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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Dificuldades de aprendizagem

Da escola chegavam-nos notícias de "falta de interesse", "falta de concentração" porque "é muito distraído" e "trabalha pouco"

Um dos meus filhos tinha dificuldades de aprendizagem. Começou a ler tarde, dava erros ortográficos, distraía--se com as moscas (literalmente), não decorava coisa alguma e sempre que podia deixava os trabalhos de casa por fazer. Também se esquecia de tudo, era desorganizado, não dava importância aos testes nem percebia o fundamento das avaliações. Não era competitivo e tinha dificuldade em perceber a importância que os pais e os professores dão à escola. Desde cedo que desenhava com pormenor e aos cinco anos já fazia desenhos em perspectiva e com profundidade, mas não tinha paciência para pintar ou para fazer os traços direitos. Um dia, numa luta renhida com as contas de dividir, levantou a cabeça e desabafou: "Gostava de saber o que é que este lápis pensa se ele conseguisse pensar." Foi mais ou menos nessa altura que descobrimos que usava a parede junto da secretária para desenhar enquanto fingia que estudava. Era também talentoso a representar e conseguia inventar uma história interminável a partir de dois palitos. Da escola chegavam-nos notícias de "falta de interesse", "falta de concentração" porque "é muito distraído" e "trabalha pouco". Em casa, nós, pais, pressionávamos, castigávamos e espremíamos a criança cada vez que chegava mais um recado ou mais uma nota. Sobre os talentos pouco lhe dizíamos porque o tempo era escasso e o calendário escolar não dava tréguas: antes do teatro está a Matemática e antes da criatividade está o Português, sentenciávamos.

No 4.o ano conheceu os livros do Harry Potter e foi assim que se viciou na leitura. Os erros, esses, persistiam e as notas continuavam a sair esforçadas. A motivação era mínima e a escola continuava a ser um mal necessário na qual passava os dias. O Harry Potter era o seu esconderijo. No 6.o ano chegaram os exames e com eles a possibilidade real de fracassar. Assustou--se com a eventualidade e, ajudado pela maturidade, estudou três semanas seguidas sem levantar cabeça, com horas marcadas para as refeições e com objectivos diários impostos por nós. Conseguiu a melhor nota da escola e da vida dele no exame de Matemática e deixou pais e professores de queixo no chão. Gostou da experiência e ainda mais da sensação. Nunca mais repetiu o resultado, mas as notas nunca mais saíram esforçadas, os trabalhos de casa nunca mais ficaram por fazer e nunca mais se denunciou a sua falta de concentração.

Para trás ficou o teatro e do desenho nunca mais ouvimos falar. Diz ele que não desenha bem porque não consegue fazer traços direitos ou imitar paisagens. A comparação com os desenhos fotográficos dos colegas e as classificações suficientes dos professores esfriaram o seu empenho e comprovaram que o seu talento afinal era apenas suficiente. Com a ajuda do tempo acabou por desistir. Dos oito anos da vida escolar do meu filho tiro duas conclusões. A primeira é que durante anos dei mais importância à escola e às considerações dos professores que ao meu filho, dei mais importância às dificuldades denunciadas pelos professores que aos talentos que eu conhecia. Sem saber cavei um fosso de frustrações que aumentava cada vez que chegava uma nota ou um recado, como se cada um deles fosse mais uma prova do seu fracasso (e do meu). Sem querer amolguei-lhe a auto-estima e eduquei-o tendo como referência as pautas escolares.

A segunda é que apesar de mim e da escola ele conseguiu. Conseguiu porque quis, porque um dia resolveu querer. As ameaças, as pressões, os castigos e o desespero perante cada má nota não tiveram qualquer efeito positivo, apenas negativo. As dificuldades de aprendizagem são apenas isso, dificuldades. E não querem dizer mais nada sobre os nossos filhos. No dia em que os confundimos com as dificuldades deles, em que olhamos para eles e em vez de crianças vimos problemas de matemática, os nossos filhos facilmente acreditam que são eles próprios os erros e os problemas. E então sim, as dificuldades perpetuam-se e podem ultrapassar em muito o âmbito da escola. A felicidade e o futuro dos nossos filhos não se medem pelo seu desempenho escolar - que mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos trabalho, acaba por se cumprir - mas podem estar comprometidos se nós, pais, os julgarmos e medirmos por isso. O principal problema das dificuldades de aprendizagem é a dificuldade dos pais - não dos filhos - em lidar com elas.

In: I online

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Novas metas curriculares para Português vão criar "novas dificuldades de aprendizagem"

A maioria dos alunos não conseguirá alcançar o que vai ser obrigatório em fluência da leitura, adverte investigadora 

Num primeiro momento, a psicóloga educacional e professora da Universidade de Lisboa Dulce Gonçalves, especialista em dificuldades de aprendizagem, regozijou-se. Finalmente ia chegar, já este ano, às escolas portuguesas o que descreve como "uma técnica maravilhosa" - medir a afluência da leitura - para ajudar as crianças com dificuldades a acreditar que também elas são capazes. Mas a euforia esgotou-se mal começou a ler o documento das novas metas curriculares de Português para o ensino básico, já em vigor, e concluiu que afinal aquela técnica chegará às escolas portuguesas "da pior das formas".

Dulce Gonçalves sabe do que fala. Nos últimos três anos tem coordenado o projecto Investigação das Dificuldades para a Evolução da Aprendizagem (IDEA) da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual tem acompanhado várias escolas, tendo na base a avaliação e o acompanhamento da evolução precisamente em fluência da leitura, embora não só. Os resultados foram apresentados em Junho, em Avis. 

Na terça-feira, o IDEA voltou a promover novo seminário naquela vila alentejana, agora já na posse das novas metas curriculares, cujo aplicação este ano é já "fortemente recomendada" pelo Ministério da Educação e Ciência e que passarão a ser obrigatórias no próximo. 

No 1.º ano todos os alunos terão de conseguir ler 55 palavras por minutos; no 2.º ano 90; no 3.º 110; no 4.º 125 e por aí fora. Dulce Gonçalves não tem dúvidas de que tal é "impossível" e aponta como exemplo os resultados apresentados esta semana em Avis. Aterradores. O método de medição proposto pelo ministério é o mesmo que tem sido utilizado pelos investigadores do IDEA. Mas bastou sobrepor uma linha aos gráficos que davam conta das avaliações feitas nas escolas parceiras do projecto para ver o que poderá acontecer: com os novos indicadores impostos aos alunos, pelo menos mais de metade dos estudantes de todas as turmas e escolas avaliadas não conseguiriam alcançar os descritores de desempenho em fluência de leitura que o MEC dá como obrigatórios em cada ano de escolaridade. Há mesmo casos, como o descrito no gráfico que acompanha este texto, em que nenhum alcançaria o objectivo.

Dulce Gonçalves frisa que entre os alunos avaliados não figura nenhum com necessidades educativas especiais e que nenhuma das escolas parceiras do IDEA se pode descrever como sendo problemática. Em vez de melhorar a qualidade do ensino e as aprendizagens dos alunos conforme anunciado, este tipo de descritores de desempenho incluídos nas metas curriculares vão levar a que "surjam novas dificuldades de aprendizagem", alerta a psicóloga, que desafia os pais a experimentarem fazer o que irá agora ser pedido aos filhos. 

Não obedecer

O susto levou-a a abdicar do mês de férias para escrever um livro - Metas, Mitos e Desafios - onde aplica o que é proposto pelo MEC aos resultados da sua longa investigação. Considera que esta "é uma obrigação moral" para quem andou "tantos anos a estudar" estas matérias e alarga o desafio. Fê-lo, aliás, já em Avis, frente a uma plateia de professores: um documento como o das metas curriculares de Português "devia suscitar uma resposta de não-obediência por parte dos professores". 

Segundo a psicóloga, o que irá passar a ser obrigatório, ao impor um critério único para todos, ignora "que o que caracteriza a escolaridade obrigatória é a diversidade e não o contrário". "Em vez de apontar uma faca, o ministério devia ter optado por fixar intervalos de valores", defende, lembrando que é isso que se faz, por exemplo, nos EUA, de onde vem precisamente esta técnica e onde "a medida de fluência de leitura é utilizada para perceber como os alunos estão a evoluir". 

Mas há mais perigos, adverte. Não foram fixados os momentos em que a avaliação da fluência da leitura é feita, nem sobretudo quais os textos que serão propostos para esta avaliação. O que significa que "a complexidade dos textos propostos poderá ficar totalmente dependente do critério de cada professor", alerta. E finalmente, frisa, continua também sem se saber o que irá acontecer aos alunos que não atinjam as metas curriculares. Chumbam? A avaliar pelo que se indica repetidamente no documento das metas curriculares de Português, talvez seja esse o destino. Ali se indica que os objectivos e descritores de desempenho "indicados em cada ano de escolaridade são obrigatórios". 

No seu livro refere, a propósito, que "a sanha do redactor das metas curriculares de Português foi tal que, para cada ano de escolaridade, se repete sempre a reafirmação desta obrigatoriedade". Uma imposição que, nota Dulce Gonçalves, não se encontra expressa, por exemplo, nas metas curriculares de Matemática.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Curso Dificuldades de Aprendizagem Específicas de Leitura, Escrita e Cálculo

Formadores

Maria da Piedade Ramos (Docente Especializada em Educação Especial e Mestre em Gestão Curricular)

Cláudia Alfaiate (Psicóloga, Mestre em Psicologia do Desenvolvimento)
Local
Psikontacto, Coimbra
Horário
15 de Janeiro de 2011 – 9h30m – 12h30m e 14h30m – 17h30m
22 de Janeiro de 2011 – 9h30m – 12h30m e 14h30m – 17h30m
29 de Janeiro de 2011 – 9h30m – 12h30m e 14h30m – 17h30m

Limite de inscrições

30

Duração

18 horas

Resumo

O conceito de dificuldades de aprendizagem (DA) surgiu da necessidade de se compreender a razão pela qual um conjunto de alunos, sem défices visíveis, experimentava insucesso escolar, especialmente em áreas como a leitura, a escrita ou o cálculo.

Este conceito subentendeu, de imediato, uma discapacidade (dificuldade/perturbação) para a aprendizagem, numa ou mais áreas académicas, não condizente com o potencial intelectual do aluno, geralmente na média ou acima desta, entrando em conflito com os problemas de aprendizagem generalizados do aluno cujo potencial intelectual se situa abaixo da média.

De acordo com um vasto conjunto de investigações nacionais e internacionais, as dificuldades podem ocorrer em áreas muito diversas, designadamente nas que se relacionam com a linguagem escrita e a linguagem quantitativa, constituindo as crianças e jovens portadores de DA, o maior grupo de indivíduos com necessidades educativas especiais.

Importa, pois, analisar o funcionamento destes sistemas de linguagem (linguagem visual receptiva – leitura; linguagem visual expressiva – escrita; linguagem quantitativa – matemática), bem como as dificuldades específicas que neles podem surgir (dislexia, disortorgrafia, disgrafia, discalculia).

Todas estas dificuldades podem ser superadas em tempo útil, mediante um diagnóstico precoce e pluridisciplinar e uma intervenção adequada à sua especificidade. Esta tarefa é, contudo, muito complexa, quer pela diversidade de conceitos inerentes a esta problemática, quer pelo facto de a mesma não estar incluída no currículo da formação inicial da maioria dos profissionais intervenientes no processo de avaliação e intervenção.

Nesta perspectiva, considera-se importante, no âmbito desta acção de formação, criar um espaço de reflexão e de clarificação conceptual destas dificuldades, bem como apresentar formas de diagnóstico e de intervenção e casos práticos de crianças e jovens com DAE.

Mais informações Aqui

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Imaturidade do sistema auditivo pode causar dificuldades de aprendizagem


A perturbação do processamento auditivo (PPA) é uma disfunção auditiva que afecta cerca de 7% das crianças, segundo estudos recentemente realizados EM Inglaterra, que podem acarretar dificuldades no processo de aprendizagem.


Os primeiros anos de vida são fundamentais para que a criança amadureça as vias auditivas, contudo, este processo de estimulação tem início ainda na gravidez, uma vez que é nesta fase que a comunicação é responsável por formar um vínculo entre a mãe e o bebé. 

Todos nós nascemos com o ouvido pronto, em termos estruturais, mas o que nos permite diferenciar a voz materna da paterna, reconhecer a melodia de uma música, perceber se o tom de voz transmite raiva ou alegria é a experiência sonora que temos na nossa vida.

Nem sempre o "ouvir mal" significa surdez, uma vez que podemos considerar diversos tipos de perda auditiva. Podemos ser capazes de detectar a presença de um som, mas ouvi-lo com fraca qualidade e não conseguir percebê-lo e discriminá-lo.

É o que se verifica em crianças com perturbação do processamento auditivo. A criança com PPA ouve bem, desde que não seja em ambientes ruidosos. No entanto, se o ambiente for perturbado por ruídos de fundo a criança pode apresentar dificuldades em compreender e reconhecer os sons, trocando a informação recebida, pois quando a informação chega ao sistema auditivo, parte da mensagem já foi perdida.

Numa criança com perturbação do processamento auditivo é comum demorar algum tempo para responder a uma pergunta, por achar que não escutou bem, ou pedir para que os pais repitam a informação. A criança diz muito "hã?", "o quê?", troca palavras parecidas (tais como "semente" por "você mente"), e troca algumas letras na escrita e às vezes na fala (" faca" por "vaca").

Sabe-se que cerca de 5% das crianças em idade escolar, ou 7% como no estudo acima citado, tem as suas vias auditivas pouco estimuladas e desenvolvidas. Nestas crianças a informação "chega ao destino", ou seja, elas ouvem tudo, porém, demoram mais a processar aquilo que escutam porque o cérebro não sabe o que fazer com os sons.

Quando escutamos a professora e conseguimos estar atentos a ela, mesmo que tenha ruído na sala ou que o colega do lado fale muito, temos uma função auditiva que nos ajuda a aprender. Deste modo, temos de ter em conta que o ouvido é a porta de entrada de grande parte da nossa aprendizagem (fala e escrita) e que uma disfunção no sistema auditivo compromete a identificação e compreensão dos sons que rodeiam a criança, impedindo-a de usufruir das suas competências auditivas.

E como é que a PPA pode ter implicações no quotidiano escolar do seu filho ou aluno? Se considerarmos que os processos de linguagem se desenvolvem em consonância com o processamento auditivo, então uma disfunção neste sistema prejudicará a fala da criança, e consequentemente a leitura e a escrita acabam por ser também afectadas. Assim, uma criança pode ter dificuldades em falar bem se não souber lidar com os sons.

Ter uma imaturidade do sistema auditivo significa ser especial? Necessitar de apoio especial? Nem sempre... É possível uma criança ter PPA e não sofrer em nada com isso. Na maioria das vezes observamos alguma dificuldade na linguagem associada à PPA: trocas de sons na fala, dificuldades académicas, bem como na leitura e escrita, e problemas comportamentais, como a desatenção.

O mais importante é verificar os sintomas e procurar ajuda de um especialista para avaliar a função auditiva central.


Fique atento a algumas questões:


1. O seu filho tem dificuldade em escutar ou entender em locais com barulho?
2. Tem dificuldades de entender quando alguém fala de forma mais rápida?
3. Tem dificuldade de seguir instruções orais?
4. Tem dificuldade de discriminar os sons da fala?
5. Dificuldades com a leitura?
6. Facilmente distraído?
7. Pede para repetir as informações?
8. Não memoriza o que escuta?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Bactérias do solo podem melhorar aprendizagem

Uma nova investigação sugere que existem bactérias no solo que podem facilitar os mecanismos de aprendizagem. Os resultados do estudo, liderado po Dorothy Matthews, do Sage Colleges de Troy, em Nova Iorque, foram apresentados no encontro anual da American Society for Microbiology, em San Diego, nos Estados Unidos.

Os investigadores analisaram a Mycobacterium vaccae, um tipo de bactéria que se encontra no solo e que é, normalmente, ingerida ou inalada quando as pessoas estão em contacto com a natureza.

Estudos anteriores já tinham sugerido que, quando a bactéria morria por calor e era injectada em ratinhos, conduzia a um aumento dos níveis do neurotransmissor serotonina e a uma redução dos níveis de ansiedade.

Sabendo que os níveis de serotonina estão associados à aprendizagem, os cientistas decidiram alimentar os ratinhos com bactérias vivas para ver se aprendiam melhor os meandros do labirinto do que um grupo de controlo composto por ratinhos que não recebiam o suplemento bacteriano.

Menor ansiedade

Após a realização dos testes, os investigadores constataram que, relativamente aos animais do grupo de controlo, os ratinhos que ingeriram as bactérias percorriam o labirinto duas vezes mais rapidamente e demonstravam menos ansiedade.

Os efeitos da ingestão da bactéria permaneceram até três semanas após a suspensão do suplemento bacteriano.

Os cientistas assinalaram que os resultados indicam que as bactérias"podem ter um papel importante na ansiedade e na aprendizagem dos mamíferos" e sugeriram que se crie um ambiente de aprendizagem nas escolas que inclua tempo ao ar livre, onde a exposição à bactéria acontece facilmente.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Turmas barulhentas

Hoje trago até vós um artigo de uma psicóloga que me tem "cativado" pelos excelentes artigos que escreve, sempre com opiniões bastante fundamentadas. Indica, nesses artigos, sugestões, que na minha opinião, são de uma grande utilidade.

A temática que aborda neste artigo é de uma pertinência enorme e para a qual importa parar, reflectir e actuar o mais precocemente possível.

"Enquanto este problema não for encarado como verdadeiro problema e os pais não tomarem medidas mais punitivas, ele manter-se-á.

O fenómeno "turma barulhenta" tem vindo a generalizar-se. Habitualmente, os professores referem-se a estas turmas como sendo constituídas por alunos que não são propriamente mal-educados, mas são muito faladores. Às vezes, até há um número considerável de alunos com bom aproveitamento nestes grupos. No entanto, a conversa para o lado é uma constante. Numa reunião de pais em que recentemente estive presente, um deles referia que a maioria dos professores da turma do filho passava boa parte da aula a tentar manter o silêncio e que, no início das aulas, eram necessários quinze minutos para que todos os alunos se calassem e a abordagem das temáticas académicas pudesse iniciar-se. Compreendo bem a preocupação deste pai, pois este é efectivamente um fenómeno altamente perturbador da aprendizagem.

A grande questão que se coloca é como agir face a este fenómeno, que aparentemente é fácil de resolver mas, em termos práticos, pode, por vezes, arrastar-se um ano inteiro sem que seja solucionado. A aliança entre pais e professores no sentido de combater este fenómeno é, por isso, fundamental.

Sei que os professores enfrentam este problema com grande apreensão, uma vez que ele gera frustração, dado que, como os próprios referem, "passo a aula mandar calar".

Também provoca desgaste pessoal, na medida em que o investimento realizado pelo professor no sentido de planear bem a aula vai muitas vezes por água abaixo porque, simplesmente, ninguém ouve o que está a ser dito. Que medidas tomar para tentar minorar o problema?

Frequentemente, há problemas no recreio que são transportados para a sala de aula e que perturbam o seu bom funcionamento. Sempre que o professor perceba que há guerras latentes por resolver é preferível, no início da aula, tentar que estas se resolvam rapidamente.

A forma como os alunos entram na sala de aula é também de grande importância e deve ser controlada. Se estes entram em repelão, atropelando-se uns aos outros, isso não favorecerá o bom início das actividades lectivas.

Os professores deverão também incentivar os alunos a tirar o material rapidamente da mochila, de forma a iniciarem os trabalhos imediatamente após se sentarem. Se este momento inicial se prolongar muito, estar-se-á a dar azo a que muitas conversas, que nada têm a ver com a aula, se instalem. Sempre que haja mudança de actividade é também fundamental que esta se faça rapidamente, para evitar assuntos paralelos.

A forma como os alunos estão dispostos na sala de aula é outro aspecto de grande importância, que nunca poderá ser desvalorizado. Se dois alunos estão sempre a pôr a conversa em dia, isso significa que têm automaticamente de ser separados.

Se nas reuniões em que contactou o professor ou o director de turma do seu filho, já houve queixas de que o seu educando é muito falador na sala de aula, que medidas tomou? Habitualmente, o discurso dos pais é de desvalorização face a esta questão, limitando-se a ralhar com os filhos. Se na reunião seguinte a queixa se mantiver, a medida tomada pelos pais é geralmente a mesma: uma breve chamada de atenção... e o problema mantém-se. Enquanto este problema não for encarado como verdadeiro problema e os pais não tomarem medidas mais punitivas, ele manter-se-á. Poder-me-ão questionar, os pais, mas como quer que eu controle o meu filho, se não estou na escola? É verdade, mas em casa há imensas fontes de reforço, que poderão ser retiradas à criança e que poderão ajudá-la a repensar a atitude mais correcta a tomar na sala de aula. Se os filhos perceberem que este comportamento também não é tolerado pela família, mais facilmente poderão mudar de atitude.

Saindo um pouco do contexto académico, parece-me que este fenómeno não é totalmente alheio ao facto de, em termos sociais, estarmos em permanente agitação, atropelando constantemente o discurso uns dos outros..."

Por: Adriana Campos

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM": UMA ROSA COM OUTRO NOME

Hoje trago até vós um artigo em que a comparação entre as crianças e plantas é simplesmente GENIAL!!!

Muito bom!!!Para ler e reler!!!

"Imagine por um instante que você está visitando um viveiro de plantas. Você percebe uma agitação lá fora e vai investigar. Você encontra um jovem assistente lutando contra uma roseira. Ele está tentado forçar as pétalas da rosa a se abrirem, e resmunga insatisfeito. Você lhe pergunta o quê está fazendo e ele explica:

"meu chefe quer que todas essas rosas floresçam essa semana, então na semana passada eu cortei todas as precoces e hoje estou abrindo as atrasadas".

Você protesta dizendo que cada rosa floresce a seu tempo, é absurdo tentar retardar ou apressar isso. Não importa quando a rosa vai desabrochar - uma rosa sempre desabrocha no momento mais oportuno para ela. Você olha novamente a rosa e percebe que ela está murchando, mas quando você o alerta, ele responde: "Ah, isso é mau, ela tem disdesabrochamento congênito. Vamos ter que chamar um especialista". Você diz: "Não, não! Foi você quem fez a rosa murchar! Você só precisaria satisfazer as exigências de água e luz da planta e deixar o resto por conta da natureza!" Você mal consegue acreditar no que está acontecendo. Por quê o chefe dele é tão mal informado e tem expectativas tão irreais em relação às rosas?

Essa cena nunca teria se passado em um viveiro, é claro, mas acontece todos os dias em nossas escolas. Professores pressionados por seus chefes seguem calendários oficiais que exigem que todas as crianças aprendam no mesmo ritmo e do mesmo jeito. No entanto as crianças não diferem das rosas em seu desenvolvimento: elas nascem com a capacidade e o desejo de aprender, e aprendem em ritmos diferentes e de modos diferentes. Se formos capazes de satisfazer suas necessidades, proporcionar um ambiente seguro e propício e evitar nos intrometer com dúvidas, ansiedades e calendários arbitrários, aí então - como as rosas - as crianças irão desabrochar cada uma a seu tempo.

Meu coração gela quando penso nas crianças classificadas como 'ADHD' (sigla norte-americana para 'distúrbio de hiperatividade e falta de atenção'), o mais novo tipo de "distúrbio de aprendizagem". Muitos educadores e pesquisadores acreditam que as crianças e suas famílias tenham sido cruelmente enganadas por essa classificação. O Dr. Thomas Armstrong, que já foi especialista em dificuldades de aprendizagem, mudou de profissão quando começou a ver "como essa noção de distúrbios de aprendizagem estava prejudicando todas as nossas crianças, colocando a culpa da dificuldade de aprender em misteriosas deficiências neurológicas, em vez de apontar para as tão necessárias reformas em nosso sistema educacional". O Dr. Armstrong voltou-se então para o conceito de diferenças de aprendizagem e escreveu "In Their Way" ("Do modo deles"), um guia prático e fascinante para os sete "estilos pessoais de aprendizagem" inicialmente propostos por Howard Gardner, psicólogo da Universidade de Harvard.

O Dr. Armstrong nos instiga a abandonar rótulos convenientes mas nocivos tais como "dislexia" e nos ater ao problema real do "disensino". Ele adverte que "nossas escolas estão desvalorizando milhões de crianças ao taxá-las de insuficientes quando na realidade elas estão sendo incapacitadas por métodos de ensino ruins".

Como Armstrong explica, "as crianças são sobrecarregadas com diagnósticos tais como dislexia, disgrafia, discalculia e assim por diante, dando a impressão de que sofrem de doenças muito raras e exóticas. Embora o termo dislexia seja apenas uma expressão latina para 'dificuldade com palavras', centenas de testes e programas se propõem a identificar e tratar tais 'disfunções neurológicas'. Mas os médicos ainda não conseguiram determinar qualquer tipo de lesão cerebral detectável na maior parte das crianças com esses assim chamados sintomas.

Parece evidente para mim, depois de quinze anos de pesquisa e prática no campo da educação, que nossas escolas são as principais culpadas pelo fracasso e pelo tédio enfrentado por milhões de crianças..."

As classificações de distúrbios de aprendizado seriam "as novas roupas do imperador" das escolas? Os filósofos têm um recurso interessante chamado "Navalha de Occam", um expediente prático para liqüidar com teorias absurdas: "para resolver um problema, deve-se escolher a teoria mais simples que explique os fatos". Quais são os fatos? É fato que muitos escolares, principalmente do sexo masculino, têm dificuldades de aprendizagem. Mas também é fato que existem centenas de milhares de crianças no mundo, meninos e meninas, entre os quais esse defeito "genético" está ausente: são as crianças escolarizadas em casa. Nesse grupo, praticamente não existem dificuldades de aprendizagem, exceto nas crianças que estão ha pouco tempo na escola.

Se os "distúrbios de aprendizagem" estão presentes apenas no ambiente escolar e ausentes em outros lugares, o problema deve estar no ambiente de aprendizado das escolas e não em algum "distúrbio neurológico" misterioso e não-detectável das crianças, ou estariam igualmente presentes nas crianças escolarizadas em casa. Afinal não é segredo que as escolas não estão conseguindo cumprir sua tarefa: em muitas regiões, os níveis de alfabetização na verdade caíram e não chegaram a atingir os níveis prévios à existência de escolas públicas (nos Estados Unidos). Quando John Gatto, eleito Professor do Ano do Estado de Nova York, chama a escolarização obrigatória de "sentença de doze anos de prisão", percebemos que algo está muito errado e que o erro não é das crianças.

Será que as classificações de "hiperatividade", "fobia escolar" e "dificuldade de aprendizagem" não são uma cortina de fumaça para a incapacidade da escola de entender e aceitar o verdadeiro processo de aprendizagem? Uma especialista do porte de Mary Poplin, ex-editora de uma revista sobre distúrbios de aprendizagem ('Learning Disabilities Quarterly'), concluiu recentemente que "apesar de toda a pesquisa quantitativa... não há provas de que os distúrbios de aprendizagem possam ser identificados objetivamente... as tentativas de se estabelecer critérios objetivos para avaliar problemas humanos são uma ilusão que serve para encobrir nossa incompetência pedagógica". O educador John Holt relata em 'Teach Your Own' ('Ensine a Si Mesmo') que o presidente de uma importante associação para tratamento de distúrbios de aprendizagem admitiu que há "poucas provas para confirmar os diagnósticos de distúrbios de aprendizagem". John Holt alerta os pais de crianças em idade escolar para serem "extremamente céticos em relação a qualquer coisa que as escolas e seus especialistas digam sobre a condição e as necessidades de seus filhos". Acima de tudo, eles devem compreender que é quase certo que a própria escola, com todas as suas fontes de tensão e ansiedade, esteja causando as dificuldades e que o melhor tratamento provavelmente seja tirar o filho da escola de uma vez por todas.

As famílias que fazem isso ficam aliviadas ao descobrir que seus filhos recuperam o interesse que tinham pelo aprendizado quando eram mais novos. Ao contrário dos professores escolares, que têm apenas uma visão parcial de várias crianças a cada ano, os pais que ensinam em casa observam o aprendizado de uma única criança ao longo de vários anos, aprendendo assim a respeitar o estilo singular de aprendizado de cada filho, a confiar na escala de horários individual da criança e a reconhecer que os erros são um componente normal e passageiro do processo de aprendizado de qualquer pessoa. ( Não há pressa, de qualquer forma: muitas crianças escolarizadas em casa que começaram a ler aos 10 ou 12 anos saíram-se muito bem na faculdade). Essa atitude de descontração dos pais que ensinam em casa mantém intacto o valor próprio da criança, torna as classificações insignificantes e permite que o aprendizado seja tão fácil quanto entre os pré-escolares: crianças escolarizadas em casa costumam superar aquelas que freqüentam a escola em termos de desempenho acadêmico, socialização, confiança e auto-estima. John Gatto afirma que "em termos de capacidade de pensar, as crianças escolarizadas em casa parecem estar de cinco a dez anos adiante daquelas que freqüentam a escola".

Durante alguns anos John Holt desafiou várias escolas a "explicar a diferença entre uma dificuldade de aprendizagem (que todos nós temos uma vez ou outra) e um distúrbio de aprendizagem". Ele perguntou aos professores como eles distinguem entre causas inerentes ao sistema nervoso do aluno e fatores externos - o ambiente escolar, o modo de explicar do professor, o professor em si ou o material didático. Ele relata: "nunca recebi uma resposta coerente a essas perguntas... [ainda assim] essa distinção é tão fundamental que não sei como podemos falar de modo construtivo sobre os problemas de aprendizagem de uma criança sem ela". Mas como os professores têm tanta certeza da existência tão disseminada de distúrbios neurológicos? Talvez eles estejam apenas confundindo causa e efeito: como John Holt observa, "os professores dizem que deve ser difícil ler, ou não haveria tantas crianças com dificuldade de ler". John Holt argumenta que "as crianças têm dificudlade de ler porquê partimos do pressuposto de que ler é difícil... com nossa preocupação, 'simplificação' e pedagogia, tudo o que conseguimos é tornar a leitura cem vezes mais difícil para a criança do que deveria ser... quando estamos nervosos ou com medo temos dificuldade, ou ficamos mesmo impossibilitados, de pensar e até de perceber... quando amedrontamos as crianças, bloqueamos totalmente seu aprendizado".

De fato, algumas pesquisas mostram que as expectativas do professor sobre a capacidade de aprendizado da criança influenciam muito o seu desempenho acadêmico. Outras pesquisas mostram a relação entre a ansiedade da criança e sua dificuldade de percepção - e ainda que o alívio da ansiedade (e o tratamento de alergias alimentares, quando elas existem) reduz em muito a incidência dessas dificuldades. Mas não precisamos que especialistas e pesquisadores nos digam o quê está errado. Precisamos apenas ouvir as próprias crianças, que estão há anos tentando expressar sua dor, frustração, confusão e raiva. Quando as crianças se voltam para as drogas, auto-mutilação e suicídio, é evidente que estão tentando nos comunicar algo muito importante.

Será que as dificuldades de aprendizagem são mesmo uma reação compreensível de crianças normais obrigadas a conformar-se às condições anormais das salas de aula convencionais? Em outras palavras, será que as escolas são incapazes de perceber a diferença entre simples relatos de erros de aprendizagem passageiros, agravados pelo estresse, e uma conclusão científica? Embora as supostas anomalias neurológidas nunca tenham sido identificadas, não é difícil detectar condições anormais no ambiente escolar: competitividade feroz, inatividade física (particularmente difícil para os meninos), matérias fragmentadas que têm pouca relação com os interesses e as experiências individuais da criança, freqüentes avaliações e questionamento do progresso do aprendizado, falta de tempo para o convívio familiar, pouca oportunidade de conhecer pessoas de outras idades, falta de sossego para a privacidade e a reflexão, pouca oportunidade de receber a atenção exclusiva dos professores, desencorajamento a compartilhar idéias e trabalho com os colegas de classe (uma oportunidade valiosa sendo desperdiçada), crianças frustradas caçoando das outras, o desencorajamento de atitudes de auto-valorização e acima de tudo a indignidade de ser um incapaz, uma "não-pessoa", cujas necessidades legítimas e as tentativas de expressar essas necessidades são abafadas pela defensiva institucional. Todas essas dificuldades podem ser evitadas com a escolarização domiciliar - desde que o governo permita autonomia suficiente.

Classificações são incapacitantes, porque as crianças acreditam no que lhes dizemos. Se tivermos que classificar algo, que seja o ambiente de ensino e não o aluno: em vez de "criança hiperativa", vamos nos preocupar com as escolas "restritivas de atividade"; em vez de alunos com "falta de atenção", deveríamos pensar nas aulas com "falta de inspiração"; em vez de "criança com fobia escolar" deveríamos usar palavras mais honestas como "ansiosa" e "amedrontada", e tomar mais cuidado ao pesquisar o motivo da ansiedade. Usando a Navalha de Occam, vamos procurar a teoria mais simples que explique os fatos e não a mais complicada e obscura. Um ambiente estressante, punitivo e ameaçador é mais do que suficiente para explicar os problemas de aprendizagem. Não precisamos nos confundir com termos técnicos, teorias sem comprovação científica e bodes expiatórios para preservar uma instituição social que falhou com nossos filhos.

Como devemos agir então? Norman Henchey, professor da Universidade MacGill, recomenda "repensar totalmente a escolarização compulsória". Norman Henchey defende a volta à escolarização em casa e a "outras vias de amadurecimento... programas de formação de aprendizes, serviços de ensino formais e informais, servico público". Talvez assim possamos honrar o estilo individual de aprendizado de cada criança e, como pede o Dr. Armstrong, "dar às crianças a motivação de que necessitam para se sentirem seres humanos competentes e bem-sucedidos". As crianças nasceram para aprencer. Elas merecem ter um ambiente de ensino seguro e estimulante, onde possam aprender em uma atmosfera de paciência, respeito, delicadeza e confianca, sem ameaças, coerção ou cinismo. Como Einstein nos alertou muitos anos atrás, "é um grave erro acreditar que o prazer de observar e pesquisar possam ser incutidos pela coerção".

Toda criança é uma criança bem-dotada."

De: Jan Hunt, Psicóloga Diretora do "The Natural Child Project"

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Dificuldades de Leitura e Escrita

A aquisição da linguagem, a habilidade de comunicar por palavras e frases é uma característica fundamentalmente humana. O discurso oral emerge durante o segundo ano de vida, é precedido de um período que começa por volta dos 3/ 4 meses com vocalizações e sons espontâneos conhecidos como o balbuciar. Assim que a criança começa a falar, a sua linguagem é drasticamente multiplicada de algumas palavras aos 18 meses, para duas mil palavras aos 5 anos de idade Nesta fase a criança verbaliza de forma fluente e é capaz de combinar palavras em frases de várias formas, o que revela, desde logo, a estrutura complexa da linguagem (Knoph, 1983).

De facto, a linguagem é um processo complexo que engloba a articulação de vários órgãos simultaneamente, desde o cérebro, ao aparelho auditivo, aos lábios, à laringe, à língua etc. Deste modo, os distúrbios da linguagem podem advir de origens diversas, desde problemas neurológicos, malformações, disfunções, problemas sensoriais a problemas psicológicos (Ajuriaguerra, 1980).

Os distúrbios de articulação são a forma mais frequente dos distúrbios da linguagem, cerca de 80% dos casos (Knoph, 1983). Estes distúrbios que têm origens diversas, caracterizam-se pela deformação, substituição ou supressão dos fonemas. As consoantes e a vogais podem ser alteradas segundo o ponto de articulação perturbado.


(…) No caderno aparecem as primeiras palavras. As frases no livro começam a fazer sentido, mas eis que surgem algumas dificuldades. Trocam-se as letras na escrita. A leitura corre mal. A professora corrige. O pior é ir ao quadro, mete medo. Este é o cenário da dislexia. Afecta crianças e adultos que nessa idade nunca souberam os porquês de “ser assim”. De ter de usar o relógio no pulso direito para distinguir a esquerda (…).


(Andreia Lobo; Jornal a Página da Educação, ano 12, nº121, Março 2003, p. 38)

A incapacidade de aprender a ler e a escrever de forma correcta, de um indivíduo que possui a capacidade intelectual necessária é conhecida por diversos termos como dislexia, disortografia, cegueira verbal congénita, etc. A aprendizagem da língua escrita só se realiza havendo de inicio uma tomada de consciência fonológica e, posteriormente, uma tomada de consciência linguística. Para passar da utilização da forma fonológica às formas gráficas, é necessário que a criança possua a noção intuitiva da divisão da frase e do valor funcional das palavras no interior dessa frase.

A dislexia e a disortografia
 
A dislexia trata-se de uma dificuldade específica da aquisição da leitura. Traduz-se pela frequência e persistência de hesitações de incompreensões, de erros, de inversões de sílabas, de confusões de letras, de mutilações de palavras, de falhas ligadas à linguagem escrita que persistirão frequentemente, inclusive na aprendizagem da ortografia, apesar de um nível intelectual normal (Doron & Parot, 2001). Os indivíduos com dislexia tendem também a possuir alguma dificuldade ao nível da motricidade e da coordenação e a possuir uma lateralidade invertida ou ambidextra.

No que diz respeito à disortografia, esta pode ser resultante de uma dislexia, mas pode também existir isoladamente. Consiste num conjunto de falhas: falhas de separação pela não discriminação dos elementos da frase; falhas de leitura; confusão das partes do discurso; falhas de sintaxe e de regras e falhas de emprego. É, também, a impossibilidade de visualizar a forma correcta da escrita das palavras. A criança escreve seguindo os sons da fala e a sua escrita por vezes torna-se incompreensível.

Muitas das dificuldades da aprendizagem da leitura estão relacionadas com deficiências escolares ligadas à valorização da rapidez, sobrecarga das classes, mudanças de professores, etc. Assim, segundo Stambak e Colaboradores, é fundamental desenvolver as capacidades da criança e levá-la a sentir a necessidade dos instrumentos da sua própria cultura, a valorizar as actividades que se relacionam com ela.

Trata-se, desta forma, de preparar a criança de forma correcta, para a aprendizagem da língua escrita: não basta suscitar o desejo pela leitura, é conveniente proceder a uma preparação linguística (passagem à linguagem do discurso, depois à linguagem escrita; correcção dos distúrbios da linguagem oral; preparação para a individualização dos elementos que constituem a língua). Tendo sempre por base o respeito pelas formas de raciocínio da criança.

Uma boa aprendizagem dá à criança um instrumento que veicula o conhecimento e que ela utilizará com desembaraço. Pelo contrário, se persiste a pobreza da leitura e da escrita, a criança perde a motivação e, muitas vezes, essa criança pode tornar-se num aluno fraco com todas as implicações subjacentes para o seu futuro, como limitações ao nível de escolhas vocacionais, sentimentos de inadequação, baixa auto-estima, etc.
 

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Portugueses estudam gene responsável pela aprendizagem


As dificuldades de aprendizagem podem ser desencadeadas por uma mutação de um gene no embrião. Uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra está a tentar conhecer melhor os mecanismos da neurofibromatose para ajudar à descoberta de terapias mais eficazes.

Uma equipa de investigação, coordenada por Miguel Castelo Branco, da Faculdade de Medicina e do Instituto Biomédico de Investigação da Luz e da Imagem, da Universidade de Coimbra, e em cooperação com a Universidade de Cardiff, em Inglaterra, e com a Rede Nacional de Imagiologia, procura conhecer os mecanismos da doença, para descobrir novas terapias.
"A ideia é perceber o lado genético da doença, o que nos genes leva a determinadas manifestações, mas também tentar perceber o contexto escolar. Interessa-nos saber a origem das dificuldades", declarou o coordenador da investigação. Por isso, a equipa está a acompanhar 30 famílias com a doença, e a mobilizar voluntários não portadores de neurofibromatose - crianças e adultos, entre os 7 e os 16 anos, e os 30 e 40 anos, com o envolvimento do Hospital Pediátrico de Coimbra e da Escola Básica de 2.º e 3.º ciclos Martim de Freitas.

Sendo uma doença frequente e causadora de dificuldades de aprendizagem na escola, faz com que aumente o seu relevo social, pois "estão em jogo factores genéticos, factores do desenvolvimento e factores educacionais", diz Castelo Branco.
Excerto da notícia do Jornal Público
Para ler mais sobre esta notícia do Jornal Público carregue neste link:

http://www.publico.pt/Ciências/portugueses-estudam-gene-responsavel-por-aprendizagem_1416212

domingo, 3 de janeiro de 2010

Como Diagnosticar uma Dificuldade de Aprendizagem

Hammill (1980) sugere cinco elementos que aparecem em quase todas as concepções de DA:

·  fracasso nas tarefas;

·  discrepância potencial/rendimento;

·  factores etiológicos;

·  factores de exclusão;

·  disfunções num ou mais dos processos psicológicos.


Kirk, Gallagher e Anastasiow (1993) – sugerem quatro critérios para identificar alunos com Dificuldades de Aprendizagem:

·  presença de dificuldades académicas (quando comparado com outros indivíduos da mesma idade;

·  discrepância séria entre a capacidade intelectual (potencial) e o rendimento escolar;

·  exclusão de outros factores, tais como distúrbios visuais ou auditivos, deficiência mental, deficiência motora, distúrbios emocionais ou factores envolvimentais;

·  as Dificuldades de Aprendizagem básicas são o resultado de algum tipo de desordem neurológica.


Critérios para a identificação de Dificuldades de Aprendizagem

Critério de exclusão:

As DEA’s são intrínsecas ao indivíduo e não são devidas a qualquer tipo de déficit sensorial, físico, mental, emocional ou envolvimental.

Os indivíduos com DEA’s não respeitam um dos principais pressupostos acerca dos seres humanos, que diz que:


“Se um indivíduo não possui problemas visuais ou auditivos, deficiência mental, problemas motores, distúrbios emocionais ou privação envolvimental, então deverá ser capaz de ter sucesso na escola”.


Dr.ª Anabela Carvalho 02-10-2009

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Definição de Dificuldades de Aprendizagem

Desde a primeira definição proposta por Kirk em 1962 até hoje muitas tentativas de definição foram feitas, umas mais consensuais do que outras. A seguir são apresentadas aquelas que são mais completas ou que reúnem mais consenso, podendo vir a tornarem-se na definição das DA aceite por todos.
Definição do U. E. Office of Education (1977):
“O termo dificuldade de aprendizagem significa uma desordem num ou mais dos processos psicológicos envolvidos na compreensão ou no uso da linguagem, falada ou escrita, que se pode manifestar por uma habilidade imperfeita para ouvir, falar, ler, escrever, soletrar, ou para fazer cálculos matemáticos.
O termo inclui condições tais como desvantagens (handicaps) perceptivas, lesão cerebral, disfunção cerebral mínima, dislexia e afasia desenvolvimental.
O termo não inclui crianças que têm dificuldades de aprendizagem que são primariamente resultado de desvantagens (handicaps) visuais, auditivas, ou motoras, ou deficiência mental, ou distúrbios emocionais, ou desvantagem envolvimental, cultural ou económica”.
Esta definição inclui uma segunda parte que determina os critérios para identificar os indivíduos com DA – critérios de discrepância e de exclusão:
1º - Critério de discrepância (ligado a componentes académicas) - o indivíduo pode ser considerado como tendo dificuldades de aprendizagem se:
a)não alcançar resultados proporcionais à sua idade e capacidades numa ou mais das sete áreas específicas (referidas em b), quando lhe são proporcionadas experiências de aprendizagem adequadas a esses dois aspectos;
b) apresentar uma discrepância significativa entre a realização escolar e a capacidade intelectual numa ou mais das seguintes áreas: expressão oral, compreensão auditiva, expressão escrita, capacidade de leitura básica, compreensão na leitura, cálculo matemático e raciocínio matemático.
2º - Critério de exclusão – permite verificar que o indivíduo não tem um problema de aprendizagem específico, quando a discrepância severa entre o potencial e o rendimento é devida a: deficiência visual, auditiva ou motora; deficiência mental; distúrbio emocional; desvantagem envolvimental, cultural ou económica.

Dr.ª Anabela Carvalho 02-10-2009