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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Violência na escola: conta-me como foi...


Convenhamos: sempre houve bullying na escola. Todos guardamos memória disso. Na escola e no emprego, na família e no desporto, nos quartéis e nas igrejas, nos partidos e, até, nos mais insuspeitos grupos de amigos... Sempre o houve, onde e quando se agregaram pessoas e se formaram grupos onde coexistem fortes e fracos, chefes e chefiados, agressores e vitimados, ou seja, sempre e quando de desenvolveram relações de desigualdade na partilha do poder. 

Em variadíssimas gerações, e por diversos motivos, os "caixa de óculos", os "pencudos", os "pés de chumbo", as "mamalhudas", os "gungunhanas", os "espinafres", os "fanhosos", os "minorcas", os "graxistas", os "dentolas", os "cabelos-de-rato", as "asas-de-corvo", os "nerd"..., sempre foram motivo de jocosidade e, logo, também vítimas de processos de exclusão e de achincalhamento, verbal e quantas vezes físico, pelos seus pares. Outras vezes, dizia a voz dos sociólogos, tudo isso até favorecia a socialização do indivíduo pelo grupo. 

Noutros tempos, pouco ou nada se sabia fora das paredes das instituições educativas; ou então, tudo se perdia entre regras de falsa etiqueta proporcionadas pela paridade e homogeneidade dos grupos sociais que tinham acesso à escola, sobretudo aos níveis de escolaridade mais avançados. Hoje, felizmente, sabe-se mais e, sobretudo, sabe-se melhor. Por exemplo, dizem-nos que 40% das crianças portuguesas são vítimas debullying. E, nesse escandaloso número, ainda nem se contabiliza a violência psicológica exercida por alguns jogos de consola, por alguns sites que as crianças e jovens visitam e até por alguns programas de televisão a que assistem, sem qualquer controlo parental. 

O que mudou entretanto? Tanta coisa! Desde logo, a democratização do acesso ao ensino (uma escola para todos) trouxe para a escola muitos jovens de diferentes culturas sociais, de diferentes "tribos urbanas", com as suas linguagens, gestos, símbolos, valores e vestuários diferenciadores em relação "ao outro" e identificadores "entre si". É que, também se sabe que o bullying se desenvolve mais quando os indivíduos são forçadas a coabitar, algumas vezes contra-vontade e noutras contranatura, no mesmo espaço e ao mesmo tempo. 

Depois, as lideranças começaram a centrar-se nos mais "desiguais" perante a maioria: a desigualdade dos que se automarginalizam face às regras, a dos manipuladores do poder, da força e da coação psicológica, a dos detentores de uma enorme capacidade de mentir e de resistir. O impacto foi de tal ordem de grandeza que gerou, em inúmeros casos, que os professores tivessem perdido a governação objetiva das instituições em que trabalham. Isto, quando não são eles mesmos a motivação e o principal alvo da violência que aí se desenrola. Todos os dias... Finalmente, tenhamos em conta que a exponencial evolução dos meios e dos processos de comunicação de massas (Internet, telemóveis, PCs portáteis, fotografia e filme digitais...) permitiu que o bullyingultrapassasse rapidamente as portas da escola, do bairro, da cidade, do país, revelando-se um verdadeiro campeão de audiências nas redes sociais da Internet - referimo-nos, claro está, ao cyberbullying, associado ao cybercrime. Nesta sociedade que tarda a reencontrar-se e onde até a imbecilidade humana tem direito à globalização; onde infelizmente não sobram exemplos de coerência e de ética; onde as famílias se constituem mais com base no "ter" do que no "ser"; onde se permite que todos os dias se destrua um pouco mais deste planeta que é a única casa de todos, não é de estranhar que desde muito cedo (98% das mães americanas inquiridas admitiram que os seus filhos, com menos de dois anos de idade, já tinham acesso e brincavam na Internet...) se incrementem as tentações totalitárias, desumanas e irracionais e que estas se sobreponham ao prazer de brincar, de conviver e de aprender com o "outro".

Por isso, hoje, a diferença situa-se na ténue fronteira da amplitude a que pode chegar a pressão dos pares sobre o indivíduo (o mal são os outros?) e da justificação que se quiser dar ao livre-arbítrio que conduz à seleção da vítima e da motivação. 

Por: João Ruivo

In: Educare

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Governo prepara programa escolar "antibullying"

O Governo está a preparar um Plano Nacional de Segurança Escolar para aplicar no próximo ano letivo, incluindo um programa antibullying a ser implementado em todas as escolas do país, anunciou fonte do Ministério da Educação à agência Lusa.

"As escolas terão que adoptar este plano para evitar riscos externos e internos", referiu Paula Peneda, diretora do Gabinete Coordenador de Segurança Escolar (GCSE), acrescentando que uma das propostas feitas ao Ministério da Educação prende-se com um programa antibullying, para aplicar da pré-primária até ao final da escolaridade obrigatória.

"O professor vai passar uma mensagem às crianças de que a escola é um lugar de bem-estar, um lugar para aprender, para conviver, para fazer amigos e não um lugar de repressão ou para [os alunos] estarem oprimidos, sem falar diretamente de bullying", explicou a responsável à Lusa.

Outra das propostas é o alargamento ao 7º e 8º anos de escolaridade do tema "cidadania e segurança", atualmente ministrado como um módulo apenas a alunos do 9º ano, no âmbito da disciplina de Formação Cívica.

"Fizemos uma avaliação muito positiva deste módulo. Aconselhámos as escolas a chamarem bombeiros, proteção civil e PSP para falarem sobre segurança. Talvez não seja alargado na fórmula de modo, mas esperamos que seja ministrado transversalmente em várias disciplinas", disse Paula Peneda, ressalvando que ainda não é certo o alargamento a partir do próximo ano letivo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Bullying - Reflexão

Durante a última semana, muitos foram os jornais que noticiaram que se estava a debater, no Parlamento, uma proposta de criminalização da violência escolar...Proposta que já foi noticiada anteriormente, em Dezembro, e sobre a qual eu me pronunciei, dizendo que "esta terá de ser sempre a última medida...Há outras medidas mais eficazes e que na minha opinião são primordiais..."

Vivemos numa sociedade reactiva, sociedade que reage em vez de agir...Por agir entendo prevenir e por reagir, remediar...

Já o ditado dizia: "Antes prevenir que remediar!"

Aquilo que esta proposta nos apresenta exemplifica isto no perfeição...O Parlamento com esta proposta está a reagir e a tentar remediar os casos de violência escolar em vez de agir e prevenir que esses casos não aconteçam...

Já o referi noutro post, mas penso não ser demais voltar a salientar que existem outras medidas que precisam de ser tomadas.

Um dos primeiros aspectos que considero fundamental para a prevenção de casos de violência escolar é o diálogo...o diálogo entre Escola e Família...alargado a toda a comunidade educativa...Porquê?!? Porque este é uma das principais causas para que estes casos passem despercebidos...Esta falta de diálogo causa instabilidade na Escola, em Casa e na própria criança...Na grande maioria dos casos em que ocorrem os sinais de alerta, estes são "ignorados", na maioria das vezes de forma inconsciente, por todos os agentes... 

Outra medida que penso que poderia resultar nas nossas Escolas, de forma positiva, era a dinamização dos intervalos ficar a cargo de Animadores Sócio-Culturais...Com uma articulação entre Professores e Animadores poderiam ser criadas actividades que fomentassem uma melhor socialização entre pares para dessa forma se promover uma inclusão efectiva de todas as crianças... 

Uma outra alternativa passaria pela responsabilização e colaboração das próprias crianças/jovens...Ao fazer com que os alunos mais velhos fossem tutores dos mais novos...Por exemplo (no 1.º ciclo), cada aluno do quarto ano de escolaridade teria de ser "padrinho" de um aluno do primeiro ano...E essa função passaria por dar a conhecer a escola, acompanhá-lo nos recreios (principalmente no início do ano), entre outras actividades...É claro que também aqui teria de haver um esforço por parte dos Professores que teriam de realizar uma forte sensibilização junto de todos os alunos...

Um outro aspecto que considero importantíssimo é a sensibilização junto de toda a comunidade educativa...Sensibilizar e consciencializar toda uma Sociedade, não só para este "problema"...Importa formar e informar de forma a reflectir sobre a forma de intervenção e estratégias educacionais mais eficazes...Não só sobre esta problemática, mas sobre um leque variado de problemáticas específicas de cada sociedade. 

A ligação entre todos os agentes é um factor essencial em todo o processo educativo...Relembro apenas que "fechar os olhos" perante os primeiros sinais também é uma atitude negligente e também deveria ser punida... 

Temos de promover a inclusão de cada criança/jovem na escola, mas também na sociedade...

Só com a promoção desta interacção entre todos os agentes é possível criarmos uma sociedade mais justa, equilibrada e pacífica...

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Familiares dos alunos também serão abrangidos pela criminalização do bullying

Como já o referi num post de 2 de Novembro (http://gritodemudanca.blogspot.com/2010/11/bullying.html), penso que esta terá de ser sempre a última medida...Há outras medidas mais eficazes e que na minha opinião são primordiais...

Proposta de lei do Governo prevê penas até dez anos. Professores aplaudem ideia. Partidos estão divididos.

Os familiares dos alunos podem vir a ser acusados da prática de bullying caso cometam actos de violência nas comunidades escolares a que estes pertençam. A proposta de lei do Governo para a criminalização da violência escolar prevê penas até dez anos aplicáveis aos estudantes com mais de 16 anos.

A grande novidade do texto legislativo, a que o PÚBLICO teve acesso, é que as penas previstas são aplicáveis aos pais dos alunos e demais familiares até ao terceiro grau sempre que estes sejam responsáveis por agressões a membros da comunidade escolar a que pertença um parente seu.

O articulado proposto pelo Governo determina que os autores de violência física ou psicológica a membros da sua comunidade escolar podem ser punidos com pena de prisão de um a cinco anos. A condenação pode sofrer um agravamento caso a ofensa seja considerada grave, com uma moldura penal que vai de dois a oito anos. Em caso de morte, o agressor será punido com uma pena de três a dez anos.

O crime de violência escolar segue o modelo já utilizado pelo Código Penal para os crimes de violência doméstica e de maus tratos. As penas de prisão serão aplicadas aos alunos maiores de 16 anos, mas a proposta prevê ainda que, nos casos em que os agressores tenham idades entre os 12 e os 16 anos, possam ser-lhes aplicadas medidas tutelares educativas.

As medidas defendidas pelo Governo foram bem recebidas pela Associação Nacional de Professores. "Vai de encontro àquilo que vimos defendendo", diz o seu director, João Grancho. "A proposta vai no sentido adequado para conter um crescendo de violência nas escolas", acrescenta.

A proposta de lei tinha sido aprovada em Conselho de Ministros no final de Outubro e chegou agora à Assembleia da República, onde será discutida no início do ano, mas está já a dividir os deputados. O PS considera o diploma um "bom contributo" para combater a violência escolar. "Vem complementar a dimensão pedagógica que tinha sido reforçada com o novo Estatuto do Aluno", sustenta o deputado Bravo Nico.

Já o CDS considera que o Governo "dá a mão à palmatória em toda a linha" ao apresentar esta proposta que vai de encontro à apresentada pelo partido em 2007, onde era considerado agravante o facto de um crime ser cometido em contexto escolar. "A realidade, mais uma vez, venceu o preconceito", acusa o deputado Nuno Magalhães, lembrando que o PS tinha votado contra a proposta, acusando o CDS de "securitarismo".

Essa acusação é agora feita pelo PCP em relação ao Governo. "Até podem levar os miúdos todos presos. Enquanto não houver mais meios nas escolas, como um reforço do pessoal não docente, o problema de fundo não será resolvido", considera Miguel Tiago. O deputado comunista defende ainda que a criação do crime de violência escolar é redundante. "O crime de agressão não deixa de o ser pelo facto de ser cometido dentro de uma escola", exemplifica. PSD e BE reservam uma posição para os próximos dias.

In: Público

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Teatro. Senhoras e senhores, o bullying vai subir ao palco

Vasco Gomes, hoje actor, tinha 16 anos quando foi vítima de bullying na estação de comboios de Carcavelos. Lembra-se de ter sido abordado por um "homem mais velho", que o tratou com violência e o obrigou a abrir a mochila, onde trazia vários malabares. Depois, foi obrigado a fazer malabarismo. "Subitamente, uma coisa que fazia com prazer tornou-se num momento de grande humilhação e violência", recorda. O actor, de 31 anos, que cresceu na zona de Lisboa, admite que este nem é o único episódio de bullying que consta do seu currículo. Mas foi o mais marcante e o que acabou por dar origem a "Pira te", uma peça de teatro que a companhia Erva Daninha, do Porto, levou ao palco este mês, na Academia de Música de Espinho.

Uma história biográfica que aborda o fenómeno da violência juvenil e em que se cruzam o teatro, as artes circenses, o texto e a música ao vivo. Ao mesmo tempo, "Pira te" é uma viagem "que acaba em solidão", conduzida por entre o medo, a humilhação e a injustiça.

A peça "De repente começou a empurrar-me e a bater-me, tirou tudo aquilo que eu tinha nos bolsos e mandou para o chão. Depois de me obrigar a fazer malabarismos pegou na minha mochila. Entrámos no comboio, ele ameaçou-me, antes de as portas fecharem saí. Era de noite e fiquei novamente sozinho." Em palco, a história começa assim. Vasco Gomes interpreta a peça e sobe ao palco com Pedro Chamurra, músico.

Mas antes de subir à cena, a experiência real do actor foi completada com um verdadeiro trabalho de investigação que envolveu relatos de jovens vítimas de violência, psicólogos e professores. "Todo este trabalho foi importante para alargar o universo da história que é contada e para sairmos também do nosso umbigo", explica o actor. Durante semanas a fio, a companhia passou a pente fino o fenómeno da violência juvenil. "Lemos livros, vimos dezenas de filmes e documentários. Foi quase um trabalho jornalístico", acrescenta Vasco Gomes.

Em palco, a peça é narrada em três fases. As mesmas três fases que, acredita o actor, estão presentes no fenómeno do bullying. "Primeiro, há a dimensão do indivíduo que sofre a violência e o momento em que a violência acontece, depois a fase em que o indivíduo se torna violento com os outros ou consigo próprio, e depois uma fase de absoluta solidão", descreve.

A peça, a primeira da companhia Erva Daninha financiada pelo Ministério da Cultura, estreou no início de Setembro em Vila do Conde e já passou por Aveiro. Mas foi a primeira vez, esta semana, que foi apresentada a escolas. "Queremos abordar a intensidade do fenómeno junto dos mais jovens, mas sem transmitir moralidade ou conclusões", acrescenta Vasco Gomes. O objectivo é, antes, "fomentar o debate em torno da violência juvenil" no seio da comunidade escolar. E também junto do grande público. "Queremos despertar as pessoas para uma realidade que tantas vezes fica guardada e que muitos de nós conhecemos e partilhamos", acrescenta.

"A violência pela violência, a desvalorização da vida humana, a necessidade de afirmação, a inferiorização do outro e a passividade de quem observa fazem parte da nossa realidade e marcam o desenvolvimento dos indivíduos e das sociedades", acredita o actor. Depois de Espinho, "Pira te" vai estar em digressão durante o próximo ano.
 
In: I online

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Quando o bullying sobe ao palco

"De repente começou a empurrar-me e a bater-me, tirou tudo aquilo que eu tinha nos bolsos e mandou para o chão. Depois de me obrigar a fazer pegou na minha mochila. Entrámos no comboio, ele ameaçou-me, antes de as portas fecharem saí. Era de noite e fiquei novamente sozinho." E assim começa a história representada em cima do palco e que passou da realidade para a ficção. A Companhia Erva Daninha decidiu respigar um assunto actual, o tema da violência juvenil, e apresentá-lo sem rodeios. Sem apresentar conclusões. Sem fazer julgamentos. A peça é apresentada no auditório da Academia de Música de Espinho a 2 e 3 de Dezembro para a comunidade escolar e a 4 para o público em geral, às 21h30. 


Um espectáculo que nasce de um diálogo entre uma história biográfica e referências temáticas sociais, literárias, cinematográficas e políticas. "Como somos uma companhia de artes performativas que pretende abordar assuntos actuais com relevância social, este tema pareceu-nos bastante indicado. Além deste aspecto, tentamos sempre abordar temas que estejam ligados ao nosso universo pessoal. Neste caso, o bullying serve estas duas premissas. É um problema socialmente grave e ainda actual, como também está directamente relacionado ao percurso de vida do intérprete", revela Gilberto Oliveira, director artístico da Erva Daninha. 


O bullying chegou, portanto, ao teatro. Um solo com música ao vivo que cruza texto, malabarismo, cenografia, composição coreográfica e luz. Tudo para proporcionar uma viagem pelo medo, pela injustiça, pela angústia, pela solidão. Pela raiva e ridicularização. E tudo parte da história do próprio intérprete que é abordada ao longo da peça e que funciona como ponto de partida para momentos poéticos de reflexão sobre a violência. Essa violência juvenil que se tornou num dos acontecimentos sociais mais falados e espremidos nos últimos tempos. 


É preciso olhar com toda a atenção para a necessidade de afirmação, para a desvalorização da vida, para a passividade de quem não quer mudar o rumo dos acontecimentos. Pira Te faz pensar, mas sem opiniões predefinidas no guião. O director artístico parte da base. "O objectivo principal é apresentar diferentes pontos de vista da violência juvenil e não fazer julgamentos ou apresentar soluções", garante. Uma peça que propõe lançar a temática para o debate e para a reflexão. "Queremos despertar as pessoas para esta realidade que, muitas vezes, fica guardada e que, na verdade, muitos de nós partilhamos", acrescenta. 


O tema serviu para uma pesquisa de diverso material e a vários níveis. "Cinematográficos, literários, e conversas informais com várias pessoas que, directa ou indirectamente, estavam ligadas à temática". Gilberto Oliveira adianta que para a preparação da peça, a companhia abordou psicólogos, professores e jovens que viveram uma experiência de bullying. "Todo este trabalho foi de uma extrema importância para alargar o universo da história que é contada em Pira Te e sairmos um pouco do nosso umbigo", adianta o responsável. 


Pira Te não vai às escolas. É um espectáculo que também se dirige ao público escolar, mas que é apresentado em teatros e auditórios de várias zonas do país. E não o faz por acaso. "Toda a experiência em ir ao teatro deverá ser vista como um reforço extracurricular para o enriquecimento individual de cada aluno", sublinha Gilberto Oliveira. "Como artistas também achamos necessário retirar os alunos do seu habitat para lhes mostrar outras realidades", reforça. De forma que a peça que fala de bullying anda de auditório em auditório.


In: http://www.educare.pt/educare/Educare.aspx

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Bullying

No post "Bullying pode dar prisão se o agressor tiver mais de 16 anos", lançado no dia 29/10/10 afirmei que haveria outras medidas que no meu entender eram primordiais antes desta ser tomada...Aquilo que vou escrever hoje não varia muito em relação a outros posts que já escrevi sobre o mesmo tema, mas nunca é demais reforçar...

Bem sei que o País se encontra em contenção, que estamos em crise... Mas existem áreas com as quais não podemos "brincar"...e é isso que se vem fazendo na área da Educação, para já não falar na área da Saúde...

O Bullying não é um fenómeno novo nas Escolas...Não era tão divulgado...Senão vejamos a definição:

Bullying é um termo inglês utilizado para descrever actos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo (bully) ou grupo de indivíduos com o objectivo de intimidar ou agredir outro indivíduo (ou grupo de indivíduos) incapaz(es) de se defender. Também existem as vítimas/agressoras, ou autores/alvos, que em determinados momentos cometem agressões, porém também são vítimas de bullying pela turma. In: http://pt.wikipedia.org/wiki/Bullying


Não quero dizer com isto que não devemos estar atentos...muito pelo contrário...na minha opinião devemos apostar na prevenção deste tipo de acontecimentos...como?!?


Na minha opinião um dos factores primordiais na prevenção de casos de Bullying é o diálogo...o diálogo entre Escola e Família...e toda a comunidade educativa...Porquê?!? Porque este é uma das principais causas para que estes casos passem despercebidos...Esta falta de diálogo causa instabilidade na Escola, em casa e na própria criança...Na grande maioria dos casos que ocorrem os sinais de alerta são "ignorados", na maioria das vezes de forma inconsciente, por todos os agentes...


Outra medida que penso que poderia resultar nas nossas Escolas, de forma positiva, era a dinamização dos intervalos ficar a cargo de Animadores Sócio-Culturais...Com uma articulação entre Professores e Animadores poderiam ser criadas actividades que fomentassem uma melhor socialização entre pares para dessa forma se promover uma inclusão efectiva de todas as crianças...


Uma outra alternativa passaria pela responsabilização e colaboração das próprias crianças/jovens...Ao fazer com que os alunos mais velhos fossem tutores dos mais novos...Por exemplo, cada aluno do quarto ano de escolaridade teria de ser "padrinho" de um aluno do primeiro ano...E essa função passaria por dar a conhecer a escola, acompanhá-lo nos recreios (principalmente no início do ano), entre outras actividades...É claro que também aqui teria de haver um esforço por parte dos Professores que teriam de realizar uma forte sensibilização junto de todos os alunos...


Um outro facto que considero importantíssimo é a sensibilização junto de toda a comunidade educativa...Sensibilizar e consciencializar toda uma Sociedade, não só para este "problema"...Importa formar de forma a reflectir sobre a forma de intervenção e estratégias educacionais mais eficazes...


A ligação entre todos os agentes é um factor essencial em todo o processo educativo...Relembro apenas que "fechar os olhos" perante os primeiros sinais também é uma atitude negligente e também deveria ser punida...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Bullying pode dar prisão se o agressor tiver mais de 16 anos

Para mim existiam outras medidas e iniciativas primordiais antes desta...Mas isso será tema para outro post de reflexão pessoal...Por enquanto aqui fica a notícia...

Criminalização aprovada ontem na reunião do Conselho de Ministros foi aplaudida por representantes dos professores.

Um aluno com mais de 16 anos que cometa um acto tipificado como bullying poderá ser condenado a uma pena de prisão até cinco anos. Se dos actos praticados resultar a morte da vítima, a pena "poderá ser agravada entre três e dez anos", segundo a proposta de criminalização da violência escolar, aprovada ontem na generalidade em Conselho de Ministros (CM). 


O documento, que vai agora ser discutido entre os parceiros sociais, antes de ser submetido à Assembleia da República, abrange "os maus tratos físicos ou psíquicos, incluindo castigos corporais, privações da liberdade e ofensas sexuais a qualquer membro da comunidade escolar a que também pertença o agressor". 


Segundo o Ministério da Educação (ME), as "situações menos graves" serão resolvidas pelos responsáveis escolares - com recurso a instrumentos como o estatuto do aluno que já prevê a possibilidade de suspensão do agressor. Quanto às situações mais graves, as punições poderão compreender penas de prisão "de um a cinco anos", desde que o agressor seja criminalmente imputável, ou seja, tenha mais de 16 anos. Sempre que se verifique "ofensa grave à integridade física", a pena de prisão poderá ser agravada "entre dois e oito anos". 


Se o crime for praticado por jovens dos 12 aos 16 anos, apesar de estes serem inimputáveis para efeitos de lei penal, "a criação do crime de violência escolar permitirá a aplicação de medidas tutelares educativas", ainda segundo o ME. 


Para além da punição, "pretende-se que a criação do novo crime de violência escolar produza um efeito dissuasor, contribuindo para a manutenção da necessária estabilidade e segurança do ambiente escolar", lê-se no comunicado do CM. Apesar de concordar que a criminalização poderá ter um efeito dissuasor, o psiquiatra Daniel Sampaio avisa que a criminalização "pura e simples" poderá levar pais e professores a demitirem-se do problema. "É preciso é organizar a escola no combate à violência através de um trabalho partilhado entre alunos, professores e pais", advertiu ao PÚBLICO, sem, contudo, conhecer os pormenores da proposta governamental. 


A tipificação da violência escolar como crime público (deixando de exigir queixa para ser investigado) foi suscitada pelo procurador-geral da República, Pinto Monteiro, em Março. No ano passado, a PGR abriu 146 inquéritos por violência escolar, o que traduziu um aumento de 20 por cento relativamente aos 122 inquéritos abertos em 2008. O último relatório Escola Segura, por sua vez, deu conta de uma diminuição das agressões entre alunos (1029 em 2008/2009 contra as 1317 no ano lectivo anterior), mas apontou para um aumento das agressões contra professores: 206 casos em 2007/2008 contra os 284 do ano lectivo seguinte. 


Na reacção, o presidente da Associação Nacional de Professores, João Grancho, aplaudiu a iniciativa. "Passaremos a ter outros instrumentos de resposta que funcionam nos dois sentidos: quer na perspectiva sancionatória, quer na dimensão preventiva, porque se acaba com o sentimento de impunidade", enfatizou Grancho. Do lado da Federação Nacional de Educação, João Dias da Silva considera que a criminalização da violência escolar se justifica, "até pelas ferramentas poderosíssimas que hoje existem associadas ao Bullying". Mas "a prevenção não pode ser descurada, nomeadamente por via da formação dos agentes educativos e das associações de pais". 


A par da iniciativa legislativa, o ME vai promover cursos de formação sobre violência e gestão de conflitos na escola. Neste ano lectivo, a formação, a cargo da Faculdade de Psicologia de Coimbra, deverá chegar a 225 docentes.


In: http://www.publico.pt/

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Violência na escola: conta-me como foi...

Convenhamos: sempre houve bullying na escola. Todos guardamos memória disso. Na escola e no emprego, na família e no desporto, nos quartéis e nas igrejas, nos partidos e, até, nos mais insuspeitos grupos de amigos... Sempre o houve, onde e quando se agregaram pessoas e se formaram grupos onde coexistem fortes e fracos, chefes e chefiados, agressores e vitimados, ou seja, sempre e quando de desenvolveram relações de desigualdade na partilha do poder. 

Em variadíssimas gerações, e por diversos motivos, os "caixa-de-óculos", os "pencudos", os "pés-de-chumbo", as "mamalhudas", os "gungunhanas", os "espinafres", os "fanhosos", os "minorcas", os "graxistas", os "dentolas", os "cabelos-de-rato", as "asas-de-corvo", os "nerd"..., sempre foram motivo de jocosidade e, logo, também vítimas de processos de exclusão e de achincalhamento, verbal e quantas vezes físico, pelos seus pares. Outras vezes, dizia a voz dos sociólogos, tudo isso até favorecia a socialização do indivíduo pelo grupo. 

Noutros tempos, pouco ou nada se sabia fora das paredes das instituições educativas; ou então, tudo se perdia entre regras de falsa etiqueta proporcionadas pela paridade e homogeneidade dos grupos sociais que tinham acesso à escola, sobretudo aos níveis de escolaridade mais avançados. Hoje, felizmente, sabe-se mais e, sobretudo, sabe-se melhor. Por exemplo, dizem-nos que 40% das crianças portuguesas são vítimas debullying. E, nesse escandaloso número, ainda nem se contabiliza a violência psicológica exercida por alguns jogos de consola, por alguns sites que as crianças e jovens visitam e até por alguns programas de televisão a que assistem, sem qualquer controlo parental. 

O que mudou entretanto? Tanta coisa! Desde logo, a democratização do acesso ao ensino (uma escola para todos) trouxe para a escola muitos jovens de diferentes culturas sociais, de diferentes "tribos urbanas", com as suas linguagens, gestos, símbolos, valores e vestuários diferenciadores em relação "ao outro" e identificadores "entre si". É que, também se sabe que o bullying se desenvolve mais quando os indivíduos são forçadas a coabitar, algumas vezes contra-vontade e noutras contranatura, no mesmo espaço e ao mesmo tempo. 

Depois, as lideranças começaram a centrar-se nos mais "desiguais" perante a maioria: a desigualdade dos que se automarginalizam face às regras, a dos manipuladores do poder, da força e da coacção psicológica, a dos detentores de uma enorme capacidade de mentir e de resistir. O impacto foi de tal ordem de grandeza que gerou, em inúmeros casos, que os professores tivessem perdido a governação objectiva das instituições em que trabalham. Isto, quando não são eles mesmos a motivação e o principal alvo da violência que aí se desenrola. Todos os dias... Finalmente, tenhamos em conta que a exponencial evolução dos meios e dos processos de comunicação de massas (Internet, telemóveis, PCs portáteis, fotografia e filme digitais...) permitiu que o bullyingultrapassasse rapidamente as portas da escola, do bairro, da cidade, do país, revelando-se um verdadeiro campeão de audiências nas redes sociais da Internet - referimo-nos, claro está, ao cyberbullying, associado ao cybercrime. Nesta sociedade que tarda a reencontrar-se e onde até a imbecilidade humana tem direito à globalização; onde infelizmente não sobram exemplos de coerência e de ética; onde as famílias se constituem mais com base no "ter" do que no "ser"; onde se permite que todos os dias se destrua um pouco mais deste planeta que é a única casa de todos, não é de estranhar que desde muito cedo (98% das mães americanas inquiridas admitiram que os seus filhos, com menos de dois anos de idade, já tinham acesso e brincavam na Internet...) se incrementem as tentações totalitárias, desumanas e irracionais e que estas se sobreponham ao prazer de brincar, de conviver e de aprender com o "outro".

Por isso, hoje, a diferença situa-se na ténue fronteira da amplitude a que pode chegar a pressão dos pares sobre o indivíduo (o mal são os outros?) e da justificação que se quiser dar ao livre-arbítrio que conduz à selecção da vítima e da motivação.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

“Diferença de idades sugere atitude perversa”


Álvaro Carvalho, Psiquiatra e presidente da Rede de Cuidadores sobre bullying na EBI Martinlongo em Alcoutim.

Correio da Manhã - O que devem fazer os pais da criança de dez anos abusada por três jovens de 17?

Álvaro Carvalho - Participar à escola e ao Ministério Público. Trata--se de um caso de bullying, no qual a diferença de idades entre vítima e agressor sugere uma atitude perversa muito grande.

- É um caso de polícia?

- Se a escola não der garantias de que vai dar seguimento ao caso os pais devem denunciá-lo às autoridades. Todas as pessoas com mais de 16 anos já são imputáveis de indícios criminais. São jovens que já podem ser responsabilizados criminalmente.

- O comentário do director da escola é ajustado à situação?

- Parece-me ser um director muito pouco informado sobre o que são situações de bullying e o que são os comportamentos de jovens com aquelas idades.

- O que pode acontecer aos três jovens agressores?

- São jovens com 17 anos que devem ser acompanhados psicologicamente. A diferença de idades, o facto de serem três contra um, são tudo indicadores de uma perversidade muito grande.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Aluno denuncia bullying

O pai de um aluno da Escola 2,3 D. Dinis, de Quarteira, no Algarve, queixa-se do filho ter sido alvo de bullying por colegas mais velhos.

"Quatro alunos do curso de Educação Formativa, com cerca de 17 anos, queriam obrigar o meu filho, de dez anos, a chamar nomes à professora. Como o Samuel recusou e os denunciou à docente, vingaram-se", contou ao CM Rui Costa, pai do jovem aluno.

"Na sexta-feira, obrigaram-no, à estalada, a comer pequenas pedras. No domingo, o meu filho estava a brincar na rua, perto da escola, com outros jovens. Vieram os agressores e meteram-no, à força, dentro de um caixote do lixo público", refere Rui Costa, revoltado com o facto de ainda lhe terem arremessado uma beata a arder para dentro do recipiente. "Para o miúdo não sair, colocaram uma pedra na tampa. Só meia hora depois, os outros amigos do Samuel alertaram um adulto que passava no local e que libertou o meu filho", salienta Rui Costa, insatisfeito com a direcção da escola. "Receberam-me no hall de entrada e mandaram-me falar com a GNR".

Fonte do conselho directivo disse ao CM que o "aluno é problemático e de difícil integração", adiantando que "criou muitos problemas no ano passado e tem sido acompanhado pela Comissão de Protecção de Crianças e Jovens".

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Educação: psicólogos concluem que há “muito poucos casos” de bullying nas escolas portuguesas

Três psicólogos de diferentes instituições nacionais concluíram que há muito poucos casos de bullying, ou seja, de comportamentos agressivos sobre jovens específicos, nas escolas portuguesas, num estudo que é hoje apresentado sob forma de livro em Oeiras.

A coordenadora do estudo “Bullying - Agressividade em Meio Escolar”, Luísa Carrilho, disse à agência Lusa que “ao contrário do que se pensa e do que é transmitido não há tantos alunos ‘bullies’ [que agridem psicologicamente e fisicamente os seus pares]”.

“Há algumas crianças instáveis e até agressivas, mas um bully é uma criança que assume uma acção agressiva para com o seu par de forma continuada, que continuadamente persegue o par, o colega, e que o agride verbalmente, psicologicamente e até fisicamente. O que concluímos é que isso não acontece continuamente”, disse Luísa Carrilho. 

Nos 1410 alunos do primeiro ciclo de escolaridade de escolas dos concelhos de Oeiras e de Loures sobre os quais incidiu o estudo “menos de 20 eram bullies”, ou seja, cerca de 1,4 por cento. 

“Claro que há muitos meninos com níveis de agressividade elevados, há muitos. Instáveis também, mas batem à toa e não elegem um objecto de vitimização. Já os bullies elegem uma vítima e agridem-na intencionalmente e constantemente. Desses há muito poucos nas escolas portuguesas”, explicou a psicóloga clínica. 

O primeiro estudo psicológico sobre bullying concluiu também que, “caso não haja uma intervenção sobre as crianças, delas sairá um bully adulto, ou seja, um mooby”. 

“Este é um caso que nos preocupa, porque temos indicação de que hoje, nas organizações portuguesas, existem muitos casos de moobying. Em vez de bater ou de chamar nomes, como fazia quando era criança, o indivíduo sentirá prazer em chatear ou embirrar com aquele colega específico, ou fazer da sua vida um inferno, intencionalmente”, explicou Luísa Carrilho.

A coordenadora do estudo que é hoje publicado avançou que o próximo passo desta equipa de investigadores será um estudo sobre o moobying. 

O estudo “Bullying - Agressividade em Meio Escolar”, que contou com a participação também do investigador da Universidade Nova de Lisboa Paulo Nogueira e da diretora de Instituto de Prevenção e Tratamento da Dependência Química e Comportamentos Compulsivos, Teresa Bacelar, é hoje apresentado na Livraria Galeria Municipal Verney, em Oeiras.


In: http://jn.sapo.pt/paginainicial/

quarta-feira, 26 de maio de 2010

16 Por cento dos adolescentes são vítimas de abuso emocional

Um trabalho de investigação promovido pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), que avaliou mais de sete mil adolescentes com idades entre os 15 e os 19 anos, de escolas públicas de todo o país, revela que 16 por cento dos jovens confessam-se vítimas de abuso emocional e 13 por cento de abuso físico.

O estudo teve como objectivo estimar a prevalência de jovens envolvidos em violência (participando em lutas e sendo vítimas de violência física, psicológica ou sexual). Para isso, foram inquiridos alunos de 16 escolas públicas das capitais de distrito portuguesas, através de um questionário anónimo.

Os resultados permitiram concluir que os abusos emocionais são o tipo de violência mais referido entre os adolescentes dos 15 aos 19 anos, tendendo a aumentar com a idade. Da amostra, 13 por cento declararam ser vítimas de abuso físico, sendo que o envolvimento em lutas foi mais comuns nos rapazes, especialmente entre os mais novos. Os abusos sexuais atingem de forma similar rapazes e raparigas, com uma prevalência de 1,9 por cento. Não foram encontradas diferenças entre as regiões nas prevalências dos vários tipos avaliados.

Quanto às características socioeconómicas, o estudo demonstrou que os adolescentes provenientes das famílias mais pobres reportam mais violência física. Por seu lado, os filhos de pais mais escolarizados relatam com mais frequência abusos emocionais. Segundo os investigadores, “estes resultados podem estar relacionados com a forma como os jovens, dependendo do ambiente no qual estão integrados, percepcionam a violência”. É possível que os adolescentes de classes mais altas identifiquem como abuso emocional situações que os jovens de classes mais baixas desvalorizam.

As raparigas que se classificaram como “sem religião” referiram mais frequentemente serem vítimas de abuso físico e emocional, no entanto não se observou associação com o envolvimento em lutas. Outras investigações internacionais sugerem que a religião pode influenciar o comportamento destes, na medida em que, quando praticantes de uma religião, estão envoltos num conjunto de regras e valores que exercem pressão na sua conduta, ainda que de forma subjectiva.

Consumo de substâncias e violência

O consumo de tabaco e cannabis também foi avaliado. Como esperado, uma vez que se conhece a relação entre os diferentes comportamentos de risco, o consumo destas substâncias associou-se a todos os tipos de violência, tanto nos rapazes como nas raparigas.

Os dados deste estudo, referentes a 2000, revestem-se de especial importância numa altura em que o bullying está no centro das atenções por causa de casos extremos que vieram a público. No entanto, de acordo com os autores, importa conhecer o fenómeno de violência nos adolescentes como um todo, uma vez que os casos de maior gravidade são apenas “a ponta do icebergue”.

Os investigadores da FMUP lembram que os abusos podem comprometer a auto-estima, a criação de relações interpessoais saudáveis e o desenvolvimento de sentimentos de confiança em si próprio e nos outros. O trabalho foi publicado no jornal científico espanhol

terça-feira, 25 de maio de 2010

Cybertraining - um manual sobre cyberbullying

O desenvolvimento das novas tecnologias da informação e da comunicação veio acrescentar ao problema do bullying novas dimensões e características.

O cyberbullying, nova forma de bullying que envolve o uso das novas tecnologias da informação e da comunicação, é um fenómeno que tem vindo a ser alvo de crescente atenção por parte de agentes educativos, de investigadores e dos próprios meios de comunicação, face à dimensão que pode assumir, em resultado do uso crescente e diversificado destas tecnologias pelas crianças e pelos jovens. O desenvolvimento das novas tecnologias da informação e da comunicação veio acrescentar ao problema do bullying novas dimensões e características. De facto através do email, o SMS e os chats, o YouTube, e as redes sociais, como o Hi5 e o Facebook, tão significativas para os jovens, para além dos enormes benefícios que trouxeram nos planos das relações, da divulgação e da construção dos saberes, vieram igualmente a revelar-se como poderosos instrumentos de agressão e de perseguição.

Embora exista já alguma investigação nacional e europeia relativamente à temática docyberbullying, ainda pouco se sabe sobre o fenómeno, sobre a sua natureza, o que se reflecte na falta de (in)formação para intervir com eficácia preventiva e educativa. 

O projecto europeu CyberTraining: A Research-based Training Manual On Cyberbullyingtem procurado, por um lado, desenvolver uma compreensão aprofundada deste problema e, por outro, fazer face à ausência de programas sistemáticos e consolidados no diagnóstico e intervenção na situação. Trata-se de um trabalho internacional apoiado pela Comunidade Europeia que teve o seu início em Outubro de 2008 e terá o seu término em Outubro 2010, e que tem como objectivo fundamental desenvolver um manual para formadores sobre cyberbullying fundamentado e suportado numa investigação participada, a nível europeu, por especialistas, investigadores e pelos próprios formadores.

Para além da equipa portuguesa - João Amado (coordenação), Teresa Pessoa e Armanda Matos - Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra - estão presentes 6 países europeus1 na concepção e desenvolvimento de um Manual para Formadores na área do cyberbullying, com edição em eBook e impressa em língua inglesa, alemã, portuguesa e espanhola. 

A concepção e desenvolvimento do manual de formação assentou num processo de investigação multinivel que se processou em diversas fases. A primeira fase exigiu a realização de dois estudos: o primeiro consistiu numa análise de necessidades efectuada pela equipa portuguesa junto de formadores de diferentes países; o segundo, desenvolvido pelo Zentrum für Empirische Pädagogische Forschung (zepf) da Universidade de Koblenz - Landau, na Alemanha, pretendeu sistematizar as perspectivas de especialistas acerca do problema do cyberbullying e reunir informação sobre a investigação e os projectos desenvolvidos na Europa em torno desta problemática. As várias fases representaram momentos de investigação no que concerne à definição de conceitos, de materiais e casos de boas práticas nos diversos países que culminaram em relatórios europeus aprofundados relativos à temática do Cyberbullying e que, finalmente, irão servir de base à construção do Manual de formadores O Manual irá incluir: um capítulo sobre questões gerais da formação; um capítulo sobre questões básicas relacionadas com o cyberbullying; um capítulo sobre questões básicas relativas às TIC; um outro capítulo sobre estratégias europeias para fazer face ao problema do cyberbullying; um outro capítulo sobre como trabalhar com pais; um outro capítulo sobre como trabalhar com escolas, um outro capítulo sobre trabalho com crianças e jovens. Este trabalho terminará com uma compilação exaustiva de referências, links e outros recursos para formadores.

Finalmente o Manual constituir-se-á como um instrumento, de cariz essencialmente prático, que visa responder, de forma eficaz, às dificuldades várias com que os formadores se vêem confrontados nas suas actividades de formação e, assim, apresentar-se como um recurso útil e válido, com orientações, recursos e propostas educativas que possam ter um verdadeiro impacto na prevenção do fenómeno de cyberbullying entre crianças e jovens.

1 A Alemanha, que coordena o projecto através do Centro de Investigação Educacional (Zentrum für Forschung empirische Pädagogische, ZEPF). A Bulgária, através da Infoart que desenvolve projectos em tecnologias de edição electrónica, e-learning. A Espanha, através do Departamento de Psicologia Evolutiva e da Educação da Universidade de Sevilha (U.S.), da Universidade Autónoma de Madrid e da Universidade de Córdoba. A Inglaterra, através da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da Universidade de Surrey. A Irlanda, através do Centro de Investigação e Recursos Anti-Bullying, Trinity College em Dublin. A Suiça, através da Ynternet.org, Instituto dedicado à investigação e formação em eCultura e que tem participado em vários programas de aprendizagem ao longo da vida.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Bullying foi mais duro do que o tumor cerebral

Há quem lhe chame ‘xamuar macua’ por ter nascido em Moçambique, onde viveu uma infância risonha. Lizete Lopo, não é só a autora do livro que narra a história de Miguel, é também a mãe da criança. «Quero viver», com o prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa, é uma obra de 400 páginas onde cabe um pouco de tudo – angústia e esperança, crítica e agradecimento, lágrimas e força, mas especialmente amor… materno. O lançamento foi em Viseu, no dia 28 de Novembro passado, e ontem, no Porto, a publicação, de novo apresentada, deu origem a um breve debate sobre ‘bullying’.

"Pior do que ter um tumor cerebral, para mim, foi ter sido vítima de ‘bullying’". João Miguel, agora com 15 anos, tinha sete quando a doença lhe fora diagnosticada e após travá-la, embora ainda fragilizado, regressou para a escola onde foi agredido verbalmente, humilhado e desrespeitado pelos seus colegas, segundo contou ao «Ciência Hoje».

“As pessoas diziam que eu devia escrever este livro, mas eu brincava com isso. No entanto, um dia fui picada por uma abelhinha, isso dói, mas também nos dá força para mudar aquilo que nos faz mal”. A autora não quis revelar qual foi a “abelhinha” que a picou e apenas salientou que o importante é "deixar uma mensagem à sociedade marginalizada".

Daniel Serrão, especialista em Bioética, sublinhou claramente que “pode parecer, mas não é um livro lamechas. É factual e conta uma situação que pode acontecer a qualquer um, sem passar pela pieguice”. O médico confessou que quando recebeu a obra não a queria ler, talvez por ter vivido momentos semelhantes. Daniel Serrão foi vítima de bullying em criança e teve, igualmente, um filho com cancro, mas este acabou por não resistir à doença.

O especialista deambulou entre diferentes aspectos do livro, sem fazer nenhuma concessão. “Primeiro, quase que podemos dizer que inaugura um estilo narrativo porque faz um balanço permanente dos factos. É um tema difícil, duro, mas real e contado em estilo claro. Segundo, é também uma poderosa análise ao nosso Serviço Nacional de Saúde – enquanto conta a sua odisseia, tanto revela aquilo que encontrou de mau como de bom – e, por fim, é uma demonstração exuberante do poder do amor”, referiu.

Para Daniel Serrão, a atitude positiva e a esperança foram a melhor terapêutica no caso de Miguel. “Já foi demonstrado que uma atitude de confiança tem um efeito positivo nos linfócitos T, permite que estes reforcem a eliminação de bactérias e agentes microbianos. Temos de ter em conta que a Medicina não é uma ciência exacta, é uma prestação de meios”, assinalou ainda.

Defesa/Punição

A apresentação/debate contou com a participação de Paulo Santos, advogado e comentador jurídico. “Se o ‘bullying’ já é uma situação difícil, a intimidação, a agressão em cima disto [combater o cancro] é mais do que perverso”. Segundo o defensor, o quadro normativo é claro: “O papel do professor é prevenir e intervir em aspectos comportamentais e o estatuto do aluno prevê que tenham salvaguardada a sua segurança e integração, mas aqueles que tenham um comportamento desviante não podem ser tratados como os outros”, afirmou. E continuou: “O tecido das escolas é o espelho das sociedades e quando estas não actuarem podem ser atacadas civil e criminalmente, porque é tempo de dizer chega!”

Contudo, para Paulo Santos, é imperativo que cada indício seja investigado para se descobrir “se, de facto, existe bullying ou calúnia” e acredita que os pais devem ser intolerantes e inflexíveis relativamente ao primeiro caso.

Miguel frequenta agora o 10º ano, numa escola do Porto, que disse gostar "muito", com um sorriso bem delineado. “Aconselho a aqueles que passem por uma situação destas que desabafem para terem a possibilidade de serem ajudados”, concluiu.

«Quero viver» é uma edição de autor e parte das receitas do livro (cinco por cento) reverte para a Associação Acreditar. A discussão foi moderada pelo jornalista da RTP, Mário Augusto e trata-se de mais uma iniciativa apoiada pela Universidade Católica, no âmbito do projecto Porto Cidade Solidária.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Bull(shit)ying que é pénalti!

Se calhar fui vítima de bullying ou fui bully, mas a verdade é que, sem terminologia técnica, limitei-me a ser pequeno até ser grande.

Começo - antes de começarem a chover pedras - por dizer que sou pai. Sou pai de duas crianças lindas, maravilhosas, únicas, especiais, magníficas e a quem nunca, mas mesmo nunca, quero que aconteça uma brisa de maldade que seja. Quero protegê-las dos maus, grandes e pequenos, como quero protegê-las das desilusões, dos desgostos de amor, dos mal formados, dos mal-amados, dos bandidos e de todos os que possam olhar de lado e pensar que sendo mais fortes, lhes podem fazer mal.

Feita a introdução, começo então a desfiar o que me passa pela cabeça quando ouço falar em bullying. E o que me passa pela cabeça são uma data de disparates - como seria de esperar.

Penso que os tempos mudaram, que o mundo mudou, que há 30 anos atrás o estado de coisas era substancialmente diferente. E penso no quanto se ganhou, no quão mais facilitada está a vida, quão mais democrática e livre e quão mais intensa. Mas penso também no quão mais pobre está tudo. De espírito, pobreza de espírito, quero eu dizer.

O que nos leva ao bullying em termos genéricos. Desde que me lembro, crianças mais pequenas fugiram a sete pés dos maiores. Desde que me lembro, os "grandes" roubavam a bola aos mais pequenos. Desde que me lembro, os maiores sempre levaram vantagem e os pequenos ou eram mais rápidos ou mais tarde ou mais cedo ia tocar-lhes qualquer coisa. Lembro-me de ser pequeno e contar ao meu pai isto e aquilo e lembro-me de ser grande. Se calhar fui vítima de bullying ou fui bully, mas a verdade é que, sem terminologia técnica, limitei-me a ser pequeno até ser grande.

E o que me faz hoje confusão é a capacidade que a sociedade tem de conseguir transpor para fora de casa toda a responsabilidade. Exigem-se leis, maiores e mais eficazes acções do sistema educativo, mais atenção por parte dos professores e, aqui e ali, uma maior atenção por parte dos pais. Maior atenção? Se tem que ser maior é porque há pouca e nesse caso, meus amigos, é ter mais. Sou pai, como disse, e não concebo essa noção do "dar mais atenção aos sinais". Não é normal - é aliás, perfeitamente anormal e lamentável - que uma criança de 12 anos se mande ao rio para acabar de vez com o tormento. Não se admite, não se compreende e dá vontade de chorar. Mas se o sistema educativo fosse mais eficaz, a legislação mais apertada e o controlo por parte da escola mais rigoroso, seria isso capaz de evitar a tragédia?

Podemos, como tantos têm feito, especular sobre a vida daquela criança. Sobre o seu comportamento, o dos colegas, dos professores e dos pais. Podemos mas, pela parte que me toca, não o farei. Ninguém deve perder um filho muito menos uma criança. Não sei se já tinha dito mas sou pai.

Mas também fui filho. Dos pequenos e dos grandes. Brinquei na rua sem supervisão de um adulto, apanhei e atirei pedras, paus e o que mais houvesse. Subi a árvores e andei de bicicleta sem capacete. Corri as ruas do meu bairro de manhã à noite. Sujei-me - muito - e fiz sangue. Nas pernas, nos braços, nos joelhos, nos joelhos, nos joelhos (nos joelhos fiz mesmo muito sangue), na barriga e na cabeça. Fiz trinta por uma linha e safei-me. Mudei de passeio vezes sem conta e fui dar voltas maiores para não ter que passar aqui ou ali. Fazia parte. Desenrascava-me como podia e sempre, mas sempre, com o objectivo de não levar na corneta, não ficar sem a bola, sem o estojo novo ou a mochila. Esse era o objectivo. Se desse para cumprir, óptimo, senão, queixinhas ao pai que resolvia a coisa o melhor que sabia e podia.

Mas isto quando era pequeno. Já em grande, também devo ter enfernizado a cabeça a uns quantos miuditos mais pequenos, também lhes devo ter tirado a bola quando tinham que ir para casa só para chatear, para dar uns toques ou até que o pai, diligente, eloquente e muito maior que nós, aparecesse.

Tudo isto fez parte do meu processo de crescimento. Tudo isto fez com que percebesse que tive o melhor pai do mundo (que eu quero ser para os meus filhos) que me defendeu e me ensinou a defender (e a correr como o diabo também). O pai que me proibiu de levar brinquedos caros (que eram poucos) para a escola, porque podiam roubar. Que me deixava levar o estojo fixe com íman para a escola mas só de vez em quando. O pai que me deixava levar uma bola para a rua mas das foleiras porque a de cauchu, só quando ia jogar comigo. Sim, o meu pai ia jogar à bola comigo, ia brincar comigo, passava tempo comigo. Lia os sinais em regime diário.

Tudo isto fui eu.

Não havia sistema educativo vigilante nem responsabilização da ausência de leis adequadas. Havia filhos e havia pais. Havia casa e havia a rua.

Não havia playstations e wiis a partir dos 5 anos, jogos de porradaria em barda a partir dos 7 (ou antes que o puto até tem jeito). Havia telejornais mas lá em casa, isso era coisa de adultos e à hora do jantar conversava-se e ouvia-se música. Cá em casa também. Não havia palavrões à minha frente e cá em casa, é assim. Não havia discussões inflamadas e cá em casa, só no Benfica-Sporting se houver um pénalti não assinalado.

Aos meus filhos dedico todo o tempo que posso e não confio que seja a escola a ter que dar-lhes as ferramentas todas. Terá que dar algumas garantidamente mas não todas. Sou eu quem tem que estar atento aos sinais e não posso esperar que sejam os sinais a bater-me na testa.

Não sou melhor nem pior que os outros pais. Sou assim simplesmente.

Por isso toda esta discussão acerca do bullying me faz soltar um bullshiting.

Psiquiatras, psicólogos, pedopsiquiatras, pseudo-intelectuais, bananas, meninos agredidos e agressores; já todos tiveram os seus 15 minutos de fama e a ver pela entrevista do Sousa Tavares, cheira-me que era rapazinho para ter dado uns sopapos nos putos mais pequenos.

Porque hoje, admito, é mais fácil ligar a televisão aos fins-de-semana de manhã e dormir mais um bocadinho do que sair do quentinho sábado à mesma hora de segunda. Uma pessoa anda cansada. Os dias são cansativos. São reuniões atrás de reuniões, projectos atrás de projectos, portátil em casa (eu e ela) em estilo call-center até às tantas, às vezes dia sim, dia sim. É cansativo e exigente. E ser pai? Haverá maior responsabilidade? Haverá tarefa mais hercúlea? Haverá maior trabalho que conduzir uma criança (duas ou mais) até que saiba andar sozinha?

Dá uma trabalheira desgraçada. Há dias que apetecia mesmo, mas mesmo mesmo, enfiá-los na máquina de secar (que tem o tambor maior) e dar-lhes só umas voltas a ver se acalmavam. Dá vontade mas cá em casa a máquina é ambivalente e o tambor pequenino. Nem à vez lá cabiam.

E de uma penada é isto. Que o bullying de hoje são "os grandes" de ontem e de que os sinais de ontem são os mesmos de hoje. E que, às vezes, o bullying começa onde menos se espera: em casa.

Segredos? Não há segredos. É estar. "Passar tempo" em vez de "perder tempo". "Brincar com" em vez de os "deixar a brincar". "Falar com" em vez de "ouvir qualquer coisa" em ruído de fundo. "Ouvir" o que têm a dizer e "perceber" o que pensam, "como" pensam e "porque" pensam assim. É abrir os olhos.

Porque de olhos abertos tanto se percebe uma criança infeliz como um pénalti clarinho muito para lá da linha da grande-área.

Por: Rui Miguel Bernardo

terça-feira, 6 de abril de 2010

"É necessário que não se associe o bullying a coisas de miúdos"

Tânia Paias, psicóloga clínica e coordenadora do Portal Bullying, defende que é preciso desconstruir conceitos, trabalhar as emoções e debater questões de cidadania nas salas de aula.

Os pais devem promover o diálogo, estar atentos, participar na vida dos filhos, fomentar uma liberdade controlada. Os jovens devem compreender os valores individuais e grupais e sentirem que em casa há apoio e compreensão. As escolas devem responsabilizar os actos de quem pratica bullying e proteger as vítimas. Tânia Paias, psicóloga clínica e coordenadora do Portal Bullying, defende uma intervenção em várias frentes.

Há sempre motivos para preocupações quando se fala de bullying. "O necessário é que não se associe o bullying a coisas de miúdos", salienta. Por outro lado, Tânia Paias recorda que há estudos que revelam que os casos de bullying estão a diminuir e que as escolas estão atentas ao fenómeno e a implementar medidas de combate e prevenção.

"É necessário que os próprios adolescentes possam ser agentes activos na disseminação do bullying, para tal é necessário que conheçam a realidade de quem é vítima e quais as suas repercussões", sublinha. O Portal Bullying, em www.portalbullying.com.pt, entrou em funcionamento em Fevereiro deste ano e é um espaço de partilha. Uma equipa de técnicos está online para ajudar quem pede apoio.

EDUCARE.PT: Quais as dúvidas mais frequentes sobre bullying que chegam ao vosso portal?

Tânia Paias: As questões que nos chegam são variadas. Muitos adolescentes questionam-nos sobre dificuldades na convivência escolar, de relacionamento com os colegas e sua forma de resolução. Outras perguntas incidem sobre questões do bullying propriamente ditas: o que é, como sabem se estão a ser vítimas, como podem ajudar os colegas, irmãos, primos.

Também muitos pais questionam sobre os sinais de alarme do bullying, a forma como devem agir, quais os meios que podem agilizar para fazer face às situações com as quais os seus filhos/educandos se deparam.

E: O que é urgente desmistificar em relação a esta matéria?

TP: É urgente diferenciar o que se define por bullying, qual a tríade que o classifica, as situações que acontecem dentro do espaço escolar e que são comuns à convivência entre as crianças e adolescentes. É necessário que se perceba que certo tipo de comportamentos são comuns a uma determinada faixa etária, mas que outros não podem ser banalizados.

E: Os sinais de alarme podem, por vezes, passar despercebidos ou confundidos com outras situações. Como lidar com este fenómeno?

TP: Sim, efectivamente, os sinais de alarme são transversais à própria adolescência. É necessário que os pais estabeleçam com os seus filhos uma comunicação frequente, que mobilizem esforços para participarem mais na vida adolescente, que estejam atentos, que fomentem uma liberdade controlada e que criem momentos de reunião familiar, onde se possam discutir as questões com que os próprios filhos se deparam no dia-a-dia.

É importante que os filhos sintam os pais como aliados e como alguém que está disposto a ouvi-los sempre que necessitem e que possam pensar em alternativas de resolução das suas conflitualidades. É necessário que assumam uma participação activa no espaço escolar, que participem nas reuniões, que tenham um diálogo próximo com os professores.

E: Qual a atitude mais adequada para os pais quer dos alunos vítimas de bullying, quer dos alunos agressores?

TP: Os pais quer dos alunos vítimas quer dos alunos agressores, devem ser proactivos na procura de soluções. Em cada um dos casos devem articular com a comunidade educativa e com os recursos ao nível da saúde para limitar o seu comportamento e sofrimento.

E: Bastará trabalhar as questões emocionais? Ou será preciso mais do que isso?

TP: É fundamental trabalhar as questões emocionais, pois em qualquer uma das posições (vítima/agressor) existem padrões emocionais que necessitam de ser redefinidos, quer seja pela dificuldade em se defender, quer seja pela conduta agressiva, de poder. Os aspectos sociais, de pertença grupal, também necessitam ser trabalhados, assim como as questões da cidadania, da responsabilização.

E: Tem defendido programas de prevenção nas escolas. Como facilitar a abordagem do bullying pela comunidade escolar? Quais as competências que deve adquirir?

TP: Os próprios adolescentes devem ser agentes activos na disseminação do bullying, para tal é necessário que conheçam a realidade de quem é vítima e quais as suas repercussões. Jogos dramáticos, dilemas de vida são muito bem aceites pelos adolescentes, permitindo-lhes uma maior consciencialização das dificuldades que cada um vive.

É imprescindível que adquiram competências relacionais, que compreendam os valores individuais e os valores grupais e que para se inserirem num grupo não é necessário aniquilarem os seus valores individuais. As questões da cidadania são essenciais e devem ser trabalhadas nas aulas para o efeito, uma vez que é necessário desconstruir certo tipo de conceitos veiculados pelos adolescentes - nomeadamente do "rufia" como aquele que tem as características mais aprazíveis.

E: Como devem reagir os responsáveis educativos quando há um ou mais casos nas suas escolas?

TP: A comunidade educativa deve accionar todos os meios que estão ao seu dispor para responsabilizar os actos de quem pratica bullying e proteger os que são vítimas. É necessário fomentar a partilha entre escola e família.

E: Há razões para preocupações, já que são reportadas cada vez mais situações de bullying?

TP: Alguns estudos indicam que se tem vindo a verificar uma diminuição dos casos de bullying nas nossas escolas. Talvez o facto das pessoas estarem mais despertas para os sinais de alarme seja uma das causas para que cada vez se reportem mais casos. Há sempre razão para preocupação neste tipo de fenómenos, contudo as escolas têm vindo a pensar e implementar medidas de combate, de prevenção em meio escolar. Os próprios pais também são mais activos na procura de soluções. O necessário é que não se associe o bullying a coisas de miúdos.

E: O vosso portal é mais procurado por alunos ou por pais?

TP: O portal é muito procurado por adolescentes, mas os pais também são um público constante quer no chat, quer via e-mail. Também adultos outrora vítimas são uma constante; reportam-nos a sua situação enquanto alunos e no fórum auxiliam os outros nas dúvidas que colocam. Professores e outros técnicos (psicólogos, enfermeiros) também nos costumam procurar.

E: Quantas visitas e contactos recebem normalmente por semana?

TP: No lançamento do portal tivemos uma média de procura a rondar os 30 contactos diários, depois estabilizou um pouco, mas sempre que algum acontecimento é niticiado pelos meios de comunicação, o portal sofre um novo incremento.

Em situações regulares, temos uma média de 50 contactos semanais, por entre as diferentes modalidades que o portal oferece - chat, e-mail, fórum.

E: Como é constituída a vossa equipa?

TP: A nossa equipa é constituída pelo corpo clínico da Psicronos, uma clínica de psicologia e avaliação psicológica. Cada um dos técnicos, dentro da sua disponibilidade, está online para que quem nos quiser contactar em tempo real possa fazê-lo. Sempre que o chat está offline, todos os contactos serão efectuados via e-mail.

E: Também promovem acções de sensibilização em escolas? Há projectos na agenda?

TP: Sim, as acções de sensibilização, quer em meio escolar quer noutro meio, também fazem parte dos nossos serviços. Durante o mês de Abril, vamos levar a cabo acções em Lisboa (Escola de Comércio), na Batalha, em Mértola, em Portimão. Para Maio estaremos na feira do livro de Lisboa e em Faro.

As escolhas de Tânia Paias...

Uma citação: "Na vida em suas relações com as pessoas, não seja vítima, não seja agressor(a), seja humano. Seja cidadão(ã). Diante da violência ou do desrespeito, não se omita". Campanha anti-bullying nas escolas brasileiras.

Um livro: Quando Nietzsche chorou de Irvin D. Yalom.

Uma música: Starálfur de Sigur Rós.

Um autor: Irvin Yalom.

Um político: Marcelo Rebelo de Sousa.

Uma viagem: Havana.

Uma memória de infância: As brincadeiras de rua.

Um sonho por realizar:  Viagem no expresso trans-siberiano.