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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

No mundo da epilepsia: enfrentando (pre)conceitos (parte 2)

Neste artigo destacam-se duas das formas de epilepsia mais frequentes na infância: a epilepsia de ausências e a epilepsia rolândica ("benigna").

A epilepsia de ausências é uma forma de epilepsia "generalizada" (por envolver os dois hemisférios cerebrais) que surge mais frequentemente no sexo feminino (70%) e tipicamente entre os 4 e os 12 anos de idade, com um pico entre os 5 e os 7 anos de idade - início da idade escolar. Por este motivo, a história típica que leva à sua descoberta é a da criança com um desenvolvimento normal que começa a apresentar diminuição súbita no rendimento escolar e em que os professores se começam a queixar do seu défice de atenção e concentração. De facto, esta epilepsia caracteriza-se pela interrupção súbita da atividade e da consciência, durante períodos de 5-20 segundos (em média: 8-10 segundos), em que a criança fica com o olhar parado, por vezes com pestanejo e/ou automatismos periorais/faciais (movimentos da boca, por exemplo). Tudo isto surge e desaparece espontaneamente, sem que a criança se aperceba dessas "pausas" na sua atividade e tendem a ocorrer várias vezes ao dia. Apesar de ocorrerem de forma espontânea, são conhecidos fatores precipitantes como a hiperventilação voluntária (que também se utiliza como prova diagnóstica durante a avaliação da criança na consulta médica). O prognóstico é excelente, sendo um tipo de epilepsia que normalmente responde muito bem ao tratamento e tende a desaparecer na adolescência.

A epilepsia rolândia ou de pontas centrotemporais (antigamente designada como epilepsia benigna) é, também, como já foi referido, uma das epilepsias mais frequentes da infância, com início entre os 3-12 anos (com um pico entre os 7 e os 9 anos) e, em muitos casos, existe história familiar deste tipo de epilepsia. Tipicamente, estas crises surgem em crianças com um desenvolvimento normal, manifestando-se durante o sono ou ao acordar como "crises focais motoras" com origem na área cerebral designada rolândica (daí o nome da epilepsia) que é responsável pela componente sensitivomotora da face e orofaringe. Como tal, a criança apresenta movimentos da região da boca, parte da face e, eventualmente, membro superior associados a sensação de formigueiro da língua, o que a impossibilita de falar ou apenas consegue emitir sons guturais rítmicos, mantendo-se inicialmente com a consciência preservada (daí ser considerada uma crise "focal"), embora se possa "generalizar" posteriormente. Cerca de 15% das crianças só têm uma crise e 60% terão 2-5 crises. O prognóstico é excelente, mesmo sem tratamento, com duração média de dois anos. Normalmente institui-se tratamento, com boa resposta, pelo incómodo que estas crises provocam na criança e nos pais.

Em ambos os casos apresentados, a história clínica típica associada ao eletroencefalograma é suficiente para estabelecer o diagnóstico.

Uma nota final apenas para as convulsões febris dada a prevalência e receio que inspiram. Como já referido, apesar destas crises se poderem repetir perante contextos de febre, tipicamente não são consideradas epilepsia. Trata-se de convulsões que surgem geralmente entre os 3 meses e 5 anos de idade, associadas à febre e de carácter benigno. E será que poderão ser o primeiro sinal de que a criança virá a ter epilepsia? De modo geral, a maioria das crianças com convulsões febris apresenta apenas um único episódio durante a vida (cerca de 70% dos casos; mas 20% terão 2 e 10% várias). A probabilidade de virem a desenvolver epilepsia embora possa ser ligeiramente superior à das crianças sem CF permanece em valores baixos, rondando os 2% e 7%, segundo alguns estudos, dependendo da complexidade da convulsão, história familiar de epilepsia e alterações no desenvolvimento e no exame neurológico da criança. Em alguns estudos, chega-se à conclusão de que o número de crianças com epilepsia que previamente tinha tido convulsões febris era muito discreto, existindo pouca relação entre estas convulsões e a epilepsia. 

Por: Isabel Maria Santos, com a colaboração da Dr.ª Célia Barbosa, neuropediatra no Hospital de Braga

In: Educare

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

No mundo da epilepsia: enfrentando (pre)conceitos (parte 1)

A epilepsia é uma das doenças neurológicas mais frequentes no Mundo e com maior prevalência na infância e adolescência.

Quando se fala de epilepsia, fala-se de uma doença neurológica caracterizada pela ocorrência de crises (crises epiléticas) recorrentes e espontâneas, ou seja, crises que surgem subitamente e que tendem a repetir-se. Apesar de se tratar de um problema crónico, em alguns casos verifica-se remissão espontânea. É das doenças neurológicas mais frequentes no Mundo e com maior prevalência na infância e adolescência.

Antes de se prosseguir mais a fundo nesta temática, convém esclarecer o que é uma crise: a crise é um sintoma e não um diagnóstico e, como tal, pode ser a manifestação clínica de várias situações. Trata-se de uma manifestação de uma atividade cerebral súbita, inapropriada e excessiva e, assim, dependendo da área do cérebro onde ocorre essa atividade súbita (área motora, área sensitiva...), essa crise poderá manifestar-se como um distúrbio motor (por exemplo, as convulsões), sensitivo, sensorial, psíquico e/ou da consciência. 
Classicamente, para se afirmar o diagnóstico de epilepsia, são necessárias pelo menos duas crises em momentos diferentes. Convém também esclarecer que há situações em que ocorrem mais do que duas crises e que não se definem como epilepsia, como o caso das convulsões febris. 

Para dar um exemplo de uma crise motora, destaco a convulsão - episódio de contrações musculares involuntárias associadas ou não a perda de consciência. Estas contrações podem ser mantidas (tipo tónico) ou interrompidas por momentos de relaxamento de duração variável (tipo clónico). 

As crises, por sua vez, podem ser divididas em "focais" e "generalizadas". As primeiras dizem respeito a crises com origem num foco cerebral específico e apenas num dos hemisférios cerebrais e, como tal, terão uma manifestação mais concreta embora, a seguir, se possam generalizar. Já as crises "generalizadas" traduzem desde o início um envolvimento difuso e simultâneo de ambos os hemisférios cerebrais, com perda de consciência. 

Saliento, mais uma vez, que muitas vezes e provavelmente na sua maioria, as crises não têm uma base epilética (ou seja, não resultam de alteração estrutural ou funcional cerebral), mas podem ser resultado de febre (convulsão febril), infeção, enxaquecas, síncope ("desmaio" em contexto do susto/medo/stress/calor), traumatismo craniano, distúrbios do sono, espasmos de choro, "distrações" frequentes (pseudoausências), arritmias cardíacas, entre outros.

A história da crise é fundamental na avaliação da criança/jovem. Assim, é importante tentar perceber:
• em que contexto é que a crise surgiu - o que a criança/jovem estava a fazer antes da crise, se foi durante o sono ou estando acordado, se havia estímulos luminosos ou outros possíveis precipitantes; 
• O início da crise: se houve sintomas iniciais (que "anunciaram" a crise em si); 
• Como foi a crise: se se iniciou em alguma parte do corpo, se foi generalizada e nesse caso se foi desde o início ou só no fim, se a criança estava consciente, como estavam os seus olhos e se havia movimentos, quanto tempo durou; 
• Após a crise: como reagiu a criança/jovem.

A partir destas informações e após a realização do exame físico da criança/jovem decide-se se há necessidade de realizar exames e, nesse caso, quais os indicados. Perante a suspeita de epilepsia, normalmente um eletroencefalograma (EEG) é o exame indicado e, por norma, suficiente. Este exame regista a atividade cerebral e tenta detetar se há alguma área mais ativa que possa estar a causar esta crise.

Grande parte das epilepsias iniciadas na infância têm evolução favorável, com controlo satisfatório das crises ainda dentro do primeiro ano de tratamento. 

Por: Isabel Maria Santos, com a colaboração da Dr.ª Célia Barbosa, Neuropediatra no Hospital de Braga

In: Educare

sábado, 12 de março de 2011

Epilepsia afeta 70 mil portugueses

É a segunda doença neurológica mais comum, a seguir ao AVC. Hoje (11-03-2011), a Associação e a Liga contra a doença, vai assinalar o primeiro dia nacional contra a epilepsia, uma data que ainda não foi aprovada pela Assembleia da República.
 
 

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Sabe o que fazer perante uma crise epiléptica?

Sabe o que fazer perante uma crise epiléptica?

Se testemunhar uma crise convulsiva generalizada, com queda e abalos musculares generalizados:

1. Permaneça calmo e vá controlando a duração da crise, olhando periodicamente para o relógio

2. Coloque uma toalha ou um casaco dobrado debaixo da cabeça da pessoa

3. Quando os abalos (convulsões) pararem coloque a pessoa na posição lateral de segurança

4. Permaneça com a pessoa até que recupere os sentidos e respire normalmente

5. Se a crise dura mais do que 5 minutos, chame uma ambulância

NÃO introduza qualquer objecto na boca nem tente puxar a língua (a teoria de que as pessoas podem "enrolar a língua" e asfixiar não tem fundamento)

NÃO tentar forçar a pessoa a ficar quieta

NÃO lhe dê de beber

Clique na imagem abaixo para ver uma ilustração destes passos:


 


Se presenciar uma crise mais "ligeira", sem queda nem movimentos convulsivos (por exemplo, em que ocorra apenas um período de confusão e comportamentos invulgares):

1. Proteger o doente de um eventual perigo durante uma crise

2. Dar o devido apoio até à recuperação completa da consciência

Quando chamar o 112?

1. sempre que tiver dúvidas sobre o melhor procedimento

2. se for a primeira crise da pessoa (i.e., sem epilepsia prévia)

3. se a crise for mais prolongada do que o habitual (geralmente as crises não ultrapassam os 2-3 minutos de duração) ou se observar crises repetidas, sem recuperação dos sentidos no intervalo

4. crise com ferimentos sérios

5. dificuldade em retomar respiração normal no final da crise.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Nove em cada dez professores podem pôr alunos com epilepsia em perigo porque actuam de forma errada

Nove em cada dez professores podem pôr em perigo um aluno com epilepsia, já que acreditam no mito que defende que se deve colocar um objecto na boca durante um ataque para evitar que enrolem a língua.

Esta é uma das conclusões do primeiro estudo sobre Epilepsia nas Escolas Portuguesas, levado a cabo durante o último ano lectivo pela EPI – Associação Portuguesa de Familiares, Amigos e Pessoas com Epilepsia e a Liga Portuguesa Contra a Epilepsia (LPCE).

De acordo com a investigação hoje divulgada à agência Lusa, cerca de 77 por cento dos professores têm dificuldade em gerir uma situação de epilepsia na turma. 

Se, por um lado, a maioria dos inquiridos identificou correctamente que se deve ficar com a pessoa durante e após a crise, a verdade é que o mito do enrolar a língua se mantém: 93,4 por cento defendeu erradamente que se deve colocar algo na boca durante um ataque, o que pode “provocar situações de risco para o doente” como asfixia ou dentes partidos.

Apesar deste perigo, 90 por cento dos inquiridos sabia que se deve remover objectos que possam ferir a pessoa, 79 por cento lembrava-se que se deve deitar a pessoa em posição lateral de segurança e 83,9 por cento tinha consciência de que se deve controlar o tempo de duração da crise.

Questionados também sobre o impacto da epilepsia nas actividades educativas, desportivas e lazer, perto de um terço dos participantes acredita erroneamente que a criança não deve exercitar-se muito e que se deve desculpabilizar o seu comportamento.

Apenas pouco mais de metade dos inquiridos disse já ter tido acesso a informação sobre epilepsia, contra 45,2 por cento que assumiu não ter. 

Perante estes resultados, a Liga Portuguesa Contra a Epilepsia (LPCE) e a EPI decidiriam dinamizar mais acções de divulgação e formação em escolas que pretendam facilitar a integração na escola de crianças com epilepsia. 

O estudo agora divulgado foi desenvolvido durante o ano lectivo 2009/10 e faz parte do Programa Escola Amiga EPI, um projecto nacional que pretende dotar as escolas de ensino regular, bem como as de Ensino Especial e Instituições/ATL de condições adequadas para integrar os alunos com epilepsia. 

Os participantes do estudo foram Professores, Educadores, Terapeutas e Auxiliares de Educação e também crianças da turma do aluno com epilepsia.

Em Portugal estão diagnosticados cerca de 70 mil pessoas com epilepsia e estima-se que surjam anualmente cerca de 4000 novos casos, na sua maioria crianças e adolescentes.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Sensor que detecta previamente ataques epilépticos testado

Médicos australianos estão a testar um sistema com sensores eléctricos dentro do crânio para alertar previamente pacientes epilépticos dos seus ataques. Estes sensores enviam sinais a um dispositivo implantado no peito do doente, que por sua vez remete uma mensagem a um pager que alerta o paciente sobre o ataque iminente.

Segundo Mark Cook, um dos membros da equipa do Melbourne St Vincent Hospital, na Austrália, se funcionar, o sistema representará um "avanço impressionante".

"Nunca imaginámos que seríamos capazes de prever ataques epilépticos dessa maneira", referiu, acrescentando que "se funcionar, [o sistema] vai transformar a vida de muitas pessoas."

A epilepsia é um distúrbio neurológico crónico que pode provocar convulsões repentinas, perda de consciência e outros sintomas. Os eléctrodos instalados dentro do crânio do paciente comunicam quaisquer mudanças na actividade eléctrica do cérebro ao dispositivo no peito.

A ideia é que o aviso do pager dê ao paciente tempo suficiente para tomar medicamentos ou alertar alguém próximo. A empresa americana que está a desenvolver o novo sistema espera agora poder disponibilizá-lo no mercado no espaço de cinco anos.

Os primeiros testes deste sistema estão a ser realizados num jovem australiano de 26 anos que sofre de um tipo de epilepsia que não pode ser controlada com medicação ou procedimentos cirúrgicos. 


segunda-feira, 10 de maio de 2010

Jovem faz cirurgia pioneira para acabar com epilepsia

Especialistas do Hospital Beth Israel de Nova York praticaram uma complexa e pioneira operação cirúrgica para acabar com os ataques de epilepsia que a jovem de origem mexicana Jennifer Flores, de 17 anos, sofre há cinco anos. Durante a primeira fase da operação, dirigida pelo neurocirurgião Saadi Ghattan, que durou cinco horas, os médicos colocaram uma série de eletrodos na parte afetada do cérebro para poder detectar com exatidão qual o pedaço devem extrair na próxima fase.



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Se tem um ataque epiléptico não consulte o Dr.House

As séries televisivas reproduzem técnicas inadequadas em quase 50 por cento dos casos.

Os fãs das series televisivas sobre hospitais acreditam que as histórias narradas têm um fundo cientifico real.

Supõe-se que House, Anatomia de Grey, Serviço de Urgências tenham bons assessores médicos, mas não é bem assim.

Talvez acertem em algumas patologias, mas a epilepsia não é uma delas.

Em quase metade dos casos em que se narra a peripécia de um paciente que sofre uma crise, os profissionais das séries atendem-nos de uma forma errada.

Para realizar este estudo, os investigadores viram 327 episódios, onde ocorreram 59 crises de epilepsia, 51 das quais em hospitais. Quase todos os ataques foram atendidos por médicos e enfermeiros. Os resultados destas análises serão apresentados no Congresso Anual da Academia Americana de Neurologia, no próximo mês de Abril no Canadá.

“As séries televisivas constituem um método educativo sobre primeiros auxílios potencialmente útil”, explica o principal responsável pelo trabalho, Andrew Moeller, da Universidade Dalhousie da Nova Escócia (Canadá).

Em 25 dos casos analisados (46% do total) os guionistas incentivaram os actores a atender de forma inadequada os paciente. As convulsões tratadas de forma correcta unicamente em 17 exemplos (29%) e nos restantes 15 incidentes (25%) não se pôde determinar, por falta de dados, se a actuação dos médicos se adequava às actuais recomendações oficiais.

Falhas perpetuam comportamentos errados

As falhas cometidas nas séries são um reflexo do amplo desconhecimento da população sobre o que fazer perante uma pessoa com um ataque convulsivo. Quando as séries mostram um médico a meter uma caneta na boca dum paciente contribuem a difundir e a perpetuar uma prática totalmente desaconselhada.

Do mesmo modo, também não se deve tentar deter os movimentos involuntários do paciente, nem tentar reanimá-lo ou dar-lhe algo para beber. Mesmo que aparentemente não respire, não é necessário haver respiração artificial.
 
O que fazer perante uma crise de epilepsia?

Tudo o que se pode fazer durante um ataque epiléptico de outrem, é afastar todos os objectos e evitar que a pessoa se magoe. Deve ser colocado com a cabeça virada para o lado (na posição lateral de segurança) e, se possível, com algo macio que faça de almofada.

Por último, é necessário chamar as urgências se é o primeiro ataque que ocorre a esse indivíduo, no caso de se repetir ou se dura mais de cinco minutos.