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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Portugueses descobrem caminho para potencial tratamento de leucemia infantil

Uma equipa de investigadores portugueses descobriu como travar a evolução de um tipo de leucemia frequente nas crianças, anunciou hoje o Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

O trabalho foi desenvolvido por uma equipa de investigadores sob a coordenação de João Taborda Barata, com «resultados bastante promissores no que respeita ao potencial desenvolvimento de uma terapêutica alternativa para tratamento da leucemia linfoblástica aguda de células T (LLA-T), um tipo de leucemia bastante frequente em crianças», revela o Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Publicada na revista científica Oncogene, a investigação estudou o papel da proteína 'CHK1' em doentes e concluiu que esta se encontra 'hiperativada', permitindo a viabilidade das células tumorais e a proliferação da doença.

«Demonstrámos que a expressão do gene CHK1 está aumentada neste tipo de leucemia. O curioso é que o CHK1 serve como uma espécie de travão para a multiplicação celular, mas acaba por ajudar as células leucémicas porque as mantém sob algum controlo. Se inibirmos o CHK1 as células tumorais ficam tão 'nervosas' - o que chamamos de 'stresse replicativo' - que acabam por morrer», explica João Barata.

Deste modo, o CHK1 constitui «um novo alvo molecular para potencial intervenção terapêutica em leucemia pediátrica», acrescenta.

A equipa de investigadores utilizou um composto farmacológico (PF-004777736) para inibir o gene CHK1 e verificou que o composto induzia a morte de células de LLA-T (leucemia linfoblástica aguda de células T), sem afetar as células T normais.

A investigação conseguiu assim observar que a utilização daquele composto farmacológico é capaz de interferir na proliferação das células afetadas e de interromper o seu ciclo de vida, diminuindo o desenvolvimento da doença.

Apesar de este tipo de leucemia ser um cancro que apresenta grande sucesso terapêutico nas crianças, os efeitos secundários resultantes das terapias atuais são bastante consideráveis.

A LLA- T é um cancro do sangue (tumor líquido) especialmente frequente em crianças e que se carateriza por um aumento descontrolado do número de linfócitos T (glóbulos brancos), as células do sistema imunitário responsáveis por identificar e combater agentes externos causadores de infeção.

A incidência de LLA em geral é relativamente similar na Europa e nos Estados Unidos da América, com um caso em cada 50.000 habitantes, sendo mais frequente no sexo masculino do que no sexo feminino e apresentando dois picos de incidência: dos dois aos cinco anos e após os 50 anos de idade.

In: TSF

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O sonho comanda a vida. Não é só poesia, é um facto científico

Andar com a cabeça nas nuvens não é perda de tempo. Sonhadores têm o cérebro mais activo, lidam melhor com imprevistos e desenvolvem um raciocínio lógico

Na infância é a fantasia que dita as regras. Acordar um dia com vontade de ser médico, mudar para professor horas depois e chegar ao final da semana com a certeza de que se vai ser bombeiro. A imaginação de uma criança não tem limites, diz o senso-comum. Mas quantos cresceram a ouvir não ser possível andar com a cabeça nas nuvens o resto da vida? Os que acreditaram nessa lengalenga dos adultos podem chegar à conclusão que, se calhar, tudo não passou de uma história da carochinha. A ciência tem vindo a demonstrar que essa mentalidade pode no futuro ser mais prejudicial do que benéfica.

Usar os aspectos positivos da imaginação poderá superar o lado negativo. Há vários estudos a apontar nesse sentido e, por isso, da próxima vez que alguém o recriminar por viver na lua, rebata as críticas com provas científicas. Investigações na área da psicologia cognitiva já mostraram que sonhar durante o dia é um forte indicador de um cérebro activo e bem apetrechado para lidar com os desafios do quotidiano.

Mentes que vagueiam sem rumo e a qualquer hora são as que melhor lidam com uma rotina acelerada e cheia de imprevistos. É aquilo que os cientistas chamam de memória de trabalho e que se caracteriza pela capacidade de manter e recordar a informação perante condições adversas. É isso pelo menos que conclui o estudo da Universidade de Wisconsin publicado na revista Psychological Science.

Nada como um caso prático para se perceber o que estes cientistas estão a tentar provar. Imagine que deixou a casa de um amigo a altas horas da noite e prometeu ligar-lhe assim que chegasse ao seu apartamento. Pelo caminho pára num posto de gasolina, enche o depósito e continua o seu percurso até se deparar com um acidente na estrada. Sai para ver se precisam da sua ajuda, chama o 112 e espera pela ambulância. Chega a casa quase ao amanhecer e, ainda assim, lembra-se de ligar ao seu amigo para dizer que chegou são e salvo. Essa é uma capacidade que os psicólogos atribuem à memória de trabalho e que permite manter ou recuperar a informação enquanto ela nos for útil.

Neste estudo, os investigadores americanos procuram perceber a relação entre a capacidade de memória de trabalho e a tendência para sonhar acordado. E concluíram que quem sonha acordado tem maior habilidade para se concentrar em ambientes que exigem estar a atento a múltiplos impulsos. São aqueles por exemplo que estão no duche, no autocarro, a tomar a bica e já estão a resolver uma série de problemas associados à rotina do trabalho. Já antes se tinha constatado que a memória de trabalho está ligada aos mais altos QI, mas este estudo demonstra que esta habilidade está interligada à capacidade de pensar ou reagir além das nossas imediações.

PAI NATAL Durante décadas, a imaginação foi encarada como o escape das crianças que se esfuma assim que crescem e são obrigadas de lidar com o mundo real. Mas cada vez mais os investigadores reconhecem a importância do papel da fantasia na inteligência emocional e até no raciocínio lógico. O Children's Research Laboratory, da Universidade do Texas em Austin fez uma série de estudos que envolveram o Pai Natal, a fada dos dentes e 91 crianças encafuadas num laboratório. O objectivou passou por analisar a partir de que idade as crianças são capazes de distinguir entre figuras reais e fictícias.

O desafio passou por perceber porque é que as crianças de três anos, que até sabem distinguir o real da fantasia, continuam aos 8 anos ainda a acreditar no Pai Natal. Os investigadores descobriram que enquanto os miúdos de 3 anos percebem o conceito do que é real e não é, quando chegam aos 7 são facilmente persuadidos pelos argumentos dos adultos. Do ponto de vista da lógica, fará todo o sentido acreditar no Pai Natal. Nunca o viram em carne e osso, mas o certo é que as prendas aparecem debaixo da árvore de Natal. Uma criança de 5 anos tem a capacidade cognitiva de juntar estes factos e só retiram conclusões erradas porque foram deliberadamente enganadas pelos pais. Essa capacidade de relacionar diferentes aspectos que dão consistência à fantasia é o que vai permitir perceber melhor o mundo real dos adultos.

Embora seja importante não é obrigatório que os pais encorajem a fantasia nos seus filhos, avisam os investigadores. Se a criança já tem um amigo imaginário ou se já está predisposta a acreditar no pai natal, deve ser estimulada, aconselha a coordenadora do estudo, Jacqueline Woolley. Quando as crianças começam a questionar a veracidade destas personagens, o principal é perceber até onde vai seu cepticismo. Se as dúvidas forem sólidas, o melhor é abrir o jogo e aceitar que chegou o momento da verdade.

EMPATIA A relação entre a memória, a imaginação e a empatia (capacidade de se colocar no lugar do outro) é uma outra tese científica actualmente defendida pelos psicólogos e neurocientistas. Ao longo de décadas, os estudos sobre estes três campos evoluíram de forma isolada. Daí que a tendência que uma pessoa tem para se preocupar com os outros raramente está relacionada com a memória ou a capacidade de imaginar episódios ou acontecimentos nunca vividos. Os investigadores do departamento de psicologia da Universidade de Harvard sugerem que essas habilidades cognitivas podem estar ligadas.

A habilidade que se tem em imaginar experiências nunca vividas torna mais fácil a tarefa de entender o outro. Ou seja, desenvolve a empatia, facilita a capacidade para partilhar experiências e melhora as relações sociais. Conclusões que os investigadores querem continuar a estudar, mas que para já até nem são assim tão surpreendentes. Quem é capaz de imaginar algo pelo qual nunca passou também será capaz de perceber melhor o que os outros estão a passar.


Por: Kátia Catulo

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Português descobriu o que acontece no cérebro antes de fazermos um movimento

Rui Costa e colegas descobriram que a decisão para fazer um movimento simples como levantar o braço depende de dois circuitos neuronais diferentes e não de um só. Descoberta pode ter implicações no tratamento de sintomas de doenças como a de Parkinson.

Luzes, neurónios, acção: foi através da observação desta sequência de acontecimentos que uma equipa de cientistas, com participação portuguesa, conseguiu mostrar que são necessárias duas rotas diferentes de células nervosas para se gerar movimento.

Utilizando uma nova técnica, Rui Costa, neurocientista que trabalha na Fundação Champalimaud, em Lisboa, e colegas, puseram em causa o que se pensava ser a função de cada uma das rotas – defendia-se que uma servia para accionar um determinado movimento, outra para inibir o mesmo movimento. Mas, afina,l o comando para começar uma acção é mais complexo, mostra um estudo publicado nesta quarta-feira na edição online da revista Nature.

O que é uma acção: levantar o braço, caminhar até à casa de banho ou saltar de uma ponte? As três, mas a terceira necessita de um processo mental mais complexo para a tomada de decisão. O tipo de acção que Rui Costa e os colegas do Instituto Nacional do Abuso de Álcool e do Alcoolismo, nos Estados Unidos, estudaram prende-se mais com as duas primeiras. São esses movimentos mais simples que são afectados por doenças do sistema nervoso como a de Parkinson ou a coreia de Huntington.

Essas doenças afectam os gânglios de base, estruturas bem definidas no cérebro compostas por células nervosas que estão abaixo do córtex. Uma das actividades que são levadas a cabo pelos neurónios destas estruturas conduz à tomada de decisão para a iniciação ou não de movimentos mais simples.

Sabia-se que dois circuitos diferentes que partem destes gânglios afectavam esta decisão. Um dos circuitos é directo e o outro tem mais intermediários e, por isso, chama-se indirecto. A doença de Parkinson, que é inibidora desses movimentos, e a coreia de Huntington, que provoca movimentos musculares descontrolados, afectam estes dois circuitos. Por isso, teorizou-se que o circuito directo servia para activar o movimento e o indirecto servia para o inibir.

Mas faltava uma observação experimental. “Nunca se conseguiu medir directamente a actividade destes neurónios”, diz Rui Costa ao PÚBLICO. O trabalho, que começou quando Rui Costa ainda estava nos Estados Unidos, ultrapassou esta dificuldade experimental e mostrou que aquela hipótese parece estar errada.

As células nervosas de cada circuito têm identidades diferentes e produzem proteínas únicas. A equipa criou ratinhos que produziam proteínas fluorescentes em cada um dos circuitos. Estas proteínas emitiam mais luminosidade quando os neurónios se activavam. Com uma pequeníssima fibra óptica instalada no cérebro dos ratinhos e ligada a um contador de fotões, os cientistas conseguiram medir a actividade dos dois circuitos neuronais separadamente.

Depois, puseram os ratinhos a iniciar um movimento e mediram a actividade do circuito directo e do indirecto. “Menos de um segundo antes de iniciar o movimento, os dois circuitos ficavam mais activos, depois iniciava-se o movimento”, conta Rui Costa. “Para iniciar um movimento consciente, é necessário os dois circuitos estarem activos”, conclui.

Os cientistas não fizeram nenhuma experiência que testasse a actividade dos circuitos quando uma acção era inibida. Só se verificou que, quando os ratinhos se mantinham parados, os dois circuitos estavam menos activos.

Não se sabe qual a função de cada um dos circuitos. Uma das possibilidades é que, enquanto um circuito está a activar uma acção, o outro acaba por inibir todas as outras, explica Rui Costa.

Mas estes resultados podem ajudar “a melhorar o tratamento dos sintomas das doenças neuronais”, diz o investigador. “O próximo passo é tentar manipular a actividade destes circuitos, de forma a controlar o movimento.”


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Universidade do Minho cria plataforma web para prevenir doenças neurocognitivas

Investigadores da Escola de Psicologia da Universidade do Minho criaram uma plataforma na internet com perto de um milhar de exercícios, capaz de estimular o cérebro de forma a evitar o aparecimento ou a progressão de doenças neurocognitivas.

Segundo fonte da Universidade do Minho (UMinho), aquela plataforma, "grátis e pioneira em Portugal", já foi testada por meia centena de pessoas com défices neuropsicológicos associados a uma variedade de doenças neurológicas e psiquiátricas, que registaram "melhorias em termos cognitivos e cerebrais" em apenas três meses.

A utilização da plataforma obedece a recomendação de um especialista, após o que são criados o nome de utilizador e a respetiva "password" (palavra-chave) para o paciente, devidamente associado a uma instituição clínica.

O problema diagnosticado determinará o tipo de exercício a desenvolver, como treinos de memória, lógica, concentração e funções executivas, entre outros, com o objetivo de exercitar o cérebro, como se de um músculo se tratasse.

"São cerca de mil exercícios cognitivos capazes de estimular as zonas do cérebro associadas ao surgimento do AVC, da esclerose múltipla ou do Alzheimer, doenças neurológicas que atingem milhões de pessoas em todo o mundo", acrescentou a fonte.

Além disso, a plataforma está também direcionada para a intervenção em perturbações do neurodesenvovimento, como o Síndrome de Williams.

O doente é avaliado consoante o tempo despendido por sessão e o número de erros, acertos e tentativas de realização.

Quando a performance é tida como satisfatória, aumenta-se o nível de dificuldade.

Os exercícios, geridos pelo clínico, poderão ser realizados em contexto de terapia, em casa com a ajuda de familiares ou, até, a sós.

Para já, o instrumento está a ser aplicado em pacientes do Laboratório de Neuropsicofisiologia e dos hospitais de Braga, Covões (Coimbra) e Magalhães Lemos (Matosinhos).

A longo prazo, a plataforma pode também ser encarada "como estratégia de prevenção para um envelhecimento mais saudável ou, então, ser implementada em contexto escolar para colmatar o défice de atenção, considerado como uma das principais causas de insucesso escolar".

In: JN

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O cérebro nos tempos de memória e aprendizagem


A capacidade de nos adaptarmos a uma realidade diferente, de construirmos a nossa história como seres únicos bem como de alargarmos as nossas raízes culturais está directamente ligada à aprendizagem e à memória.

* Licenciada em Biologia Microbiana e Genética pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e doutorada em Neurociências pelo King's College London em 2009. 

Por exemplo, para aprender uma nova língua, um novo desporto ou uma nova forma de pensar os nossos neurónios estão a reorganizar-se. Estão a produzir mais, menos ou diferentes neurotransmissores (moléculas de que já vos falei noutras crónicas) e a alterar ligações a outros neurónios.

Aprender implica a passagem de memórias de curto-prazo para longo-prazo, isto porque as memórias são instáveis! Cada vez que recordamos como se diz “olá” em mandarim (nǐ hǎo), forma-se uma memória diferente, há uma reconstrução.

Dormir 8 a 9 horas por dia
ajuda a aprender
Quando recordamos nǐ hǎo o cérebro divide a memória, actualiza-a, traz a memória à consciência e depois sintetiza novas proteínas para uma nova estrutura da memória à medida que esta regressa para longo-prazo, mais consolidada. Assim, a repetição ajuda a aprender.


Também o entusiasmo, a ingestão de hidratos de carbono, dormir 8 a 9 horas por dia e ainda a programação de aprendizagem inata (com a qual já nascemos) ajudam a aprender.

Na aprendizagem inata estão envolvidos os neurónios espelho (de que também já vos falei) bem como a região temporal do córtex (um pouco acima das nossas orelhas) que nos permite reconhecer rostos familiares.

É fácil compreender que o entusiasmo ajuda a aprender pois temos tendência a recordar mais facilmente eventos que despoletaram uma resposta emocional. O cérebro aumenta o número de ligações “ON” de neurónios.

Quanto aos hidratos de carbono, são estes que fornecem glucose (energia) ao cérebro porque se transformam em glicoproteínas, moléculas que funcionam como uma “cola” entre as sinapses dos neurónios, facilitando as suas ligações, e claro, a aprendizagem.

Daí a extrema importância do pequeno almoço e de snacks ao longo do dia, principalmente em períodos de aprendizagem como as aulas. Está comprovado que dietas extremas dificultam a aprendizagem.

São de extrema importância o pequeno almoço
e os snacks ao longo do dia, principalmente
em períodos de aprendizagem como as aulas
A importância de uma boa noite de sono, está directamente relacionada com os tais períodos REM (movimento repetido dos olhos) e não-REM de que falei a semana passada. Em período REM ou de sonhos, as ligações entre os neurónios que transportam a informação aprendida são fortalecidas.

Já no período não-REM, os canais de cálcio (proteínas envolvidas na “corrente eléctrica” do neurónio) ficam mais activos, ocorre mais actividade neuronal de reposição de informação, fortalecendo a memória de longo-prazo.

Para concluir, se olharmos para nós como seres feitos de moléculas e células bem pequeninas, talvez consigamos perceber que, a este nível, os processos de aprendizagem e memória que ocorrem em nós, humanos, são em quase tudo semelhantes aos de um molusco, como um polvo ou uma lula mas também uma amêijoa.

E muitas vezes, é por isto que outro tipo de seres vivos, que não só os humanos, são utilizados em laboratório para elucidar processos como este, da aprendizagem!

A elucidação destes processos vai contribuir para o tratamento de distúrbios de aprendizagem como dislexia (dificuldade de leitura, escrita e soletração), disgrafia (alteração da escrita), discalculia (dificuldade em compreender e manipular números), dispraxia (dificuldade em desempenhar movimentos correctamente - síndrome do desastrado) e défice de atenção com ou sem hiperactividade.

Estes distúrbios não implicam que o QI da pessoa seja baixo, muitas vezes acontece exactamente o contrário.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Investigadores tentam descobrir como se organiza a memória

Como se armazenam a se recuperam as lembranças é um processo que, apesar de tudo que se tem descoberto, continua em grande parte por explicar. Uma equipa de cientistas descobriu agora que algumas pessoas guardam o que aprendem segundo o seu significado.

“Acreditamos que há pessoas que armazenam o que aprendem de maneira semântica, outras que o fazem conforme o momento de aprendizagem ou de muitas outras formas”, afirma Jeremy Manning, investigador da Universidade de Princeton, e um dos autores de um estudo agora publicado no «Journal of Neuroscience».

Segundo Manning, conhecer que processo segue cada indivíduo permitirá desenhar estratégias para a aprender mais em menos tempo. O estudo foi realizado com pacientes com epilepsia que iriam ser submetidos a uma neurocirurgia. Os investigadores conectactam eléctrodos directamente sobre o cérebro e estudaram a sua actividade neuronal com muita precisão.

Às pessoas envolvidas na experiência foi apresentada uma lista de 15 palavras, uma por segundo; ao mesmo tempo, media-se a 'pegada' eléctrica que deixava cada uma delas. Depois de um tempo de descanso, foi-lhes pedido que que dissessem as palavras em voz alta pela ordem que quisessem.

Os investigadores queriam perceber quantas pessoas agrupavam as palavras que recordavam segundo o seu significado. Alguns fizeram isso, outros não, pelo que deduziram que nem todos os indivíduos seguem a mesma estratégia.

Para saber se duas palavras têm relação semântica, os investigadores utilizaram um modelo conhecido como Análise Semântica Latente (LSA). Este, analisa milhares de documentos escritos e procura as palavras que aparecem juntas muitas vezes.

Por exemplo, é provável que num texto com a palavra 'martelo' se encontre também a palavra 'prego', mas em poucos textos sobre o tema aparecerá a palavra 'ganso'. Esta 'proximidade' de palavras pode ser representadas numa escala de zero a 100.

O estudo revelou que algumas pessoas agrupam as palavras na sua cabeça segundo o modelo LSA. “Os padrões mentais de cada um formam uma espécie de 'pegada neuronal' que permite saber como se organizam as recordações e os pensamentos através da associação entre palavras”, diz Manning.

Estas técnicas podem aplicar-se ao estudo de outras formas de relação: temporal, por tamanho, aspecto, textura, entre outros. “Dada a importância da linguagem no pensamento humano, identificar uma representação neuronal que reflicta o significado das palavras como são recordadas, aproxima-nos um pouco mais do objectivo de localizar os pensamentos”, acredita Michael Kahana, outro dos investigadores.

Para desenvolver este estudo sem necessidade de recorrer a cirurgias invasivas, Jeremy Manning mudou-se para a Universidade de Princeton. “Queremos desenvolver uma técnica que permita resultados semelhantes usando imagens de ressonância magnética funcional”, explica. No entanto, não avança uma data para quando isso será possível nem mesmo se será possível.


terça-feira, 8 de maio de 2012

Estudo revela que cafeína poderá ser usada em crianças hiperactivas

Pode parecer uma contradição mas a solução para os problemas das crianças com défice de atenção e hiperactividade pode estar, afinal, numa chávena de café. É pelo menos para aí que apontam as conclusões preliminares de um estudo que está a ser realizado por uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra (UC), liderada por Rodrigo Cunha. 

“O princípio activo que é hoje usado para tratar crianças com défice de atenção e hiperactividade é o metilfenidato que é um derivado das anfetaminas, ou seja, um estimulante. Num sistema que já está tão acelerado, isto é quase como dar um empurrão que o obriga a regressar aos carris. E foi pelo facto de termos visto que havia um paralelismo tão grande entre as respostas à anfetamina e à cafeína, em termos sobretudo motores, que decidimos lançar este estudo que veio confirmar essa ideia de que é possível utilizar nestas crianças um estimulante que não tenha consequências tão gravosas como o metilfenidato”, sustenta Rodrigo Cunha, docente da Faculdade de Medicina da UC, ao PÚBLICO. 

A pesquisa, cujas conclusões foram aceites para publicação na revista European Neuropsychopharmacoly, poderá levar ao desenvolvimento de uma nova geração de fármacos muito mais selectivos, ou seja, “que actuam apenas no tratamento do défice de atenção, sem a toxicidade e a dependência” que, segundo o investigador, estão presentes nos fármacos actualmente utilizados para tratar um problema que se calcula afectar cerca de 7% das crianças europeias”. Mas, conforme ressalva Rodrigo Cunha, “a prudência manda que se espere por um estudo clínico antes de os pais se porem a mudar os hábitos dietéticos destas crianças”. 

Os primeiros ensaios decorreram, ao longo dos últimos três anos, em ratinhos. Por estes dias, a equipa de investigadores debate-se com a necessidade de conseguir financiamento na ordem dos “250 mil a meio milhão de euros” para as duas fases que se seguem. “Por um lado, queremos transpor esta intervenção para crianças com défice de atenção e hiperactividade em ambiente hospitalar e, em paralelo, queremos avançar para a segunda fase da experimentação animal que nos permitirá identificar os alvos moleculares e os mecanismos pelos quais a cafeína confere este benefício”, explica Rodrigo Cunha. 

O estudo pré-clínico foi financiado com verbas norte-americanas, do National Institute of Health, onde se calcula que 20% das crianças sofrem de problemas relacionados com hiperactividade e défice de atenção. Em regra, a patologia surge por volta dos nove anos de idade e “atinge o pico” de modificação de comportamento, entre os 13 e os 14 anos.

Mário Cordeiro alerta para diagnósticos "apressados"

Na reacção a esta investigação, o pediatra Mário Cordeiro alerta para os diagnósticos “apressados” de défice de atenção e hiperactividade em crianças que “o que têm é um problema de ritmos de vida e de sobrecarga de estímulos”. 

“Os rapazes, por exemplo, devido à sua constituição cerebral, têm grande dificuldade em se concentrar quando sujeitos a estímulos variados, e consequentemente dispersam-se, tornando-se depois irrequietos”, exemplifica, para sustentar que “o número de crianças com real síndroma de défice de atenção é reduzido, e nestas, sim, o fármaco deve ser dado porque substitui mediadores químicos cerebrais que estão ‘em baixa’”. 

No seu consultório, há muitos anos que Mário Cordeiro preconiza que seja dado café pela manhã a algumas destas crianças “desde o 1.º ano do 1.º ciclo”, porquanto este “ajuda a filtrar os estímulos inúteis laterais, a focar a atenção e, consequentemente, a aprender mais na escola e a levar menos estímulos e informação inútil para casa, aprendendo melhor e dormindo melhor porque à noite o cérebro tem menos “lixo informativo” para deitar fora”. Cordeiro acrescenta que “como a semivida do café é, no máximo, de dez horas, às seis da tarde já não há café no organismo e as crianças dormem muito bem”. “De resto”, acrescenta, “se não houver contra-indicação (certas situações patológicas raras), o café não tem efeitos colaterais e faz bem, nesta sociedade de hiperestimulação e de pouco repouso”.

Cafeína é benéfica para tratamento da hiperactividade infantil

Um estudo realizado por investigadores da Universidade de Coimbra (UC) indica que a cafeína é benéfica para tratar a hiperatividade das crianças, disse hoje à agência Lusa o coordenador da investigação, Rodrigo Cunha.

Os investigadores procuram agora financiamento estrangeiro para continuar a desenvolver o estudo.

A administração de cafeína em doses equivalentes a três ou quatro chávenas de café por dia "controla o défice de atenção e hiperatividade, sem causar efeitos secundários", refere a UC em nota hoje divulgada a propósito do estudo.

A hiperatividade é atualmente controlada com a ritalina, fármaco derivado da anfetamina, que tem como um dos efeitos secundários a dependência.

"O que aqui se coloca não é dar café às crianças mas poder medicá-las com cafeína e identificar como ela atua" no cérebro, frisou Rodrigo Cunha, investigador de Neurocirurgia e docente da Faculdade de Medicina da UC.

Para este investigador, "é seguro afirmar que o consumo de café é benéfico em crianças e adolescentes, mas a clínica deve obedecer a todo um protocolo".

Os resultados obtidos carecem "de ensaios clínicos e, por isso, não devemos, ainda, recomendar aos cuidadores de crianças hiperativas a inserção de café na sua dieta", frisou.

Desenvolvida ao longo dos últimos três anos, a investigação veio demonstrar que a cafeína "restabelece a função da dopamina enquanto neurotransmissor do cérebro (com um papel muito importante no comportamento e cognição)" e permitiu evidenciar "modificações que ocorrem no cérebro em situações de défice de atenção e hiperatividade".

A inovação do estudo desenvolvido pela equipa da UC e Centro de Neurociências de Coimbra está, segundo Rodrigo Cunha, "no uso da cafeína em modelos animais para tratar do défice de atenção, o que abre caminho para se confirmar se a sua administração no homem causa menores riscos que a anfetamina e, a partir daí, desenvolver um novo fármaco".

Ao nível dos efeitos secundários, "o grande problema das anfetaminas é criar uma dependência muito marcada e a perda de eficiência ao longo do tempo, além de estar associada a uma maior propensão a processos irreversíveis de consumo de outros fármacos e drogas", explicou.

O estudo vai agora centrar-se no desenvolvimento de químicos semelhantes à cafeína, a serem validados em animais, disse o investigador, que procura financiamento fora do país.

"Estou neste momento a escrever uma proposta, a solicitar novo financiamento, mais uma vez aos Estados Unidos (National Institute of Health, que financiou o estudo pré-clínico)", afirmou o investigador, que viu o projeto ser recusado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Para os ensaios clínicos posteriores, de validação no homem dos dados obtidos em animais, é necessário "cerca de um milhão de euros", mas Rodrigo Cunha está ciente de que esse financiamento virá "sempre de fora de Portugal".

Na Europa, disse, sete por cento das crianças estão medicadas devido a défice de atenção e hiperatividade e estima-se que nos Estados Unidos sejam 20 por cento.

Regra geral, explicou, a patologia surge por volta dos nove anos de idade e "atinge o pico" de modificação de comportamento, que afeta o dia a dia da criança no seu desempenho escolar e interação social, aos 13/14 anos, idade a partir da qual surge o "perfil claramente patológico".

In: I online

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Descoberto método para ajudar alunos a ler e escrever

A docente universitária Ana Cristina Silva coordenou três investigações com alunos, com dificuldades económico-sociais, que frequentavam o primeiro, segundo e quarto anos de escolaridade.

"A aprendizagem é um processo complexo e temos muitas crianças que enfrentam o insucesso escolar logo no primeiro ciclo. Não nos podemos esquecer que existem crianças que não são acompanhadas em casa pela família e que vão ficando para trás. No entanto, desenvolvemos três estudos de intervenção cientificamente fundamentados que podem prevenir as dificuldades de aprendizagem que vão surgindo", contou à Lusa a professora.

Uma das investigações centrou-se num grupo de meninos, sinalizados como tendo falhas na aprendizagem, a quem foi pedido que descobrissem sozinhos algumas regras ortográficas através da apresentação de grupos de palavras.

Por princípio, num sistema de escrita de base alfabética cada letra deveria representar um som. No entanto, no português, essa regularidade encontra-se poucas vezes. Por exemplo, as letras "m" e do "n" podem ler-se da mesma maneira (como em "campo" e "canto") e para quem está a aprender esta pode ser uma regra difícil de perceber.

Os investigadores davam às crianças grupos de palavras e pediam-lhes que descobrissem as parecenças. No final, quando comparado o grupo a quem era exigido que descobrissem as regras com o grupo a quem simplesmente eram ensinadas as normas, percebeu-se que os primeiros estavam mais aptos a escrever e "davam muito menos erros", revelou Ana Cristina Silva.

Com os alunos do quarto ano, a equipa de investigadores de ISPA tentou perceber se havia alguma forma de conseguir com um método simples que eles conseguissem melhorar a escrita, nomeadamente as suas composições.

Assim, a um dos grupos foi entregue várias grelhas com regras que as crianças tinham que seguir quando realizavam os trabalhos enquanto um outro grupo mantinha o ensino normal. No final, Ana Cristina Silva diz que os meninos que tinham o apoio das grelhas escreviam muito melhor e conseguiam, durante a revisão do trabalho, corrigir algumas das suas próprias falhas.

"Estes são métodos de ensino sem custos para as escolas e que iriam permitir que as crianças com mais dificuldade conseguissem ter melhores resultados, mas a verdade é que não são aplicados nas escolas", lamentou a doutorada em Psicologia da Educação.

A docente universitária criticou ainda alguns projetos do Ministério da Educação, como o aumento de alunos por sala de aula, que considera perigoso, uma vez que poderá agravar a qualidade do ensino dos meninos com mais dificuldades, já que "os professores passam a ter ainda mais dificuldade de os conseguir acompanhar".

Os projetos da investigadora são apresentados hoje no ISPA durante a conferência "É possível aprender a ler e a escrever com sucesso".

In: DN

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Ratinhos cegos ganham visão nocturna, com transplantes de células

Uma equipa de cientistas conseguiu pôr ratinhos parcialmente cegos a ver à noite, através do transplante de dezenas de milhares de células. O trabalho, publicado nesta quarta-feira na edição online da revista Nature, é pioneiro e pode vir a ajudar pessoas cegas a recuperar a visão. 

Os olhos dos ratinhos são parecidos com os nossos. Têm dois tipos de células fotorreceptoras: os cones e os bastonetes. Os cones dão uma visão a cores muito nítida, mas precisam de bastante luz para funcionar. Quando o dia termina, os bastonetes tomam a liderança. Basta receberem apenas um fotão para se activarem, só que permitem uma visão menos definida e a preto e branco.

A equipa de Robin Ali, da University College de Londres (UCL), testou o transplante de bastonetes saudáveis, injectando-os em ratinhos geneticamente modificados, nos quais um gene tinha sido desactivado, tornando os bastonetes disfuncionais. Por isso, não tinham visão nocturna.

Ao contrário de experiências anteriores, desta vez os cientistas injectaram uma enorme quantidade de bastonetes. Das 200 mil células que tentaram transplantar, entre 20 mil e 30 mil agarraram-se à retina e conseguiram criar ligações nervosas, essenciais para o cérebro receber a informação exterior e produzir a visão. 

Passadas quatro a seis semanas, os bastonetes transplantados estavam a funcionar, o que permitiu aos cientistas testarem os ratinhos. No teste, eles conseguiram encontrar a saída certa de uma caixa com pouquíssima luz – um desafio em que antes, quando eram cegos, não eram bem-sucedidos.

“Pela primeira vez, mostrámos que as células fotorreceptoras podem integrar-se na retina com sucesso e melhorar verdadeiramente a visão. No futuro, temos esperança de conseguir replicar este sucesso com fotorreceptores derivados de células estaminais embrionárias, para desenvolver testes em humanos”, diz Robin Ali. Várias doenças humanas, que provocam cegueira, são causadas pela disfunção dos cones e bastonetes.

"Este artigo é um marco e as técnicas que são utilizadas aqui fazem parte de um grande salto a acontecer na medicina regenerativa", comenta Phil Luthert, director do Instituto de Oftalmologia da UCL. "Ainda vai ser necessário pelo menos mais cinco ou dez anos para pensarmos em fazer algo com os pacientes, apesar de neste momento estarmos a fazer um progresso significativo nesse sentido".

In: Público