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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Recusa em falar

O Pedro foi encaminhado para o Serviço de Psicologia e Orientação, porque estava permanentemente agitado, não se concentrando na sala de aula. A mãe dissera-me que o pai abandonara a família e que, desde que fora trabalhar para o estrangeiro, nunca enviara dinheiro para o sustento dos filhos. Segundo a perceção da mãe do Pedro, este agia com indiferença à ausência do pai. Ao longo dos atendimentos, percebi que o Pedro sofria bastante com a distância da figura paterna e chorava sempre que falava nele. A perceção do Pedro de que a mãe sofria com o abandono do pai levava-o a ocultar a sua própria dor, para que a mãe não sofresse ainda mais.

A Catarina era uma aluna muito fechada, que causava preocupação aos professores, devido ao seu ar sempre muito triste. Vivia desde muito pequena com uma tia paterna, porque a mãe a abandonara. Ao longo de um ano, tentou que eu acreditasse que se sentia feliz na companhia desta tia. O hálito a álcool e a frieza com que a tia falava da sobrinha levaram-me a montar um cenário completamente diferente daquele que a Catarina sempre me procurou transmitir. Foi preciso um ano para que esta criança ganhasse confiança em mim e me revelasse o que eu já há muito tempo lera nas entrelinhas: álcool e maus tratos. O medo de represálias remeteu-a para o silêncio.

A recusa em falar pode ter subjacentes causas diferentes. O Pedro e a Catarina são apenas exemplos verídicos disso. Na maioria das vezes tenho constatado que é mais fácil para as crianças e até para os adultos falarem sobre os seus problemas com desconhecidos ou com pessoas que não estejam a viver tão de perto um determinado problema. O silêncio é, muitas vezes, a estratégia escolhida para tentar minimizar o sofrimento de todos aqueles que, visivelmente, já estão a sofrer bastante com uma dada situação. Se a mãe e o pai estão sempre a chorar pelos cantos, os mais novos evitam que as suas próprias lágrimas tornem tudo ainda mais penoso.

Se a criança tem uma relação muito positiva com um determinado amigo da família ou com um familiar, por exemplo um tio, os pais podem pedir o apoio, no sentido de estes tentarem ajudar a quebrar o silêncio, que na verdade pode ser fonte de grande sofrimento. Sempre que uma criança apresenta perturbações comportamentais na sequência de uma situação problemática, ela poderá estar a transmitir silenciosamente um pedido de socorro. Note-se que, até que falem, algumas crianças precisam de muito tempo, paciência e de uma relação bem construída. A Catarina é um bom exemplo disso.

Como pôr a falar um adulto que se recusa? É sem dúvida uma missão difícil! Como não há nenhuma referência aos motivos de tal recusa, ainda mais. Porque é que este adulto não quer falar?

O Pedro admitiu que só chorava na minha presença. A Catarina confessou que só me revelara os seus problemas familiares, porque encontrara um adulto em quem podia confiar. Sem querer dar receitas, um ouvinte que esteja suficientemente distante do problema e que inspire confiança pode ser a chave para transformar o silêncio em palavras.

Por: Adriana Campos

In: Educare

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Dia Mundial da Erradicação da Pobreza e da Exclusão Social

Hoje é o Dia Mundial da Erradicação da Pobreza e da Exclusão Social, data que me faz reflectir sobre o actual estado da nosso sociedade.

Vivemos momentos complicados e assistimos diariamente a um aumento do desemprego, da pobreza e da exclusão social.

Disse-o na reflexão anterior que as políticas educativas no nosso País não valorizam as pessoas, apenas olham para os números...Mas este fenómeno não é exclusivo do Ministério de Educação, é problema deste Governo!!! Esta atitude leva a cada vez mais austeridade do povo, mas sempre com a exceção de quem nos (DES)governa.

Na minha opinião a exclusão social são os problemas que conduzem ao afastamento de uma ou mais pessoas de determinada comunidade ou grupo onde está inserida. Ora com o aumento do desemprego verificamos cada vez mais pessoas a isolarem-se da sua comunidade, assistimos diariamente a um aumento desgovernado da pobreza.

Falar de exclusão social é também falarmos do direito à educação. Sim, porque não se trata apenas de ser rico ou pobre. A exclusão social pode assumir outras formas, tais como a discriminação contra as pessoas de outras nacionalidades, contra crianças em idade escolar, contra as pessoas com deficiência, entre outros.

Este post serve para relembrar que chegou a hora da mudança. É hora de dizer basta, de fazer um grito de mudança e de se mudarem atitudes e mentalidades!!! 

Não sonho em mudar tudo num momento, mas comecemos por deixar as atitudes discriminatórias que permanecem na nossa sociedade de fora. E passemos a valorizar a diferença e a multiculturalidade!

Cada um de nós tem uma palavra, um gesto para mudar...por isso que a verdadeira Inclusão comece já!!!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Homenagem à Joana

Maria conheceu Joana no 6.º ano de escolaridade, em que foi sua professora, e logo ficou a admirá-la. Apesar de frequentes idas ao estrangeiro para ser operada, devido a um problema de saúde, Joana nunca faltava às aulas quando estava em Portugal, mesmo que fosse por pouco tempo, tendo conseguido passar para o 7.º ano, devido ao seu trabalho persistente e empenhado.

Três anos mais tarde, Maria foi de novo professora da Joana e sua diretora de turma. Nesses anos, o problema de saúde e as deslocações ao estrangeiro mantiveram-se e Joana tinha acabado por não conseguir passar do 8.º ano para o 9.º ano. Concluindo que a sua reprovação se devia a falta de capacidade, deixou de acreditar em si. A sua autoimagem corporal estava também muito fragilizada, já que uma ligeira deformidade no rosto, devida ao seu problema de saúde, a fazia considerar-se feia e incapaz de granjear afeição. À sua natural timidez, acrescentava-se agora um olhar triste e Joana isolava-se.

Maria não ficou indiferente à sorte de Joana. Conversava frequentemente com ela, procurando fazê-la refletir sobre o seu difícil percurso e sobre todas as conquistas que tinha ido obtendo devido à sua força de vontade e à sua persistência. Com a turma, desenvolveu um trabalho que tinha por objetivo a valorização de si próprio e do outro, a sensibilidade ao outro e a interajuda. Uma estratégia determinou a inversão do percurso de isolamento adotado por Joana. A diretora de turma escreveu o nome de cada aluno numa folha de papel A4 e distribuiu uma folha a cada aluno. Cada um iria escrever uma mensagem positiva ao aluno cujo nome estava no cimo da folha e passava-a para o colega seguinte, que procederia do mesmo modo. Desta forma, no fim da atividade, cada aluno recebeu uma folha com mensagens positivas escritas para si por cada um dos seus colegas. Joana percebeu que era apreciada por todos eles que, entre outras coisas, lhe diziam que gostavam dela e que a queriam conhecer melhor, pedindo-lhe que os deixasse aproximarem-se dela.

Joana acabou por se integrar na turma e, com a ajuda dos colegas e da diretora de turma, aceitar a sua imagem corporal e valorizar as suas características pessoais. Quanto a Maria, se algumas dúvidas lhe restassem acerca da importância da intervenção que tinha desenvolvido, teriam desaparecido quando, no ano seguinte, tendo entrado para a turma uma outra aluna que se isolava muito, Joana a abordou com o seguinte pedido: "Setora, no ano passado, ajudou-me muito na integração na turma e a sentir-me bem comigo mesma. Noto que a nova aluna da nossa turma se isola muito e quero ajudá-la. Venho pedir-lhe a sua ajuda para isso."

Esta história, verdadeira, não precisa de mais palavras para se tornar elucidativa da importância de se olhar o aluno na sua individualidade e na sua globalidade. O insucesso escolar pode ter muitas causas. No caso de Joana, a doença prolongada foi a causa próxima. Exemplo de resiliência, Joana estava, no entanto, num ponto de viragem, em que precisava de ser ajudada a reconhecer o seu valor e a não deixar de acreditar em si. Quantas reflexões e quantas questões não podem ser levantadas por esta história! É esse mesmo o objetivo deste artigo.

Por: Armanda Zenhas

In: Educare

sábado, 26 de fevereiro de 2011

“É preciso entender o que está para além do sintoma”

Passaram por si muitos casos de crianças e jovens em risco. Por via do serviço de urgência, do internamento ou através da consulta. Casos de maus-tratos, abuso sexual, negligencia ou situações de famílias disfuncionais, jovens com alterações graves de comportamento, entre outras, são sinalizados pelo Serviço de Pediatria num número que ronda os 200 ao ano, refere Alda Mira Coelho, pedopsiquiatra no Hospital-Geral de São João, no Porto.

Para dotar as famílias em situações de risco de competências para solucionar os seus problemas, Alda Mira Coelho concebeu um projecto de intervenção na comunidade, em parceria com a CrescerSer - Associação Portuguesa para o Direito dos Menores e da Família. Ao longo de um ano, foi apresentando sessões de informação sobre vários temas, por diversas freguesias da cidade do Porto.

Enquanto pedopsiquiatra, tem desenvolvido a sua actividade na promoção da saúde mental de crianças, jovens e famílias. E, recentemente, foi integrada no núcleo hospitalar de crianças e jovens em risco, uma unidade de primeira linha, que funciona em articulação com outros núcleos do país.

Em entrevista ao EDUCARE.PT, Alda Mira Coelho fala sobre o impacto da institucionalização, danos emocionais e reparação afectiva. E lança algumas pistas sobre a importância de uma nova figura no âmbito da protecção de crianças e jovens: o gestor de caso.

"Alguém responsável por uma determinada família, no sentido de aplicação de planos de intervenção e que poderia ser o interlocutor para comunicar com os elementos da família, principalmente quando houvesse decisões delicadas, sendo importante estabelecer primeiro uma relação de confiança", esclarece a pedopsiquiatra.

Reconhecendo o papel da escola como fundamental na despistagem de situações de risco, Alda Mira Coelho deixa aos professores alguns conselhos sobre como actuar nesses casos, mas também a tirar melhor partido da relação com os alunos e a controlar situações de agressividade.

EDUCARE.PT (E): Qual o papel do pedopsiquiatra na comunidade?
Alda Mira Coelho (AMC):
Os pedopsiquiatras devem promover o acesso das crianças, jovens e famílias aos cuidados de saúde mental, principalmente no que respeita detecção precoce de sinais de alarme (desvios de desenvolvimento, sintomas psicopatológicos) e respectiva orientação adequada. É também importante o papel de sensibilização e informação da sociedade relativamente a temas que podem ser relevantes (ajudar a educar atitudes de risco, detectar sinais de patologia) na área da prevenção em saúde mental.

Muitas vezes a medicina torna-se tão compartimentada e especializada que a abordagem da criança corre o risco de ficar muito redutora. Não podemos esquecer que ela é um ser relacional em crescimento e os seus sintomas podem variar ao longo da idade ou em diferentes contextos. É preciso entender o que está para além do sintoma, criando uma relação empática com a criança e família e tentando melhorar a comunicação entre os diferentes sistemas em interacção.

E: O que é estar em "situação de risco"?
AMC:
Uma criança está em risco quando está exposta a factores que são prejudiciais para o seu desenvolvimento físico e/ou psicológico.

E: A expressão "em risco" remete logo para os maus-tratos físicos...
AMC:
Há várias formas de risco... A nível físico, seja por agressão, seja por falta de cuidados básicos de saúde higiene ou alimentação. Mas também a nível sexual, nas suas diferentes expressões, com ou sem violência. E, a nível psicológico, que é uma situação que passa muitas vezes despercebida ou camuflada, mas pode ocorrer na família ou até na escola, quando a criança é sujeita a humilhações, insultos, marginalização ou falta de carinhos e de apoio.

E: Tem ideia do número de casos de crianças em situação de risco que são despistados através de visitas ou urgências ao Serviço de Pediatria do Hospital de São João, no Porto?
AMC:
Pelos dados que temos das assistentes sociais andam à volta de 200 por ano, mas não tenho números precisos neste momento.

E: E ao nível nacional entre hospitais?
AMC:
Os hospitais que têm núcleos para crianças em risco têm registos idênticos aos nossos principalmente a nível do serviço social, mas ainda há muito a fazer no que respeita ao registo e informatização uniformizada dos dados.

E: Uma suspeita, por parte de qualquer médico, suscita logo a denúncia da situação à Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco (CPCJ)?
AMC:
Nem sempre o caso tem de ir à CPCJ. Primeiro é participado ao núcleo por ser uma unidade de primeira linha e só alguns casos é que passam à CPCJ ou, se for muito grave, directamente ao tribunal.

E: Como é tratada uma situação deste género?
AMC:
Depende da situação. Há casos em que a criança, por razões de mau estado geral ou risco grave, tem de ficar internada e o caso pode ter de ser participado ao tribunal, que decidirá o destino da criança, embora ouvindo os pareceres dos técnicos envolvidos e da família, sempre que possível.

Casos que ficam a ser acompanhados em consulta com o apoio do Núcleo da área ou da CPCJ respectiva. Procura-se sempre envolver os técnicos do serviço social e delinear um plano de intervenção para cada caso. Nas situações de abuso sexual, é necessário participar ao Instituto de Medicina Legal.

Em todas as situações é preciso muita cautela ao abordar a situação e garantir sempre a privacidade, protecção e tranquilização da criança, evitando acusações intempestivas ou precipitadas e tentando ouvir e apoiar a família.

E: Em que circunstâncias o Tribunal de Família e a CPCJ pedem a actuação do serviço de pedopsiquiatria?
AMC:
Os pedidos na área da pedopsiquiatria acontecem geralmente nos casos de maus-tratos ou abuso sexual com repercussão no desenvolvimento emocional e ainda nas situações de famílias disfuncionais e de jovens com comportamentos de risco.

E: Em que consiste essa intervenção?
AMC:
É necessário identificar o problema, os recursos da família e depois delinear um plano de intervenção, através de uma equipa multidisciplinar, sempre que possível, envolvendo os diferentes contextos relacionados com a criança. É importante intervir essencialmente junto da família, detectar factores de risco, orientar pais para tratamento, por exemplo, a terapia familiar em alguns casos.

Às vezes também é preciso intervir junto da escola, criando mais apoios e condições adequadas ao jovem procurando dar-lhe ocupações e modelos mais estruturantes. Também pode ser necessário um apoio psicoterapêutico ou até alguma intervenção farmacológica.

E: Que tipos de danos, ao nível do desenvolvimento psicoafectivo, são característicos numa criança ou jovem vítima de maus-tratos, sejam eles físicos ou emocionais?
AMC:
Depende do tipo de maus-tratos, idade e características da criança e da relação entre ela e o agressor. Por exemplo, se uma criança muito pequena é vítima de carência e negligência afectiva isso pode ter repercussão no desenvolvimento socioemocional, não só nas suas capacidades cognitivas e verbais mas também na capacidade de desenvolver relações profundas e estáveis, podendo ter tendência para uma sensação permanente de perda ou insatisfação, com tendência para sintomas depressivos.

Se for ela própria vítima de agressão, pode vir a ter comportamentos de revolta e agressão quando crescer. Torna-se tudo ainda mais complexo quando a agressão é realizada por alguém a quem a criança está ligada afectivamente.

Se a criança aprende os afectos de modo disfuncional, associados a agressão ou abuso, terá ela própria dificuldade em exprimi-los de outra forma. O vazio afectivo e as perturbações na vinculação podem levar a incapacidade de amar desenvolvendo relações de tipo tudo ou nada, com grande impulsividade e intolerância à frustração.

E: A criança ou o jovem tem ou não a percepção de que é vítima de situações a que a maioria dos seus pares não será?
AMC:
Quando a criança é muito pequena, em princípio, não tem essa percepção porque não conhece as outras realidades, mas começa a perceber isso por volta da idade escolar (5/6 anos) só que, muitas vezes, acha que é merecedora desse mau trato por se ter portado mal...

São frequentes os sentimentos de culpa nestas situações, embora mais tarde possam dar lugar a revolta e agressividade contra a sociedade em geral, dependendo de vários factores.

E: Qual é o impacto da denúncia do risco numa família?
AMC:
Pode ser uma situação muito complexa e delicada que tem de ser avaliada e conduzida com muito cuidado para evitar danos mais graves do que o próprio risco inicial. Daí a necessidade de formação adequada dos técnicos que realizam este trabalho. É fundamental analisar bem todas as variáveis antes de levantar suspeitas e deve-se tentar, sempre que possível, conservar a estrutura e potencial relacional da família.

Tenho vindo a propor, há algum tempo, a figura de "gestor de caso" que seria alguém responsável por uma determinada família, no sentido de aplicação de planos de intervenção, e que poderia ser o interlocutor para comunicar com os elementos da família, principalmente quando houvesse decisões delicadas, sendo importante estabelecer primeiro uma relação de confiança.

Muitas vezes as famílias têm uma atitude de desconfiança e revolta em relação aos técnicos de segurança social, o que prejudica a colaboração, precisamente porque falta este trabalho inicial de criar um vínculo com o técnico, percebendo que o objectivo é ajudar a reorganizar o ambiente familiar e não punir ou julgar os seus elementos.

E: Durante o processo de protecção, a criança pode ser retirada à família. Qual o impacto da institucionalização?
AMC:
Geralmente tem um impacto negativo, principalmente se for realizado de modo abrupto, cortando os contactos com os familiares, embora, em certas situações, seja a solução menos má e a única que permite salvaguardar a segurança da criança. O desejável era que a institucionalização fosse um último recurso e que fosse apenas temporária, efectuada de modo não traumático, explicando à criança que ficaria algum tempo num colégio onde teria afecto e protecção enquanto a família estava com alguns problemas que todos iriam ajudar a resolver.

Nesse período seria importante manter, se possível, os contactos com a família, desencadeando os apoios e medidas necessários para uma futura reintegração familiar. Seria positivo que dentro da instituição se nomeasse uma "figura de afecto" para a criança se sentir segura e protegida. Desenvolver vínculos adequados é a melhor forma de proteger a criança e minimizar os riscos no seu desenvolvimento futuro.

E: Qual o momento oportuno para começar a perceber em que estado emocional está a criança ou jovem e planear uma intervenção?
AMC:
Qualquer momento em que se perceba que a criança está em sofrimento será oportuno para iniciar uma intervenção, tentando perceber a situação e quais as medidas prioritárias.
É preciso saber ouvir a criança e perceber a sua linguagem e o que ela sente.

E: Que tipo de intervenção é necessária depois para reintegração da criança na família?
AMC:
É importante analisar os factores de risco e tentar minimizá-los, fornecendo os apoios necessários e a supervisão continuada da família. Também é importante o apoio à criança garantindo-lhe segurança e protecção. Mais uma vez aqui pode ser essencial o papel do gestor de caso, estabelecendo um vínculo de continuidade.

E: Tem de anteceder a esta reintegração um trabalho de reparação afectiva quer da criança quer da família?
AMC:
Muitas vezes é necessária essa reparação, dependendo do tipo de trauma e do tempo que a criança esteve na instituição, e ainda das características e idade da criança. Nas crianças pequenas é fundamental perceber quais são os seus principais vínculos e tentar preservá-los ou repará-los em tempo. O processo de vinculação é essencial para a construção futura da personalidade.

E: Que conselhos pode dar aos pais no sentido de conseguirem um equilíbrio entre educar e amar?
AMC:
É essencial mostrar à criança que gostam dela através de gestos de carinho e não de prendas, dar mimos, elogios, brincar e contar histórias, ajudando-a a acreditar em si própria e a desenvolver o seu potencial ao seu ritmo, sem pressionar nem exigir de mais.

Mas também é preciso saber dizer não, de forma gradual, as crianças precisam de sentir-se amadas. Sentir que são importantes para alguém...

Na escola...

E: O uso de crianças em manifestações - como as que têm ocorrido nos protestos contra o corte no financiamento do ensino privado - constitui uma "situação de risco"?
AMC:
A presença de crianças em manifestações políticas não é desejável se as colocar em situação de risco ou se houver abuso da sua imagem, mas naturalmente que, se estiverem com as suas famílias num movimento pacífico e sem riscos, apenas manifestando uma opinião que tem a ver com o seu futuro, não me parece que se possam enquadrar em situação de risco.

E: A escola é um lugar privilegiado na detecção de perigo...
AMC:
Sim, os professores atentos podem identificar sinais de risco na criança ou família.

E: Que sinais ou sintomas os professores devem ter em consideração para despistarem eventuais situações de risco?
AMC: Se notam que uma criança anda mais triste ou irritável. O isolamento, medos excessivos e difusos ou uma agressividade descontrolada podem ser sinais de que algo se passa. Numa criança pequena as brincadeiras repetidas sobre o acto sexual também podem ser suspeitas. Se uma criança aparece negligenciada ou com lesões frequentes isso também deve ser investigado.

E: Como se contorna uma situação de agressividade na relação aluno-professor?
AMC: Muitas vezes tenho realçado a importância do papel do professor-tutor com quem o aluno tenha uma afinidade particular e que lhe dê a atenção que necessita, que lhe mostre que se preocupa com ele. Poderá então falar com ele para saber o que se passa e ensinar-lhe formas alternativas de reagir, servindo de intermediário com os outros professores.

E: Que conselhos daria aos professores para tirarem melhor partido da relação com os alunos?
AMC:
Nunca humilhar nem criticar diante dos outros. Procurar os aspectos positivos de cada aluno e valorizá-los. Falar particularmente com o aluno problema no final da aula, mostrando que o quer ajudar e não punir. Tentar envolver a família sem fazer julgamentos prévios.

Seria importante a introdução de cursos alternativos na escola, que permitissem a expressão através da arte (pintura, teatro e música). Seria uma forma excelente de canalizar as energias e emoções intensas destes jovens de um modo construtivo e mais adaptativo.

O papel da escola é fundamental porque é onde os jovens passam grande parte do tempo. Seria desejável encontrar outras respostas com mais apoios e adaptação de currículos pela via pré-profissional no sentido de ajudar cada jovem a descobrir um rumo, acreditando no seu potencial e fornecendo-lhes modelos estruturantes.

Não podemos limitar-nos a juntar todos os alunos com comportamentos disfuncionais numa turma com condições especiais. Há que fazer mais do que isso. Saber motivar cada jovem, mostrar que acreditamos nele e dar-lhe modelos orientadores que possivelmente nunca teve. Daí a importância do professor-tutor, que tenha uma afinidade particular com determinado aluno. O problema é sempre relacionado com o afecto. Todos precisam de sentir que são importantes para alguém...

In: EDUCARE

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

(Re)Inventar a Sociedade

Daqui a algumas horas chega a despedida de 2010, são pedidos desejos para o novo ano...Eu não não sou excepção...

Muito se tem falado de crise e de como esta tem afectado todos os sistemas financeiros e economias mundiais...Diria que a pior crise não é essa...A pior crise é termos uma Sociedade cada vez mais egoísta, onde os únicos valores são o dinheiro e apenas olhar para o "meu próprio umbigo"...

Sem a prática de valores, não podemos falar, nem viver em Sociedade...

Eu atrevo-me a dizer que é possível vencer esta crise, mas para isso precisamos de Mudar Mentalidades...É preciso "abraçar" os desafios que estão a surgir...

Para este novo ano cada um de nós terá de (re)inventar o futuro...Teremos de contrariar o destino...

Seja qual for o nosso papel na Sociedade, teremos de ser criadores do nosso futuro e não ficarmos subjugados ao nosso destino!

Temos de colocar o melhor de nós em cada gesto, em cada acção, em tudo o que fazemos...Só assim conseguiremos (re)inventar uma sociedade mais inclusiva onde se compreenda e aceite as diferenças de cada um...

Uma Sociedade onde o preconceito é deixado de lado...E onde todos ocupam o seu lugar independente da cor, sexo, opção religiosa ou sexual, pela deficiência ou classe social...
 
"Sou um só, mas ainda assim sou um. Não posso fazer tudo, mas posso fazer alguma coisa. Por não poder fazer tudo, não me recusarei a fazer o pouco que posso. O que eu faço é uma gota no meio de um oceano, mas sem ela o oceano será menor" 

E termino com esta citação de Max Gehringer e com um pouco de música...

 

Votos de um Excelente 2011 a todos os visitantes, seguidores, amigos e familiares...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz Natal

Chegou o Natal!

Festa da Família, época de magia...

As crianças mantêm os sonhos bem vivos, na esperança que o Pai Natal traga muitas prendinhas...Eu...

Bem...Eu, mantenho bem viva a esperança que a Sociedade vai mudar...que vamos ter uma Inclusão real de Todos independentemente da cor, sexo, opção sexual ou religiosa, pela classe social ou deficiência...

Que haja mais respeito pelas diferenças e valorização da diversidade como a principal riqueza de uma Sociedade!


A Todos os Visitantes, Seguidores, Amigos e Família...desejos sinceros de um Santo e Feliz Natal!!!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

ORTOPEDISTA DO HOSPITAL PEDIÁTRICO ESCLARECE

Excesso de peso das mochilas escolares não provoca deformidades da coluna.

Com o regresso às aulas, os encarregados de educação preocupam-se em adquirir as longas listas de material escolar, aumentando o peso de pastas e mochilas. Ao contrário do que se pensa, contudo, o peso excessivo das mochilas pode originar desconforto, mas não provoca deformidades da coluna. As escolioses, por exemplo, são deformidades que não são originadas ou agravadas por sobrecarga mecânica.

"É verdade que frequentemente os alunos carregam para a escola um peso exagerado. Isso acontece em Portugal e em muitos países economicamente desenvolvidos. As crianças usam muitas vezes mochilas sobrecarregadas e isso deve ser evitado por causar cansaço muscular e desconforto. É também uma simples questão de bom senso. Contudo, a esse exagero de peso, têm sido erradamente atribuídas consequências que nada têm a ver com o problema. Embora o excesso de esforço possa ser doloroso, cerca de 20% dos adolescentes tem dores nas costas devido a patologias específicas ou a causas não relacionadas com o peso do material escolar", explica Jorge Seabra, director do Serviço de Ortopedia do Hospital Pediátrico de Coimbra, que se tem dedicado ao tratamento da patologia da coluna vertebral em crescimento. O especialista continua, explicando que "o erro ainda é maior quando se julga que o peso dos livros escolares pode causar uma escoliose. A sobrecarga pode gerar cansaço mas não origina nenhuma deformidade permanente da coluna", diz Jorge Seabra, apoiando-se na enorme investigação existente sobre as deformidades da coluna vertebral, nomeadamente na divulgada pela Scoliosis Research Society (http://www.srs.org/), a maior sociedade científica dedicada a esse campo.

A escoliose nos jovens pode ter diversas causas (malformações congénitas, paralisias e outras doenças, e síndromes) mas, na maioria dos casos, surge em crianças e (principalmente) em adolescentes “normais”. É uma deformidade tridimensional e não apenas um desvio ou uma simples curvatura da coluna para um dos lados como aparece em exames radiológicos que a retratam num só plano. Existe uma componente torsional importante que faz com que a coluna se enrole como uma escada em caracol. A escoliose está ligada, na juventude, ao processo de crescimento da coluna vertebral e não tem qualquer ligação com más posturas, sobrecarga mecânica ou diferença do comprimento dos membros. As últimas investigações apontam para que esta possa ser causada por factores genéticos complexos não sendo tratada eficazmente com ginástica, natação ou fisioterapia. A única forma de corrigir uma escoliose acentuada é através de uma intervenção cirúrgica.
"Há algum alarmismo nos media em relação a sequelas futuras causadas pelo peso das mochilas. Pode ser mais perigoso, para os jovens, praticarem um desporto com demasiada exigência correspondendo às ambições de pais que, por vezes, vêm nos filhos uns verdadeiros 'Ronaldinhos'. Ninguém defende que se sobrecarreguem as crianças com pesos desproporcionados, mas não é correcto dizer que elas podem ficar deformadas por isso ou com lesões irreversíveis caso ultrapassem o valor de 10% do peso do corpo aconselhado pela OMS. Apesar disso, os pais e educadores devem ter senso quanto ao peso da mochila. Com o excesso, a criança pode sentir fadiga muscular e dores. São também mais fáceis as quedas, essas sim de consequências imprevisíveis. Mas, por si só, nos jovens, a sobrecarga, não causa sequelas definitivas nem deformidades da coluna. Isso pode acontecer nos adultos, e mais nos idosos, por um mecanismo diferente, devido ao colapso ou desgaste da idade", afirma Jorge Seabra.

Fonte:Ideias Concertadas

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sinto-me um "alien"

Quem me conhece e vai convivendo comigo percebe esta música...


Numa altura em que tanto se fala em Direitos Humanos e Inclusão não posso aceitar que haja mentalidades tão retrógradas e pessoas tão ignorantes...desculpem mas não tenho outro termo...

É inconcebível que nos dias que correm ainda haja escolas a recusar matrículas de alunos, só por estes terem necessidades educativas especiais...Esquecem-se que todos nós em algum momento da vida também já precisámos de adequações, já precisámos de adequar algo para atingir um objectivo...e esquecem-se também que aquela matrícula que estão a recusar é de uma criança...de uma criança que tem o direito a ter uma educação igual a qualquer outra criança...

É vergonhoso que nos dias que correm tenhamos pessoas com tanta falta de profissionalismo, com tanta falta de civismo...sem o mínimo de sensibilidade...

Este é um dos motivos que me levam a sentir que sou um "alien" nesta sociedade onde vivo...Existem outros motivos, que por uma questão ética não posso divulgar...

Mas não me deixo abater...até porque sei que existem mais "alien" a lutar e a vencer no dia-a-dia...

O caminho faz-se devagar...e estou certo que “Não desistimos, porque as más políticas não são tão fortes como os bons sonhos.”( Pereira, Mário 2009)

domingo, 12 de setembro de 2010

Falta de sensibilidade

Cada vez mais me convenço que são as mentalidades que têm de mudar na nossa Sociedade...Só assim poderemos conseguir mudar gestos, atitudes, comportamentos...

Ao longo do dia, em vários locais, tive essa prova...Revoltei-me, fiquei desiludido, triste...Ainda para mais porque num desses locais estavam colegas, ligados à Educação e que deveriam ter uma sensibilidade diferente para o diálogo...Outro dos acontecimentos, decorreu na minha cidade, Viseu...

A organização da Feira de S. Mateus convidou um Grupo, denominado de Grupo de Jovens do Núcleo da Associação de Paralisia Cerebral para a dinamização do espectáculo dessa noite...Até aqui tudo bem, as entidades e a organização estavam de parabéns e eu estava ansioso para observar que tipo de evento nos esperava...Qual não é minha surpresa quando vejo um empilhador junto ao palco...um problema pensei eu...E realmente era...mas um problema bem+ grave, porque esse empilhador estava a subir PESSOAS com cadeira de rodas para o palco...

Comecei-me a questionar e aproximei-me junto de um dos elementos da Associação e perguntei-lhe porque é que aquilo estava a acontecer?!? Se a organização convidou esta Associação, de certo eles tinham dito que necessitavam de uma rampa?!? E ele respondeu-me afirmativamente...Tinham contactado a Organização e tinham solicitado uma Rampa de acesso ao Palco...É impensável que não tenha havido preocupação, por parte dos responsáveis da Feira de S. Mateus, para a resposta a esta pessoas... É de lamentar que não se preparem os locais a pensar em TODOS!!!

A vida é feita de pequenos pormenores que são bem maiores do que aquilo que muitos imaginam...

É necessário sensibilidade para "crescer", para melhorar mentalidades...

"Juntos vamos conseguir"!