mão acima de tudo: "Obriga a pensar e é importante para desenvolver capacidades cognitivas e de raciocínio."

O neuropsicológo João Anacleto, do Instituto do Cérebro, não podia estar mais de acordo. "Através da escrita manuscrita existe tendência a uma maior concentração, e consequentemente facilidade de interiorização da informação. Inclusive para a realização dos testes, que são manuscritos", defende.

Nelson Lima assina por baixo: "A escrita à mão é geralmente mais lenta e exige uma maior concentração, o que permite uma mais demorada, ainda que curtíssima, elaboração mental para transformar ideias e palavras em linguagem escrita."

E dá como exemplo os escritores que " preferem criar as suas obras usando primeiro a escrita à mão, talvez porque lhes dá uma maior liberdade criativa e expressiva".

Para o especialista, escrever as palavras à mão é mais exigente sob o ponto de vista intelectual, o que significa que contribui para a agilidade cognitiva. "O uso excessivo dos teclados poderá levar a uma perda das habilidades manuais para a escrita e, como consequência, de certas habilidades do pensamento."

Embora Nelson Lima encontre vantagens da escrita manuscrita, defende que o processamento de texto no computador também é importante.

"A aplicação de um não anula o interesse prático, expressivo e intelectual do outro", defende o especialista.

"A escrita à mão é uma competência que se consegue graças à ligação do cérebro com a mão dominante e como consequência de um acto consciente e voluntário", começa por explicar.

"Nos teclados, as letras já lá estão, e apenas precisam que os dedos as construam através de uma espécie de jogo digital que, nos mais experientes, é algo quase automático."

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O cérebro de um adulto muda tanto como o de uma criança, quando aprende a ler

Cientistas e voluntários portugueses participaram num estudo internacional inédito sobre os efeitos da leitura no córtex cerebral, comparando analfabetos, leitores e ex-iletrados.

Quando se aprende a ler, é como se uma armada vitoriosa chegasse às costas desprevenidas do nosso cérebro. Muda-o para sempre, conquistando territórios que eram utilizados para processar outros estímulos - para reconhecer faces, por exemplo - e estendendo a sua influência a áreas relacionadas, como o córtex auditivo, para criar a sua própria fortaleza: uma nova zona especializada, a Área da Forma Visual das Palavras. Isto acontece sempre, quer se tenha aprendido a ler aos seis anos ou já na idade adulta.

Esta é uma das conclusões de um estudo internacional publicado hoje na edição online da revista Science, em que participaram cientistas portugueses - e voluntários portugueses também, pessoas que aprenderam a ler já tarde na vida.

"Este é o primeiro trabalho que compara o cérebro de pessoas letradas e analfabetas, mas também de ex-iletradas (que aprenderam a ler em adultos)", explica José Morais, professor jubilado de Psicologia da Universidade Livre de Bruxelas e um dos autores do artigo.

Reciclagem neuronal

"Comparando o cérebro destas pessoas podemos ver o impacto da aprendizagem deste código no nosso cérebro", adianta Paulo Ventura, professor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. "Trabalhámos sobre a hipótese da reciclagem neuronal, defendida pelo chefe da equipa, Stanislas Dehaene [do INSERM-Instituto Nacional da Saúde e da Investigação Médica francês]. A ideia é que, sendo a escrita algo relativamente recente na história humana, com cerca de 6000 anos, não houve tempo suficiente para que se desenvolvessem estruturas físicas no cérebro" com ela relacionadas, explica.

Na falta de ordens evolutivas codificadas no nosso ADN, o que acontece é que o cérebro de cada pessoa que aprende a ler se modifica para acomodar as novas capacidades, porque tem uma grande capacidade plástica. E a leitura recruta uma área cortical semelhante em todas as culturas humanas. Os cientistas estavam também interessados em perceber quais as funções desalojadas, digamos assim, pela nova área cerebral que é criada quando se aprende a ler, para além de compreenderem como passa a funcionar o cérebro leitor.

Dez analfabetos brasileiros, da região em torno de Brasília (com a idade média de 53,3 anos, e originários de meios rurais), 22 pessoas que aprenderam a ler em adultos (12 deles portugueses, alguns recrutados na zona de Paris) e 31 letrados (11 portugueses) foram os participantes.

"Foi difícil encontrar iletrados portugueses, até porque quando começámos o estudo, há três anos, acabaram os cursos de alfabetização para adultos, que era onde podíamos mais facilmente encontrar estas pessoas, quando se inscreviam", diz José Morais. "Em Portugal, felizmente, é cada vez mais difícil encontrar analfabetos."

Os cérebros dos voluntários recrutados foram analisados - observados em acção - quando resolviam uma série de testes. Para isso, foi usada a ressonância magnética funcional, um exame de imagiologia que permite medir os níveis de actividade nas diferentes zonas do cérebro num determinado momento (ver ilustração).

"Os brasileiros foram testados no Brasil, através da rede de hospitais privados SARAH, de neurodiagnóstico e neurorreabilitação, mas quando o projecto começou, não havia em Portugal máquinas com potência suficiente. Fizemos uma ponte aérea com Paris", explica Paulo Ventura.

E o que descobriram então os cientistas sobre o que acontece ao cérebro de quem aprende a ler?

Nunca é tarde

Antes de mais, que nunca é tarde para aprender: "O cérebro dos ex-analfabetos só em poucas coisas difere do dos alfabetizados, está muito mais próximo destes", diz José Morais, ainda que as suas condições sócio-económicas se possam assemelhar mais à dos iletrados. "Ensinar alguém a ler na idade adulta tem os mesmos efeitos do que ensinar uma criança. É uma boa notícia, não há razão para desistir dos iletrados", sublinha.As diferenças entre o cérebro leitor e aquele dos que nunca aprenderam a ler é que são todo um rol. Por exemplo, no cérebro de quem lê, os exames de ressonância magnética revelam um aumento de actividade no córtex auditivo, quando vê uma palavra escrita. É activado quando temos de decidir se estamos perante uma palavra a sério ou um conjunto de letras sem nexo, ilustra José Morais.

"Poder-se-ia pensar que no córtex auditivo há uma extensão das áreas ligadas ao visual", diz o cientista ao telefone, a partir de Bruxelas. "É uma área envolvida no tratamento de fonemas, que são as unidades mais pequenas da fala. Curiosamente, os iletrados são incapazes de manipular as unidades fonéticas", contribui Paulo Ventura.

Finalmente, há o curioso roubar de terreno à área cerebral que processa o reconhecimento de rostos pela Área da Forma Visual das Palavras, que ganha terreno no córtex, quando se aprende a ler. "Há menos área dedicada a esta função anterior nos alfabetizados. A nova área rouba um bocadinho à antiga para lidar com a leitura. É como se os iletrados fossem melhores, entre aspas, a reconhecer os rostos, mas obviamente as diferenças são minúsculas", diz Paulo Ventura. O interessante disto, nota, é que "comprova a teoria da reciclagem neuronal".

In: http://www.publico.pt/

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

António Damásio: A história da consciência como nunca a tínhamos ouvido contar


Há dez anos, em O Sentimento de Si, o neurologista português António Damásio explicava pela primeira vez a sua visão de como o cérebro humano constrói a consciência. Agora, em O Livro da Consciência, volta ao mesmo tema, mas com uma "receita" muito mais apurada e onde mistura ingredientes que até aqui tinham ficado esquecidos nas gavetas das neurociências. Com a vibrante prosa que o caracteriza e o profundo enraizamento das suas ideias na arquitectura e nas aflições cerebrais, conta-nos a emergência da consciência no cérebro humano como nunca a tínhamos ouvido contar.


"Fa franziu o sobrolho e olhou para a sua barriga, levou a mão direita à cabeça e disse: 'tenho uma imagem'. Abandonou a escarpa e apontou para o bosque e o mar: 'estou ao pé do mar e tenho uma imagem. É uma imagem de uma imagem. Estou - disse, levantando a cara e franzindo o sobrolho - a pensar."


William Golding (mais conhecido como o autor d'O Senhor das Moscas) escreveu estas linhas em Os Herdeiros (The Inheritors, 1955), um romance onde imagina o encontro, há dezenas de milhares de anos, de duas espécies de seres humanos. Uma mais evoluída (nós?), os "cara de osso", imberbes, erguidos, magros, com rituais e ferramentas mais complexos; a outra mais primitiva (os Neandertais?), peluda, robusta e ágil a trepar às árvores.

Uma das características mais salientes da estranha e maravilhosa narrativa de Golding é o número de vezes que recorre à palavra "imagem". Os Neandertais estão constantemente a "ter" imagens e a declarar que têm imagens (que portanto lhes pertencem) e a reflectir sobre essas imagens. Enquanto isso, as imagens, combinadas com o que vai acontecendo no mundo exterior e com a memória do passado, vão gerando emoções e sentimentos que geram outras imagens e orientam os seus actos, tanto exteriores como interiores. Estas personagens primitivas são seres perfeitamente conscientes do mundo e de si próprios, dotados de uma história pessoal e individual.

Os hipotéticos neandertais têm contudo alguma dificuldade em manipular ideias complexas - talvez um sinal de que as suas capacidades de memória ainda não desabrocharam totalmente. A tribo mais evoluída, essa, tem muito mais jeito para todos esses exercícios mentais (algo que o autor talvez quisesse sugerir quando abandona o uso da palavra "imagem", mesmo no fim, mal o relato passa a ser do ponto de vista dos "cara de osso"). 

Os humanos modernos tornaram-se mestres na produção de imagens mentais, na sua análise consciente e na análise, também consciente, dos sentimentos que elas provocam em nós. O nosso cérebro produ-las em contínuo e nem sequer quando dormimos conseguimos interromper o seu fluxo. Somos todos cineastas mentais natos. 

As imagens são "a principal moeda da nossa mente", explica António Damásio no seu novo livro, intitulado O Livro da Consciência. E a palavra não se esgota apenas nas imagens visuais, mas aplica-se aos padrões, aos "mapas" neuronais auditivos, viscerais, tácteis e por aí fora, que o cérebro constrói em permanência. Nem os sentimentos fogem à regra: são igualmente imagens. Mais ainda, o nosso cérebro que é "viciado" na criação de mapas, também mapeia o seu próprio funcionamento, gerando imagens totalmente abstractas. "Estou convencido", escreve Damásio, "que os matemáticos e os compositores sobressaem neste tipo de criação de imagens."

Esse filme super-multimédia que vemos na nossa cabeça começa na nossa infância - e de facto, através das relações sociais, da cultura e da aprendizagem, remonta até muito mais longe no passado, quando ainda não tínhamos nascido. Mais ainda, conseguimos antecipar o futuro e agir sobre ele em nosso benefício, individual e colectivo. E mais mais ainda, sentimos que o filme é nosso e só nosso (e de facto, somos o público exclusivo do espectáculo da nossa mente). 

Mas como é que lá chegámos? O que aconteceu no nosso cérebro que tornou a consciência possível? 

Cérebro, mente, consciência

Como já aconteceu nos seus livros anteriores, as respostas que Damásio se propõe dar a estas perguntas só podem ser válidas se forem firmemente ancoradas na biologia. Afinal de contas, os neurónios que suportam a mente e a consciência são células vivas como as outras; afinal de contas o cérebro, com as suas várias subdivisões e as ligações nervosas entre elas que suportam a mente e a consciência, é a mente e a consciência. Afinal de contas, tudo o que se passa na nossa mente passa-se na nossa cabeça e no nosso corpo (where else?). "De entre as ideias apresentadas neste livro, nenhuma é mais importante do que a noção de que o corpo é o alicerce da mente consciente" escreve Damásio.O Livro da Consciência é a mais recente incursão neste território do célebre neurologista português (radicado nos EUA desde 1975 e figura de primeiro plano não só da comunidade internacional das neurociências, mas também, desde o seu O Erro de Descartes, de 1995, junto do grande público). O título original em inglês do novo livro, Self Comes to Mind, talvez seja mais sugestivo do que o da versão portuguesa, editada pela Temas e Debates/ Círculo de Leitores, que vamos poder ler a partir de hoje (o original só será publicado nos EUA e na Europa em Novembro). 

Mas o que importa sublinhar é que o livro define um programa para a futura investigação nesta área. Damásio é o primeiro a admitir que ainda está longe de ter resolvido o mistério do que é a consciência humana (se é que alguma vez o poderá fazer), que está meramente a arranhar a superfície, que nem sequer tem uma teoria, mas apenas um "enquadramento" teórico da questão.

Mas acha que, apesar de haver quem considere a tarefa impossível, ainda é muito cedo para os cientistas desistirem de explicar o que é a consciência em termos rigorosos e testáveis através da experimentação. Tanto mais quanto, nos últimos dez anos, os avanços das técnicas de imagens médicas têm permitido visualizar de forma cada vez mais sofisticada, ao vivo e em directo, o cérebro de pessoas (com e sem lesões neurológicas) a realizar diversas tarefas - para ver qual a região do cérebro que entra em acção a cada instante. Essas manchas de cor nas imagens poderão ser apenas um eco longínquo do filme na nossa cabeça, mas têm muito para nos contar.

A quarta dimensão

Toda essa massa de trabalho científico teve como consequência, para o pensador atento, metódico, profundo que é Damásio, uma mudança radical das premissas do empreendimento. O estudo do aparecimento da consciência humana, explica no livro, já não pode ser encarado da mesma maneira que há dez anos. Tornou-se preciso contar a história da consciência humana de outra maneira - e, por vezes, virada do avesso. 

Em primeiro lugar, acrescenta-lhe uma "quarta dimensão": a perspectiva da evolução das espécies. Para conseguir perceber como surge e como funciona a mente humana - e em particular a mente consciente - é preciso abandonar a ideia de que ela é única em todos os seus aspectos. É única nalguns, que não deixam de ser espectaculares (a cultura e as artes estão lá para o provar). Mas a mente nasceu nos organismos vivos muito antes de a espécie humana aparecer na Terra. A consciência não é o apanágio do cérebro humano.

"A evolução brindou-nos com diferentes tipos de cérebro", lemos, "no que diz respeito à mente e à consciência. Temos o tipo de cérebro que produz comportamento mas que parece não ter mente nem consciência, como, por exemplo, o sistema nervoso do Aplysia californica, [um] caracol marinho (...). Existe o tipo de cérebro que produz toda uma vasta gama de fenómenos - comportamento, mente e consciência -, de que o cérebro humano é, claro está, o principal exemplo. Há ainda um terceiro tipo de cérebro que produz claramente comportamento, é provável que dê origem a uma mente, mas em que o grau de consciência é problemático. É o caso dos insectos."

Há mesmo, segundo Damásio, uma série de animais que poderão, ao que tudo indica, possuir uma consciência rudimentar: "os lobos, os nossos primos os símios, os mamíferos marinhos, os elefantes, os felídeos e, claro está, aquela espécie especial chamada cão doméstico".O que lhe permitiu chegar a uma tal conclusão? "A organização dos seus cérebros e a sofisticação dos seus comportamentos sociais", responde-nos, numa troca de e-mail com o Ípsilon. E significa isso que esses animais são conscientes, tal como nós? Que sabem que existem? "Claro que a sua consciência não é tão abrangente como a nossa, mas penso que eles sentem as suas mentes e os seus comportamentos." 

Mas então, como imagina o autor a mente de um cão "desde o interior"?, perguntámos ainda. Como "um fluxo muito rico de imagens situadas no presente, com uma leve penumbra de passado e nem a mais mínima ideia de futuro". Mesmo assim, todos sabemos isso, uma mente capaz de amar, de sentir tristeza, medo ou ciúmes... mas não de reflectir sobre a sua condição, não de saber que sabe o que sente.

Seja como for, uma consequência não trivial desta perspectiva evolutiva é que, desde os primórdios da vida na Terra, os cérebros, seja qual for sua sofisticação, sempre estiveram e permanecem dedicados em primeiro lugar à manutenção da integridade dos organismos que os contêm, humanos e não humanos. "A forma mais directa de explicar o motivo pelo qual a consciência prevaleceu na evolução é dizer que contribuiu de modo significativo para a sobrevivência das espécies com ela equipadas. A consciência chegou, viu e venceu", escreve Damásio no seu livro.

Os andares da consciência

Para o demonstrar, o cientista vai, por um lado, desmontar os diferentes sistemas e processos, de complexidade crescente, que culminam na consciência; e, por outro, especular de forma cientificamente informada sobre os locais no cérebro candidatos a ser o "lugar" onde cada um tem a sua sede principal (sem esquecer que o cérebro faz tudo de forma relativamente deslocalizada, o que também não significa que a totalidade do cérebro participe em todas as funções cerebrais; algumas estruturas são mais adequadas do que outras para o desempenho de uma dada função). A cada passo da construção (ou desconstrução), Damásio fornece uma profusão de provas baseadas na observação de doentes com problemas cerebrais muitas vezes trágicos - adultos com Alzheimer, epilepsia, coma, estado vegetativo, síndrome locked-in, crianças que nasceram sem córtex cerebral, a camada exterior do cérebro responsável por todas as funções cognitivas de alto nível a começar pela linguagem, lesões cerebrais maciças ou localizadas - e na de pessoas que não são doentes neurológicos. O seu conhecimento da anatomia do cérebro e a sua capacidade de interpretar sinteticamente os resultados da investigação (a própria e a dos outros), sempre em relação com essa anatomia, constitui um acto de autêntico virtuosismo. O que não significa que o seu livro seja de fácil leitura; antes pelo contrário. Seguir os meandros das explicações encadeadas de Damásio exige a concentração de um jogador de xadrez.

A construção da consciência começa pela formação de um "proto-eu", seguido de um "eu nuclear" e coroado por um "eu autobiográfico". Estes três módulos foram sendo acrescentados um por cima do outro ao longo da evolução e nós humanos possuímos os três, simplesmente porque não podemos prescindir de nenhum deles. 

O proto-eu é uma semente, um germe primitivo do eu. A partir das imagens mentais que vêm do corpo, escreve Damásio, o proto-eu produz "sentimentos primordiais" (por exemplo, diversos níveis de dor e de prazer, o "sentir" de base), que são espontâneos e contínuos quando estamos acordados e que "garantem a experiência directa do nosso corpo vivo, sem palavras, sem adornos e sem qualquer outra ligação que não seja a própria existência". Ou seja, um primeiro sinal de que as nossas imagens mentais são nossas, ponto de partida indispensável da consciência.Cérebro arcaico

A principal consequência disto, segundo Damásio, é que a existência da consciência humana é assegurada em parte por sistemas muito "arcaicos" do cérebro, tais como certas estruturas da parte superior do tronco cerebral (o tronco cerebral liga a espinal medula ao cérebro). Isto não fazia até agora parte dos "ingredientes" habituais da consciência. "São muito poucos os cientistas com trabalhos publicados a defender esta ideia", diz-nos Damásio. No livro, escreve: "O cérebro não começa a edificar a mente consciente ao nível do córtex cerebral, mas sim ao nível do tronco cerebral. Os sentimentos primordiais não só são as primeiras imagens geradas pelo cérebro, como também manifestações instantâneas de consciência. São o alicerce que o proto-eu prepara para a construção de níveis mais complexos do eu." E acrescenta: "estas ideias estão em conflito directo com os pontos de vista tradicionais sobre a consciência".

Não é possível esgotar em poucas palavras a complexidade do pensamento de Damásio, mas podemos tentar alinhar os personagens e o enredo da peça da consciência. Além do proto-eu, existem mais dois participantes que completam o elenco da consciência: o eu nuclear (que se desenvolve "numa sequência de imagens que descrevem um objecto a interagir com o proto-eu e a modificá-lo") e o eu autobiográfico (que surge quando todas essas sequências de imagens de múltiplas origens, "cuja totalidade define uma biografia", geram por sua vez "impulsos de eu nuclear" e ligam o eu "ao passado bem como ao futuro antecipado"). O proto-eu, com os seus sentimentos primordiais, e o eu nuclear constituem um "eu material". O eu autobiográfico, que abrange todos os aspectos da pessoa social, constitui um "eu social" e um "eu espiritual".

Mas para realizar o estado de consciência plena - aquele a que só os humanos temos acesso - ainda falta no palco da mente "um dono, um protagonista da existência, um eu que analisa o mundo interior e exterior, um agente que parece a postos para a acção. Falta o narrador que não apenas sabe, mas que sabe que sabe, o "conhecedor" que permite atingir o mais alto patamar da consciência tal como a conhecemos hoje. São o eu nuclear e o eu autobiográfico que vão "dotar-nos a mente [desta] outra variedade de subjectividade", escreve Damásio. "A consciência humana normal corresponde a um processo mental onde operam todos estes níveis do eu".

Dez anos depois

Onde é que as etapas finais da construção da consciência se operam no cérebro? Onde é que se concretiza a subtil e complexa coordenação dos processos que permitem a sua emergência? Devido à sua posição no cérebro e as ligações nervosas que estabelecem com outras regiões, o tálamo, situado entre o tronco e o córtex cerebrais, e uma área do córtex chamada PMC (córtex postero-medial) recolhem o voto favorável de Damásio. Mas isso não significa que exista uma separação de funções: o cérebro não funciona assim. Cada uma dessas três principais "grandes divisões anatómicas" contribui para algum aspecto da "tríade directora" da consciência, formada pelo estado de vigília, a mente e o eu.

Perguntámos a Damásio o que, ao longo desta década, tinha tornado necessária esta sua nova viagem à consciência humana. "Muitas, muitas coisas", diz-nos por e-mail. E especifica que "embora tenha sempre reconhecido o valor das estruturas subcorticais, a perspectiva d'O sentimento de Si era predominantemente centrada no córtex. A d'O Livro da Consciência não é; o subcórtex e o córtex partilham os papéis - e o papel principal vai mesmo para o tronco cerebral." "Embora [no primeiro livro] também tivesse chamado a atenção para o córtex postero-medial, considerei-o como principalmente relacionado com o eu nuclear. Dez anos volvidos, com base em todos os resultados de neuroanatomia e neurofisiologia (...), vejo o seu papel como principalmente ligado ao eu autobiográfico. (...) Fiz ainda alterações teóricas a partir da reavaliação do comportamento das criaturas 'pequenas', das bactérias e por aí fora - e mais geralmente, daquilo que no seu conjunto descrevo como a quarta perspectiva.

E qual a maior novidade no novo livro? "É o que digo sobre o tronco cerebral e sobre a fusão, literalmente, do corpo e do cérebro, que são duas caras da mesma moeda. Este é sem dúvida um dos pontos centrais do livro - e talvez o mais original e o mais sujeito a controvérsia."

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Portugueses descobrem mecanismo para a reparação de danos cerebrais

Uma investigação desenvolvida no Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da Universidade de Coimbra permitiu descobrir o mecanismo de acção do óxido nítrico na proliferação de células estaminais neuronais, um avanço importante para a reparação de danos cerebrais.

O estudo, publicado recentemente na Stem Cells, analisou a “proliferação de células estaminais neuronais sob a acção do óxido nítrico, clarificando o mecanismo de acção deste potencial alvo terapêutico para medicina regenerativa”.

O óxido nítrico é produzido no cérebro em condições inflamatórias, na sequência de lesão cerebral.

Segundo uma nota do CNC, “o transplante de células estaminais e a promoção da sua proliferação endógena (no próprio cérebro) têm sido propostas como potenciais estratégias para a reparação de danos cerebrais”.

“Muitas vezes considerado como um obstáculo à proliferação das células estaminais neuronais, o óxido nítrico revelou-se fomentador desta proliferação nas condições testadas por esta equipa de investigadores, por diminuição da concentração utilizada e tempo de aplicação, nomeadamente num modelo animal de dano cerebral”, adianta.

Inês Araújo, investigadora do CNC que liderou a equipa responsável pelo estudo, disse à Lusa que “o processo de formação de novas células a partir de células estaminais neuronais na sequência de uma lesão cerebral não é particularmente robusto” e que se procuraram “formas de o tornar mais eficiente”.

Estas células têm “potencial para recuperar as zonas que foram lesionadas, deslocando-se para as zonas onde houve degeneração”, adiantou a bióloga, que desenvolve investigação fundamental na área das ciências da saúde.

Novas células no cérebro

Os investigadores de Coimbra descrevem, pela primeira vez o efeito do óxido nítrico na estimulação da proliferação das células estaminais neuronais, que constitui “o primeiro passo para a formação de novas células no cérebro”.

“Descobrimos que o óxido nítrico estimula a proliferação das células estaminais neuronais”, adiantou Inês Araújo, ao referir que esta substância“é muito importante para a estimulação inicial destas células”.

Segundo a investigadora, o conhecimento deste mecanismo é importante para doenças “em que haja necessidade de regenerar zonas do cérebro que foram lesionadas”, em pacientes que sofreram isquémia cerebral ou trauma cerebral.

No comunicado, é referido que “a aplicação clínica destas estratégias levanta algumas preocupações devido a uma possível proliferação excessiva das células estaminais com consequente formação de tumores”.

No entanto, Bruno Carreira, primeiro autor do trabalho e aluno de doutoramento do CNC, e Inês Araújo sublinham que “ao propor um mecanismo para a regulação da acção potenciadora do óxido nítrico na proliferação de células estaminais neuronais, este estudo sugere igualmente que este é um modo mais eficiente e seguro, por ter uma acção moderada, transitória e controlável”.

sábado, 12 de junho de 2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Cérebro «divide-se» quando realizamos duas tarefas

Conseguir realizar várias tarefas ao mesmo tempo é uma aptidão do ser humano que se deve ao funcionamento do córtex cerebral. Agora, através de técnicas de imagem, uma equipa francesa de cientistas conseguiu perceber exactamente os mecanismos que permitem a realização de tarefas simultâneas.

O estudo, que está agora publicado na revista «Science», revela que quando temos de executar duas coisas ao mesmo tempo o nosso cérebro “divide-se”.

Os lóbulos frontais do cérebro actuam de forma conjunta quando têm de executar uma única actividade. Quando a finalidade é cumprir dois objectivos, as regiões cerebrais têm de “repartir o trabalho”, explica em declarações ao jornal espanhol «El Mundo» Etienne Koechlin, director do Laboratório de Neurociência Cognitiva do Instituto Nacional de Saúde e Investigação Médica de Paris e o principal autor do estudo.

Na investigação, a equipa analisou, através de ressonâncias magnéticas, a actividade cerebral de 32 indivíduos destros durante a execução de diferentes tarefas relacionadas com a construção de palavras. Metade dos participantes devia completar um único exercício enquanto os outros faziam dois.

As imagens obtidas mostraram que a duplicidade de objectivos provoca uma divisão entre os lóbulos frontais. Os investigadores comprovaram que eram as regiões médias dos lóbulos que estavam especialmente implicadas nesta execução, sendo que o lado esquerdo se dedica ao primeiro objectivo e o direito ao segundo. Os investigadores observaram a mesma dicotomia nas regiões laterais dos lóbulos.

As análises também revelaram que a divisão cerebral não é total. Uma zona permanece alerta para coordenar a divisão de tarefas realizada. A região frontal anterior de ambos os hemisférios – o córtex frontopolar – coordena a actividade dos dois lóbulos frontais.

Os cientistas também quiseram saber o que acontecia quando se acrescentava uma terceira tarefa. Nos 16 indivíduos analisados, nenhum deles conseguiu completar de forma eficaz as três tarefas.

Artigo: Divided Representation of Concurrent Goals in the Human Frontal Lobes:

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Empatia e violência envolvidas nos mesmos circuitos cerebrais

Educar com base na empatia pode evitar conflitos.

Investigadores da Universidade de Valência, em Espanha, resumiram as estruturas cerebrais envolvidas na empatia, ou seja, na capacidade de nos pormos no lugar do outro, e realizou uma análise científica das mesmas. Concluíram que os circuitos cerebrais responsáveis pela empatia, são em parte, os mesmos envolvidos na violência.

“Assim como a nossa espécie pode ser considerada a mais violenta, desde que somos capazes por assassinatos em série, genocídios e outras atrocidades, somos também das espécies mais compreensivas e empáticas, o que parece ser o outro lado da moeda”, afirmou Luís Moya Albiol, autor principal do estudo e investigador da Universidade de Valência.

O estudo, publicado na Revista de Neurologia, conclui que o córtex pré-frontal e temporal, a amígdala e outras características do sistema límbico (como a insulina, por exemplo) desempenham um papel “fundamental em todas as situações em que a empatia aparece”.

Moya Albiol afirma que estas partes do cérebro sobrepõem-se “de um modo surpreendente” com aqueles que regulam a agressão e a violência. Assim sendo, equipa científica defende que os circuitos do cérebro, tanto para a empatia como para a violência, poderiam ser “parcialmente idênticos”.

Questão biológica

“Sabemos ainda que incentivar a empatia tem um efeito inibidor na violência, mas isto pode não ser apenas uma questão social, mas também biológica: estimular os circuitos neuronais numa direcção reduz a actividade na outra”, acrescentou o investigador.

Isto significa que é complicado para um cérebro “mais empático, ter um comportamento violento”. “Educar as pessoas para serem empáticas pode ser uma educação para a paz, resultando daí uma redução de conflitos”, concluiu Moya Albiol.

As técnicas para a medição do cérebro humano ‘ao vivo’, como a ressonância magnética funcional, estão a fazer o possível para descobrir mais sobre as estruturas do cérebro que regulam o comportamento e os processos psicológicos, tais como a empatia.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Violinista operado ao cérebro enquanto tocava nos EUA

Roger Frisch começou a ter dificuldade em executar movimentos simples. O paciente foi operado ao cérebro enquanto tocava violino.