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quinta-feira, 6 de março de 2014

Ler nos dias de hoje

Em recente sessão numa escola, a escritora Alice Vieira colocou bem a questão: não são os filhos que lêem pouco, são os pais que não lêem nada (cito de cor). Tem toda a razão: foi a geração que tem agora os filhos a estudar que quase deixou de ler. As razões são várias: vida quotidiana centrada no trabalho e não na casa e na família, livros de preço elevado, campanhas publicitárias de promoção da “leitura fácil” e do livro “que se lê bem”, crescente influência da televisão e agora da Internet, falta de apoio às livrarias que vemos fechar todas as semanas, ausência de leitura partilhada por várias gerações em casa e na escola, entre outras causas.

O Plano Nacional de Leitura e a escolha de livros com a menção Ler+ (por vezes em selecção discutível), bem como o apoio às bibliotecas escolares, pretenderam combater a situação. Foi feito um esforço meritório e alguns resultados foram obtidos: podemos afirmar com segurança que muitas crianças e jovens começaram a ler a partir de uma sessão na escola ou de um encontro com o escritor numa Feira do Livro. O resultado global, no entanto, é desolador: numa turma de adolescentes (7.º

12.º anos) são muito poucos os que têm o hábito de ler um livro com regularidade ou que chegam a ler um livro… por ano! O desconhecimento de autores clássicos da literatura portuguesa é quase total e, mesmo no caso das leituras obrigatórias, são apenas consultados resumos da obra.


Compreendo Alice Vieira: os que nos saúdam na escola enchem-nos de esperança. No entanto, qual o resultado real, em termos da promoção da leitura, junto das turmas presentes? Atrevo-me a dizer que é modesto. Os alunos que aparecem nas sessões estão lá com satisfação (os que já gostam de ler), são mandados comparecer ou preferem ouvir falar alguém que os retire da “seca” das aulas.

A grande questão é o que significa “ler” nos dias de hoje. O paradigma mudou entre a gente nova. Cada vez vêem menos televisão e passam muitas horas no computador, por vezes estão dependentes de vários ecrãs ao mesmo tempo. “Ler”, para os mais novos, já não significa estar sentado num sofá com um livro “em suporte de papel” (horrível expressão) nas mãos. “Ler”, hoje em dia, é receber informação a toda a hora, ver as notícias ao minuto, pesquisar num sítio da Internet, verificar os novos comentários nas redes sociais. Qual o adolescente de hoje que visita uma livraria clássica para escolher um livro? Qual o jovem de hoje que discute temas literários, como se fazia nos anos 60?

Se o paradigma mudou, a promoção da leitura, crucial para o desenvolvimento do cérebro e essencial para a qualificação dos portugueses, tem de mudar também. As edições deveriam ser mais direccionadas para a leitura digital, sobretudo para os tablets — o “suporte” do futuro — e poderiam conter entrevistas com o autor e imagens relacionadas com o texto. As acções nas escolas deveriam proporcionar leitura em computador de trechos de obras de qualidade, enquanto as redes sociais seriam utilizadas em comentários partilhados de leituras acessíveis em formato digital. As livrarias e bibliotecas precisariam de outra organização, onde não faltaria a leitura conjunta em computador e o apoio ao preço fixo do livro.

A continuar sem mudar nada, os filhos de hoje, quando chegarem a adultos, ainda lerão menos do que os seus pais.

Por: Daniel Sampaio

In: Público

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Atividades de leitura para a infância e a juventude

Quando se fala de leitura infanto-juvenil, penso que será pertinente falar-se de leitura, de leitura para e de leitura com, cada um dos três tipos com atividades específicas.

Chamaria leitura, simplesmente leitura, a todas as atividades de leitura autónoma, seja recreativa, para investigação, para estudo ou para qualquer outro fim. Leitura para e leitura com implicam a intervenção e a colaboração de pelo menos duas pessoas: a criança e um adulto (professor ou familiar). Leitura para, como o nome pressupõe, é uma atividade em que alguém lê para outra(s) pessoa(s). Leitura com, tendo a participação de um mínimo de duas pessoas, implica uma participação ativa de todas. Qualquer destes três tipos de leitura pode ocorrer em diferentes idades, desde o nascimento até à adolescência, tendo em conta apenas as faixas etárias a que nos referimos neste artigo.

Então pode começar-se a ler autonomamente desde que se nasce? Como, se não se conhece o código escrito? Quando um bebé brinca com um livro de pano e se diverte a experimentar as diferentes texturas ou a produzir os vários sons que ele proporciona, está a manipular um livro, a virar as suas páginas, a utilizá-lo para criar sentido e o tornar significativo. Com o passar do tempo, a criança vai conseguir ver as figuras de um livro e criar uma história a partir delas, o que é, à sua maneira, e de forma adequada para o nível etário, ler. Se esse livro já foi lido para ela, por exemplo, pelos pais, ser-lhe-á ainda mais fácil recriar a história que já ouviu e ir-se apercebendo de que aqueles caracteres que ainda não consegue descodificar transportam essa narrativa. Com a entrada na escola e a aprendizagem da leitura, a criança poderá, finalmente, começar a fazer uma leitura no sentido tradicional do termo. Existe uma grande variedade de livros, com texto mais ou menos longo, ou até mesmo apenas com palavras associadas a imagens ou com pequenas frases. Uma seleção cuidada dos livros a oferecer a uma criança poderá ajudar a que ela consiga ler autonomamente, o que, além do prazer associado à leitura, contribuirá para a tornar uma leitora mais motivada e mais competente, sendo cada livro, com texto cada vez um pouquinho mais longo, um novo desafio.

Ler para é uma atividade que pode ser iniciada mesmo antes do nascimento, com a mãe a ler para o filho que sente dentro de si. Quando a criança nasce, desde pequena que aprecia ouvir ler e contar histórias. As histórias tradicionais, as lengalengas, as rimas têm vindo a passar de geração em geração e continuam a encantar os mais miúdos e os mais graúdos (nos quais me incluo). Quando a criança começa a aprender a ler, pode deixar de ser o sujeito passivo da atividade de "ler para" e passar a ser um sujeito ativo, lendo para os seus pais. É essencial escolher bem o texto, para que o grau de dificuldade seja adequado e o desafio não seja excessivo. Ler alto para ouvintes interessados e carinhosos é uma atividade enriquecedora que pode contribuir para o desenvolvimento de competências de leitura, como por exemplo a fluência e a entoação.

Ler com pode acontecer também desde muito cedo e, frequentemente, mistura-se com "ler para". Quando lemos uma história aos mais pequenos, tendemos a solicitar a sua participação, fazendo-lhes perguntas ou pedindo-lhes que reproduzam o som das personagens: "Então apareceu um cão: Como faz o cão?", "Nesse momento, apareceu o lobo mau. O que é que ele disse ao porquinho do meio?". Quando a criança começa a aprender a ler, ou se for mais velha e tiver ainda dificuldades na leitura, estas atividades podem ajudá-la a desenvolver competências de leitura e autoconfiança nas suas capacidades. Se a mãe ou o pai se sentarem com o seu filho em torno de um texto curto, podem desenvolver algumas atividades lúdicas de leitura: cada um lê uma frase da história; o adulto lê primeiro uma frase e a criança repete-a; o adulto lê uma frase com um erro e a criança repete-a corrigindo o erro (Ex.: O adulto lê "O boi cruzou-se com o cão." A criança repete e corrige "O boi cruzou-se com o cavalo."); as duas atividades anteriores, sendo feita a leitura de várias frases ou de um parágrafo; recorte dos parágrafos de uma história e reconstrução da história, lendo cada elemento da família o(s) parágrafo(s) que lhe coube(ram).

Quando se sabe ler bem e se desenvolveu o hábito, ler é um prazer que sabe bem ter cultivado. O percurso para adquirir esse hábito é igualmente um prazer e pode ser um prazer partilhado. Na leitura podem-se encontrar/reencontrar as gerações. Pais e filhos, avós e netos, para todos há espaço no mundo das letras e dos livros.

Por: Armanda Zenhas

In: Educare