Mostrar mensagens com a etiqueta Sobredotação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sobredotação. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Cerca de 40 mil crianças sobredotadas em Portugal, maioria não está identificada

Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas alerta para falta de estrutura nas escolas para apoiar os professores dos alunos sobredotados.

Cerca de 40 mil crianças até aos 12 anos em Portugal serão sobredotadas, mas a maioria não está identificada, segundo especialistas que apontam como principal lacuna a falta de formação para detectar estes meninos e encaminhá-los de forma adequada.

“A lacuna principal é a falta de conhecimento do fenómeno. Há muito tipo de crianças sobredotadas e temos poucos especialistas para as detectar. Devia haver formação específica entre professores e psicólogos que fizessem destrinça entre os diferentes tipos de sobredotados”, afirma o presidente do Instituto da Inteligência, Nelson Lima.

Para Nelson Lima, além da falta de informação e formação, há ainda muitos mitos, como o de que a criança sobredotada “tem de ser boa em tudo” e, caso não seja, já não se considera sobredotada.

Contudo, há crianças sobredotadas que manifestam uma inteligência geral, ampla, diversificada, enquanto outras dirigem o seu talento apenas para uma área específica, sobretudo para as artes, como a pintura, a dança ou a escrita.

“Geralmente, estes sobredotados talentosos definem uma área de vida e uma trajectória à qual se dedicam inteiramente. Apaixonam-se por uma área e dedicam-se a ela”, explica o mesmo responsável.

Para o presidente do Instituto de Inteligência, o problema existe no grande número de crianças sobredotadas que, finda a adolescência, “ficam sem saber o que fazer”.

“É importante ajudar a definir o projecto de vida, apelando à sua imaginação e à descoberta de quem são. E a forma como a inteligência se manifesta, se é mais analítica, mais prática”, disse.

Aliás, diversos estudos revelam que, apesar da grande expectativa gerada na infância, muitos dos sobredotados apresentam, mais tarde, um grau de insucesso igual ou maior do que o das outras pessoas.

Nelson Lima, que hoje dá uma conferência na Universidade Lusíada, em Lisboa, sobre o futuro dos sobredotados no fim da adolescência, garante que é a escola que tem o papel mais importante na trajectória das crianças sobredotadas, preparando um caminho para as orientar no futuro.

“Quando se fala de sobredotados, a atenção é centrada nas crianças. À medida que entram na adolescência, deixa-se de falar no assunto, mesmo que estejam detectadas. A partir de uma certa idade há um certo abandono, estão um pouco por conta própria. E não se potenciam as suas capacidades e inteligência”, adiantou à Lusa.

Em 1998, o Ministério da Educação produziu um manual com instruções para os professores com indicações para detectar crianças sobredotadas.

“Ainda não encontrei um único professor que diga que o conhece. É altamente provável que os exemplares deste manual tenham ficado numa gaveta do Ministério da Educação”, lamentou Nelson Lima, defendendo que seja criado um novo manual actualizado, dirigido sobretudo aos professores do primeiro ciclo.

Também a Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas considera que falta nas escolas uma estrutura que tenha como função central apoiar os professores dos alunos sobredotados.

Helena Serra, presidente da associação, admitiu que há em Portugal uma baixa cobertura de “respostas de qualidade” ao nível da formação de professores e de apoios nas escolas para detectar e acompanhar os meninos sobredotados.

Mas, para esta associação, é também importante apoiar os pais destas crianças, que enfrentam várias dificuldades.

“São crianças cansativas, que fazem perguntas dificílimas e têm constante necessidade de respostas. E muito cedo afirmam a sua vontade própria e independência. É preciso ensinar os pais a gerir isso”, explicou à Lusa.

A associação organiza, no Porto, a iniciativa “Sábados Diferentes”, que serve para que as crianças sobredotadas estejam com os seus pares numa perspectiva de “desenvolvimento pessoal e social”. Ao mesmo tempo, os pais também podem usufruir, recebendo formação e orientação.

O projecto deverá alargar-se a Lisboa, mas, por enquanto, no resto do país escasseiam iniciativas que dêem este tipo de apoio a crianças e aos seus educadores.


domingo, 20 de novembro de 2011

Alunos sobredotados são ignorados nas escolas e vivem à margem da lei

É caso único na Europa. Congresso alerta para o desperdício de talento que, sem apoio, será formatado pelas escolas até à normalidade

Quantos alunos sobredotados estão nas escolas portuguesas é um cálculo que só se faz por aproximação. Os professores não ouvem falar deles durante a sua formação, o ensino não consegue identificá-los e, no plano legal, nem sequer têm direito a existir. “Não há um decreto. Portugal é, aliás, caso único na Europa”, conta Cristina Palhares, da Associação Nacional para o Estudo e Intervenção na Sobredotação (ANEIS), que promove hoje em Braga o segundo dia do congresso internacional “Sobredotação e Talento – Atenção da Escola à Diversidade”.

Ao não haver “suporte legal”, não há também maneira de promover formação, desenvolver currículos adaptados ou direccionar os recursos das escolas para apoiar esta população. Saber quantas crianças sobredotadas vivem em Portugal não tem uma resposta directa. Estima-se que sejam 3% a 5% da população mundial: “Num universo de mil alunos de uma escola, serão 50 crianças, mas não estão minimamente identificadas.”

Lá fora é diferente e o congresso da ANEIS trouxe dois exemplos que poderiam ser adoptados nas escolas portuguesas. Brasil e Espanha têm estas crianças inseridas no grupo de alunos com necessidades educativas especiais: “Estes meninos são acompanhados pelos mesmos professores que apoiam as crianças com deficiências.” Isto faz todo o sentido, defende Cristina Palhares. Por serem diferentes da norma, precisam de atendimento especializado.

Falta de legislação e incapacidade das escolas de sinalizar crianças sobredotadas têm consequências, embora seja difícil algum dia virmos a saber quanto talento o país desperdiça. Como tudo na vida, a inclusão tem um reverso, avisa a secretária da direcção da ANEIS. E se, para o caso das crianças deficientes, estar nas mesmas turmas que outros colegas contribui por si só para subir o seu desenvolvimento, o mesmo não acontece com os sobredotados. “Se não existir um atendimento diferenciado, a escola vai formatando a criança até a normalização.”

Sem acompanhamento, a escola não faz mais que normalizar o talento que estas crianças desenvolvem mesmo em meios hostis. “Conheci um menino que sabia ler e escrever muitíssimo bem com cinco anos e não tinha um livro em casa. Há crianças que, mesmo em ambientes adversos, conseguem desenvolver os seus talentos.” Isso só não chega. Sem trabalho, o dom atrofia, como “qualquer músculo que não é exercitado”.


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Recusam ir à escola porque aprendem na TV e livros

Muitos sobredotados recusam ir à escola por considerarem que aprendem mais nos livros e nos programas televisivos do que nos currículos escolares, alertou o presidente da Associação Nacional para o Estudo e Intervenção na Sobredotação (ANEIS).

Alberto Rocha adiantou à agência Lusa que esta situação está a acontecer com "alguma frequência e começa a preocupar".

"Muitos alunos dizem que a escola não lhes interessa porque não aprendem mais do que aprendem nos livros, nos programas e nos temas que gostam", adiantou o responsável, que falava à Lusa a propósito do congresso internacional "Sobredotação e talento: atenção da escola à diversidade", que decorre na sexta-feira e no sábado em Braga.

Para muitas destas crianças e jovens a escola não está a ser uma mais valia, sendo necessário os professores e as escolas fazerem um esforço para que se sintam integrados.

"Temos de ter mais um bocadinho de trabalho, esforçarmo-nos mais como professores a procurar sempre as melhores respostas e as boas práticas para que se sintam integrados", sustentou.

Esta situação também constitui uma preocupação para os pais que pedem ajuda à associação para que estabeleça a ponte com o estabelecimento de ensino no sentido de perceber o que se passa e conseguir motivar a criança para regressar à escola.

As estimativas apontam para que três a cinco por cento das crianças e dos jovens portugueses sejam sobredotados. Um número que, para Alberto Rocha, já justificava ter uma legislação específica.

"Tentamos apoiar as escolas e os professores para que possam dar algum tipo de acompanhamento a estas crianças, nomeadamente na elaboração de currículos e planos de desenvolvimento, mas a falta de legislação específica não nos permite fazer muito mais", lamentou.

Apesar das dificuldades, Alberto Rocha disse que, com o apoio dos professores e das escolas, tem sido realizado "um trabalho bastante interessante com estas crianças", que sentem muitas dificuldades devido aos currículos escolares serem desadequados às suas capacidades.

"A aula está formada para o ensino da média e, muitas das vezes, as escolas e os professores querem colocá-las a esse nível, mas isso não é possível porque estas crianças têm capacidades superiores", disse, lamentando: "O que me choca é um aluno ter capacidade, e o professor saber que ele a tem e fazer com que desça para a mediana".

O que tem de ser feito, apontou, é dar-lhes ferramentas para poderem continuar a desenvolver as suas capacidades: "São estas crianças e jovens que nós precisamos no futuro para desenvolver projectos no nosso país".

Muitas vezes a identificação de um sobredotado é feita através da determinação do Quociente de Inteligência, que para muitos é um indicador questionável.

No entanto, muitos autores consideram sobredotadas as crianças que apresentam competências, talentos e habilidades acima da média para a sua idade.

A associação defende que pais e educadores deverão estar sensibilizados para esta situação e tentar aperceber-se se a criança reúne características como vocabulário muito avançado, interesses muito variados, domínio rápido da informação, curiosidade fora do comum e muito boa memória.

A par destas qualidades podem surgir dificuldades no desempenho escolar, desmotivação, frustração, desobediência e timidez.

In: DN

quarta-feira, 23 de março de 2011

Lidar com sobredotados

As escolas do concelho de Vila Nova de Gaia vão ser as primeiras do País a ter actividades específicas para crianças sobredotadas. O objectivo é dar formação aos professores para lidarem com estas crianças, com capacidades acima da média, e melhorarem a sua integração escolar. A iniciativa partiu da Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas (APCS) e visa estender-se a todo o País. Hoje é assinado o protocolo com a Câmara de Gaia.

Nestes programas, os pais também são acompanhados. "O programa, que já existe na associação há 15 anos, pode ser feito numa das escolas do agrupamento que tenha sala e laboratório. Só precisa de dinheiro para comprar os materiais para as actividades com as crianças, tais como pinturas, produtos para arte e ciência", explicou Helena Serra, membro da direcção da APCS.

O facto de ainda ser difícil para os professores identificar e lidar com sobredotados fez com que a associação tomasse a iniciativa de bater à porta das escolas. "Estas crianças mostram desinteresse pela escola, têm problemas de concentração e nas relações interpessoais e baixa resistência à frustração. Os professores não são ensinados para isto. Em vez de estimulados e aceites, estes alunos disfarçam a sua inteligência para evitar maus-tratos dos colegas. Andamos a desperdiçar matéria-prima", disse Gil Carvalho, presidente da Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas.

ASSOCIAÇÃO CRIA SÁBADOS DIFERENTES

O programa da Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas existe há 15 anos e tem o nome de Sábados Diferentes. Além de de-senvolver nas crianças e jovens com capacidades superiores o seu potencial, presta apoio e dá formação a pais e professores. As sessões realizam-se uma manhã por semana nas instalações da Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti. A escola recebeu o congresso internacional ‘Sobredotação, que respostas?’, que termina hoje.

Há oito tipos de inteligência que estas crianças podem ter: linguística, lógico-matemática, ciências, psicomotora (por exemplo, os artistas), espacial (como os escultores e pintores), musical, intrapessoal e interpessoal.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Menino de 13 anos frequenta dois cursos em simultâneo

Aos 13 anos de idade o argentino Kouichi Cruz é o aluno mais novo da Faculdade de Matemática, Astronomia e Física (FAMAF) da Universidade de Córdoba.

Kouichi, que é um nome budista (filosofia seguida pelos seus pais) significa 'o primeiro' e 'brilhante', um nome realmente feito para ele.

Na FAMAF o pequeno génio estuda engenharia informática e ciências económicas.

Filho único, mora com a tia, Alejandra Perez, que conta que: «quando era bebé, a família pensava que o menino era autista» e que seria apenas aos quatro anos de idade que exames médicos indicariam que Kouichi tinha o QI mais alto que a média das crianças da sua idade.

De acordo com Alejandra, a rotina deste rapaz é bastante diferente da dos rapazes da sua idade. «Estuda de manhã e também à tarde», não gosta de futebol, nem de qualquer outro desporto e só vê televisão quando não está a resolver problemas de matemática.

No primeiro dia de aulas desta semana o pequeno universitário declarou que as aulas foram mais fáceis do que imaginou, avança a BBC.

O reitor da faculdade, Daniel Barraco, afirma que é a primeira vez que um menino de 13 anos frequenta aquela universidade e explica que sente uma «enorme emoção por ter uma pessoa tão jovem e tão inteligente» entre os seus alunos.
In: Sol online 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Mais de 60 mil crianças e jovens sobredotados em Portugal

Três a cinco por cento das crianças e dos jovens portugueses são sobredotados. Ou seja, têm um QI superior a 130, quando o da média da população ronda os 100%. São cérebros cheios de potencial, à espera de serem descobertos. Podem ser capazes de ler aos dois anos, mas não desenvolvem todas as suas capacidades ao mesmo tempo. Desfazer os mitos de que são infalíveis e capacitados em todas as áreas estão entre os objectivos das associações que os apoiam.

Aos dois anos já lia as matrículas dos carros e algumas palavras, nas legendas da televisão ou nos letreiros dos supermercados. Os pais pensavam que estava a associar a imagem aos anúncios, julgando-o apenas "um bocadinho precoce", recorda a mãe. No entanto, quando entrou para a pré-primária, aos três anos, perceberem que Pedro (nome fictício) poderia ser uma das cerca de 48 mil a 80 mil crianças sobredotadas do País.

A sua agressividade na escola levou-os a procurar um psicólogo, que lhes fez o diagnóstico: Pedro era sobredotado. Ou seja, tinha um QI (coeficiente de inteligência) superior a 130, quando o da maioria das pessoas ronda os 100%. E aconselhou-os "a procurar a um especialista, porque os psicólogos tratam problemas" e ele não tinha nenhum.

A frustração de estar rodeado de crianças que não tinham os mesmos interesses, a ouvir matérias que já conhecia, aborrecia-o e levava-o a destabilizar a aula, por estar aborrecido de ali estar.

A frustração é mesmo um dos problemas que mais afecta estas crianças. Pedro todos os dias vai para a escola na expectativa de aprender coisas novas, mas o ritmo do programa é demasiado lento para a sua vontade de aprender. Acelerou um ano, fazendo o 3.º em dois períodos lectivos. E "melhorou muito", assegura a mãe, graças à mão firme do professor, que soube conquistar a sua confiança, e ao apoio de Manuela Freitas, a fundadora do CPCIL (Centro Português para a Criatividade, Inovação e Liderança), que os aconselhou.

No entanto, é pela sensibilização dos professores que passa a melhoria do ambiente escolar para estas crianças. "É preciso acabar com a ideia de que o sobredotado é infalível", defende Helena Serra, da direcção da APCS (Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas). Porque podem estar muito "apuradas" numas áreas, e noutras estarem num "patamar comum ou terem mais lentidão na aquisição de aptidões".

As várias áreas de sobredotação (cognitiva, criativa, sócio-emocional, psicomotora e de liderança) devem estar desenvolvidas "harmoniosamente", explica Manuela Freitas, para que as crianças tirem partido de todo o seu potencial.

Para isso, as mais novas podem participar em "programas de enriquecimento", de associações de apoio a sobredotados, em que desenvolvem projectos à volta de um dado tema, como o ambiente ou as viagens. Trabalham em grupo, discutem as suas ideias com os colegas, desenvolvem a "motricidade fina", responsável por uma letrinha bem-feita e uns desenhos pintados dentro dos traços, muitas vezes o seu ponto fraco. E aprendem a reconhecer as suas emoções, através da expressão dramática e do improviso. Um convívio entre pares que gera amizades fortes, que nem sempre conseguem estabelecer cá fora por terem interesses muito diferentes dos colegas.

É o que acontece com o António, de oito anos, que "estranha" os amigos por estarem sempre a jogar à bola e prefere brincar sozinho. Quem o explica é o pai, António Oliveira, de 51 anos, que vê na "percepção" que o filho tem da realidade o que o distingue das outras crianças.

"Não é o contar rápido", não é o ter aprendido a ler e a escrever por si só ou o ter feito um puzzle de mil peças aos seis anos. "É olhar para a mesma coisa e ver mais do que as outras pessoas", algo que o assusta por temer não conseguir "entrar na lógica dele".

"Eles são, de facto, um fascínio", admite a psicóloga e coordenadora da delegação de Lisboa da ANEIS (Associação Nacional para o Estudo e Intervenção na Sobredotação), Sara Bahia. Pela rapidez de raciocínio, pela "curiosidade" e "compreensão" que têm da "natureza humana", completa José Pedro Trindade, professor e colaborador da associação.

No entanto, sublinha a psicóloga, mais do que saber reconhecer o seu trabalho, é preciso saber vê--los pelo que são. Um processo que nem sempre é tão complicado ou marcado por discrepâncias entre as várias capacidades. Eva Gomes nunca foi conhecida por ser "sobredotada". O seu rótulo era o futebol, e fazer amigos também não foi uma dificuldade assim que ultrapassou a timidez. Hoje tem 17 anos e está no primeiro ano de Matemática, na Universidade de Lisboa.
 
Castigo era fazer cópias

Hugo Assunção tem 18 anos e está no primeiro ano do curso de Engenharia Informática, na Universidade Técnica de Lisboa. Quando era pequeno, aborrecia-se com os exercícios repetitivos da escola, mas era das cópias que menos gostava. "Porque eu escrevo mais devagar do que penso", conta. O que, aliado à dislexia que lhe foi diagnosticada, o fazia dar mais erros. Olhando para trás, fala numa "infância feliz" e agradece não ter saltado nenhum ano, por considerar que isso lhe poderia ter trazido problemas de integração, à semelhança do que viu acontecer a outros colegas da escola.
 
Diferenciar regras motiva estes alunos
 
Um sistema educativo que responda às necessidades dos sobredotados é o que pedem associações e pais. A diferenciação pedagógica que a lei já prevê, mas que as escolas só põem em prática pela metade, por exemplo, permitindo a aceleração dos alunos de ano para ano.

Mas isto não chega, garante Helena Serra, da APCS (Associação Portuguesa da Crianças Sobredotadas). "A criança não pode estar horas numa sala de aula a ouvir matérias que já sabe há muito tempo", defende.

Os sobredotados precisam de "desafios", para não perderam o interesse da escola, como aconteceu com Sílvia Vermelho, de 21 anos, que passou por uma pré-escola que não lhe "dizia nada" e um primeiro ano "incipiente". Isto apesar de ter aulas numa escola em que havia só uma turma, que juntava todos os anos. O que lhe permitia distrair-se com as matérias dos outros.

Quando passou para o segundo ciclo, as coisas pioraram. Não só porque "o ritmo de aprendizagem é lento e ineficaz", sem "estímulo" ou oportunidade de desenvolvimento de um "pensamento crítico", mas também porque se tornou vítima de bullying, discriminada pelos colegas por ter maior facilidade de aprendizagem.

"Eu não me sentia privilegiada por nada", assegura. "Sentia-me perseguida. Não queria dar nas vistas, errava de propósito nos testes e tinha uma rejeição total à escola". Ao ponto de querer desistir de estudar, o que não aconteceu porque lhe propuseram que acelerasse mais um ano, uma vez que já tinha entrado para a escola aos cinco anos.

A aceleração não resolve o problema essencial. Estas crianças continuam a precisar de estímulos que as motivem e façam das aulas uma fonte de conhecimento. Uma das estratégias é atribuir-lhes trabalhos diferentes.

Tal como fez o professor do Pedro (nome fictício), hoje com dez anos e a frequentar o sexto de escolaridade, quando o acompanhou no terceiro e quarto anos.

"Tinha de fazê-lo puxar pela cabeça para o manter ocupado", conta. "Dava-lhe logo dois ou três trabalhos, porque o que os outros faziam em 45 minutos ele fazia em apenas 15." 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Transitar de ciclo aos 8 anos

Anteriormente era possível completar o 1.º ciclo do Ensino Básico em três anos, menos um do que o habitual, neste momento uma criança com oito anos pode transitar para o 2.º ciclo. Em 2005, a lei estipulava que um aluno só podia deixar o 1.º ciclo com 9 anos, mas, mesmo assim, havia escolas que aceitavam os sobredotados de 8 anos. A mudança mais recente já está publicada em Diário da República. O que permite que os mais pequenos com capacidades de aprendizagem excepcionais e os que entraram na escola com 5 anos possam passar para o 2.º ciclo com apenas 8 anos.

"Cada caso é um caso e mesmo os sobredotados são todos diferentes", avisa a psicóloga Paula Monteiro, que acompanha famílias na resolução de várias problemáticas. Em seu entender, é preciso ter em conta vários factores antes de transitar um aluno de 8 anos para o 2.º ciclo ou retê-lo no 1.º. A maturidade e a estabilidade emocional da criança são duas variáveis que, na sua opinião, têm de ser bem ponderadas antes de se tomar uma decisão.

É necessário, portanto, perceber quais as vantagens e desvantagens para o aluno ao acelerar a sua mudança de ciclo. Segundo Paula Monteiro, mesmo nos casos das crianças com capacidades de aprendizagem excepcionais é preciso analisar bem se é preferível continuar a motivá-las ou se a transição será mais benéfica.

Para a investigadora Maria José Araújo, do Centro de Investigação e Intervenção Educativas da Universidade do Porto, a questão não se pode resumir à idade da criança. A cultura escolar e as experiências dos mais pequenos, o meio onde crescem, o que assimilam, são também importantes neste assunto. "Se as crianças fossem avaliadas pela sua capacidade de brincar, a questão da idade não se colocava", constata. "As crianças não se definem pela sua idade biológica", acrescenta.

Transitar de nível de ensino mais cedo do que o habitual? Para Maria José Araújo esta pergunta não deve ser colocada. "A questão tem essencialmente a ver com o tipo de cultura escolar que temos, com as oportunidades que as crianças têm antes de entrar para a escola e dentro do contexto escolar." Os factores culturais falam mais alto do que os biológicos quando o assunto é concluir o 1.º ciclo em três anos. "Como as crianças são todas diferentes e têm diferentes ambientes e experiências de vida, o que está aqui em causa é a possibilidade de a instituição escolar estar atenta a todas as crianças e às suas especificidades e possibilidades. Se as competências exigidas pela escola para passar de ano ou de ciclo estiverem cumpridas, é bom que isso aconteça", refere.

Os mais pequenos sabem muitas coisas, mas tudo depende das oportunidades que lhes são dadas para evidenciarem o que sabem. "O discurso do 'sucesso' ou do 'insucesso', dos sobredotados ou dos incapazes, enfatiza a natureza das crianças, individualiza as aprendizagens e esquece as questões culturais. Esquece as exigências da cultura escolar e os percursos e conhecimentos das crianças", afirma. A transição de ano ou de ciclo deve, na sua opinião, acontecer quando as crianças estão preparadas para o desafio seguinte.

Amélia Josefina, professora primária há mais de 30 anos, teve dois casos de sucesso. Dois alunos que entraram na escola com 5 anos e que transitaram para o 2.º ciclo antes de fazerem 9 anos. Mesmo assim, a docente considera que normalmente as crianças que entram com 5 anos, e que completam os 6 até Dezembro, são imaturas, notando-se um grau de dificuldade nomeadamente na apreensão de noções de Matemática mais abstractas e que se repercute na interpretação de textos, no Português. Por isso, há algumas reservas nessa passagem antecipada.

No caso dos alunos que sobressaem, que revelem capacidades de aprender acima da média, Amélia Josefina defende que a transição deve ser feita caso os professores considerem que o percurso do aluno assim o justifique. Mas aqui é importante não esquecer apenas os níveis de aprendizagem, mas também ter em consideração a parte emocional. "Os processos devem ser muito bem feitos e analisados", afirma. 
 
In: EDUCARE

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Criança Especial

Uma criança especial, que possa eventualmente precisar de atenção particular, pode ser uma criança cujo o desenvolvimento possa ter sido prejudicado por uma dificuldade física ou psíquica e exige um esforço por parte da família em trono da criança especial.

Uma criança especial pode ser uma criança sobredotada, e esta pode ser tão difícil de educar como as que têm necessidades especiais. Quando as crianças são particularmente inteligentes, mais inteligentes que os pais pode fazê-los sentir inadequados e de certa forma incapazes de lhe fornecer um ambiente estimulante para poderem crescer e desenvolver. As aulas para a idade destas crianças são enfadonhas, e podem tornar-se anti-sociais e isolar-se, tornando-se crianças desajustadas socialmente.

Estas crianças são muito exigentes, precisam de muita atenção de muito amor e paciência. O aconselhamento profissional sobre como educar estas crianças é muito importante para que esta possa ter um crescimento e um desenvolvimento adequados às suas necessidades, explorando o total das suas capacidades.

É importante que os pais de crianças especiais não pensem que devem ser os super pais, com a resposta para todas as situações ou que eventualmente deverão ser perfeitos, nada disso, antes demais deverão pensar que deverão ir ao encontro com as necessidades dos seu filho e que deverão manter um ambiente saudável e feliz acima de tudo o mais normal possível, pois assim será positivo.
 
In: Net Bebes

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

"Tinha 12 anos e queria fugir do país, por não poder requisitar livros"

O fenómeno da sobredotação permanece envolto em vários mitos. Cristina Palhares, presidente da delegação de Braga da Associação Nacional para o Estudo e a Intervenção na Sobredotação, faz uma síntese das características do sobredotado e dos recursos legais a que pais e professores podem recorrer para lidar com esta problemática.

Só uma avaliação especializada pode dar a conhecer o perfil do sobredotado. Até porque, existem seis tipos distintos de sobredotação: académica, mecânica, artística, motora, social, emocional e intelectual. Mas para uma criança ser considerada um prodígio não basta ser excelente numa área, é preciso juntar à inteligência a motivação e a criatividade. Aos pais que suspeitem ter em casa um pequeno génio, Cristina Palhares recomenda atenção a dois sinais: "Ao desenvolvimento [precoce] da linguagem e ao interesse ou curiosidade por alguma área, muito específica." Já que "o desenvolvimento da linguagem está muito associado ao da inteligência e, normalmente, uma criança sobredotada foi precoce em termos linguísticos", explica a presidente da delegação de Braga da Associação Nacional para o Estudo e a Intervenção na Sobredotação (ANEIS). 


Ser sobredotado nem sempre é sinónimo de ter sucesso escolar. "Normalmente, na sobredotação intelectual ou o professor consegue entender e captar a atenção do aluno ou ele desacredita da escola", avisa Cristina Palhares. Este é o terreno onde se insere o trabalho realizado pela ANEIS. A funcionar com nove delegações de Norte a Sul, a associação move-se há mais de dez anos para dar resposta às preocupações dos pais e aos interesses das crianças sobredotadas. Através do acompanhamento escolar e da promoção de programas de enriquecimento extra-escolares que permitem ao sobredotado ampliar os conhecimentos nos seus interesses específicos. É precisamente pela criação de medidas educativas específicas para estes alunos que se bate a ANEIS. Desde logo, para que os sobredotados sejam considerados crianças com necessidades educativas especiais, tal como acontece em outros países. Em entrevista ao EDUCARE.PT, Cristina Palhares, também coordenadora da revista "Sobredotação", partilha a sua experiência nesta área, falando de alguns casos sinalizados pelos profissionais da ANEIS.


EDUCARE.PT (E): O que é a sobredotação?
Cristina Palhares (CP): A definição internacional pertence ao professor Renzulli e diz que a sobredotação resulta da confluência de três anéis. Tem de haver uma excelência na área das habilidades do ser humano, sejam elas motoras, linguísticas ou matemáticas. À qual se acresce o domínio da criatividade e a motivação, ou seja, o empenho na execução da tarefa. Portanto, estas três características têm de estar presentes no sujeito sobredotado.

 "Uma criança que hoje é precoce na linguagem, amanhã pode não ser sobredotada."




E: Como se quantifica essa "excelência"?
CP: Através de avaliações especializadas que nos dão um perfil completo do sujeito. Não se avalia apenas a sua área de excelência, mas também os seus pontos fracos. 

E: A que sinais devem os pais estar atentos para perceber se os seus filhos são sobredotados?
CP: Devem estar atentos a dois sinais: ao desenvolvimento da linguagem e ao interesse ou curiosidade por alguma área, muito específica. O desenvolvimento da linguagem está muito associado ao da inteligência e, normalmente, uma criança sobredotada foi precoce em termos linguísticos, mas o oposto nem sempre é verdade. Uma criança que hoje é precoce na linguagem, amanhã pode não ser sobredotada. O interesse por uma determinada área também nasce muito cedo. Há casos de crianças sobredotadas que adoram tudo o que é bichos, natureza...

E: Um interesse obsessivo?
CP: Pode-se dizer que sim. Quase obsessivo. É querer saber mesmo tudo sobre uma área e fazê-lo de forma autónoma. Assim como a aprendizagem da leitura e da escrita, quando acontece por volta dos quatro ou cinco anos de uma forma autónoma, sem ser formalmente ensinada, pode ser já um índice de inteligência. Portanto, é importante que os pais estejam atentos a este tipo de sinais.

E: Uma vez feita esta primeira sinalização, o que devem fazer os pais?
CP: Falar com educadores ou professores, e com os pediatras. Mas essencialmente devem procurar apoio especializado na área da psicologia para fazer uma avaliação do desenvolvimento da inteligência da criança e traçar o seu perfil completo, de que falava há pouco. 

E: Nesse processo, onde se situa o trabalho desenvolvido pela ANEIS?
CP: Na associação temos profissionais na área da psicologia que fazem essa avaliação tendo já em conta todos os factores importantes na caracterização da sobredotação. Uma vez que, tal como os diferentes tipos de inteligência, também existem vários tipos de sobredotação. 

E: Pode dar exemplos dessa tipologia?
CP: Existem seis tipos de sobredotação: académica, mecânica, artística, motora, sócia, emocional e intelectual. A académica, diz respeito aquele aluno que tira sempre muito boas notas, tem um pensamento convergente, pelo que, normalmente, a escola integra melhor. A mecânica insere-se no manuseamento de equipamentos, electrónica e computadores. A artística, por exemplo, reflecte-se nas áreas da pintura ou da música. E a motora, revela-se ao nível do desempenho desportivo. A social diz respeito às habilidades comunicacionais e de relacionamento. A emocional manifesta-se na auto-regulação. Por último, a sobredotação intelectual diz respeito aquele aluno que nunca vai pelo caminho por onde o professor quer ir, que ora está adiantado ora fora da matéria, e faz sempre a pergunta na hora errada. Este é o tipo de sobredotado que mais problemas coloca à escola, porque não segue padrões, tem um pensamento divergente, podendo até ter insucesso. Normalmente, na sobredotação intelectual ou o professor consegue entender e captar a atenção do aluno ou ele desacredita da escola. 

"Percepcionam bem os adultos e com seis anos são capazes, por exemplo, de dizer que o professor está triste." 

E: Na sala de aula, como pode o professor distinguir uma criança sobredotada?
CP: Será uma criança que apresenta um fácil entendimento das matérias e que com seis ou sete anos quer muito aprender. Estará sempre com o dedo no ar. Mas que também se mostrará aborrecida, caso o professor tenha de explicar uma segunda ou terceira vez à turma, porque ela já percebeu à primeira. Normalmente, a curiosidade e a persistência são duas características das crianças sobredotadas. Muitas vezes, o professor corta o fio à meada em situação de aula porque há um horário para cumprir, mas estas crianças precisam de tempo para levar com êxito as suas tarefas até ao fim. 

São também crianças que percepcionam bem os adultos e com seis anos são capazes, por exemplo, de dizer que o professor está triste. Ou crianças que, mais cedo do que o normal, por exemplo, ouvindo falar em guerra, manifestam muitas preocupações, chegando até a ser fóbicas. Mas o que mais distingue uma criança sobredotada é a singularidade dos seus interesses. Outro exemplo: na ANEIS, tivemos uma criança com dez anos que queria aprofundar tudo sobre bactérias, mostrando um interesse que nenhuma criança na idade dela teria.

E: A sobredotação é considerada uma necessidade educativa especial?
CP: Em Portugal não, infelizmente. Noutros países europeus já é. Em Espanha, há financiamento estatal para a criação de equipas de apoio aos sobredotados no âmbito das necessidades educativas especiais (NEE) nas escolas. E é isso que a ANEIS pretende: que os sobredotados sejam considerados crianças com NEE. Nesse sentido, há alguma legislação que pode ser usada, embora não seja propriamente dirigida à sobredotação. 

Nas escolas, os professores podem utilizar os planos de desenvolvimento [Decreto-lei 50/ 2005] como instrumento para aplicar a crianças com características de sobredotação. Há também a possibilidade de fazer antecipação e aceleração escolar. No total, entrando a criança com cinco anos na escola e fazendo as duas acelerações [uma no 1º ciclo, outra entre o 5º e o 9º ano] chegará ao 9º ano três anos antes da idade habitual, ou seja, entre os 12 e 13 anos. Este é o máximo de aceleração permitido legalmente. Mas há países onde não existe limite.

E: Como assim?
CP: Os alunos podem progredir conforme quiserem. Há países que têm uma legislação mais livre no que toca a esta matéria. E mais de acordo com as necessidades educativas da criança sobredotada ao invés de atender exclusivamente ao rigor das idades. Mas em Portugal, e até ao 9º ano, já temos medidas suficientes a esse nível. Também há sempre a hipótese de se expor o caso individual do aluno ao Ministério da Educação e conseguir uma excepção à regra. Tem de haver maleabilidade nesta matéria, se não... Imagine-se uma criança que entra para o 1º ano com cinco anos já a saber ler e escrever, o que vai fazer um ano inteiro a juntar letras? 

E: Vai desmotivar.
CP: Vai fazer com que a escola não lhe sirva para nada e a própria criança vai sentir isso. Muitas vezes chegam à ANEIS casos de alunos a dizer: "Eu não aprendo nada na escola." Costumo falar no desafio de Aristóteles que dizia que só aprendemos quando nos espantamos, para mostrar que essa criança não se vai espantar com a escola. Ou seja: vai passar um ano inteiro sem dizer: Ah! Nunca vai ser espantada com uma coisa nova. Portanto, a escola vai ser para ela um martírio, nos primeiros tempos inconsciente, mas depois surgem as fobias, dores de barriga... Há crianças sobredotadas que desenvolvem altos índices de ansiedade por passarem horas a fio na escola sem estarem cognitivamente a aprender. 
"Ainda há muitos mitos a desfazer."

E: Ao contrário do que possa parecer, um sobredotado pode ter insucesso na escola?
CP: Sim. E pode ter dificuldades de aprendizagem também, muitas vezes quando há esse desinvestimento. Dos 50 sobredotados a que a ANEIS presta apoio directo, temos três casos de insucesso escolar, no 7º e 8º ano, em situações de reprovação a todas as disciplinas. Porque a escola não lhes diz nada e eles não querem estudar. Uma criança que tenha altos níveis de desempenho, ao nível do raciocínio, pode não estar minimamente interessada nas matérias leccionadas na escola. Mas se for um projecto dele, alguma coisa que queira descobrir, vai colocar nessa tarefa todo o seu empenho. 

E: Poderá haver casos de insucesso na escola a encobrir uma sobredotação?
CP: Será uma minoria, mas pode acontecer. Normalmente, são aqueles casos em que o professor se queixa que o aluno "podia mas não quer". E no que toca aos sobredotados, com insucesso escolar esta ideia é falsa. A criança não quer chumbar, nem quer estar desmotivada, nem quer passar horas encostada na sua cadeira, quer é outra coisa que a escola ainda não entendeu.

E: Em que ponto está a investigação e a divulgação sobre o que é a sobredotação?
CP: Ainda há muitos mitos a desfazer. Como o de que a sobredotação é inata ou puramente social, ou seja, treinada. Neste momento sabemos que é um misto dos dois. Aliás não adianta ser inato se depois não se treina. Por outro lado, não é possível "fazer" crianças sobredotadas, apenas treinar. E isto vê-se nos grandes jogadores de futebol, nos grandes pianistas e nos grandes bailarinos. Outro mito é o de que a criança sobredotada já não precisa de saber mais, porque já sabe tudo. Isto é errado. O sobredotado precisa sempre de ir mais além. Outro mito é o de que o sobredotado "é tão bom" que não precisa de ajuda e se desenvolve por si mesmo. 

Também se associa erradamente a sobredotação às classes sociais altas. Quando é o meio que influencia o desenvolvimento do sobredotado, logo, quem tem mais recursos proporciona aos seus filhos mais possibilidades de se desenvolverem. Tive um caso de uma criança sobredotada cuja mãe me dizia que gastava em livros cerca de 200 euros por mês, porque o filho adorava ler. Tinha 12 anos e queria fugir do país, por não poder requisitar livros na biblioteca pública, por ser menor. E com aquela idade, já tinha lido a obra completa do Eça de Queiroz.




As Escolhas de Cristina Palhares
Citação: "Quando Deus fecha uma porta abre algures uma janela"
Livro: "O Segredo do Rio", de Miguel de Sousa Tavares
Música: A felicidade...
Autor: Vinicius de Moraes
Político: Sá Carneiro
Viagem: Onde os livros me levam (Sepúlveda... Miguel de Sousa Tavares...)
Memória de infância: A praia e o mar, seja de manhã ou à noite... com calor, chuva ou frio...
Sonho por realizar: Uma viagem para lá dos livros

Por: Andreia Lobo

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sobredotados (continuação)

Qual o tipo de intervenção educativa que deve ser desenvolvida com alunos sobredotados? Esta foi a questão com que terminei o último artigo (http://gritodemudanca.blogspot.com/search/label/Sobredotação) e que irá ser agora retomada.

Qualquer intervenção deverá ser definida com base no conhecimento das necessidades educativas da criança ou jovem sobredotado, devendo esta ser adequada a essas necessidades. Uma vez escolhidas as metodologias, estas devem ser submetidas frequentemente à avaliação do professor, de forma a analisar se contribuem realmente para o 'crescimento' efectivo do aluno. Uma vez definidas as necessidades, poderão ser colocadas em marcha variadas estratégias de intervenção.

À semelhança de todos os outros alunos, o aluno sobredotado necessita de vivenciar sistematicamente situações de sucesso, para que se sinta motivado e possa progredir na aprendizagem. A grande exigência e capacidade crítica dos sobredotados, por vezes, dificulta o autoreconhecimento de sucesso nas tarefas desenvolvidas, pelo que o professor deverá estar atento a este facto. Impedir estes alunos de concluir uma tarefa é para eles fonte de grande frustração, pois a não conclusão é frequentemente interpretada como indicador de incapacidade, o que provoca um efeito negativo sobre a autoconfiança, motivação e participação futura do aluno. Atendendo ao que foi referido, a flexibilização dos tempos é a melhor estratégia, deixando, sempre que possível, o aluno terminar a tarefa em que está envolvido.

A possibilidade de assumir responsabilidade e participar na planificação de actividades é também decisiva na motivação dos alunos sobredotados. Por esta razão, o professor deverá permitir e estimular a participação activa por parte destes, quer na organização de actividades, quer na planificação e avaliação do trabalho realizado. A valorização de experiências e conhecimentos exteriores à escola poderá constituir, também, uma importante estratégia de motivação para estes alunos. 

O insucesso é frequentemente vivenciado pelos sobredotados como uma grande ameaça, na medida em que pode significar o risco de perder a confiança e afecto dos outros. Por esta razão, é sempre preferível ter uma atitude positiva face ao erro/insucesso, o que implica analisar a sua natureza e as formas de o ultrapassar.

Os sobredotados necessitam de um ensino individualizado ao nível dos conteúdos que dominam melhor, o que implica a flexibilização dos programas, de forma a adaptarem-se a ritmos de aprendizagem mais rápidos. O acesso a recursos adicionais de informação (enciclopédias, Internet, etc.) e a visita a bibliotecas, instituições recreativas e culturais e a exposições, que se enquadrem no seu universo de interesses, pode ser determinante para que estes se mantenham interessados e possam exprimir e desenvolver as suas potencialidades.

Criar momentos que lhe permitam partilhar os seus interesses e competências com os outros, nomeadamente através de apresentações de comunicações nas aulas, é outra excelente estratégia que permitirá não só motivar e promover o desenvolvimento destes alunos, como também desencadear o desenvolvimento dos outros colegas. Como em termos sociais os sobredotados frequentemente se isolam, é fundamental o professor estar atento a esta área, colocando em marcha estratégias que facilitem a sua integração e percepção de pertença ao grupo. Neste sentido, o professor poderá incentivar o aluno a participar activamente nas tarefas de grupo, ajudando-o a perceber o efeito de determinados comportamentos e atitudes. Clarificar e discutir regras e analisar as consequências do seu infringimento são também estratégias que poderão facilitar as trocas sociais.

Embora não existam receitas para a resolução dos problemas que resultam da sobredotação, deixo estas sugestões que espero possam facilitar a integração e rentabilização das potencialidades destes alunos com necessidades educativas especiais. 

Bibliografia consultada: 'Crianças e Jovens Sobredotados'. Intervenção Educativa. Ministério da Educação.

Por: Adriana Campos

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Sobredotados

Existem actualmente ainda muitas ideias fantasiosas em torno da sobredotação. O sobredotado ainda é visto por muitos como alguém que apresenta um desempenho superior em diversa áreas, que tem sempre boas notas nos testes e que por ter capacidades muito superiores à média não apresenta dificuldades de aprendizagem. Os profissionais da educação, bem como a comunidade científica, sabem bem que isto não corresponde à realidade. Estas crianças, embora dotadas de potencialidade extraordinárias, exprimem dificuldades variadas ao longo da escolaridade, muitas vezes sendo identificadas como alunos problemáticos quer ao nível do seu comportamento na sala de aula, quer ao nível do relacionamento com os pares.

A identificação destas crianças é fundamental na medida em que torna possível a criação de condições para a expressão e desenvolvimento das suas qualidades excepcionais e permite resolver situações problemáticas que frequentemente surgem. As crianças sobredotadas são alunos com necessidades educativas especiais, devendo por isso beneficiar de apoio individualizado no contexto da sala de aula.

Segundo José Renzulli (Instituto de Investigação para a Educação de Alunos Sobredotados, Universidade de Connecticut, USA), os sobredotados apresentam um conjunto de características que os distingue dos outros indivíduos, em diferentes planos. No plano das aprendizagens apresentam: vocabulário avançado para a idade e nível de escolaridade; hábitos de leitura independente, mostrando preferência por livros que normalmente interessam a indivíduos mais velhos; compreensão e domínio rápido da informação e conhecimentos e/ou resultados excepcionais em uma ou mais áreas.

Em termos motivacionais, demonstram grande persistência na realização e finalização de tarefas, buscam frequentemente a perfeição e aborrecem-se com as tarefas de rotina. 

No plano da criatividade apresentam originalidade na resolução de problemas, uma elevada curiosidade face a um grande número de domínios e pouco interesse pelas situações de conformismo.

No plano social e de juízo moral demonstram um apurado juízo crítico face às suas capacidades e às dos outros, interesses e preocupações pelos problemas do mundo, ambições elevadas e maior interesse em relacionar-se com pessoas mais velhas.

Estas são apenas algumas características formuladas de uma maneira muito geral e aberta. A revelação destas características depende muito da organização dos ambientes e oportunidades educativas que lhes forem proporcionadas. Tarefas rotineiras, demasiado dirigidas pelo professor, apoiadas na memória e no pensamento convergente (mais reprodutivo que criativo) transformam crianças desejosas de novas experiências, conhecimentos e desafios em crianças aborrecidas e desinteressadas das actividades escolares. Estes factos exigem que após a identificação destas crianças seja definida uma intervenção educativa por parte do professor, no sentido de adequar a sua prática às necessidades específicas da criança em questão.

Qual o tipo de intervenção educativa que deve ser desenvolvida com alunos sobredotados? A resposta a esta questão será dada num próximo artigo.

Bibliografia consultada: 'Crianças e Jovens Sobredotados'. Intervenção Educativa. Ministério da Educação.

Por: Adriana Campos

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Meninos-prodígio devem ficar «fora do vidro de resguardo»

"Pediatras debatem potencial dos sobredotados na Ordem dos Médicos.

Por vezes, crianças com três anos já sabem ler. O que fazer com jovens dotados de capacidades excepcionais? Segundo Leandro Almeida, investigador da Universidade do Minho (UM), “a curva de desempenho vai se aproximando da idade, com o crescimento e os pais devem ser responsivos, sem exigir a excelência”.

O potencial, dificuldades e apoios de crianças que desenvolvem talentos especiais precocemente é um dos temas em foco nas II Jornadas de Pediatria do InstitutoCuf, que se realizam hoje e amanhã, na Ordem dos Médicos do Porto.

O psicólogo da UM alerta para o facto de estes indivíduos poderem ficar “com depressões, ansiedade e desânimo”, caso sejam afastados de ambientes normais e introduzidos em instituições seleccionadas. “Não sou adepto de medidas de segregação. Escolas próprias para estes alunos podem não ser a melhor solução, porque em idade adulta não se conseguirão contextualizar socialmente. Não devem ficar dentro de ‘um vidro’, resguardadas”, salientou ao jornal «Ciência Hoje» (CH).

Uma criança “prodígio” é alguém dotado de uma habilidade especial muito desenvolvida, dentro de uma actividade socialmente reconhecida – seja esta de âmbito técnico, artístico, científico ou profissional, já que não se destacam tendencialmente numa área – e que manifesta uma capacidade intelectual acima da média, desde cedo, quando comparada com outras da mesma idade e cultura.

Usa-se frequentemente o Quociente de Inteligência (Q.I.) como medida que estipula uma fronteira entre estas e outras pessoas. Um Q.I. de 130 ou superior, demonstrado em testes específicos, determina que a criança é excepcional.
 
Leandro Almeida trabalha com meninos sobredotados há “pelo menos doze anos” e acompanha-os até à idade adulta. Faz pesquisa e intervenção, apoia a família e caracteriza perfis psicológicos e a dimensão cognitiva. “Um bom diagnóstico depende de medidas educativas precursoras e preditivas”, explicou. Nem sempre é fácil perceber que a criança é superdotada, mas tendem a demonstrar “sinais de precocidade que outras não têm”, continua.

Em ambiente natural

O investigador defende o acompanhamento por parte de um tutor, para ajudá-las no processo vocacional e acrescenta que “é fundamental incentivá-las, igualmente, para outras áreas, nomeadamente, a motricidade, expressão e sociabilidade” – considera ainda “um erro tendencial querer que estas crianças beneficiem de programas próprios”. Os meninos superdotados devem conviver naturalmente com todas as crianças e “a aposta é fazer com que estes não se afastem”.

Para o Instituto da Inteligência (Porto) há três níveis de crianças com elevadas capacidades e talentos. No nível três ficam as pessoas ditas "médias", as que se seguem (em quarto) são "muito inteligentes"; no quinto patamar estão as "sobredotadas" e, em sexto lugar, as "altamente sobredotadas" (ou "génios" como Einstein depois de comprovada capacidade e após muitos anos de vida e experiência).
 
Um sobredotado já nasce diferente? Alguns pediatras acreditam que, com condições favoráveis e estimulação adequada, qualquer criança pode atingir algum nível de sobredotação, talento ou prodígio. Todas as crianças nascem com mais ou menos potencialidades mas algumas, por razões genéticas, estão melhor preparadas para superarem a maioria das outras, mesmo quando a estas se proporcionem as mesmas condições e os mesmos estímulos.

Emídio Carreira, presidente da comissão científica da reunião, adiantou ao «CH» que, em Portugal, existem “entre três a cinco por cento de crianças com características sobredotadas”. No entanto, o Instituto Cuf ainda não tem uma unidade dirigida a este tipo de público. Algumas das extensões que facultam apoio a estes pequenos génios são as Faculdades de Psicologia da Universidade do Minho e do Porto.

Prática pediátrica

Além da abordagem ao tema das crianças sobredotadas, os especialistas presentes irão ainda debater aspectos legais da prática pediátrica, nomeadamente, questões da recusa de observação de doentes e problemas de saúde em crianças, como a doença reumática infantil e outros sub-temas de discussão: o pediatra no infantário, situações de evicção e declarações médicas e prevenção de acidentes.

Paralelamente, realizam-se as Jornadas de Enfermagem, dedicadas aos temas da alimentação durante o primeiro ano de vida, desenvolvimento psico-motor e alterações do comportamento na criança. Ainda, decorrem sete cursos dedicados à prática de ambulatório na alimentação, ginecologia e obstetrícia na adolescência, exercício físico e prática desportiva, gastrenterologia, infecciologia, massagem ao bebé e coaching aplicado à gestão de conflitos."

Por Marlene Moura, in: http://www.cienciahoje.pt/