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quarta-feira, 21 de março de 2012

Medicamento para doença dos pezinhos disponível em março

O medicamento Tafamidis, para tratamento da paramiloidose, mais conhecida como a doença dos pezinhos, poderá estar disponível no Serviço Nacional de Saúde no final de março para 250 doentes, revelou o presidente da Associação Portuguesa de Paramiloidose.

A Associação Portuguesa de Paramiloidose (APP) esteve reunida durante a tarde desta terça-feira com o secretário de Estado e da Saúde, Manuel Teixeira. Na reunião esteve também presente o presidente do Infarmed, Jorge Turgal, e no final a associação obteve uma resposta que esperava "há muito tempo".

"O secretário de Estado disse-nos que o processo estava muito bem encaminhado, da parte do Governo estava tudo terminado e que da parte do Infarmed havia mais algumas coisas a acertar no contrato, mas que tudo levava a crer que no fim deste mês de março (o Tafamidis) estaria em Portugal", revelou Carlos Figueira.

O presidente da APP disse não querer criar falsas expetativas nos doentes com paramiloidose, mas garantiu ter tido da parte do presidente do Infarmed a garantia de que a Autoridade Nacional do Medicamento "está a fazer todos os possíveis para que até ao fim do mês o medicamento fosse um facto em Portugal".

Significa, por outras palavras, que o medicamento vai estar disponível gratuitamente no Serviço Nacional de Saúde (SNS), numa primeira fase para 250 doentes, explicou Carlos Figueira.

"Saímos da reunião felizes, bastante contentes, mas agora queremos ver na prática e no terreno isso acontecer", disse o líder da APP, acrescentando que não é possível, para já, saber quantas são as pessoas que sofrem de paramiloidose porque o registo português da doença prometido pelo atual Governo ainda está em fase de construção.

Carlos Figueira disse ainda que o medicamento vai estar disponível na Unidade Clínica de Paramiloidose, no Porto, e no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

In: JN

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Doença dos pezinhos. A vida por um comprimido

Doentes adiaram transplante com a promessa de um medicamento que já existe, mas que os hospitais não pedem

Marta já só está à espera que o telefone toque. Acontece-lhe todos os dias: uma chamada de um número desconhecido, o coração dispara, falso alarme. Fica ansiosa, mas ao mesmo tempo quer acabar com a incerteza, com a espera, poder sair do Porto, dar um irmão ao filho de oito anos. Há oito meses, depois de ano e meio à espera de um novo medicamento que a poderia livrar do transplante – e travar a doença familiar que lhe levou a mãe, cinco tias e quatro primos – decidiu voltar para a lista de transplantes hepáticos no Hospital de Santo António. É a próxima, logo que surja um dador compatível.

Às vezes, confessa, dizem que é fria. Mas Marta fala com uma certeza que não se desmonta. “Digo que prefiro morrer no transplante a ver-me doente. Prefiro morrer e que as pessoas me vejam conforme estou a verem-me como uma pessoa completamente degradada.” Aos 18 pegava na mãe ao colo, do carro para o hospital, depois numa tia. Às vezes sujavam-se as duas e tinham de trocar de roupa numa casa de banho. A morte era normal: “A tia está a assim e daqui por um mês ou dois vai morrer, não tem cura”, ouvia. Dentro do normal que começaram também a ser os funerais, os mais dolorosos foram o da mãe e o de um primo, que sobreviveu cinco anos ao transplante.

É porque recusa com todas as forças que ainda tem hoje, aos 37 anos, ficar assim doente – usar fralda, não conseguir andar – que para Marta foi fácil, dentro do difícil, resolver o dilema em que neste momento viverão cerca de 100 doentes diagnosticados com paramiloidose no país, nos primeiros anos de sintomas: avançar para um transplante ou esperar mais um pouco até que um medicamento que lhes prometeram como alternativa, e que já está disponível, lhes seja dado. O problema é que o pouco que em 2009 já era um pouco, em Junho eram mais dois meses e agora deixou de ter data para chegar.


Uma doença portuguesa A doença dos pezinhos ou paramiloidose (nome técnico Polineuropatia Amiloidótica Familiar, PAF) é uma doença neurológica degenerativa e hereditária, descoberta em Portugal em 1939. Tem no país uma das maiores incidências do mundo. Desde 2005, um medicamento em ensaios clínicos prometeu ser a primeira alternativa ao transplante hepático e desde 2009, comprovada a eficácia e a segurança, pode ser pedido pelos hospitais num regime de Autorização de Utilização Especial (AUE), algo que até hoje nunca aconteceu em Portugal.

Na Europa, há ao todo 120 doentes a tomar o Tafamidis, através de programas de acesso especial, como as AUE, e em ensaios clínicos, confirmou ao i a Pfizer, responsável pelo medicamento. Mas em Portugal só estão a tomá-lo 47 doentes que participaram nos ensaios e ajudaram a concluir que, em pelo menos 60% dos casos, o medicamento atrasa a doença nos primeiros anos de sintomas, um efeito semelhante ao do transplante e com menos efeitos colaterais.

É porque foi testado para os primeiros anos de sintomas que a Associação Portuguesa de Paramiloidose fala de 100 doentes à espera do medicamento, aqueles em que a doença começou a manifestar-se há menos tempo. Marta é um deles e nunca soube que já podia efectivamente estar a tomá-lo, só que seria “bom” para ela que esperasse, disse-lhe a médica. Esperou até sentir que a doença estava a avançar de mais, e que seria melhor travá-la antes com o transplante. Contra todas as probabilidades: os quatro primos, na casa dos 30 anos, morreram pouco depois da operação.

Na paramiloidose, os sintomas, como formigueiros, dores musculares, perda de apetite, diarreias, evoluem de forma irreversível. Com o transplante ou com o medicamento há hipótese de estagnarem, atrasando os quadros mais graves, que a maioria dos doentes da geração anterior não puderam contornar. Os hospitais do Serviço Nacional de Saúde, como é o caso do Hospital de Santo António, onde Marta Gonçalves é seguida – na Unidade Clínica de Paramiloidose, dirigida pela médica Teresa Coelho – têm neste momento autonomia para pedir ao Infarmed uma AUE para darem o medicamento aos doentes com indicação clínica. A resposta, mediante fundamentação clínica, é geralmente positiva e demora dez dias. Mas é contabilístico: nesta fase de autorização especial, como não há comparticipação, as unidades têm de pagar a factura sozinhas, num valor de 135 mil euros por doente/ano, confirmou o i.

Até quando? Até ao momento não houve nenhum pedido ao Infarmed de AUE para o Tafamidis, nem deste nem de outro hospital, confirmou fonte oficial ao i. A explicação será a falta de verbas para pagar, sem reembolso, todos os tratamentos, embora nem o Hospital de Santo António nem Teresa Coelho façam declarações. O i questionou também o Ministério da Saúde, que vai averiguar porque não houve nenhum pedido de AUE, se são as razões financeiras a travar a dispensa deste medicamento para os casos com indicação clínica. Não houve resposta oficial até ao fecho desta edição.

Bruxelas A espera que Marta entende estar a ser pela possibilidade de prescrever o medicamento em Portugal poderá ser, em última instância, a espera pela comparticipação. Se assim se for, ainda será longa. Por se tratar de um medicamento para uma doença rara (designado “medicamento órfão”), o pedido de introdução no mercado está a ser centralizado a nível europeu, mas fonte de Bruxelas adiantou ao i que o processo deverá estar concluído no final do mês. Mirjam Soderholm, responsável da Comissão Europeia por esta área, respondeu ao i que o Comité de Medicamentos para Uso Humano adoptou uma opinião positiva sobre o medicamento a 21 de Julho, recomendando que fosse autorizada a comercialização do Tafamidis para o tratamento da polineuropatia sintomática em adultos no estádio 1. A CE está definir critérios de administração, que deverão ser revistos todos anos.

Depois será preciso que o laboratório inicie em cada país o processo de autorização de preço e pedido de avaliação económica e comparticipação. Em Portugal, o primeiro processo está dependente da Direcção-Geral das Actividades Económicas e o segundo do Infarmed, que estipula um prazo de 60 a 210 dias. Tudo somado, pode significar pelo menos mais um ano à espera.

Se dois anos já foram muito tempo, mais um pode ser tempo de mais. Lígia Morgado, por exemplo, só está disposta a esperar até ao final do ano. Soube aos 18 anos que era portadora de paramiloidose e os primeiros sintomas chegaram aos 36. Perdeu o tio, a tia, a mãe. Hoje, com 39 anos, os sentimentos misturam--se: “Nunca sofri por antecipação. Quando chegasse a minha vez é que iria ver, achava que a medicina iria ter uma solução melhor.”

Em Setembro de 2008, Lígia foi fazer a biopsia à glândula salivar do lábio, o método usado para perceber se a doença já se está a manifestar – ou seja, se a substância designada amilóide (subunidades de uma proteína do sangue que transporta hormonas da tiróide e vitamina A) já se está a depositar nos tecidos, fruto de mutações no gene TTR. “Em Janeiro de 2009 inscrevi-me para transplante no Curry Cabral. Sabia que tinha dois anos para esperar.” Então, a meio de 2009, começou a ouvir falar do Tafamidis. “Comecei a falar com a médica, que me disse que fazia o mesmo que o transplante e que seria bom para mim.”

A Lígia foi dito que estaria entre os 100 doentes na fase ideal para tomar a medicação. Por isso desistiu do transplante quando soube que “era a próxima”, há ano e meio. “Pus a questão de suspender o transplante à médica [também Teresa Coelho, do Santo António] e ela disse que sim: no estado em que estava, era capaz de aguentar até ver se o medicamento saía. Não deu nenhuma data, mas sabíamos que era burocracia que estava em falta e achei que dali a um ano já haveria resposta.” O prazo venceu há meio ano. Retomou as consultas no Curry Cabral, mas ainda não decidiu voltar para a lista.

“Não estou arrependida. Continuo com vontade de esperar que a decisão saia e continuo à espera que o comprimido venha o quanto antes. Mas tem de ser este ano. Sei que no próximo ano posso deixar de andar se os sintomas avançarem”, diz Lígia. A determinação esbarra na incerteza, mesmo na da médica que lhe falou do medicamento. “Quando foi o Dia Nacional da Paramiloidose (16 de Junho) disse que já não sabia o que nos havia de dizer.” Em declarações públicas, Teresa Coelho afirmou que em dois meses o medicamento deveria estar disponível. Passaram quatro.

A reunião em Lisboa Nas últimas semanas, um grupo de doentes mobilizou-se para pedir respostas sobre o atraso na prescrição do medicamento. Uma petição com 9404 assinaturas está a ser analisada no parlamento. Um grupo no Facebook junta já mais de 1500 doentes e amigos. A 17 de Outubro, alguns conseguiram uma audiência com o secretário de Estado da Saúde, Manuel Teixeira. Lígia participou na reunião, em Lisboa. “Levámos estudos, confirmados pelo vice-presidente do Infarmed, que também esteve presente, e eles não tomaram nenhuma decisão. Só dizerem ‘não venham aqui fazer pressão, porque nós não decidimos nada...’ Quem decide então?” Lígia garante que a expectativa nasceu nas consultas, foi crescendo, mas partiu de informação clínica. Se não, já teria feito o transplante. Em Abril participou no ensaio clínico de uma futura terapia genética, para corrigir a mutação que desencadeia a doença. Teme que esse tratamento inovador, se for para a frente, passe pelas mesmas burocracias. “Sempre achei que era muito mais difícil encontrar uma cura do que assinar papéis.” O Tafamidis não é a cura, mas promete livrá--los da intervenção cirúrgica, dos imunossupressores, do risco acrescido de morte. Pesar tudo é difícil. “Todos os dias penso no mesmo: será que estou a fazer uma boa escolha ao esperar? E se vou para transplante e no dia seguinte há o comprimido? Mais dia menos dia virá, mas será que vem para mim?”

A solução nem sempre é racional, mostra Marta. “É revoltante saber que se o tomasse ia ficar bem. Mas agora estou assim: seja o que Deus quiser. Se vier o medicamento e ainda não tiver feito o transplante, paro Se me chamarem vou.”

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Paramiloidose (Doença dos Pezinhos)

Na TSF, testemunhos de médicos e famílias ajudam-nos a saber mais sobre as doenças raras: os sintomas, as características, os tratamentos e a vida com doenças que poucos têm.
 
Raros Como Um Diamante,

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Doentes exigem novo fármaco para a "doença dos pezinhos"

Há um fármaco capaz de travar a progressão da paramiloidose, vulgarmente conhecida como doença dos pezinhos. Em França, já está a ser usado desde Janeiro. Em Portugal, os doentes exigem o medicamento, capaz de evitar o transplante hepático, "já!".

"Há vidas em risco. Exigimos o medicamento já. Estamos há um ano a lutar por isto. Estes doentes não têm tempo para esperar mais", afirmou, ao JN, o presidente da Associação Portuguesa de Paramiloidose (APP), Carlos Figueiras, "farto de lutar", sem sucesso, junto do Ministério da Saúde, pela introdução imediata do medicamento em Portugal.

Entre 2007 e 2009, um ensaio clínico internacional, envolveu, em Portugal, 78 doentes dos hospitais de Santa Maria, em Lisboa, e de Santo António, no Porto. Parte dos doentes tomaram um produto inactivo (placebo) e os restantes o Tafamidis, sem que doentes e médicos soubessem quais tomaram o quê. 
Nos 47 paramiloidóticos a tomar Tafamidis, o fármaco mostrou ser capaz de travar a progressão da doença dos pezinhos, até agora apenas possível com o transplante hepático.
"É um passo muito importante. O Tafamidis não tem efeitos secundários significativos e, em 60% dos casos, travou a progressão da doença e, entre os 40% restantes, a progressão foi muito menor", explicou, ao JN, Teresa Coelho, responsável da Unidade Clínica de Paramiloidose (UCP) do Hospital de Santo António.

O fármaco, baseado na molécula FX-1006 A (o nome pelo qual, inicialmente, ficou conhecido), foi desenvolvido por uma empresa farmacêutica norte-americana. É um comprido, de toma diária, que, diz Carlos Figueiras, abre uma nova esperança no combate à doença neurológica, hereditária, incurável, progressiva e altamente incapacitante.
Desde os primeiros ensaios, o Tafamidis aguarda ainda a validação por parte das autoridades do medicamento, quer a nível nacional - o Infarmed -, quer europeu - a EMEA (Agência Europeia do Medicamento). 
Ainda assim, e embora ainda sem se conhecerem os efeitos de uma toma prolongada, a França abriu um regime de excepção e está a ministrar o fármaco aos seus doentes - entre os quais vários luso-descendentes - nas farmácias hospitalares.

Em Portugal, os doentes estão dispostos a assumir os riscos e exigem ser tratados de forma igual, mas o Ministério da Saúde não avança sem garantias.
"Antes de qualquer decisão, temos que estar protegidos pela garantia das agências internacionais", afirmou, ao JN, o secretário de Estado da Saúde, Manuel Pizarro, recusando avançar sem garantias da EMEA.

"Há estudos sobre o Tafamidis que parecem evidenciar vantagens para os doentes que tomam a medicação. Em todo o caso, o processo ainda está em avaliação em matéria de eficácia e de segurança. Seria manipular a óbvia motivação dos doentes para tomar uma medicação que parece ter resultados muito interessantes, sem termos absoluta garantia da eficácia, mas mais ainda da segurança", frisou ainda.

In: JN online

sábado, 17 de julho de 2010

Novo pacemaker em Portugal

Adelaide tem a doença dos pezinhos e um transplante hepático em perspectiva. A doença e a operação dão como certas futuras arritmias cardíacas. Ontem, sexta-feira, recebeu o primeiro pacemaker de uma nova geração que não limita alguns exames de diganóstico fundamentais.

Foi a primeira doente a quem foi implantado o novo aparelho no Hospital de Santo António, no Porto. Ao mesmo tempo – e apenas para marcar o início de uma nova etapa – outros seis hospitais (Guimarães, Santarém, Santa Marta, Santa Maria e Pulido Valente – em Lisboa – e Hospitais da Universidade de Coimbra) procediam à mesma intervenção.

A importância do dia? “Até aqui, os doentes com pacemakers não podiam fazer ressonâncias magnéticas, porque geram um campo magnético que podiam danificar o aparelho, indo até ao risco de explosão”, explica Lopes Gomes, do serviço de Cardiotorácica do Santo António. Ora, a ressonância magnética “é um meio de diagnóstico essencial, que praticamente todos nós fazemos alguma vez na vida”.

Aquele exame é, recorda João Primo, presidente da Associação Portuguesa de Arritmologia, Pacing e Electrofisiologia, “um dos principais meios de diagnóstico de doenças oncológicas e neurológicas”. Com o novo aparelho, feito de componentes não magnetizáveis, os portadores de pacemakers poderão submeter-se a exames de corpo inteiro “sem qualquer limitação”.

Adelaide tem 35 anos e, portanto, “uma probabilidade muito grande” de vir a ter de fazer uma ressonância magnética ao longo da vida, diz Vítor Lagarto, cirurgião que ontem lhe implantou o novo pacemaker. É um aparelho minúsculo, muito leve e programável para corrigir autonomamente as arritmias. No caso de Adelaide, a paramiloidoise resulta na deposição de substância amilóide no coração, reduzindo o ritmo da batida. A transplantação hepática trava a evolução da doença, mas não corrige as arritmias, nem impede o seu desenvolvimento. Todos os pacientes com doença dos pezinhos têm pacemaker.

A intervenção em si é muito simples e em nada difere da implantação dos pacemakers de primeira geração. Não exige mais do que uma anestesia local e consiste no isolamento de uma veia junto à clavícula, pela qual se introduzem eléctrodos de fixação activa, que ligam ao coração, explica Vítor Lagarto. O aparelha fica implantado na zona da clavícula, sob a pele. Ao todo, são 30 a 40 minutos de operação.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Nova esperança para travar doença dos pezinhos

Um ensaio clínico internacional envolvendo 78 doentes portugueses veio trazer novas esperanças no tratamento da paramiloidose, ou doença dos pezinhos, que teve ontem, quarta-feira, o primeiro Dia Nacional. A patologia deixou de progredir em cerca de 60% dos casos.

Sílvia Flores é um desses casos. Tem 28 anos e expectativa no olhar. A irmã, mais velha um ano, já foi transplantada. A mãe morreu-lhe tinha ela oito ou nove anos. Os tios também. A avó apagara-se no tempo em que não se sabia o que era aquilo que dava nas gentes da Póvoa do Varzim e falava-se, até, em paludismo.

É a paramiloidose, popularmente conhecida como doença dos pezinhos porque, em fases intermédias, destrói tecidos tendinosos e musculares nos membros inferiores, provocando um “andar à pato”. É mesmo assim que se diz. Sílvia só sente cansaço e formigueiro. O mesmo que sentia há pouco mais de dois anos, quando aceitou participar no ensaio clínico para o qual o Hospital de Santo António (HSA), no Porto, contribuiu com 48 doentes. “Os sintomas ainda eram poucos, em nada aumentaram”.

Sílvia espera assim poder evitar, por enquanto, o transplante hepático que, embora com boa taxa de sucesso (80% dos doentes sobrevivem ao fim de cinco anos), “traz muitos riscos”. A jovem poveira descobriu cedo que tinha a alteração genética que haveria, mais cedo ou mais tarde, de lhe gerar problemas. Tinha 18 anos, idade em que foi autorizada a ver o resultado da análise ao sangue que fez quando a mãe faleceu.

Hoje, cobaia da “tafamidis” naquele que é o maior centro do país no tratamento da paramiloidose, acredita que, “a médio prazo”, a inovadora terapêutica – considerada medicamento órfão e actualmente em processo de aprovação nas autoridades dos medicamento norte-americana e europeia – “vai fazer efeito”.

Convidada ontem, quarta-feira, para assinalar o primeiro Dia Nacional de Luta Contra a Paramiloidose, no Santo António, apareceu com o marido, Rudy. Não pensam em ter filhos: a doença é autossómica, ou seja, tem 50% de hipóteses de transmissão aos descendentes. A adopção poderá ser um caminho, a procriação medicamente assistida outro, se uma gravidez não fizer progredir os sintomas. Sílvia sorri.

Teresa Coelho, director da Unidade Clínica da paramiloidose do HSA, é a investigadora principal do ensaio clínico, que envolve seis outros países, apesar de Portugal ter o maior foco mundial da doença. “Temos 48 doentes (dois não são do HSA) a fazer a terapêutica. Dos 78 do ensaio 60% não apresentaram progressão da doença. Noutros é muito pouco marcada”.

O medicamento bloqueia a formação da proteína “anormal” responsável pela destruição de tecidos nervosos, a amilóide. Resultante de uma mutação genética no cromossoma 18, é produzida pelo fígado, pela retina e pelo sistema nervoso central. O transplante hepático resolve a parte do fígado, mas, sem cura, não há tratamento que elimine a doença, nem faça regredir os défices neurológicos.

A paramiloidose foi descrita em 1952 pelo neurologista do HSA Mário Corino de Andrade, que observara um padrão de formigueiro e adormecimento das pernas em doentes da Póvoa do Varzim. Concluiu-se entretanto que a doença fora levada para os quatro cantos do país e do mundo pelos navegadores do Norte e pelas migrações. Há 600 famílias diagnosticadas e mais de 1500 doentes sintomáticos em Portugal.