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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

"ESCOLAS PÚBLICAS REJEITAM ALUNOS"

O professor Joaquim de Azevedo, que respeito e com quem muitas vezes concordo, tem hoje no Público um texto, “As escolas públicas rejeitam alunos”, que merece umas notas.
Ao que escreve, mercê de um maior conhecimento das escolas, tem vindo a constatar que na sua cidade, o Porto, algumas escolas públicas rejeitam alunos que vão sendo empurrados de escolas em escola, uma espécie de sem-abrigo educativos.

Mais diz que, “No entanto, percorro documentos oficiais, blogues, sítios da Internet de professores, de sindicatos, de opinion makers e está lá bem claro que “só a rede pública promove a equidade e a igualdade de oportunidades, que só a rede pública é inclusiva e recebe todos os alunos”.

Mas não é verdade, conclui, a escola pública também exclui alunos, a escola pública nem sempre é inclusiva.

Tem razão Joaquim de Azevedo, a escola pública também exclui alunos.

Esta exclusão ocorre por várias razões, aliás, refere algumas. Algumas escolas públicas não querem alunos que comprometam resultados e posições no ranking, alunos que dão “mau ambiente”, alunos que ameaçam os indicadores estatísticos, para competir com escolas privadas que apresentam bons resultados, para se tornarem atractivas ás famílias. Talvez seja de considerar que este "elitismo" esteja relacionado com a sobrevalorização dos resultados da avaliação externa, traduzida nos incontornáveis rankings e até no aumento de créditos horários das escolas com melhores resultados e isto é resultante de políticas educativas recentes.

Talvez seja de recordar que talvez esta exclusão também esteja ligada a políticas educativas de há longos anos que não dotam as escolas de recursos ajustados às variáveis contextuais e características das comunidades educativas.

O Professor Joaquim de Azevedo fala também da desajustada designação dos TEIPs. Aqui concordo e também está relacionado com a exclusão verificada na escola pública. Em tempos, disse a um Secretário de Estado do ME que Portugal era um conjunto de TEIPs, alguns designados por Territórios Educativos de Intervenção Prioritária e a generalidade dos restantes são Territórios Educativos com a Intervenção Possível, e às vezes … não é possível. Não sei bem porquê, acho que não lhe agradou a afirmação.

Tem razão Joaquim de Azevedo, a escola pública também exclui alunos. Exclui alunos “guetizando-os” em espaços curriculares que são “de segunda” ou com um rótulo de que nunca mais se livram, passam a CEIs, por exemplo.

Exclui quando tem alunos trancados em unidades sem níveis significativos de participação nas actividades comuns da comunidade escolar. Muitas vezes não porque não sejam capazes, mas porque … é assim.

Tem razão Joaquim de Azevedo, a escola pública também exclui alunos.

Exclui alunos quando a acção social escolar é insuficiente para que todos possam aceder aos mesmos recursos.

Sim, a escola pública exclui alunos. Quem acompanha este espaço sabe que tantas vezes aqui o tenho referido e divulgados múltiplas precupações e exemplos neste ãmbito. E sabe também que entendo que esta exclusão envolvendo, evidentemente, responsabilidade das escolas não é da sua exclusiva responsabilidade. Décadas de políticas educativas em várias dimensões são fortemente contributivas para todo este cenário.

No entanto, apesar de tudo isto sou dos que tantas vezes tem escrito e afirmado em muitíssimas ocasiões:

Só a educação e a rede pública de qualidade podem promover equidade e igualdade de oportunidades.

Só a educação e a rede pública de qualidade podem ser verdadeiramente inclusivas e receber TODOS os alunos.

Só a educação e rede pública pode chegar a todos os territórios educativos e a todas as comunidades.

Só a educação e rede pública de qualidade promovem mobilidade social em circunstâncias de equidade no acesso.

Esta é a minha convicção e a inspiração para o que fazemos e pensamos, acho que também é a sua, Professor Joaquim de Azevedo.

Texto de Zé Morgado

DA COMUNICAÇÃO EM SALA DE AULA

Confesso que quando vi este título no Público, “Quando professores e alunos aprendem a comunicar, as coisas mudam na sala de aula”, fiquei algures entre o curioso e o perplexo.
A leitura da notícia deixou-me ainda mais, nem sei como dizer, talvez “enduvidado”, isto é, cheio de dúvidas.

Uma empresa especialista na formação de executivos, designadamente na área da comunicação, desenvolveu um programa de formação que envolveu professores e alunos de duas escolas de Lisboa sobre comunicação na sala de aula. A coisa correu muito bem, os professores já comunicam, os alunos já comunicam, tudo agora corre bem melhor e parece que o ME está interessado na ideia. Aqui passei a um estado talvez de inquietação.
Eu sei que está muito calor, estamos a sair das férias e ainda sem grandes rotinas, é Domingo, mas algumas notas.

Uma primeira referência para dizer logo de início que existem professores, e alunos naturalmente, que, como qualquer outra pessoa, poderão ser menos eficientes na comunicação, seja lá isso o que for. Todos passámos por experiências que ilustram isto.

No entanto, parece importante sublinhar que o trabalho em sala de aula assenta na comunicação entre professores e alunos, que a generalidade dos professores têm competências de comunicação, que a generalidade dos alunos têm competências de comunicação e que os eventuais problemas de comunicação em sala de aula, não decorrem, na sua esmagadora maioria, da falta de competência de alunos e professores na área da comunicação. Talvez eu esteja enganado pois a directora da empresa em Portugal, uma ex-jornalista, afirma “Todos falam, mas poucos comunicam. É o que temos constatado nas empresas e agora também nas salas de aulas”. Como se sabem, são contextos próximos e com as mesmas variáveis envolvidas. 

Antes de continuar deixem contar uma história. Há algum tempo em conversas com miúdos do 2º e 3º ciclo discutia-se o que era essa coisa de ser um bom professor.

A maioria dos miúdos envolvia-se activamente e a continuidade das referências levou à identificação de uma resposta que se poderia sintetizar na ideia de que "bom professor é o que fala com a gente e explica bem".

Este entendimento lembrou-me, cito-o aqui frequentemente, o Mestre João dos Santos quando afirmava que alguém tinha sido seu professor "porque foi seu amigo".

De facto, o sucesso dos processos de ensinar e aprender assenta em dois eixos fundamentais, a qualidade do ensinar e a relação entre quem ensina e quem aprende. Do meu ponto de vista, a grande maioria dos professores estará equipada sobre o ensinar.

A grande questão é que a nossa escola, de uma forma geral, não facilita a relação, ou seja, a comunicação. Esta dificuldade decorre, fundamentalmente da extensão dos conteúdos curriculares das diferentes disciplinas e do número excessivo de disciplinas, designadamente no 3º ciclo. Os professores, muitos deles, sentem-se "escravos" do programa que tem de ser dado e do pouco tempo disponível para a construção da relação. Existem disciplinas com um tempo semanal durante o qual é obviamente muito difícil construir qualquer relação com os alunos.

Muitas vezes digo que os professores "falam" para o programa, para o explicar, e os alunos "falam" para o programa para o aprender. Não falam entre si sendo que, além disso, existe um grupo significativo de alunos que, por diversas razões como dificuldades ou desmotivação, não conseguem "falar" com o programa. Para estes, os professores vêem-se obrigados a falar par controlar os seus (maus) comportamentos.

Acresce a esta questão o número de alunos por turma que os estudos identificam como uma variável que influencia significativamente a comunicação, qualidade e conteúdos, entre.

Por estas razões tantas vezes tenho escrito sobre mudanças que tornassem mais fácil podermos ouvir os miúdos dizer "a gente tem bons professores porque explicam bem e falam com a gente".

Esta ideia não tem nada de romântico nem de utópico, assenta em algo de muito simples, a educação constrói-se com a relação que se alimenta com a comunicação. Sempre.

Uma nota final para referir que acho lindamente que uma empresa com experiência de formação de executivos venha também formar o pessoal da escola. Porque não? São só mais uns a querer formar professores e … toda a ajuda é bem-vinda. Mas Senhores do ME, cautela com as intoxicações.

Texto de Zé Morgado

Professores de Português também querem flexibilidade nos programas do secundário

Os professores de Português defendem que os programas da disciplina no ensino secundário devem ser corrigidos para dar maior liberdade ao docente e adequar a matéria ao tempo de aulas previstas na carga letiva.

"Chegámos à conclusão que o programa não era exequível. É de tal forma extenso que não o conseguimos cumprir", disse (...) a presidente da Associação de Professores de Português (APP), ao comentar o programa do 10.º ano, que entrou em vigor no ano passado.

Edviges Antunes Ferreira sublinhou que o número de aulas previstas para o programa é "três ou quatro vezes superior" às que estão previstas na carga letiva para a disciplina.

"Este é um programa só de literatura. Não há tempo para algo fora do texto literário. Temos um cânone que espartilha o professor", lamentou.

Só com literatura, frisou, o aluno "não se prepara para ter uma perspetiva crítica" sobre outras questões.

Também a presidente da Associação Nacional de Professores de Português (ANPROPORT) admitiu que no 10.º ano alguns objetivos "não foram alcançados".

"Em algumas escolas não foi assim tão fácil. Deixaram conteúdos para o 11.º ano", afirmou Rosário Andorinha.

Para a responsável pela ANPROPORT, devem ser feitos ajustes, com uma reavaliação de todos os programas.

"Há uma necessidade de fazer reajustes, saber o que correu mal em cada escola", indicou, acrescentando: "Somos defensores deste programa, mas sem fundamentalismos".

Rosário Andorinha defendeu que o êxito passa também por "um grande trabalho de planificação" por parte do docente.

"Recusamos totalmente a mudança por mudar. É preciso conhecer os factos primeiro", sublinhou.

Edviges Ferreira antecipou, por seu lado, que o programa do 12.º ano - que entrará em vigor no ano letivo 2017 - 2018) deveria ser "corrigido antes de os livros serem feitos.

"Temo que possa acontecer com o 12.º ano o que aconteceu com as provas de aferição do 8.º ano, que foi um desastre", declarou.

Sobre o programa do 11.º ano, prestes a iniciar-se, afirmou que por vezes não leva os alunos a ler a obra completa: "Dizem os capítulos que devemos ler com os alunos".

"Os Maias" ou "A Ilustre Casa de Ramires" são obras obrigatórias, quando em anos anteriores os professores podiam escolher entre outros livros de Eça de Queiroz, referiu.

Em Cesário Verde, por exemplo, "a temática da mulher desaparece".

"Dão-nos uma lista de poemas e só podemos lecionar aqueles. Mesmo que queiramos ir mais longe, não há tempo", desabafou.

De acordo com a professora, em 2017-18 sairá do programa do 12.º ano o livro "Memorial do Convento" e entrará "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago.

"Mas depois de dois anos os professores já podem escolher outra obra. Porquê dois anos?, não confiam nos professores para conhecerem outros livros logo de início", questionou.

"Sentimos absoluta necessidade de reajustes para maior liberdade ao professor, retirar este ou aquele conteúdo", sustentou. No fundo, permitir que o docente "não esteja obcecado em cumprir cento e tal metas para cada aluno".

À semelhança do que aconteceu com os programas e metas de matemática no ensino básico e secundário, os professores de Português gostariam de ver alguma flexibilização na gestão das matérias que têm de leccionar.

Porém, (...) fonte do Ministério da Educação afirmou que, neste momento, "nada ainda está em curso" nesse sentido.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

DAS TURMAS HOMOGÉNEAS

Na Madeira foram agora conhecidos os resultados escolares dos alunos de 7º ano de duas escolas que foram agrupados em turmas consideradas “homogéneas” face ao seu percurso académico.

Os resultados foram muito positivos nas duas escolas e, naturalmente, todos os envolvidos ficaram satisfeitos a começar pelos alunos.

Na Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos do Caniço foram constituídas cinco turmas com um máximo de 15 alunos sendo quatro compostas por alunos com menores resultados e que receberam mais apoio pedagógico.

Todas as 5 turmas tiveram pares pedagógicos (dois professores na sala) em disciplinas como Português, Matemática e Língua Estrangeira.

Na Escola Básica do 2º 2 3º ciclo do Estreito foram constituídas também turmas de nível com um máximo de 22 alunos podendo mudar de turma durante o ano e também com pares pedagógicos em Português, Matemática e Inglês.

Fico, evidentemente, satisfeito com os resultados dos alunos e a satisfação de docentes e encarregados de educação. No entanto, algumas dúvidas.

Os alunos com mais dificuldades tiveram “mais apoio pedagógico”, as turmas têm um número de alunos razoável, um máximo de 15 e 22 alunos, respectivamente. Em Português Matemática e Inglês ou Língua Estrangeira a presença de dois professores em simultâneo na sala. Neste cenário conclui-se que o sucesso decorre da homogeneidade da turma, coisa que, evidentemente não existe pois não se conhecem dois alunos iguais. Não, não se pode retirar tal conclusão.

Na verdade se a homogeneidade fosse uma ferramenta de sucesso, todas as turmas que em muitas escolas existem constituídas alunos “descamisados”, os maus alunos, teriam de imediato sucesso, seriam homogéneas. A verdade é que não têm.

O que fomenta o sucesso é “mais apoio pedagógico” aos alunos com mais dificuldades.

O que fomenta o sucesso é um "número de alunos por turma razoável" e que permite um melhor trabalho e mais atenção individual como os estudos mostram e foram objecto de um trabalho recente do CNE.

O que fomenta o sucesso é o recurso a dispositivos como o "par pedagógico", dois professores em simultâneo nas disciplinas em que os alunos experimentam mais dificuldades.

Generalizem medidas desta natureza e teremos melhor trabalho de alunos e professores.
Não é sustentável afirmar que a variável que contribuiu para os bons resultados atingidos é a homogeneidade das turmas. É ainda perigoso que esta leitura possa legitimar decisões na constituição das turmas, guetizando alunos sem resultados se as outras variáveis não forem consideradas. Como muitas vezes não são.

Texto de Zé Morgado

sexta-feira, 1 de julho de 2016

CHUMBAR OU NÃO CHUMBAR

Ao que parece, no cumprimento das disposições legais em matéria de avaliação escolar verifica-se alguma latitude nas decisões das escolas no que respeita à transição ou retenção dos alunos em anos não terminais de ciclo no ensino básico. No Público é referida a situação de escolas em que os alunos “passam” de ano com sete negativas o que noutras escolas não se verifica.

Sempre que se reflecte sobre estas questões insisto que a questão essencial me parece ser o efeito da retenção e menos os critérios da retenção.

Recordo que no Relatório “Low-Performing Students - Why They FallBehind and How To Help Them Succeed” divulgado pela OCDE no início deste ano se evidencia que o “chumbo”, a retenção, é para os alunos portugueses o principal factor de risco para os resultados na avaliação posterior, dito de outra maneira, os alunos chumbam … mas não melhoram.

De novo e sempre.

O peso insustentável da retenção no nosso sistema escolar parece assentar na errada convicção de que a repetição só por si conduz ao sucesso e alimenta o que a OCDE já classificou de "cultura da retenção". Importa ainda considerar o impacto económico desta cultura como evidenciou um estudo recente realizado pela associação Empresários pela Inclusão Social e pelo Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa.

Confesso sempre alguma surpresa quando ao discutir-se os efeitos pouco positivos da retenção, cerca de 150 000 alunos por ano, algumas vozes, mesmo dentro do universo da educação, clamam que se está a promover o "facilitismo" ou a defender que "então passam sem saber".

Como me parece evidente não é dada disto. Como exemplo, a Noruega tem uma taxa de retenção próxima do 0% e não consta que os alunos noruegueses passem sem saber, são, aliás, dos alunos com melhores resultados nos estudos comparativos internacionais.

A questão é saber se o chumbo transforma o insucesso em sucesso. Não transforma, repetir só por repetir não produz sucesso, aliás gera mais insucesso conforme os estudos mostram. Muitos estudos internacionais também mostram que os alunos que começam a chumbar, tendem a continuar a chumbar, ou seja, a simples repetição do ano, não é para muitos alunos, suficiente para os devolver ao sucesso. Os franceses utilizam a fórmula “qui redouble, redoublera” quando referem esta questão.

Nesta conformidade e do meu ponto de vista, a questão central não é o chumba, não chumba, e quais os critérios ou o número de exames, mas sim que tipo de apoios, que medidas e recursos devem estar disponíveis para alunos, professores e famílias desde o início da percepção de dificuldades com o objectivo de evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É necessário diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional. Importa ainda que as políticas educativas sejam promotoras de condições de sucesso para alunos e professores. O aumento do número de alunos por turma no Ensino Básico e no Secundário, a forma como foram definidas as metas curriculares, a cultura de competição e centrada exclusivamente em resultados, os cortes no número de docentes que poderiam desenvolver dispositivos de apoio, são apenas alguns exemplos do que não deve ser feito se, efectivamente, se quiser promover qualidade e sucesso.

Como é evidente este tipo de discurso não tem rigorosamente a ver com "facilitismo" e, muito menos, com melhoria "administrativa" das estatísticas da educação, uma tentação a que nem sempre se resiste.

Assim sendo, o essencial é promover e tornar acessíveis a alunos, professores e famílias apoios e recursos adequados e competentes de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É fundamental não esquecer que o insucesso continua a atingir fundamentalmente os alunos oriundos de famílias com pior condição económica e social pelo que inibe o objectivo da mobilidade social, replicando o velho "tal pai, tal filho". A associação entre o insucesso e a pobreza em Portugal é, aliás, a mais forte entre os países europeus.

É necessário também diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional mas não em idades precoces criando percursos irreversíveis de "segunda" para os "sem jeito para a escola" e "preguiçosos".

A qualidade promove-se, é certo e deve sublinhar-se, com a avaliação rigorosa e regular das aprendizagens, sim, naturalmente, mas também com a avaliação do trabalho dos professores, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio a alunos e professores eficazes e suficientes, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados de autonomia, organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, etc.

É o que acontece, genericamente, nos países com mais baixas taxas de retenção escolar.
É o que não tem acontecido em Portugal.

Ponto.

Texto de Zé Morgado

sábado, 30 de abril de 2016

DA "FLEXIBILIZAÇÃO CURRICULAR"

O ME anunciou a intenção de promover maior autonomia das escolas em matéria de flexibilização curricular.

Depois de definido um “conteúdo curricular nuclear”, o “core curriculum” na literatura em inglês sobre estas matérias, e um "referencial de saída" para os alunos, as escolas, os professores, terão autonomia para gerirem os conteúdos curriculares de forma flexível.

A confirmar-se parece um caminho positivo. Em primeiro lugar porque a autonomia em matéria de currículo é uma ferramenta imprescindível para acomodar e responder a especificidades de contexto. Em segundo lugar, porque a diferenciação curricular, termo que prefiro a flexibilização, é também imprescindível para que dentro da sala de aula se possa responder à diversidade entre os alunos. A diferenciação curricular é essencial no sentido promover educação inclusiva e com qualidade.

A construção de um currículo em torno de conteúdos nucleares torna a gestão curricular mais aberta e mais capaz de responder às diferenças individuais entre os alunos e mesmo a casos de necessidades educativas especiais. Aliás, a definição recente de currículos fechados, prescritivos e extensos tem sido, justamente, um sério obstáculo à educação inclusiva obrigando à proliferação de opções curriculares “alternativas” que mais não são em muitos casos que “guetos curriculares” facilitadores de exclusão.

No entanto, o Secretário de Estado da Educação, João Costa, afirmou que este caminho se pode desenvolver sem “mexer” na estrutura das metas curriculares. Percebo a prudência e a intenção de minimizar a constante mudança e instabilidade mas creio que é difícil.

A forma como as metas estão definidas e a manterem-se parece-me conceptualmente contraditório com o modelo de currículo e gestão curricular que se quer operacionalizar e, das duas uma, ou se “esquecem”, em todo ou na parte que se entender, ou estão válidas e devem ser observadas pois não definem, da forma que estão desenhadas, nenhum conteúdo nuclear o que dificultará intenção de “diferenciar”.

Creio também que caminhar no sentido da diferenciação curricular, o que saúdo, implica, do meu ponto de vista, um ajustamento na construção e utilização dos manuais escolares que estão “pensados” e são “usados” de forma coerente com o modelo de currículo que têm servido.

A autonomia das escolas e dos professores em matéria curricular não é compatível com uma “manualização” excessiva do trabalho de professores e alunos como actualmente se verifica em muitas salas de aula.

A ver vamos como será colocado em prática mas, repito, parece-me um passo no sentido adequado.

Texto de Zé Morgado

domingo, 10 de abril de 2016

JOSÉ PACHECO, UM CONSTRUTOR DE PONTES


O Professor José Pacheco tem uma entrevista no Observador que deve ser lida, reflectida e divulgada.

Foi há 40 anos a alma da escola da Ponte, uma fonte de inspiração de muita gente por cá e por fora e que se desenvolveu em contraciclo em contraciclo com as orientações do MEC. Como se depreende da entrevista o José Pacheco continua, felizmente, em contraciclo com muitos dos discursos e ideias em educação.

Na verdade sob a orientação de José Pacheco, que entretanto partiu, e apesar das vicissitudes e constrangimentos, da pressão da tutela sobre a escola da Ponte e sobre o Director, das inspecções e avaliações que procuravam concluir que seria uma experiência falhada, a comunidade mostrou que era, é, possível ter um outro tipo de escola. Não, não é uma escola perfeita, é apenas uma escola de pessoas.

Aliás, a escola da Ponte tem sido de há anos um objecto de estudo e visita recorrentes por parte de investigadores e professores nacionais e estrangeiros que reconhecem o que de qualidade por ali acontece. Deve ainda sublinhar-se que a visão da escola da Ponte é de uma escola onde verdadeiramente cabem todos, alunos, professores, funcionários e pais.
Há quem lhe chame escola inclusiva.

Para que conste.

Leiam a entrevista, por favor. José Pacheco continua, agora no Brasil, a construir pontes … com o futuro.

PS - O José Pacheco tem uma colaboração regular no site Educare com um espaço "O aprendiz de utopias" que é sempre uma leitura estimulante, mesmo que de utopias vindas de um eterno aprendiz.

Texto de Zé Morgado

sábado, 26 de março de 2016

Diferença: o único tamanho que serve a todos

O desafio é encontrar respostas flexíveis e dúcteis para se adequarem a situações muito diversas.

Lembro-me muitas vezes da frase que está escrita na etiqueta dos bonés do “estilo americano” que avisa: “One size fits it all.” Com uma solução simples e inteligente, estes bonés podem assumir diferentes tamanhos de forma a se adequarem ao perímetro craniano de qualquer dos seus utilizadores. A ideia de ter um dispositivo que possa adequar cada utensílio a todos os seus possíveis utilizadores é muito engenhosa. Engenhosa, antes de mais, porque todos os sistemas que procuram respostas normalizadas para situações distintas acabam por se tornar irracionais e dispendiosos. Regressando ao exemplo dos bonés, se produzíssemos bonés, por exemplo, de três tamanhos, sempre haveria pessoas para quem um tamanho estaria pequeno e o tamanho a seguir estaria grande demais. Para além disso, não é provável que se produzissem os bonés necessários para satisfazer exatamente a procura (talvez sobrassem unidades de um tamanho e faltassem de outro...). O desafio é, pois, encontrar, mais do que respostas padronizadas para cobrir toda a gama da diversidade, respostas flexíveis e dúcteis para se adequarem a situações muito diversas.

Este desafio é particularmente acutilante para pensarmos a escola de hoje. A herança que temos não é muito boa no que respeita à diversidade: durante muitos e muitos anos a escola desempenhou um papel de criadora de homogeneidade e de transmissão de conhecimento. Como se sabe, em muitos países, o nascimento da escola pública, gratuita e laica teve um papel determinante na constituição dos Estados-nação, isto é, na construção de Estados (entendidos como organização política) que correspondessem a uma nação (entendida como uma identidade coletiva). Para que este objetivo fosse conseguido recorreu-se à escola, que oferecia uma cultura padronizada e reprodutível o mais fielmente possível em todo o território. E, se olharmos para este percurso, vemos como as escolas se espalharam por todo o território com uma arquitetura igual, com currículos nacionais, exames nacionais, etc. Não é, pois, muito brilhante a nossa experiência em diversidade nas escolas.

O certo é que estes valores mais tradicionais da escola estão numa insustentável crise. Hoje sabemos, e muito bem, que não é negociável ir ou não ir à escola, sabemos que é socialmente injusto não educar todos os alunos e sabemos também que a cadência das mudanças, na sociedade, nos alunos, nos professores e nas famílias nunca foi tão elevada. Trata-se de necessidades totalmente novas e, portanto, não é intelectualmente sério fazer a apologia dos valores e das práticas da escola “de antigamente” para procurar resolver os problemas da escola de hoje. Qualquer tentativa de regressar à disciplina, às formas de ensinar, aos conteúdos, à organização da escola tradicional seria um anacronismo infeliz. A famosa máxima do “back to basics” não é mais do que “back to injustice”.

A questão agora é como pode a escola ser diferente e organizar-se diferenciadamente. E, nesta matéria, há um campo muito estimulante de debate.

Antes de mais, muito já foi feito. Dizer que nada mudou em educação é uma miopia semelhante à que afeta as pessoas que dizem que a escola já mudou tudo o que precisava de mudar. É fácil evocar exemplos: a escola está muito mais aberta para desenvolver atividades à volta do currículo (clubes, projetos, etc.), a escola está, por outro lado, muito mais rápida a reagir ao que se passa fora dela. Mas muito há ainda por fazer. Ainda encontramos com muita frequência modelos escolares que precisam de “meter os alunos em caixinhas” de categorias para os poderem entender e educar. E vejamos: um aluno ou está no currículo “normal” ou está num currículo “alternativo”; ou está na Educação Especial ou não está, ou frequenta um ano ou o outro. Tantas vezes ao falar com professores eles nos transmitem que deploram não poderem ter uma organização da escola que lhes permita responder de uma forma personalizada às necessidades dos alunos. Precisamos, pois, de uma escola que motive, que aponte, que sustente e inspire os percursos dos alunos de uma forma muito mais diferenciada e flexível do que a nossa presente organização de turmas, de vias, de “anos”, de currículos e de critérios de sucesso.

Dir-se-á: mas... será possível? Será possível uma outra escola organizada em modelos que respeitem os ritmos e os percursos dos alunos? Milhares de pessoas durante centenas de anos pensaram, sonharam e previram a justiça e a necessidade de encontrar outra organização para a escola. Uma organização que respeite as diferenças sem esquecer que o florescimento das diferenças é o melhor contributo que podemos dar para um progresso social fraterno. Permitir e encorajar percursos diferentes e exigentes na escola é certamente o melhor incentivo para que cada pessoa possa encontrar o seu lugar de participação, de contribuição para uma sociedade que, ela própria, precisa de se renovar e de se pensar como um mundo que sirva a todos.

Por: David Rodrigues

Presidente da Pró-Inclusão / Associação Nacional de Docentes de Educação especial, Conselheiro Nacional de Educação

quinta-feira, 24 de março de 2016

As escolas não são fábricas de exames

A decisão do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, de permitir que este ano as escolas do ensino básico decidam se querem ou não realizar as provas de aferição do 2.º, 5.º e 8.º anos foi apresentada pelos partidos da direita e pelas organizações que lhes são próximas como um “recuo” do ministro e um fator de instabilidade para as escolas. A presidente do CDS-PP, Assunção Cristas, aproveitando a oportunidade para um gesto de combatividade política veio por seu lado declarar-se não apenas “perplexa”, nem apenas “estupefacta”, mas simultaneamente “perplexa e estupefacta” com a decisão do ministro. É não perceber o que é a educação, o que é grave para uma dirigente partidária que, por acaso, é professora.

O que está a acontecer relativamente às medidas que o governo do PS adotou quanto aos exames merece comentário. Antes de mais, o anúncio do fim dos exames de 4.º e 6.º ano mereceu um ataque em regra de toda a direita, com os argumentos de que se estava a “voltar atrás” na política educativa. Os argumentos apresentados foram de enorme pobreza em termos intelectuais mas não deixaram por isso de ser largamente repetidos. De facto, o que é importante em relação a uma medida política é avaliar da sua bondade e não avaliá-la segundo anule ou esteja em conformidade com a política anterior. Eliminar uma medida errada e injusta é, como é evidente, positivo, e foi isso que aconteceu. O ministério da educação de Nuno Crato, de má memória um e outro, tinha o fetiche dos exames. Crato sempre acreditou que os exames possuíam um efeito mágico a montante sobre a melhoria do sistema educativo e que as reprovações eram um sinal de “exigência”. Estava e está no seu direito de o pensar, mas a verdade é que esta ideologia onde a educação se faz pela seleção dos alunos e pela sua exclusão, feita com um forte pendor de classe, é fortemente condenada pela esmagadora maioria dos especialistas de educação. Foi por isso uma boa medida pôr fim a estes exames - na linha do que faz a maioria dos países desenvolvidos - e é uma boa medida tentar fazer evoluir a escola no sentido em que haja cada vez menos (ou nenhum) aluno a chumbar e onde a escola assuma, acima de tudo, a função de educar todos os alunos e não de deitar para o lixo os menos capazes. As retenções não ajudam os alunos a aprender. E, quando os exames servem apenas para escolher os alunos que irão chumbar, também não contribuem para o processo educativo.

Quanto às provas de aferição, é secundário saber se o ministro recuou ou não e não custa admitir que tenha recuado. A questão é que, se recuou, não recuou na substância da coisa (criação das provas de aferição no 2.º, 5.º e 8.º e sua entrada em vigor já este ano) mas apenas adaptou a sua entrada em vigor aos desejos das escolas ao torná-las facultativas este ano e obrigatórias no próximo ano letivo. Se é um recuo é um recuo sensato, que não põe em causa nem a viragem que se pretende na educação, nem o programa do governo nem a estratégia do ministro. É caso para dizer à direita que pode levar a bicicleta - mas que se deveria preocupar com as matérias substantivas da política e não com a contabilidade pueril dos supostos recuos.

O argumento mais “sólido” contra os exames de aferição é, porém, o argumento da “instabilidade” que a decisão do ministro teria vindo introduzir nas escolas e nas famílias. É aqui que se percebe a dimensão do mal que o ministério de Crato veio instilar nas escolas.

Primeiro, foi o facto de os exames do 4.º e 6.º terem sido abolidos e de as escolas, que estavam a “preparar os seus alunos” para os exames, terem visto as suas expectativas frustradas e de as famílias, que também “preparavam os seus filhos” para os exames, terem visto essa tarefa de súbito esvaziada de sentido.

Ora, a questão de fundo é que as escolas não existem para “preparar alunos para os exames”, nem a educação consiste em “preparar alunos para exames”. O que a escola deve pretender é, acima de tudo, formar cidadãos e oferecer-lhes uma educação que lhes estimule a curiosidade e o gosto de aprender e lhes permita desenvolver e aplicar os seus talentos em múltiplas circunstâncias e não apenas no dia do exame. Quando a escola se transforma num sistema de preparação para exames e visa não a educação dos alunos mas a obtenção de notas num exame não está a fazer todo o seu papel e descura a parte essencial desse papel.

Da mesma forma, as provas de aferição não exigem qualquer preparação especial, quer por parte das escolas quer por parte das famílias e dos alunos - é é por isso irrelevante, para os alunos, se elas vão ou não ter lugar este ano numa dada escola. As provas de aferição poderiam até, em rigor (se não fosse pelos aspetos logísticos que envolvem), ser feitas de surpresa, em datas tiradas à sorte, já que o seu objetivo é avaliar a qualidade do ensino dispensado por uma dada escola, para o melhorar, o que até recomenda que os alunos não possuam nenhuma preparação especial e se encontrem, tanto quanto possível, no seu “estado natural”. A noção de “preparar os alunos” para uma prova de aferição não tem qualquer sentido.

Por: José Victor Malheiros

A ESCOLA FAZ, PODE FAZER, A DIFERENÇA


É bom ler uma notícia positiva no universo da educação. Não é que não existam muitas matérias ou experiências que as possam inspirar. Creio que nos falta um pouco a “cultura" de valorizar e divulgar o que corre bem. Embora se compreenda estamos quase sempre mais direccionados para os muitos problemas e dificuldades sempre presentes no complexo universo da educação.

Vem esta introdução a propósito do trabalho do Público sobre a Escola Básica 123 do Curral das Freiras. Serve a freguesia mais pobre da Madeira e em 2015 os seus alunos conseguiram a terceira melhor média nacional no exame de Português do 9.º ano, correspondente a melhor escola pública. Em Matemática, os resultados também foram muito bons com a colocação em 12.º lugar do ranking entre as escolas públicas e integrando 100 melhores no ranking global.

Algumas notas breves

A associação entre os resultados escolares dos alunos e variáveis de natureza sociodemográfica como meio social, económico e cultural, circunstâncias de vida, estilos parentais, etc. etc., está estabelecida de há muito.

No entanto, também sabemos que a escola faz, pode fazer a diferença, ou seja, o trabalho na e da escola e dos professores é um factor significativamente explicativo do sucesso dos alunos mais vulneráveis e capaz de contrariar o peso das outras variáveis que estão presentes nesses alunos. Neste contexto torna-se ainda mais relevante o trabalho realizado por alunos, professores, pais, funcionários e técnicos na Escola Básica 123 do Curral das Freiras.

O trabalho na escola envolvendo organização, clima e liderança por exemplo e, finalmente o trabalho em sala de aula em que surge a diferença produzida pelo professor, pelos professores.

Quando abordo estas questões cito com frequência uma afirmação de 2000 do Council for Exceptional Children, "O factor individual mais contributivo para a qualidade da educação é a existência de um professor qualificado e empenhado".

No entanto a existência de professores qualificados e empenhados não depende só de variáveis individuais de cada docente, decorre também de um conjunto de políticas educativas que promovam a qualificação, a motivação e a valorização a diferentes níveis do trabalho dos professores.

De políticas educativas que em termos genéricos e em termos mais particulares como currículos, sistema de organização, recursos humanos docentes, técnico e funcionários, tipologia e efectivo de escolas e turmas, autonomia das escolas são apenas alguns exemplos de como a diferença tem que ser construída também antes de chegar à sala de aula.

E nesta matéria também temos muito trabalho para realizar.

Texto de Zé Morgado

sexta-feira, 11 de março de 2016

A Inclusão e os “peritos em possibilidades”

A grande questão da Inclusão é de que forma podemos diversificar a oferta educativa de forma a que todos os alunos de uma turma e de uma escola possam beneficiar da fantástica riqueza de se relacionarem com pessoas 

Quando se faz a análise do percurso que Portugal fez no campo da educação de alunos com condições de deficiência temos que ficar agradados com o resultado deste esforço continuado durante mais de 40 anos. Hoje, Portugal é um dos países mais avançados do mundo no capítulo da educação dos alunos com condições de deficiência. Neste capítulo, Portugal optou por fazer cumprir uma das recomendações mais constantes e frequentes feitas pelas organizações internacionais: esta educação deve ser feita em meios educativos inclusivos. É fácil encontrar um consenso sobre a vantagem que têm os alunos com dificuldades em serem educados ao lado dos seus colegas com menos dificuldades: é evidente que o desenvolvimento da pessoa se potencia quando ela frequenta meios mais diversos e mais estimulantes. A grande questão da Inclusão é de que forma podemos diversificar a oferta educativa de forma a que todos os alunos de uma turma e de uma escola possam beneficiar da fantástica riqueza de se relacionarem com pessoas diferentes. Por isso se diz que uma escola que se mantenha imperturbável nas suas práticas e nos seus valores mais tradicionais, não pode ser uma escola inclusiva: só a alteração sensível das suas formas de ensinar, de aprender, das suas estratégias, da organização da classe, da avaliação, etc. conduzem à aproximação aos valores inclusivos. E dizemos “só” por uma razão simples: a escola não foi criada para ser inclusiva, mas sim seletiva, não foi criada para construir conhecimento, mas sim para o reproduzir, não foi criada, enfim, para ser para todos, mas só para alguns.

A mudança da escola sempre parece difícil ou mesmo impossível. Na verdade, há até “peritos em impossibilidade”. São pessoas que constroem o seu discurso para ver se provam que é inútil e ingénua qualquer tentativa de mudar a escola. Se a mudança é proposta pelos alunos diz-se “mas o que é que eles sabem de Educação?”, se a mudança é sugerida pelos professores, diz-se “são interesses corporativos”, se a mudança vem das gestões “é porque lhes interessa a eles e só a eles”, se a mudança vem de estruturas ministeriais “não serve de nada inovar por decreto”. Estes “peritos em impossibilidades” para tornar ainda mais eficaz o seu discurso, acabam por desvalorizar e por menosprezar todas as tentativas que eles consideram parciais por não levarem em conta todos os fatores implicados.

Não iludamos a questão: a mudança da escola é mesmo difícil. A lista é longa mas o certo é que as sociedades moldaram e se moldaram à escola que têm. Quando tentamos mudar a escola confrontamo-nos com um grande conjunto de variáveis que, estando certas ou erradas, que estavam adequadas à vida, às expectativas das crianças e das suas famílias. Talvez por este motivo seja tão difícil mudar a escola: por vezes parece que se está a tirar tijolos da base com esperança de mudar o cume da torre.

Há talvez três aspetos que temos constatado que podem originar e manter mudanças nas escolas dado que não se espera, como diriam os nossos “peritos em impossibilidades”, uma vaga revolucionária que transformasse radicalmente a escola tradicional para uma escola para todos, isto é, inclusiva.

A primeira questão diz respeito às funções dos Conselhos Pedagógicos das escolas. Em muitas escolas estes conselhos (órgão mais nobre da escola) são órgãos burocráticos e de “gestão corrente”. Pelo contrário, há escolas no nosso país em que os Conselhos Pedagógicos se assumiram como órgãos de discussão e de inovação das práticas e dos valores da escola. Não se limitam., por exemplo, a examinar o que lhes é proposto, mas avançam em muitos casos com propostas que permitem levar inovações adiante.

Outra questão que poderia influenciar esta mudança é a intensificação da vida dos Departamentos. Os Departamentos também eles se tornaram em grande medida, órgãos de “cumprir calendário”, órgãos de dar informações, acertar datas e prazos. É inestimável o papel que os Departamentos podem assumir na gestão flexível do currículo e na proposta de iniciativas que dinamizem a escola para poder ser uma escola útil para todos. Temos numerosos e bons exemplos destas possibilidades.

Finalmente o papel das direções das escolas. Tem sido frequentemente relatado que as direções das escolas vão por vezes “para lá da troika”. Usa-se esta expressão para definir direções que têm, por vezes, uma preocupação excessiva em corresponder às diretivas sem defenderem as especificidades e as “boas práticas” das suas escolas. Em algumas situações parece que se cava um fosso entre a direção e os professores. Já ouvimos diretores, eles que são professores, falarem “dos meus professores” e da “minha escola”. Ora, precisamos de estabelecer um clima de cumplicidade e de confiança entre os professores responsáveis pela gestão e os professores responsáveis pelo trabalho pedagógico. Muitas direções das escolas no nosso país têm assumido o imprescindível trabalho de reconhecer (mesmo antecipar) e valorizar as práticas pedagógicas que aproximem mais a escola de uma escola inclusiva e para todos.

Escrever sobre a inovação na escola de forma a torná-la mais inclusiva e para todos é uma missão impossível porque ficam de fora numerosas e ponderosas razões. Mas o certo é que temos mesmo que pensar como é que esta empresa se pode realizar. E se os Conselhos Pedagógicos, se os Departamentos e se as Direções das escolas se puderem harmonizar neste esforço de inovação e de inclusão, teremos então uma escola fortalecida por “peritos em possibilidades”.

Por:Presidente da Pró-Inclusão / Associação Nacional de Docentes de Educação Especial, Conselheiro Nacional de Educação

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

SIM. SÃO CAPAZES.

Agradecendo a partilha ao Paulo Prudêncio, do Blogue Correntes, aqui fica uma inspiração séria que gostava que se visse ... e reflectisse.


É verdade.

Sem ser por magia ou mistério quando acreditamos que os alunos, as pessoas com algum tipo de necessidade especial, são capazes, não se "normalizam" evidentemente seja lá isso o que for, mas são, na verdade, mais capazes, vão mais longe do que admitimos. Não esqueço a gravidade de algumas situações mas, ainda assim, do meu ponto de vista, o princípio é o mesmo, se acreditarmos que eles progridem, que eles são capazes de ... , o que fazemos, provoca progresso, o progresso possível.

E isto envolve professores do ensino regular, de educação especial, técnicos, pais, lideranças políticas e toda a restante comunidade.

A inclusão assenta em quatro dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). Estas dimensões devem ser operacionalizadas numa perspectiva de diferenciação justamente para que acomodem a diversidade das pessoas.

É neste sentido que devem ser canalizados os esforços e os recursos que deverão, obrigatoriamente, existir.

Texto de Zé Morgado

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

DE TANTO CHUMBAR UM DIA APRENDES. SERÁ?

No Relatório ontem divulgado pela OCDE e que aqui referi construído com base nos resultados no PISA de 2012 evidencia-se que o “chumbo”, a retenção, é para os alunos portugueses o principal factor de risco para os resultados na avaliação posterior, dito de outra maneira, os alunos chumbam … mas não melhoram.

De novo e sempre.

O peso insustentável da retenção no nosso sistema escolar parece assentar na errada convicção de que a repetição só por si conduz ao sucesso e alimenta o que a OCDE já classificou de "cultura da retenção". Importa ainda considerar o impacto económico desta cultura como evidenciou um estudo recente realizado pela associação Empresários pela Inclusão Social e pelo Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa.

Confesso a surpresa quando ao discutir-se os efeitos pouco positivos da retenção, cerca de 150 000 alunos por ano, algumas vozes, mesmo dentro do universo da educação, clamam que se está a promover o "facilitismo" ou a defender que "então passam sem saber".

Como me parece evidente não é dada disto. Como exemplo, a Noruega tem uma taxa de retenção próxima do 0% e não consta que os alunos noruegueses passem sem saber, são, aliás, dos alunos com melhores resultados nos estudos comparativos internacionais.

A questão é saber se o chumbo transforma o insucesso em sucesso. Não transforma, repetir só por repetir não produz sucesso, aliás gera mais insucesso conforme os estudos mostram. Muitos estudos internacionais também mostram que os alunos que começam a chumbar, tendem a continuar a chumbar, ou seja, a simples repetição do ano, não é para muitos alunos, suficiente para os devolver ao sucesso. Os franceses utilizam a fórmula “qui redouble, redoublera” quando referem esta questão.

Nesta conformidade e do meu ponto de vista, a questão central não é o chumba, não chumba, e quais os critérios ou o número de exames, mas sim que tipo de apoios, que medidas e recursos devem estar disponíveis para alunos, professores e famílias desde o início da percepção de dificuldades com o objectivo de evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É necessário diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional. Importa ainda que as políticas educativas sejam promotoras de condições de sucesso para alunos e professores. O aumento do número de alunos por turma no Ensino Básico e no Secundário, a forma como foram definidas as metas curriculares, a cultura de competição e centrada exclusivamente em resultados, os cortes no número de docentes que poderiam desenvolver dispositivos de apoio, são apenas alguns exemplos do que não deve ser feito se, efectivamente, se quiser promover qualidade e sucesso.

Como é evidente este tipo de discurso não tem rigorosamente a ver com "facilitismo" e, muito menos, com melhoria "administrativa" das estatísticas da educação, uma tentação a que nem sempre se resiste.

Assim sendo, o essencial é promover e tornar acessíveis a alunos, professores e famílias apoios e recursos adequados e competentes de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É fundamental não esquecer que o insucesso continua a atingir fundamentalmente os alunos oriundos de famílias com pior condição económica e social pelo que inibe o objectivo da mobilidade social, replicando o velho "tal pai, tal filho". A associação entre o insucesso e a pobreza em Portugal é, aliás, a mais forte entre os países europeus.

É necessário também diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional mas não em idades precoces criando percursos irreversíveis de "segunda" para os "sem jeito para a escola" e "preguiçosos".

Não tenho nenhum princípio fundamentalista contra os exames, embora no 1º ciclo os entenda como dispensáveis, as provas de aferição podem cumprir e cumpriram o papel regulador. Entender que os exames, quanto mais melhor, só por existirem são fonte de qualidade é que me pareceu e parece uma medida facilitista.

A qualidade promove-se, é certo e deve sublinhar-se, com a avaliação rigorosa e regular das aprendizagens, sim, naturalmente, mas também com a avaliação do trabalho dos professores, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio a alunos e professores eficazes e suficientes, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados de autonomia, organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, etc.

É o que acontece, genericamente, nos países com mais baixas taxas de retenção escolar.

É o que não tem acontecido em Portugal.

Ponto.

Texto de Zé Morgado

A ESCOLA FAZ, PODE FAZER, A DIFERENÇA

A OCDE divulgou um Relatório, referido no Público, em que com base nos resultados do PIS analisa o desempenho dos alunos relacionando-os com variáveis de natureza sociodemográfica e com o trabalho das escolas e dos professores. O Relatório merece leitura e reflexão. Algumas notas breves

A associação entre os resultados escolares dos alunos e variáveis de natureza sociodemográfica como meio social, económico e cultural, circunstâncias de vida, estilos parentais, etc. etc., está estabelecida de há muito.

No entanto, também sabemos que a escola faz, pode fazer a diferença tal como o Relatório sugere, ou seja, o trabalho na e da escola e dos professores é um factor significativamente explicativo do sucesso dos alunos mais vulneráveis e capaz de contrariar o peso das outras variáveis que estão presentes nesses alunos.

Acontece que este efeito tem que começar a ser estruturado antes de chegar à escola e à sala de aula.

Políticas educativas em termos genéricos e em termos mais particulares como currículos, sistema de organização, recursos humanos docentes, técnico e funcionários, tipologia e efectivo de escolas e turmas, autonomia das escolas são apenas alguns exemplos de como esse efeito começa a ser construído antes da sala de aula.

Depois existe de facto o trabalho na escola envolvendo organização, clima e liderança por exemplo e, finalmente o trabalho em sala de aula e aí emerge a diferença produzida pelo professor.

Quando abordo estas questões cito com frequência uma afirmação de 2000 do Council for Exceptional Children, "O factor individual mais contributivo para a qualidade da educação é a existência de um professor qualificado e empenhado".

No entanto a existência de professores qualificados e empenhados não depende só de variáveis individuais de cada docente, decorre também, voltamos ao início de um conjunto de políticas educativas que promovam a qualificação, a motivação e a valorização a diferentes níveis do trabalho dos professores.

E nesta matéria também temos muito trabalho para realizar.

Texto de Zé Morgado

É preciso ajudar os alunos mais fracos a melhorar as notas, alerta a OCDE

Organização diz que os maus resultados escolares têm consequência a longo prazo tanto para os jovens como para a sociedade. Um em cada quatro falha em alcançar os conhecimentos básicos na matemática, leitura e ciências.

A maioria dos países fez poucos progressos para ajudar os alunos mais fracos a melhorar as notas. A conclusão é de um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento na Europa (OCDE) divulgado, esta quinta-feira, sobre os estudantes com fracos desempenhos.

Os maus resultados escolares têm consequência a longo prazo tanto para os jovens como para a sociedade, alerta o documento.

Neste relatório, a OCDE diz que a maioria dos países não fez progressos, ou seja, muitos alunos ainda estão a abandonar a escola sem terem adquirido os conhecimentos básicos para o seu futuro, pondo em causa o crescimento da economia.

Cerca de quatro milhões e meio de alunos com 15 anos – um em cada quatro - falha em alcançar os conhecimentos básicos na matemática, na leitura e nas ciências.

Países tão diferentes como Portugal, o Brasil, Itália, Alemanha, México, Polónia, reduziram o número de alunos com desempenho negativo a matemática entre 2003 e 2012. Uma situação que revela ser possível inverter os números, mas com a adopção de políticas correctas.

O relatório constata ainda que as características das escolas e dos professores têm mais impacto do que o estatuto socioeconómico dos alunos.

O responsável da OCDE pela educação diz que a política deste sector deve ser uma prioridade e é necessário dar os meios para que todas as crianças tenham sucesso na escola. Pois nos países onde os recursos estão mais bem distribuídos, por todas os estabelecimentos, há uma menor incidência de maus desempenhos em matemática.

Para travar esta tendência, a OCDE recomenda identificar os problemas e desenhar uma estratégia específica e reduzir as desigualdades no acesso à educação básica.


A maioria dos países fez poucos progressos para ajudar os alunos mais fracos a melhorar as notas. A conclusão é de um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento na Europa (OCDE) divulgado, esta quinta-feira, sobre os estudantes com fracos desempenhos.

Os maus resultados escolares têm consequência a longo prazo tanto para os jovens como para a sociedade, alerta o documento.

Neste relatório, a OCDE diz que a maioria dos países não fez progressos, ou seja, muitos alunos ainda estão a abandonar a escola sem terem adquirido os conhecimentos básicos para o seu futuro, pondo em causa o crescimento da economia.

Cerca de quatro milhões e meio de alunos com 15 anos – um em cada quatro - falha em alcançar os conhecimentos básicos na matemática, na leitura e nas ciências.

Países tão diferentes como Portugal, o Brasil, Itália, Alemanha, México, Polónia, reduziram o número de alunos com desempenho negativo a matemática entre 2003 e 2012. Uma situação que revela ser possível inverter os números, mas com a adopção de políticas correctas.

O relatório constata ainda que as características das escolas e dos professores têm mais impacto do que o estatuto socioeconómico dos alunos.

O responsável da OCDE pela educação diz que a política deste sector deve ser uma prioridade e é necessário dar os meios para que todas as crianças tenham sucesso na escola. Pois nos países onde os recursos estão mais bem distribuídos, por todas os estabelecimentos, há uma menor incidência de maus desempenhos em matemática.

Para travar esta tendência, a OCDE recomenda identificar os problemas e desenhar uma estratégia específica e reduzir as desigualdades no acesso à educação básica.