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segunda-feira, 12 de maio de 2014

A revolução digital já chegou à Escola?

Iniciada a segunda década do século XXI, temos a bater-nos à porta a terceira vaga da revolução digital. Ela aí está, mais enérgica que qualquer das outras, a deixar-nos cada vez mais interdependentes, a mudar tudo à nossa volta, a mergulhar-nos num mundo de ficção, de perplexidade e de imaginário.

A primeira vaga foi sustentada pela popularização e democratização dos computadores pessoais e dos telemóveis; a segunda, pela massificação do acesso à Internet e da oferta low cost da banda larga; a terceira está a ser protagonizada pela redução de todas as fontes da cultura, do saber e do lazer ao formato digital, acompanhada pela vulgarização do comércio electrónico de bens e serviços, também eles em formato digital. A tendência é apetecível, as novas gerações de consumidores já lhe deram o seu consentimento, logo, o caminho anuncia-se irreversível. Sem ilusões: nada mais vai ser como dantes…

Mais depressa, e de forma mais eficaz e definitiva, do que os CDs substituíram os discos de vinil, a música em formato digital fará desaparecer, num curtíssimo espaço de tempo, o suporte musical em formato de CD. Hoje, quem entrar num quarto de um adolescente já não vê caixas de CDs, nem livros espalhados por todo o lado. A música e os textos circulam em suportes digitais, configurados em leitores Mp3, em Pen Flash Drives, SDcards, discos rígidos externos, em leitores tipo Kindle, ou mesmo nas “nuvens”,com os novos servidores tipo cloud. de armazenamento quase ilimitado e disponíveis em qualquer parte do mundo…

E os filmes também. Não se vai à loja, à discoteca ou à livraria formais. Vai-se à Net e faz-se um download, legal ou ilegal, tanto faz, desde que cumprido o objectivo. Permutam-se discos, filmes e textos à velocidade de um clic, toma lá, dá cá. Uma parte das revistas e livros em suporte de papel têm os dias contados. As bases de dados digitais constituirão uma fonte inesgotável de conhecimento ao alcance dos dedos de uma das mãos. Devido a isso, o crescimento do conhecimento vai evoluir de uma forma exponencial. A humanidade poderá combater melhor as desigualdades, as doenças, a fome, a miséria, o nepotismo e todas as formas de degradação do Homem. A humanidade poderá, ainda, ser una e mais solidária, face ao desenvolvimento social e ao progresso científico proporcionado por esta revolução digital.

A Amazon divulgou que mais de 50 por cento dos livros vendidos o foram já em formato digital (e-books). Ao preço de um telemóvel pode-se comprar um gadget (O Kindle, da Amazon, por exemplo) armazenador e leitor de revistas e livros com capacidade para guardar uma biblioteca de cerca de mais quatro mil volumes. Estes livros e revistas podem ser adquiridos on-line, por wireless, ou 3/4G a preços populares, devido à óbvia diminuição de custos, em livrarias virtuais. Pouco faltará para que se possa trazer no bolso a biblioteca de Oxford, com possibilidade de aceder aos textos através de um motor de busca à base de palavras-chave. Mais de 60 mil filmes são alugados ou comprados no iTunes todos os dias. A publicidade na Net já alcançou mais de metade do valor investido nos meios tradicionais de comunicação social…

Aviso: não se trata do fim dos livros, jornais e revistas em suporte de papel. Como não o foi o anunciado fim dos discos de vinil. Mas é um novo renascer dos modelos de divulgação da cultura, da informação e da ciência, só comparável ao renascimento proporcionado, nos finais da época de quatrocentos, pela prensa de Gutenberg. Um novo renascimento que possibilitará crescimentos culturais e científicos em ordem geométrica, dada a possibilidade de divulgação da informação de forma generalizada e em poucos segundos. 

E a escola? E os professores e educadores? Já o afirmámos variadíssimas vezes: vivemos um tempo que pretende reconfigurar a sociedade e a escola, atribuindo-lhe um novo formato, centrado em renovadas formas de receber e transmitir a informação. Isto implica uma busca permanente do conhecimento disponível e das suas fontes de informação. Para alcançar tal objectivo, imputa-se à escola mais uma responsabilidade: a de contribuir significativamente para que se atinja o que se convencionou designar por analfabetismo digital zero.

Para tal, a educação para a utilização das novas tecnologias digitais precisa ser planeada, com base no conhecimento pedagógico, desde o jardim-de-infância. Sem preconceitos ou desnecessárias coacções, sem substituir atabalhoadamente o analógico pelo digital, mas sim reforçando a capacidade cognitiva dos alunos e guiando a descoberta de novos horizontes. Formando os professores e equipando as escolas. Este movimento deve ser capaz de preparar os jovens para serem leitores críticos e escritores aptos a desenvolver essas competências em qualquer dos meios suportados pelas diferentes tecnologias.

Os professores da designada geração digital também já estão a chegar às escolas. E, com eles, as mudanças pedagógicas vão ser mais rápidas, porque baseadas no domínio de novas competências, na experiência e na forte motivação para o uso das novas tecnologias. A escola tradicional vai mudar. Desde logo necessitará de menos espaços físicos. Através da comunicação on-line, o contacto com o mundo exterior e com as outras escolas da aldeia global será permanente. Desta “conexão” de escolas globais – as connecting classrooms - resultarão aprendizagens, também elas globais, e em simultâneo, proporcionadas pelos vários docentes globalizantes, porque globalizadores do conhecimento e da tutoria dos aprendentes.

O que vamos fazer do “pátio dos recreios” quando, nos intervalos, os jovens já só se confinarem à manipulação dos smartphones ou das tablets? A resposta depende de acreditarmos, ou não, de que a escola nunca deixará de ser a Escola e de que nós nunca deixaremos de ser Professores.

Por: João Ruivo

Texto recebido por e-mail

terça-feira, 11 de março de 2014

“Complementaridade entre todos os recursos pedagógicos é a chave do sucesso educativo”

O Observatório dos Recursos Educativos (ORE) fez um balanço de recentes investigações sobre a utilização criteriosa dos recursos digitais em contextos educativos. A complementaridade entre os recursos digitais e os recursos educativos tradicionais - como o uso do lápis, da esferográfica, ou de manuais e livros impressos - não deve ser esquecida num mundo cada vez mais tecnológico. 

Os recursos digitais exercem um grande fascínio nos alunos e a sua utilização deve ser estimulada na sala de aula. Mas Adalberto Dias de Carvalho, professor catedrático e investigador do ORE, avisa que os professores têm de estar preparados para que as potencialidades educativas não sejam desperdiçadas ou para que não haja exageros na hora de ligar o botão. Deve haver regras nas salas de aula. Como, por exemplo, não desviar a utilização do computador para outros assuntos que não façam parte da lição. O investigador afirma, por outro lado, que é importante “combater a sensação de autossuficiência que os alunos poderão sentir, levando-os a secundarizar a observação das realidades que os rodeiam e em que vivem”. “O 'excesso' de informação pode também ter efeitos contraproducentes”, comenta. O tema continua a ser investigado pelo ORE. 

EDUCARE.PT: É consensual para quem estuda a utilização de recursos digitais em contextos educativos que os computadores portáteis, os tablets e outros equipamentos homólogos não podem ser ignorados e têm benefícios. O rápido acesso à informação será a grande vantagem destes equipamentos? 

Adalberto Dias de Carvalho (ADC): Com certeza que a rapidez, a par da vasta informação a que se tem acesso de uma forma extremamente eficaz através dos computadores e de outros recursos similares, é atraente. Acontece, porém, que o “excesso” de informação pode também ter efeitos contraproducentes: assim, não só é preciso saber procurar essa informação como igualmente validá-la e tratá-la. Ora, tal exige um acompanhamento pedagógico muito próximo e sistemático por parte dos professores e dos educadores em geral. Na escola, em casa e atualmente em todos os lugares e ocasiões. 

E: Poderá haver uma relação direta entre o aumento da motivação dos alunos e o recurso às novas tecnologias na sala de aula? 

ADC: É flagrante que os recursos digitais, não só pela razões que referi anteriormente como de igual modo pelo fascínio que exercem as imagens que veiculam, pela constante inovação tecnológica e pela sensação de autonomia que suscitam, detêm um enorme poder de atração que deve ser positivamente explorado. 

O risco é o de, se se perder o controlo, poderem acarretar uma fixação quase obsessiva que tenda a levar, nomeadamente as crianças e os jovens, a afastarem-se da restante vida do quotidiano e da própria socialização em contexto real. Em sala de aula, importa ainda ter presente que, enquanto utensílios didáticos que são, não podem subalternizar as potencialidades formativas da relação interpessoal direta. 

E: Um estudo realizado no Canadá revela que em apenas 10 anos a taxa de abandono escolar passou de 42% para 22%. Os autores da pesquisa suspeitam que a distribuição, por parte da tutela, de computadores portáteis pelos alunos possa estar na origem dessa diminuição. Como analisa estes dados? 

ADC: Trata-se, em qualquer das circunstâncias, de taxas de abandono escolar elevadíssimas! Acredito que a distribuição de computadores portáteis tenha sido um dos fatores para o decréscimo dessas taxas no Canadá, mas certamente que não foi o único. Seria ainda interessante sabermos se esse decréscimo foi sempre progressivo, se estabilizou ou se, passado o efeito da novidade, não se registaram retrocessos. Teríamos ainda de apurar que tipo e nível de aprendizagens ou de competências se verificaram... Seria igualmente interessante compararmos com o que se terá passado no nosso país com a distribuição massiva dos “Magalhães”. 

E: Há indicações de que o rendimento em termos cognitivos do contacto com esses recursos tecnológicos parece ser menor quando comparado com dispositivos mais tradicionais, como a simples impressão em papel. Fala-se nos computadores, mas sublinha-se que o lápis, a esferográfica e o papel não podem desaparecer das salas de aula. Há riscos de isso acontecer? 

ADC: Claro que entramos aqui de uma maneira ou de outra no domínio da futurologia. Acontece que o debate sobre o futuro do papel e do lápis tem já algumas décadas em que ciclicamente irrompem e esmorecem os vaticínios ou profecias acerca do seu desaparecimento. Tudo desaparecerá um dia, incluindo certamente os computadores... Temos, isso sim, de ser aqui cautelosos nos juízos e nas tentações fúteis de vanguardismo. 
O que sabemos com segurança é que, a par das evidentes e imprescindíveis vantagens do universo das tecnologias do virtual, há aprendizagens que não podem ignorar as características únicas dos livros e demais materiais em papel, para além do carácter sensorial específico do seu próprio manuseamento. De facto, conforme consta de relatórios científicos internacionais compilados no estudo do ORE, por exemplo a apreensão de conteúdos de textos longos ocorre com um índice mais elevado de sucesso a partir do uso de textos impressos em papel, sendo que tal não tem a ver nem com níveis etários, nem com hábitos de leitura anteriores. 

E: Os estudos recentes revelam que ler em papel é, em termos de desempenho cognitivo, mais rentável do que a leitura em formato digital. Os professores portugueses têm essa perceção? 

ADC: Na verdade, os computadores, designadamente na sala de aula, podem provocar distrações grandes nos seus utilizadores diretos - sendo isso mais flagrante nas crianças - como nos colegas que se encontram ao seu lado. Ler uma história por um livro em papel tem frequentemente um efeito mais repousante, sobretudo se for na hora de adormecimento de uma criança, do que o que acontece, em sentido inverso, por efeito da luminosidade dos tablets. 

É evidente ainda que o acesso sempre iminente a outros elementos que o computador proporciona implica o uso de uma disciplina e de uma determinação em que as crianças têm naturalmente mais fragilidades. 

A utilização de recursos digitais na sala de aula, que deve ser estimulada, tem contudo de ser criteriosamente explorada, como tudo o que são recursos pedagógicos. Mas, para isso, antes de mais, os professores têm de estar preparados para o efeito sob pena de haver ou desperdícios de potencialidades educativas ou um uso desordenado das mesmas por excesso, por defeito ou ainda por pura e simples inadequação às diversas situações concretas de aprendizagem. A complementaridade entre todos os recursos pedagógicos disponíveis é, com certeza, a chave do sucesso educativo. 

E: Os professores devem estabelecer regras nas salas de aula para a utilização desses recursos? Qual o caminho a seguir para uma utilização didaticamente cuidada? 

ADC: Em sala de aula - o que terá também reflexos em toda a vida das crianças e dos jovens - é imprescindível a existência de regras de que os alunos devem ter conhecimento. Um exemplo simples: os alunos, de uma forma geral, não poderão desviar a utilização do computador para assuntos diversos dos que estão a ser abordados, o que é para eles sempre uma tentação precisamente pela enorme facilidade e rapidez de acesso. 
Há, com certeza, desde logo, novas formas de trabalho autónomo dos alunos pelo acesso direto a informações, documentários, debates, etc., antes inacessíveis. Há igualmente a possibilidade de explorar nomeadamente as possibilidades de contacto com crianças e jovens de todo o mundo via Skype. Mas importa combater a sensação de autossuficiência que os alunos poderão assim sentir, levando-os a secundarizar a observação das realidades que os rodeiam e em que vivem mas que, de um modo ou de outro, acabarão por os surpreender, inclusive pelo seu realismo. 

E: Na Coreia do Sul fala-se já numa “demência digital” em adolescentes que afeta a memória e a capacidade de concentração. Será este um caminho sem retorno? 

ADC: É verdade que na Coreia do Sul, potência das tecnologias virtuais, ao mesmo tempo que o governo aposta na implantação plena dessas tecnologias nas escolas, vários estudos de cientistas do mesmo país alertam para os riscos de uma utilização obsessiva, incluindo o das perturbações demenciais. Daí a necessidade de se reforçar o papel educativo e preventivo das escolas nestes domínios, habituando as crianças, desde cedo, a uma utilização diversificada e adequada das potencialidades quer dos computadores quer dos livros e outros materiais em papel.

In: Educare

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A aprendizagem com as TIC

A introdução das tecnologias da informação e da comunicação na escola e, sobretudo, em ambiente de sala de aula, tem vindo a aumentar, o que anuncia uma progressiva perda da resistência à mudança de muitos educadores que, inicialmente, para elas olharam com desconfiança e suspeita.

Sabemos que as tecnologias da informação e da comunicação acrescentam muita complexidade ao processo de mediatização do ensino e da aprendizagem, já que, por um lado, são reconhecidas as dificuldades da formação permanente de professores nesta área e, por outro, continua a faltar, inexplicavelmente, um paradigma para a utilização pedagógica destas novas ferramentas do saber.

Grande parte das potencialidades das tecnologias da informação e da comunicação (simulação, virtualidade, acessibilidade, e extrema diversidade de informações) são ainda ignoradas por muitas escolas, ou pouco utilizadas pelos professores, sobretudo porque a sua transferência para o acto educativo exige uma enorme abertura a concepções metodológica muito diferentes das metodologias tradicionais de ensino, já que a sua utilização exige mudanças radicais nos modos de compreender os complexos actos de ensino e de aprendizagem.

A literatura indica que aprendemos em diferentes contextos e de diferentes maneiras e que cada um de nós detém um estilo de aprendizagem muito próprio. Logo, educar para a sociedade do conhecimento, requer que cada um de nós compreenda a vantagem do desenvolvimento nos alunos de competências que visem a utilização das tecnologias de informação e de comunicação, num quadro que respeite os estilos individuais de aprendizagem e os novos espaços de construção do conhecimento e do saber.

A busca desse novo quadro de actuação educativa faz com que tenhamos que utilizar metodologias pedagógicas mais plásticas, que redimensionem o papel do professor (um professor mais mediatizado), e que incluam as tecnologias da informação e da comunicação como ferramentas mediadoras da aprendizagem, já que a sua utilização na sala de aula promove o desenvolvimento de competências, expectativas e interesses fundamentais à integração e sobrevivência do aluno na sociedade digital.

Neste sentido, a utilização das tecnologias da informação e da comunicação, centradas na aprendizagem, exige ao docente novas e diferenciadas funções, sobretudo quando a figura do professor individual tende a ser substituída pela do professor tutor, enquadrado num colectivo de pares que partilham os saberes e se ligam em rede com o universo inesgotável das bases de informação e pesquisa disponibilizados, por exemplo, pela Internet.

Orientadas para esses fins, as tecnologias da informação e da comunicação na educação correspondem à descoberta de uma nova dimensão pedagógica. Uma dimensão pedagógica activa, que pressinta as necessidades e exigências desta nova sociedade do século XXI, sociedade que pretende conferir às novas tecnologias um papel de relevo, enquanto mediadoras do acto educativo.

Estas novas exigências configuram, quase sempre, a necessidade de implementar no terreno novas campanhas de alfabetização audiovisual, digital e interactiva, as quais, de certa forma, desestabilizam os processos de organização tradicionais de ensino e as representações que os educadores mantêm do que deve ser a educação formal, já que importa que este novo processo educativo signifique, não apenas a introdução das novas tecnologias na sala de aula, mas, sobretudo, uma reorganização de todo o processo de ensino e do modo de promover o desenvolvimento de capacidades de auto-aprendizagem.

Trata-se de uma revolução silenciosa que penetra as paredes das escolas e que as prepara para enfrentar os desafios do futuro. Esses novos espaços educativos recriam um universo em constante interacção com as grandes mudanças sociais e tecnológicas, numa atitude interactiva e dialéctica com as redes telemáticas, para incrementar a promoção e o desenvolvimento de capacidades crítico - reflexivas nos alunos, e para os ensinar a navegar nesta nova era de descobrimentos deste novo mundo virtual.

Por: João Ruivo (ruivo@rvj.pt)

terça-feira, 21 de junho de 2011

A escola e a iliteracia digital

A escola continua a ser o lugar privilegiado para a divulgação e a utilização didática e crítica das novas tecnologias da informação e da comunicação (TIC). Por isso mesmo, torna-se imprescindível que os docentes sejam formados e motivados para uso dessas novas tecnologias, concebendo-as como instrumentos que devem interagir com os projetos pedagógicos a desenvolver com os alunos. 

Todavia, é importante reconhecer que, apesar da assumida necessidade de incluir todas as novas tecnologias no processo educativo, uma boa escola continua a ser o que sempre foi: um espaço em que aprendentes e educadores se encontram, num ambiente que estimula a autoestima e o desenvolvimento pessoal e que oferece janelas de oportunidade para o sucesso num mundo que gira em contraciclo, ao promover o egoísmo, o individualismo e a concorrência desregrada. 

É que não há nenhuma solução tecnológica que seja capaz de induzir o milagre de transformar um espaço pobre em relações humanas num lugar interessante e adequado para gerar a construção de um cidadão com sólidos valores morais e com uma ética de respeito para com os princípios da democracia e do humanismo. 

Vivemos num novo milénio que pretende reconfigurar a sociedade, atribuindo-lhe um novo formato centrado em novas formas de receber e transmitir a informação, o que implica uma busca interminável do conhecimento disponível. 

Para alcançar tal objetivo, imputa-se à escola mais uma responsabilidade: a de contribuir significativamente para que se atinja o que se convencionou designar por analfabetismo digital zero. Para tal, a educação para a utilização das TIC precisa de ser planeada desde o jardim de infância. Sem preconceitos ou desnecessárias coações, sem substituir atabalhoadamente o analógico pelo digital, mas sim reforçando a capacidade cognitiva dos alunos e guiando a descoberta de novos horizontes. 

Este novo movimento de rutura não deve representar a eliminação ou a fictícia substituição dos meios de comunicação de massa tradicionais. O que há de novo é a necessidade de fazer convergir todos esses meios num processo integral de formação do indivíduo, capacitando-o para descodificar as mensagens que lhe saltam em cada canto e cada esquina da sociedade do conhecimento. 

Esse movimento deve ser capaz de preparar os jovens para serem leitores críticos e escritores aptos a desenvolver essas competências em qualquer dos meios suportados pelas diferentes tecnologias. Hoje, não basta que o aluno só aprenda a ler e escrever textos na linguagem verbal. É necessário que ele aprenda a "ler" e a "escrever" noutros meios, como o são a rádio, a televisão, os programas de multimédia, os programas de computador, as páginas da Internet e, até, o telemóvel... 

Por tudo isso, as novas tecnologias da informação e comunicação devem obrigar à alteração dos currículos escolares e a modificação da formação e atuação do professor, que se deve sentir obrigado a atualizar-se em relação às TIC, de forma a acompanhar a dinâmica de obtenção de informação e de transformação desta em conhecimento. Nesse processo, a educação à distância assume-se como um indispensável complemento do ensino presencial, enquanto modelo de comunicação educativa que permite superar distâncias e ampliar o acesso ao conhecimento. 

Os jovens foram os primeiros a descobrir que as novas tecnologias da informação e da comunicação implicam inúmeras possibilidades de aprender. Para eles há muito que elas deixaram de ter um estatuto de menoridade e de simples auxiliar da apreensão do conhecimento. Os estudantes olham-nas como outras formas de aprender que implicam a mudança dos modos de comunicação e dos modos de interação nos grupos de pares. 

Importa, pois, ter consciência que este novo mundo facilita o trabalho docente, mas também acrescenta angústia e complica a vida do professor. Este, para além de necessitar possuir um conhecimento específico da área científica que leciona, deverá também ser capaz de identificar nas tecnologias digitais as múltiplas linguagens favorecedoras da apreensão da realidade. 

Não é fácil, mas é esta a contribuição que as novas tecnologias podem oferecer para a consolidação de um mundo mais solidário, desde que a sociedade o queira integrar de uma forma crítica e eticamente incontestável.

Por: João Ruivo

In: Educare

terça-feira, 8 de março de 2011

A ditadura digital

"Fará sentido continuar a escrever assim, com a caneta na mão, quando à nossa volta tudo é dominado pelas novas tecnologias, quando vivemos numa sociedade que exige o recurso a computadores para as tarefas banais do dia a dia?" - eis uma questão recorrentemente colocada pelos adolescentes nas escolas portuguesas.

De facto, se pensarmos no "choque tecnológico" implementado nos últimos anos, talvez não seja muito difícil imaginar que os velhos cadernos e as canetas que nos habituámos a ver em cima das secretárias acabem por ser substituídos pelas novas tecnologias, que emergem, aos olhos de muitos, como a panaceia para todos os problemas do sistema educativo. Os computadores "Magalhães" aparecem hoje como a imagem de marca do estudante nacional, mas eles são apenas a ponta de icebergue de um movimento mais complexo que passa, por exemplo, pela gradual substituição do quadro-negro e do insosso giz pelos modernaços quadros interativos, pelos comandos individuais que permitem a cada aluno ensaiar, a partir da sua carteira, alguns célebres jogos já eternizados em formato televisivo ou ainda, apenas a título de exemplo, pelas ações de formação que os docentes têm de frequentar na área das novas tecnologias, tendo em vista o famigerado reconhecimento da sua "competência digital", desiderato final de qualquer docente que se preze...

Embora reconheça que existe hoje uma tendência muito vincada para todos nos deixarmos levar pela ditadura do teclado e admitindo o contributo válido que as novas tecnologias desempenham nas sociedades atuais, penso que será pertinente refletir nalguns aspetos que passo a enumerar.

I - As novas tecnologias não são imprescindíveis para que exista um bom ambiente de trabalho e de aprendizagem dentro da sala de aula. O computador, os quadros interativos e demais acessórios são, apenas e só, mais um dos recursos que o professor e os alunos têm ao seu dispor. Bem sei que não produz tanto "espetáculo", mas a simples leitura interpretativa de um texto pode ser tão ou mais válida do que qualquer um dos propalados recursos tecnológicos. Aliás, segundo creio, o professor é e continuará a ser o principal "recurso" dentro da sala de aula, pelo que essa ilusão de querer transformá-lo num simples motivador dos meninos que vão "descobrindo e desenvolvendo as competências", pura e simplesmente não faz qualquer sentido. As novas tecnologias, é bom que não se esqueça, não devem constituir, dentro da sala de aula, um fim em si mesmas, mas um meio para que os alunos aprendam e se desenvolvam...

II - Dizia-me recentemente um professor catedrático que "a escola já não serve, fundamentalmente, para aprender a ler, a escrever e a contar". Contra-
-argumentei na altura e volto aqui a reafirmá-lo. No meu entender, a escola deve servir, fundamentalmente, para aprender a ler, a escrever e a contar, sob a orientação e (não receio dizê-lo) a autoridade do professor. O resto, as competências de que tantos pseudopedagogos falam, virá sempre por acréscimo, será o resultado natural de uma aprendizagem substantivada em conteúdos. Ninguém reflete no vazio. É preciso possuir conhecimentos, para depois conseguir mobilizar o que sabemos e aplicá-lo à situação concreta. O conceito de competência, no meu entender, é indissociável de conteúdo. Muitos problemas do atual sistema de ensino entroncam, precisamente, aqui: na substituição dos conteúdos pelas esotéricas competências e na desautorização crescente da figura do docente.

III - Um bom professor deve, antes de mais, dominar cientificamente os conteúdos da disciplina que leciona. É urgente intervir a montante e não a jusante, onde já pouco há a fazer. A formação contínua dos professores deverá ser recentrada na sua área de lecionação, pois, na atualidade, parece prevalecer a ideia segundo a qual para ser um bom professor de História é preciso saber de tudo (sobretudo informática...), menos de História. As teorias pedagógicas, que me perdoem os que não concordarem, afloram naturalmente, quando existe conhecimento, quando existe vocação, quando há vontade de ajudar os outros e o aluno, o professor, demais órgãos educativos e a imprescindível família assumem, verdadeiramente, um papel ativo.

IV - Quando analisamos o longo e complexo processo de evolução física e mental do Homem, podemos constatar que a mão desempenhou um papel fulcral na hominização, pois o (aparentemente) simples facto de o Homem necessitar de agarrar, suavemente, um objeto exige uma estreita articulação/coordenação com o cérebro, fator que possibilitou o seu desenvolvimento. Na atualidade, existe uma inquestionável tendência para substituir a ideia do lápis e da caneta como prolongamentos da mão, por um novo método, em que nos limitamos a premir um botão (técnica de "picar o teclado"). Antes, quando, ainda crianças, ouvíamos as histórias que os nossos avós tinham para contar-nos desenvolvíamos a imaginação. Agora, tudo é servido, já totalmente mastigado... Implicações, a longo prazo, desta tendência? Não sei. Mas a verdade é que todos os processos que possam implicar um maior comodismo cerebral deveriam, pelo menos, fazer-nos parar para refletir, ou não fosse a doença de Alzheimer, já neste momento, um inquietante problema...

V - Talvez a tendência atual saia mesmo vencedora e o velho hábito de escrever à mão, com a folha de papel vazia e a caneta, acabe por ser substituído pelas novas tecnologias. Talvez essa tendência venha mesmo a tornar-se uma marca incontornável dos novos tempos, a par do anunciado fim dos livros em suporte de papel. A verdade é que a maioria dos poetas que já li confessam não conseguir libertar qualquer poema em frente ao ecrã e os artistas dificilmente poderão prescindir desse contacto mais direto com os materiais. Não sei o que virá a seguir, apenas posso perguntar: será que a "ditadura das máquinas" pode humanizar-nos? A minha consciência leva-me a responder que não. O leitor saberá encontrar a sua resposta. 

In: EDUCARE

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A escola do conhecimento

A introdução das tecnologias da informação e da comunicação na escola e, sobretudo, em ambiente de sala de aula tem vindo a aumentar, o que anuncia uma progressiva perda da resistência à mudança de muitos educadores que, inicialmente, para elas olharam com desconfiança e suspeita. Sabemos que as tecnologias da informação e da comunicação acrescentam muita complexidade ao processo de mediatização do ensino e da aprendizagem, já que, por um lado, são reconhecidas as dificuldades da formação permanente de professores nesta área e, por outro, continua a faltar, inexplicavelmente, um paradigma para a utilização pedagógica destas novas ferramentas do saber.

Grande parte das potencialidades das tecnologias da informação e da comunicação (simulação, virtualidade, acessibilidade e extrema diversidade de informações) são ainda ignoradas por muitas escolas, ou pouco utilizadas pelos professores, sobretudo porque a sua transferência para o acto educativo exige uma enorme abertura a concepções metodológicas muito diferentes das metodologias tradicionais de ensino, já que a sua utilização exige mudanças radicais nos modos de compreender os complexos actos de ensino e de aprendizagem.

A literatura indica que aprendemos em diferentes contextos e de diferentes maneiras e que cada um de nós detém um estilo de aprendizagem muito próprio. Logo, educar para a sociedade do conhecimento requer que cada um de nós compreenda a vantagem do desenvolvimento nos alunos de competências que visem a utilização das tecnologias de informação e de comunicação, num quadro que respeite os estilos individuais de aprendizagem e os novos espaços de construção do conhecimento e do saber.

A busca desse novo quadro de actuação educativa faz com que tenhamos que utilizar metodologias pedagógicas mais plásticas, que redimensionem o papel do professor (um professor mais mediatizado) e que incluam as tecnologias da informação e da comunicação como ferramentas mediadoras da aprendizagem, já que a sua utilização na sala de aula promove o desenvolvimento de competências, expectativas e interesses fundamentais à integração e sobrevivência do aluno na sociedade digital.

Neste sentido, a utilização das tecnologias da informação e da comunicação, centradas na aprendizagem, exige ao docente novas e diferenciadas funções, sobretudo quando a figura do professor individual tende a ser substituída pela do professor tutor, enquadrado num colectivo de pares que partilham os saberes e se ligam em rede com o universo inesgotável das bases de informação e pesquisa disponibilizados, por exemplo, pela Internet.

Orientadas para esses fins, as tecnologias da informação e da comunicação na educação correspondem à descoberta de uma nova dimensão pedagógica. Uma dimensão pedagógica activa, que pressinta as necessidades e exigências desta nova sociedade do século XXI, sociedade que pretende conferir às novas tecnologias um papel de relevo, enquanto mediadoras do acto educativo.

Estas novas exigências configuram, quase sempre, a necessidade de implementar no terreno novas campanhas de alfabetização audiovisual, digital e interactiva, as quais, de certa forma, desestabilizam os processos de organização tradicionais de ensino e as representações que os educadores mantêm do que deve ser a educação formal, já que importa que este novo processo educativo signifique, não apenas a introdução das novas tecnologias na sala de aula, mas, sobretudo, uma reorganização de todo o processo de ensino e do modo de promover o desenvolvimento de capacidades de auto-aprendizagem.

Trata-se de uma revolução silenciosa que penetra as paredes das escolas e que as prepara para enfrentar os desafios do futuro. Esses novos espaços educativos recriam um universo em constante interacção com as grandes mudanças sociais e tecnológicas, numa atitude interactiva e dialéctica com as redes telemáticas, para incrementar a promoção e o desenvolvimento de capacidades crítico-reflexivas nos alunos, e para os ensinar a navegar nesta nova era de descobrimentos deste novo mundo virtual.