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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Demasiadas crianças tomam antipsicóticos. E correm o risco de ficar "como robôs"

Médicos alertam para excesso de medicação em casos de hiperatividade e défice de atenção, com recurso a substâncias para tratar esquizofrenia

Têm 2 anos ou menos, algumas ainda estão em idade de berço, e são diagnosticadas como crianças hiperativas, com défice de atenção, agressivas ou retraídas. E cada vez mais estão a ser tratadas com anti-psicóticos e outros remédios psiquiátricos habitualmente prescritos a adultos com doenças graves do foro mental. No ano passado, foram vendidas 276 029 embalagens de Metilfenidato (ritalina), mais 30 mil do que em 2013. O medicamento é receitado sobretudo nos hospitais públicos (37%) e em clínicas privadas (39%) a crianças e adolescentes (entre os 5 e os 19 anos) e os números têm vindo a aumentar, sobretudo desde 2010, mostra o relatório do Infarmed.

O recurso crescente a antipsicóticos - com efeitos sérios no desenvolvimento - e a probabilidade de muitos dos miúdos serem medicados sem necessidade estão a preocupar os médicos. "Estou preocupadíssima com essa tendência, que já é muito expressiva em Portugal. Qualquer dia as crianças são como robôs medicados", diz ao DN a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos. Opinião semelhante tem o neuropediatra Nuno Lobo Antunes (ver entrevista), que admite receber muitas crianças "medicadas de forma errada para o problema errado. Especialmente no caso dos neurolépticos" - como o Risperdal, recomendado para a esquizofrenia, mas também usado no tratamento do autismo.

O problema não é um exclusivo de Portugal. Nos EUA, por exemplo, perto de 20 mil receitas para os medicamentos psiquiátricos Risperdal e Seroquel - adequados a tratar doenças crónicas como a esquizofrenia ou a doença bipolar - foram passados a bebés de 2 anos ou menos. Um aumento de 50% relativamente aos 13 mil do ano anterior, segundo a multinacional de marketing farmacêutico IMS Health, citada pelo The New York Times.

Em Portugal, esta realidade está agora a ser estudada. Álvaro Carvalho, diretor do programa nacional para a saúde mental da Direção--Geral da Saúde, adiantou ao DN que "há a presunção de que há um tratamento excessivo de crianças com medicamentos como a ritalina, neste caso do grupo das anfetaminas". E que por essa razão houve necessidade de, há um ano, se criar "um grupo de trabalho sobre prescrição de psicofármacos em idade pediátrica, com o objetivo de termos informações que não sejam apenas dados empíricos". A intenção é fazer normas e guidelines sobre a prescrição de medicamentos nesta área. "O que já sabemos é que há uma grande pressão devido a pedidos de prescrição aos médicos pelos pais, psicólogos ou professores para tratar a hiperatividade." E há um excesso de diagnóstico de crianças quando "se tratam problemas de comportamento", diz. "Apesar de ainda não haver dados, há elementos para nos preocuparmos."

Ana Vasconcelos diz que "muitos destes remédios não estão adaptados a um cérebro em crescimento" como o das crianças. Cada vez mais as patologias dos miúdos têm que ver "com o medo e o stress dos pais", numa sociedade que vive "com mais sofrimento do que prazer. As crianças reagem atacando-nos".

Mais prescrições

Já neste ano, o Infarmed publicou um relatório sobre as vendas de embalagens de medicamentos indicados para a perturbação de hiperatividade com défice de atenção (PHDA), que revela que a cada ano se vende mais embalagens - com mais incidência nos distritos de Viana do Castelo e Viseu, mas também em Lisboa e no Porto - para um problema que afeta 5% a 7% da população. Por norma, são medicados para o défice de atenção e hiperatividade as crianças a partir dos 5 anos. E apenas nos casos em que terapia psicológica, educacional e social não teve resultado, sublinham as indicações do Infarmed.

Mas a tendência em crescimento de receitar psicotrópicos como antipsicóticos ou antidepressivos a crianças com 2 ou menos anos já é, segundo Ana Vasconcelos, uma realidade no nosso país. "Em Portugal começou a haver muitos pediatras e neuropediatras a tratar problemas como o défice de atenção ou a hiperatividade nas crianças com remédios como a ritalina ou o Risperdal." A especialista prefere uma abordagem diferente, com "um diagnóstico psicopatológico, procuro chegar à causa do comportamento".

Na opinião da pedopsiquiatra, o problema é que estas crianças "ficam inadaptadas". "É muito grave dar medicamentos sem saber o que se está a fazer. Tem de se fazer uma abordagem neurobiológica e estudar o lado cognitivo, afetivo e emocional da criança antes de prescrever remédios que podem não ser adequados à sua realidade", diz a especialista. Caso contrário, "estamos a robotizar crianças, mas não a tratar a situação."

Ritalina e Risperdal mais usados

A ritalina é mais usada em Portugal para tratar o défice de atenção infantil (até 2014 era dos poucos medicamentos comparticipados) e sempre esteve envolvida em polémica. Pensa-se que terá sido criada em 1944 para aumentar a concentração no campo de batalha de soldados nazis. Nos Estados Unidos e no Brasil há registo de casos em que a ritalina é usada ilegalmente sem prescrição médica por estudantes e alguns profissionais para diminuir o cansaço e ajudar no desempenho académico e profissional.

Os dados da IMS Health para os EUA não indicam quantas crianças receberam receitas, visto que muitas delas têm várias prescrições por ano, mas estudos prévios sugerem que terão sido pelo menos dez mil, segundo o artigo do NYT. As receitas para o antidepressivo Prozac ascenderam a 83 mil no grupo etário dos 2 ou menos anos, o que representou um aumento de 23% de prescrições nesta faixa etária, indicam os dados da IMS Health.

No artigo do The New York Times conta-se a história de Andrew Rios, de 4 anos, que tomou o antipsicótico Risperdal quando tinha 18 meses para tratar crises de agressividade. Depois de começar a tomar a droga, Andrew passou a gritar durante o sono e a interagir com pessoas e objetos invisíveis. A mãe foi pesquisar o medicamento e descobriu que este não estava aprovado e nunca tinha sido estudado para crianças tão novas como o seu filho.

In: DN online

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Comentário à entrevista da Linha da Frente (RTP1): "Cérebro Meu"

Pensei várias vezes antes de escrever o que quer que fosse sobre o tema...Tenho andado demasiado triste e zangado com a ligeireza com que tudo é abordado. 

Em minha opinião esta foi uma boa reportagem, já li em alguns sítios que deviam ter abordado outros pontos de vista, ou abordado outras pessoas...sim, pode ser, mas do meu ponto de vista fez um bom apanhado sobre o que se passa realmente!!!

No último seminário onde estive a falar sobre PHDA alertei para muitos dos aspetos abordados nesta reportagem, muita gente tem alertado para este aumento de medicação, mas...continuam a insistir em não querer ouvir.

Na realidade existem diagnósticos mal feitos, por culpa de quem?!? bem, não me cabe a mim dizer mas é claro para quem quer ver... 

Mas como em tudo...Bons e maus profissionais existem em todo o lado!!!

A bibliografia diz que estes devem ser feitos em equipa e são raras as vezes em que isso acontece. Na maioria das vezes passam uma escala, faz-se o gráfico e está feito o diagnóstico! Isto acontece e ninguém fala!

De uma vez por todas, a medicação não é o único recurso/estratégia a utilizar...pelo contrário...Primeiro devem ser utilizadas outras no dia a dia com a criança/jovem, com a família, com os professores, com os pares e depois há casos que sim, justifica-se medicação.

A RITALINIZAÇÃO DOS MIÚDOS


O recurso ao metilfenidato com os nomes correntes de Ritalina, Concerta ou Rubifen disparou em Portugal nos últimos anos, de 23 000 embalagens vendidas em 2004 passou-se para cerca de 280 000 embalagens vendidas em 2014, um crescimento assombroso e preocupante.

Na peça televisiva, para além dos testemunhos de crianças, adolescentes e pais devem, do meu ponto de vista, salientar-se as lúcidas intervenções da professora Inácia Santana e da pedopsiquiatra Ana Vasconcelos que alertam para os muitos problemas e riscos envolvidos nesta medicação.

Ainda face a este cenário e em diferentes intervenções públicas, especialistas como Mário Cordeiro ou Gomes Pedro, muito recentemente, têm revelado sempre uma atitude cautelosa e prudente face esta hipermedicação ou sobrediagnóstico. Este tipo de discurso, cauteloso e prudente, que subscrevo, contrasta com a ligeireza, que não estranho, de Miguel Palha que referia há algum tempo no Público as “centenas” de crianças que na sua clínica solicitam “diariamente” o fármaco.

Retomo algumas notas de textos anteriores sobre estas questões, a forma como olhamos e intervimos face aos comportamentos que os miúdos mostram. De facto, de há uns tempos para cá uma boa parte dos miúdos e adolescentes ganharam uma espécie de prefixo na sua condição, o "dis".

Se bem repararem a diversidade é enorme, ao correr da lembrança temos os meninos que são disléxicos em gama variada, disgráficos, discalcúlicos, disortográficos ou até distraídos.

Temos também as crianças e adolescentes que têm (dis)túrbios ou perturbações. Estes também são das mais diferenciadas naturezas, distúrbios do comportamento, distúrbio do desenvolvimento, distúrbios da atenção e concentração, distúrbios da memória, distúrbios da cognição, distúrbios emocionais, distúrbios da personalidade, distúrbios da actividade, distúrbios da comunicação, distúrbios da audição e da visão, distúrbios da aprendizagem ou distúrbios alimentares.

Como é evidente existem ainda os que só fazem (dis)parates e aqueles cujo ambiente de vida é completamente (dis)funcional ou se confrontam com as (dis)funcionalidades dem muitos contextos escolares, número de alunos por turma excessivo, currículos desajustados, falta de apoios, etc.

Pois é, há sempre um "dis" à espera de qualquer miúdo e senão, inventa-se, "ele tem que ter qualquer coisa".

De forma simplista costumo dizer que algumas destas crianças não têm perturbações do desenvolvimento ou dificuldades de aprendizagem, experimentam perturbações no envolvimento e sentem dificuldades na “ensinagem”.

Agora um pouco mais a sério, sabemos todos que existem um conjunto de problemas que podem afectar crianças e adolescentes mas, felizmente, não tantos como por vezes parece. Inquieta-me muito a ligeireza com que frequentemente são produzidos "diagnósticos" e rótulos que se colam aos miúdos, dos quais eles dificilmente se libertarão e que pela banalização da sua utilização se produza uma perigosa indiferença sobre o que se observa nos miúdos.

Inquieta-me ainda a ligeireza com que muitos miúdos aparecem medicados, chamo-lhes "ritalinizados", sem que os respectivos diagnósticos conhecidos pareçam suportar seguramente o recurso à medicação. Como se viu na peça da RTP os riscos da sobreutilização ou uso sem justificação do metilfenidato tem riscos, uns já conhecidos, outros em investigação.

Esta matéria, avaliar e explicar o que se passa com os miúdos e adolescentes, exige um elevadíssimo padrão ético e deontológico além da óbvia competência técnica e científica.
Não se pode aligeirar, é "dis"masiado grave.

Texto de Zé Morgado

quinta-feira, 4 de junho de 2015

BE quer estudo epidemiológico sobre hiperatividade e normas para prescrição de medicamentos

O Bloco de Esquerda propôs hoje ao Governo a criação de uma norma de orientação clinica (NOC), para a prescrição de medicamentos contra a hiperatividade, e a elaboração de um estudo epidemiológico sobre a prevalência e incidência desta perturbação.

A sugestão surge a propósito da controvérsia que envolve o aumento dos casos diagnosticados e da medicação de crianças e adolescentes com perturbação de hiperatividade com défice de atenção (PHDA), nos últimos anos.

O tratamento medicamentoso da PHDA passa pela administração de Metilfenidato, aprovado em Portugal desde 2001, ou de Atomoxetina, que passou a ser coparticipada em 2014, ambos os medicamentos classificados como estimulantes inespecíficos do sistema nervoso central.

In: Destak

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Seminário "Dislexia e Hiperatividade em debate".

No dia 23 de maio de 2015 terá lugar na Universidade Católica Portuguesa - Viseu o Seminário intitulado "Dislexia e Hiperatividade em debate".

Pretende ser um espaço para a partilha de conhecimentos e saberes, de reflexão alargada, atual e sistematizada, sobre estas problemáticas.

Contará com a presença de conferencistas com vastas e significativas obras publicadas, a nível nacional e internacional, neste âmbito, designadamente, a Professora Doutora Helena Serra (Presidente da Associação Portuguesa de Dislexia - DISLEX) e o Professor Doutor Carlos Nunes Filipe (Professor da Nova Medical School – Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa).

Mais informações e inscrição em: www.crb.ucp.pt ou 232 419 500

Informação recebida via email.


quarta-feira, 25 de março de 2015

Hiperatividade está mal diagnosticada em Portugal, diz especialista

Quando completa 50 anos de carreira, o pediatra fala (...) das suas preocupações atuais e aponta como um dos grandes desafios da pediatria moderna os problemas comportamentais e relacionais das crianças e dos adolescentes.

"Hoje talvez estejamos na linha de fronteira de passar do modelo patológico para o modelo relacional e isto faz a diferença na pediatria, na educação, na psicologia, em toda e qualquer atividade formativa", afirma.

Para Gomes Pedro, que aprendeu e começou a prática clínica centrada no diagnóstico das doenças, hoje é fundamental estabelecer precocemente uma relação entre o pediatra, os pais e o bebé, preparando-os para as várias fases do desenvolvimento expectáveis e acompanhando-os nos problemas que daí possam advir.

É o que se passa com a Hiperatividade e o Défice de Atenção (PHDA): "Estas doenças e expressões aparecem porque o pessoal de saúde está mais sensível, mais atento às perturbações de comportamento do que há uns anos atrás".

Gomes Pedro adverte, no entanto, que esse olhar, o começar a olhar para o comportamento, leva, como risco na intervenção dos profissionais, a considerarem quase matematicamente: «o menino está muito ativo, está hiperativo».

"A professora queixa-se de que está ativo, «é uma síndroma de Attention deficit hyperactivity disease», a professora diz «leve ao seu médico», e os médicos que não estejam ainda bem formados, bem alicerçados no que é o comportamento normal do que é um sinal de risco no comportamento, receitam o metilfenidato" (fármaco para tratamento da PHDA), acrescenta.

Isto comporta o "risco de se usar sistematicamente substâncias farmacológicas quando não há hiperatividade nenhuma", pois "a atividade que vemos, por exemplo, num gabinete, é própria de uma criança com três, quatro ou cinco anos, que gosta de explorar e que, mais do que normal, é desejável", sublinha.

Segundo o pediatra, "é muito frequente os pais chegarem com uma criança com três anos e a dizer "ela deve ter hiperatividade e precisa de ser tratada".

O que acontece é que as pessoas estão mais despertas, o que comporta outros riscos: a hiperatividade e o défice de atenção hoje está, por um lado, sobrediagnosticado, e por outro, mal diagnosticado, o que significa que há crianças que tomam o metilfenidato sem precisarem e outras que precisariam e não o tomam.

"Há crianças hiperdiagnosticadas e outras crianças hipodiagnosticadas", sublinhou, acrescentando que "a moral da história" é que é preciso garantir que não se deixa de diagnosticar uma hiperatividade e défice de atenção, que é facilmente corrigida farmacologicamente, mas que também não se começa a usar drogas quando não é necessário.

Não é que a medicação tenha muitos riscos, salienta, mas "um princípio fundamental na medicina é tratar quando é preciso e hoje a implicação de tratar não é só medicamentosa, mas é o acompanhar".

A grande questão é que não existem ainda meios para garantir um diagnóstico exato da PHDA.

"Não há propriamente um meio tão concreto como fazer uma análise para ver se há uma infeção, uma apendicite. A gente vê que há uma alteração dos glóbulos brancos, que mesmo que não se palpe conveniente uma barriga para fazer o diagnóstico, há uma análise concreta que nos diz «há infeção nesta criança»".

No domínio do comportamento, no chamado modelo relacional, isso não é tão fácil, pois embora haja testes, como o Connors e outros, que dão pistas para que se possa estar perante uma PHDA, é preciso que o pediatra - "deve ser ele a tomar conta destas crianças - tenha experiência e tenha competência para distinguir entre essa perturbação e uma atividade normal".

"É que é 'hiperativa' toda a criança pequena, nomeadamente a criança que entra para o jardim-de-infância", e é preciso ter isso bem presente e "não hiperdiagnosticar síndromas de défice de atenção que obrigam imediatamente a medicar".

In: JN

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Hiperatividade: o que diz a Autoridade da Saúde (França)

Esta quinta-feira, 12 de fevereiro, a Autoridade de Saúde, órgão respeitado e independente, reconhece oficialmente pela primeira vez a existência de TDAH (Transtorno do Défice de Atenção e Hiperatividade), mais comummente conhecido como hiperatividade.

Neste sentido, publica um conjunto de recomendações e ferramentas de triagem para médicos, profissionais de saúde, professores para melhor identificar e apoiar as crianças com esta patologia.

Uma desordem em grande parte não reconhecida até mesmo entre os médicos

"Os profissionais de saúde têm pouca ou nenhuma formação nesta desordem, e têm constantemente muitas dificuldades em responder às perguntas das famílias, prestar um apoio à criança e orientá-la para os cuidados adequados", constata a Autoridade de Saúde.

Este reconhecimento oficial e recomendações postas à disposição dos profissionais constituem um passo importante para as famílias, até aqui forçadas a navegar entre as instituições e os profissionais de opiniões por vezes diametralmente opostas. Nathalie, um quadro parisiense, reconta por exemplo:

"Quando anunciei a psicóloga da escola que a minha filha tinha sido diagnosticada hiperativa, ela disse, "mas isso não existe".

Em direção ao fim da da polémica entre psiquiatras 

Na verdade, o TDAH (Transtorno do Défice de Atenção e Hiperatividade), amplamente reconhecido internacionalmente, é objeto de controvérsia entre os médicos em França. Para a maioria dos psiquiatras franceses, cuja formação ainda se baseia na psicanálise, as dificuldades de crianças hiperativas expressariam apenas um conflito interior para o qual se deve procurar a causa, família pobre, relação parental difícil, etc, unicamente através de terapias.

Face a eles, um punhado de praticantes, exercendo na maior parte nos centros hospitalares designados "especialistas" reconhecem TDAH como tal. Ao fim de dois anos de trabalho e de consulta, a Autoridade de Saúde chega a um acordo entre os especialistas sobre a existência específica desta desordem neurodesenvolvimental. Uma primeira.

O que é o TDAH?

Esta desordem que segundo as estimativas, afeta 2% a 5% de crianças, em graus de gravidade variada, é caracterizada por uma série de três grupos de sintomas associados com diferentes graus:

Défice de atenção: a incapacidade de completar uma tarefa, esquecimentos frequentes, grande distração, recusa ou evitação de tarefas que requerem atenção sustentada;
A hiperatividade motora: agitação incessante, incapacidade de permanecer no lugar (especialmente nas escolas) e atividade desorganizado e ineficaz;
Impulsividade: dificuldade de esperar, necessidade de agir, tendência a interromper as atividades dos outros.Nas suas formas graves, dificulta seriamente a vida familiar, social e ou escolar da criança.

Melhorar o despiste

Apesar das discussões observadas em França, a Autoridade de Saúde atesta que "o TDAH é uma doença crónica que pode persistir na vida adulta." A experiência clínica e estudos recentes posicionam-no como um diagnóstico dimensional. Por outras palavras, a sua intensidade pode ser altamente variável de um indivíduo para outro.

"Os profissionais de saúde têm pouca ou nenhuma formação nesta desordem, muitas vezes têm dificuldade em responder às perguntas das famílias, prestar um apoio à criança e para a criança e orientá-la para os cuidados adequados. "

A Autoridade de Saúde recomenda o seu despiste o mais precocemente possível, porque quando as crianças não são diagnosticadas, os estudos constatam "um agravamento das consequências psicológicas, educacionais e sociais nas crianças com um risco a longo prazo dos efeitos deletérios na vida futura (dificuldades nas áreas de emprego e trabalho, desintegração social, comportamento viciante) ".

O medicamento deve ser reservado para os casos mais graves e associado às terapias

A Autoridade de Saúde determina que o tratamento de metilfenidato, uma molécula psicoestimulante, classificada de estupefaciente, deve ser reservado às crianças a quem o TDAH causa impacto muito forte. A primeiro prescrição deve ser feita apenas no hospital, num quadro muito controlado. O apoio das crianças deve combinar tratamento, psicoterapia e reeducação.

Véronique Radier

Fonte: L'OBS via FB

Nota: Tradução pelo editor do blog (Incluso)

In: Incluso

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

“Querem melhorar o rendimento escolar? Estiquem os recreios!”

Com aulas de 90 minutos e recreios de 10, é quase impossível não existir “uma epidemia atípica de défices de atenção…”. O alerta, em jeito provocatório, é do psicólogo Eduardo Sá, para quem “melhor recreio significa mais rendimento escolar”. E deixa o desafio: “Querem melhorar o rendimento escolar? Estiquem os recreios!” para 25 ou 30 minutos. A opinião é do psicólogo Eduardo Sá, em entrevista Pais&filhos/TSF.



Via: Incluso

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Saiba se é um adulto com défice de atenção e hiperatividade

Cerca de 75 por cento dos adultos com PDAH apresenta pelo menos uma outra perturbação psiquiátrica e cerca de 30 por cento apresenta duas ou mais perturbações

«PDAH» pode não soar-lhe a nada, e pode ser uma sigla desconhecida para si, mas é importante saber que é a denominação que corresponde à Perturbação de Défice de Atenção e Hiperatividade, um problema crónico de desatenção que perturba não só as crianças, como os adultos.

Sim, há adultos que sofrem de défice de atenção e de hiperatividade. Em Portugal, segundo o estudo epidemiológico nacional de saúde mental, realizado em 2013, a incidência é de 0,4 por cento nos adultos, enquanto nas crianças o número é um pouco mais elevado: 4,6 por cento.

Os autores deste estudo entrevistaram 2.060 indivíduos com mais de 18 anos de idade e utilizaram os instrumentos de avaliação do Inquérito Mundial da Saúde Mental (IA-WMHS), que tem um módulo que serve para fazer diagnósticos psiquiátricos, entre os quais transtornos de controlo dos impulsos, incluindo a PDAH. 
Ainda que os números sejam baixos, a especiaista Sandra Pinho do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil (CADin) desmistifica este problema:

«A perturbação de défice de atenção e hiperatividade (PDAH) é a designação usada para descrever um problema crónico de desatenção, o que perturba o funcionamento no estudo, no trabalho e nas relações familiares e sociais.

Cada vez mais rapazes e raparigas, homens e mulheres, são diagnosticados com esta perturbação. Contudo, o que está a aumentar não é o número de pessoas com problemas de desatenção, mas sim o número de pessoas que reconhecem as suas dificuldades como sintomas de uma perturbação tratável, que ocorre tanto nos homens como nas mulheres, tanto nas crianças como nos adolescentes e adultos. Estas pessoas existiram em todas as gerações. No entanto, eram provavelmente interpretadas como pouco capazes, preguiçosas, imaturas ou desmotivadas. 

À medida que professores, psicólogos e psiquiatras testemunham as melhorias notáveis que se obtêm com o tratamento da PDAH, vão ficando mais alerta para os sintomas desta perturbação e sugerem a avaliação e intervenção para aqueles que possam beneficiar. 

As pessoas com PDAH habitualmente experimentam dificuldades em áreas como a organização no trabalho e no estudo, a gestão do tempo e do dinheiro, a toma de medicamentação e as relações interpessoais. Na maioria dos casos, os sintomas de PDAH persistem na adolescência e idade adulta tornando-se até mais problemáticos. 

Por definição, a PDAH deve desenvolver-se antes dos 7 anos de idade, mas frequentemente esta perturbação só é diagnosticada mais tarde. Tratando-se de uma desordem das funções executivas, e torna-se mais incapacitante à medida que o desenvolvimento do indivíduo impõe mais exigências a estas funções.

As exigências de autocontrolo e autorregulação aumentam rapidamente na escola básica e secundária e, sobretudo, nos primeiros anos do ensino superior. Nesta fase, os estudantes enfrentam uma série de exigências de organização e controlo das suas atividades cognitivas e sociais. Além disso, os pais começam a retirar a ajuda na organização e a exigir que o jovem se autonomize. 

A transição para a idade adulta representa inúmeros desafios às funções executivas do cérebro como gerir o tempo, o dinheiro e, por vezes, um lar; organizar o estudo; procurar e manter um emprego; moderar uso de substâncias; obter cuidados médicos; fazer e manter relacionamentos, entre outros. Assim, é nesta fase de forte apelo às funções executivas do cérebro, que muitos jovens e adultos com PDAH poderão enfrentar dificuldades mais flagrantes e incapacitantes, recorrendo a avaliações médicas das quais resultam o diagnóstico de PDAH.

Os sintomas centrais da PDAH são a desatenção, a impulsividade e a hiperatividade (manifestada, no adulto, por uma atividade mental incessante, sensação de inquietação e incapacidade para se envolver em atividades calmas ou sedentárias). 

Contudo, no adulto, esta perturbação envolve frequentemente outras dificuldades: a procrastinação (o adiar sistemático de atividades ou projetos importantes), a baixa tolerância à frustração, as rápidas variações do humor, a baixa autoestima, a desorganização (dificuldades na gestão do tempo e do dinheiro, na organização no lar, no trabalho e no cumprimento de prazos), os problemas de atitude no relacionamento com chefias, colegas e amigos, a dificuldade em controlar os impulsos nos relacionamentos interpessoais, a procura de sensações fortes e a gratificação imediata (resultando em consumos excessivos, comportamentos sexuais de risco e acidentes de viação).

Cerca de 75 por cento dos adultos com PDAH apresenta pelo menos uma outra perturbação psiquiátrica e cerca de 30 por cento apresenta duas ou mais perturbações. 

Entre as que mais frequentemente surgem associadas à PDAH estão: as perturbações do humor (depressão, mania, distimia), as perturbações da ansiedade (desordem de pânico, fobia social, agorofobia, etc.), as perturbações de oposição e de conduta, a perturbação obsessivo-compulsiva, as dificuldades específicas de aprendizagem (dislexia, disgrafia, discalculia), o abuso de substâncias, as perturbações do sono, a síndrome de Tourette.» 


Sintomas de desatenção em adultos:
Ter dificuldade em manter a atenção na leitura 
Ter dificuldade em completar tarefas
Ter dificuldade em gerir o tempo
Ser distraído e esquecido
Ter fraca concentração
Ser desarrumado

Sintomas de hiperatividade em adultos:
Ser irrequieto
Ter os mãos ou pés inquietos quando está sentado
Falar excessivamente
Sentir-se oprimido 
Fazer uma seleção de empregos «ativos»

Sintomas de impulsividade em adultos:
Ser irritável e zangar-se facilmente
Conduzir com excesso de velocidade, provocando alguns acidentes de viação
Mudar impulsivamente de emprego

In: TVI24

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção em Adultos

Vários estudos apontam para o facto de a hiperactividade e o défice de atenção não desaparecer a partir de certa idade.

Na idade escolar muitas crianças são referidas por pais ou professores, como tendo comportamentos de hiperactividade e/ou de défice de atenção que prejudicam o rendimento escolar, a interacção social com colegas e professores e a vida familiar. Algumas dessas crianças cumprem critérios de diagnóstico de Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA).

Nestes casos, a introdução de terapêutica ajustada e a utilização de estratégias comportamentais específicas levam, com frequência, a melhorias importantes, traduzidas na recuperação do rendimento académico e num melhor ajustamento social. O que acontece a essas crianças e adolescentes quando atingem a idade adulta? A realização de estudos epidemiológicos em populações de adultos e o acompanhamento de crianças com PHDA através da vida adulta apontam claramente para o facto de a PHDA não desaparecer a partir de certa idade. Até 70% das crianças diagnosticadas, continuam a ter sintomas ao longo de toda a vida, justificando uma intervenção médica e/ou psicológica. Sabendo que cerca de 5% das crianças em idade escolar têm PHDA, a prevalência estimada nos adultos andará perto dos 3%. Aqui se incluem os adultos que tendo sido crianças com PHDA não foram, no seu tempo, diagnosticados.

A PHDA é caracterizada por um conjunto de sinais e sintomas de desatenção, impulsividade e agitação motora claramente exagerados atendendo à idade e à circunstância social. Sendo que se manifesta desde a infância, o diagnóstico não pode ser feito tendo somente em consideração os comportamentos e as queixas actuais mas toda a história de vida da pessoa. A forma como a PHDA se apresenta nos adultos é necessariamente diferente da forma como se manifesta nas crianças. O crescimento, a vivência e, consequentemente, o “amadurecimento” da personalidade, contribuem para que algumas das manifestações mais exuberantes, como a extrema irrequietude ou agitação, sejam raras no adulto. A dificuldade em manter a atenção focada, alternando com situações de atenção exagerada e desadequada, a dificuldade em organizar as tarefas e as actividades, com tendência para se “arrastar nas coisas”, o falar demasiado interrompendo ou antecipando os outros, o tamborilar constante de dedos, a dificuldade em manter-se sossegado ou o mexer-se constantemente na cadeira são, entre outros, sinais comuns nas pessoas com PHDA.

As mudanças de humor, as práticas de risco, o insucesso académico, a mudança repetida de emprego, as mudanças de objectivos, os projectos que se iniciam com entusiasmo e se largam de seguida, o desencontro dos ritmos de sono e vigília, a dificuldade em estabelecer prioridades e em gerir o tempo, são sinais que surgem também associados à PHDA.

No caso de suspeita deverá ser consultado um médico ou psicólogo com experiência nesta perturbação. Só eles poderão fazer o diagnóstico.

É importante diagnosticar e tratar a PHDA. O tratamento adequado não só diminui os sintomas da perturbação, como restitui à pessoa a possibilidade de usar as capacidades que realmente tem.

Por: CARLOS NUNES FILIPE

Psiquiatra. Professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa onde é regente da Disciplina de Fundamentos de Neurociências; Director Científico do CADIn (Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil) em Cascais

In: Público

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Medicalização e patologização da educação

De repente, ou talvez aos poucos, um elevado número de crianças foram sendo catalogadas de anormais e a necessidade de tomarem algo foi-se impondo como um facto quase inquestionável.

“Nem pensar em dar medicação ao meu filho. Já trabalhei no contexto da saúde e sei bem o que isso significa.” Foi com perplexidade que ouvi as palavras desta mãe, como resposta à afirmação da professora titular de que o filho muito provavelmente seria hiperativo e talvez precisasse de tomar algo que o acalmasse. A determinação e firmeza daquela mãe fecharam completamente a hipótese de solucionar o problema daquela criança através do uso de fármacos. A aceitação relativamente pacífica, ou aparentemente pacífica, com que os pais frequentemente aderem à perspetiva de que os filhos venham a tomar medicamentos permitiu a esta mãe destacar-se pela diferença.

Para quem trabalha em contexto escolar, a invasão medicamentosa não constitui novidade. De repente, ou talvez aos poucos, um elevado número de crianças foram sendo catalogadas de anormais e a necessidade de tomarem algo foi-se impondo como um facto quase inquestionável. Questões não médicas foram-se transformando artificialmente em problemas médicos (medicalização). Os pais, de certa maneira pressionados por uma escola pouco preparada para ir respondendo à diferença, acabam por ir procurar nos médicos a solução para a agitação motora, falta de atenção, comportamentos de oposição e outros, potenciadores de insucesso e opositores à boa gestão da sala de aula. Para quem ouve os mais novos, é perfeitamente claro que querer mantê-los horas a fio fechados em cubículos apertados não facilita o processo de aprendizagem e potencia a instauração da indisciplina. Causa-me intranquilidade pensar que temos de “drunfar” as crianças para estas se adaptarem a uma escola que não está adequada a elas. Causa-me inquietação que os pais, na busca da melhor e mais rápida solução para os problemas (não tenho dúvida de que os pais querem o melhor para os filhos), vão procurar soluções químicas, que poderão traduzir-se de uma forma pouco positiva na saúde dos filhos. Perturba-me pensar que há gente a aproveitar-se e a ganhar dinheiro com a febre da solução rápida dos problemas. Causa-me preocupação que grandes questões políticas, sociais, culturais e afetivas sejam mascaradas como “doenças”, “transtornos”, “distúrbios”; que questões coletivas sejam tomadas como individuais e que problemas sociais e políticos sejam assumidos como problemas de foro biológico. Neste processo, que gera angústia e ansiedade, a pessoa e as famílias são responsabilizadas pelos problemas, enquanto governos, autoridades e profissionais são absolvidos das suas responsabilidades.

Felizmente, há já um elevado número de pessoas sensibilizadas para as questões aqui expostas. No dia 16 de maio realizou-se na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade do Porto, um seminário de grande interesse, cujo tema era precisamente “Por uma abordagem não medicalizante nem patologizante da educação“, em que estas e outras questões foram alvo de análise e reflexão. 

Para concluir, gostaria de sublinhar que o problema aqui apresentado não é um problema individual. Os pais são frequentemente pressionados a recorrer ao apoio da saúde, os professores sentem-se impotentes pois não conseguem que os alunos atinjam as metas estipuladas e a medicação surge como a solução mágica, já que em muitas situações até resulta e bem! A minha dúvida, em muitas situações, é se o bem de hoje se traduzirá em bem futuro. Gostaria também de sublinhar que em algumas situações a medicação é mesmo necessária; o problema que se coloca é ter-se generalizado como solução para um grande número de problemas, que não serão, de todo, de foro individual.

Por: ADRIANA CAMPOS

In: EDUCARE

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Apresentação: "Desmistificar a PHDA: do conceito à intervenção"

Comunicação apresentada no dia 21 de maio no Auditório da Escola Secundária D. Dinis, no âmbito do Ciclo de Seminários “Hiperatividade e défice de atenção em contexto escolar”, organizado pelo Centro de Formação de Escolas Escolas António Sérgio.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Ciclo de Seminários “Hiperatividade e défice de atenção em contexto escolar”

Ciente da complexidade epistemológica, educativa e social que configura a inclusão de alunos sinalizados como apresentando PHDA, o Centro de Formação de Escolas António Sérgio, em Lisboa, organiza o Ciclo de Seminários “Hiperatividade e défice de atenção em contexto escolar”, pretendendo ser um fórum multidisciplinar, que possibilite discutir princípios e práticas para capacitar educadores, professores, pais e outros agentes educativos a lidar de modo adequado com alunos que apresentam estas características.

Acreditado pelo Conselho Científico da Formação Contínua com 0,6 créditos, este Ciclo de Seminários ocorre entre os dias 21 de maio e 16 julho de 2014, entre as 17:30 e as 20:30 no auditório da Escola Secundária D. Dinis, em Lisboa, sede do Centro de Formação de Escolas António Sérgio.

A entrada é gratuita, sujeita a inscrição e à lotação da sala, devendo inscrever-se no seguinte link http://goo.gl/tWQHfa

Para mais informações, por favor contacte-nos para o seguinte email seminariosphda@gmail.com ou no site do Centro de Formação de Escolas António Sérgio http://www.cfantoniosergio.edu.pt/

Para consultar o cartaz clique aqui.

Informação recebida por e-mail

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Receio que não haja crianças hiperativas mas adultos com défices de atenção

1. Reconheço nada ter contra o lobo, o lince, o morcego, ou o bufo real, o koala, o leopardo das neves ou a arara azul mas, na verdade, de entre os animais em vias de extinção, preocupa-me que o bicho-carpinteiro não seja protegido. Não vos falo do escaravelho que, como roedor perseverante da madeira, é também conhecido como bicho-carpinteiro. Mas de um misterioso animal, com o mesmo nome, que – qual Zorro – tem preservado a sua privacidade a ponto de, habitualmente, os pais – ao referirem--se a ele, quando as crianças são vivas e trapalhonas – não o conseguirem definir pela sua forma mas, unicamente, pelos efeitos que parece provocar.

Não sei em que categoria taxonómica o bicho-carpinteiro se incluirá: será um anfíbio ou uma ave que se acanha de voar? Será um predador ou um discreto micro-organismo que rivaliza com as bactérias, com a particularidade de não ter um antídoto à sua altura (o que justificaria a verdadeira epidemia atípica de crianças que soçobram à sua nefasta influência)? Preocupa-me que falemos do bicho-carpinteiro e não saibamos onde vive, como acasala ou quantas células terá. Tem uma, como a amiba (que, apesar disso, se emociona) ou, dado o seu lado de obreiro, terá um punhado de neurónios, como as abelhas? Ainda assim, o bicho-carpinteiro, ao contrário do que os pais imaginam, é o melhor amigo dos brinquedos: depois de desmanchados, acrescenta-lhes (sempre!) mais umas peças e, ao leme dos gestos das crianças, não deixa que os seus quartos se acomodem, preguiçosos, aos excessos da arrumação.

Por mais que não pareça, o bicho-carpinteiro é o melhor amigo da escola: é pela sua generosa contribuição que elas parecem ter a vista na ponta dos dedos, levando-as a supor que só se conhece no que se toca e que cheirar, escutar e sentir é sempre melhor que ver. E não fosse terem de ser consertadinhas e sossegadas em cada aula, e o bicho-carpinteiro não vacilava entre mordiscar as unhas ou os lápis das crianças (o que só é possível quando as aulas compridas esticam a sua paciência e lhe põem a barriga à razão das horas).

2. Apesar dos seus inestimáveis contributos para a vida das crianças, há quem queira o bicho-carpinteiro a ‘engonhar’, menos atrevido e, até, compenetrado. Ora esta ideia de que as crianças saudáveis, sejam quantas forem as horas que a escola as empanturre com aulas, seja qual for a magia de um professor que as cative, o número de colegas – vivos ou adoentados – que se acumulem numa sala, ou as preocupações que se atrevessem no seu coração, as crianças tenham de estar sossegadas é que preocupa. Presumir que crianças sossegadas são, por inerência, atentas deixa-me atónito.

E, pior: medicar sem critério – transformando o bicho-carpintério numa bactéria multirresistente e a escola no seu exterminador implacável – confundindo crianças dopadas com crianças atentas, põe-me à beira da ira. Sobretudo porque receio que não haja crianças hiperativas mas adultos com défices de atenção.

3. Será possível que crianças vivas, educadas em famílias cada vez mais democráticas (e que, por isso, não crescem confundindo medo com respeito), cada vez com menos tempo para brincar, com menos espaço nas suas casas e nos seus bairros, com mais compromissos escolares (que, se os pais utilizarem toda a oferta que a escola lhes disponibiliza, podem lá estar 55 horas por semana) sejam ainda mais sossegadinhas? Não estaremos a esticar, de tal forma, a vitalidade das crianças que, expondo-as a um stresse cumulativo tão absurdo, só as podemos tornar agitadas para que depois, como quem tenta consertar estragos a correr, as tentemos sossegar com uns aditivos químicos? Acho que sim.

Será razoável que, por tudo e por nada, se diagnostique hiperatividade nas crianças e, em consequência disso, sejam medicadas, anos a fio, com intervalos de «desintoxicação» durante as férias, sem que se ponderem os efeitos secundários que uma tal utilização tem? Não. Ainda assim, existem crianças hiperativas? Sim. Como se manifestam, então, essas crianças doentes? Com uma agitação hemorrágica, estejam onde estiverem ou quem estiverem, que as faz, em cada momento, esvaírem-se em angústia como se, ao serem paradas, parecessem soçobrar e morrer. Serão essas as que parecem amigas do bicho-carpinteiro? Não...

Por: Eduardo Sá

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Crianças e medicamentos

Um artigo escrito em 1983, o psicanalista e pedagogo João dos Santos escrevia: “Não reprimam as crianças, ajudem-nas a reprimir-se.” Escrevia ainda Santos: “A criança não necessita de ser reprimida para ficar quieta depois de se mover. O que ela necessita é de espaço de pesquisa e tempo de elaboração. Ela procura conhecer para encontrar referências e adquirir segurança e necessita ter segurança para poder apreender o que se passa à sua volta e arrumar as ideias (…) a criança exige do adulto que a ajude a reprimir-se, para encontrar a segurança necessária ao seu desenvolvimento humano, à sua ânsia de atingir, igualar ou ultrapassar os adultos (…) é só necessário que as ajudem a reprimir-se.”

Palavras sábias e actuais. A sociedade de hoje, todavia, parece esquecê-las. Todos os dias vemos crianças e adolescentes que tomam medicamentos para os mais diversos objectivos: para ficarem menos hiperactivas, mais atentas, mais calmas ou mais concentradas. Diagnósticos psiquiátricos avançam todos os dias, formulados por professores, pais e mesmo técnicos sem grande experiência do mundo infantil: hiperactividade com défice de atenção, autismo, perturbação bipolar, psicose infantil, deficiência intelectual. Muitos pais não percebem o que se passa, porque a decisão de tratar não passa por uma escuta atenta da família. Estes diagnósticos, tantas vezes errados, repercutem-se na vida infantil e no relacionamento com familiares, colegas e amigos.

Muitas crianças ditas hiperactivas vivem em famílias sem regras, onde os adultos não permitiram uma exploração cuidadosa do mundo, reprimiram em excesso os movimentos da criança ou, pelo contrário, foram de uma indulgência e de uma permissividade enormes. Na escola, o 1.º ciclo decorreu com exigência mínima, sem que os professores se preocupassem com a educação moral, o reconhecimento do outro ou o limite à liberdade individual. Fichas de trabalho burocratizadas, fornecidas em fotocópias desmaiadas, são preenchidas à pressa, em casa, depois de os pais terem passado horas nos transportes.

O desporto e a Educação Física, essenciais para o bem-estar físico e psíquico, são menorizados no ambiente escolar. Nas famílias pobres, o desemprego e a falta de dinheiro dão cada vez menos espaço à criatividade infantil e o recurso à educação violenta e coerciva é a regra.

Uma equipa do ISCTE apresentou o primeiro estudo realizado em Portugal sobre Medicamentos e Consumos de Performance na população jovem, tendo concluído que um quarto dos jovens portugueses (18/29 anos) já consumiu fármacos para a concentração, quase a mesma proporção fê-lo para descontrair e acalmar, 71,9% já consumiram um medicamento ou produto natural para melhorar o seu desempenho e, nos que trabalham em call-centers, 18,9% dizem tomar medicamentos para dormir.

Presumo que muitos destes jovens foram crianças “irrequietas”, “hiperactivas”, “depressivas”, em que os pais não foram ajudados na melhor forma de educar e diversos técnicos acharam que era mais fácil medicar do que ouvir com atenção. Os adultos à volta desta gente nova não conseguiram fornecer um ambiente de segurança essencial ao seu desenvolvimento, às vezes na crença falsa de que o crescimento tudo resolveria. O que nunca acontece. Educar é conduzir para o exterior, com a cabeça livre para pensar e um caminho para descobrir.

Por: Daniel Sampaio

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A venda do transtorno de défice de atenção

O artigo abaixo aborda e questiona o excessivo aumento de jovens considerados como hiperativos e impulsivos e a prescrição de medicamentos para controlo do destas características. 

Keith Conners questiona, assim, o processo de avaliação destes jovens e o uso recorrente de medicação, influenciado pelas empresas farmacêuticas.

After more than 50 years leading the fight to legitimize attention deficit hyperactivity disorder, Keith Conners could be celebrating.

Severely hyperactive and impulsive children, once shunned as bad seeds, are now recognized as having a real neurological problem. Doctors and parents have largely accepted drugs like Adderall and Concerta to temper the traits of classic A.D.H.D., helping youngsters succeed in school and beyond.

But Dr. Conners did not feel triumphant this fall as he addressed a group of fellow A.D.H.D. specialists in Washington. He noted that recent data from the Centers for Disease Control and Prevention show that the diagnosis had been made in 15 percent of high school-age children, and that the number of children on medication for the disorder had soared to 3.5 million from 600,000 in 1990. He questioned the rising rates of diagnosis and called them “a national disaster of dangerous proportions.”

“The numbers make it look like an epidemic. Well, it’s not. It’s preposterous,” Dr. Conners, a psychologist and professor emeritus at Duke University, said in a subsequent interview. “This is a concoction to justify the giving out of medication at unprecedented and unjustifiable levels.”

The rise of A.D.H.D. diagnoses and prescriptions for stimulants over the years coincided with a remarkably successful two-decade campaign by pharmaceutical companies to publicize the syndrome and promote the pills to doctors, educators and parents. With the children’s market booming, the industry is now employing similar marketing techniques as it focuses on adult A.D.H.D., which could become even more profitable.

Few dispute that classic A.D.H.D., historically estimated to affect 5 percent of children, is a legitimate disability that impedes success at school, work and personal life. Medication often assuages the severe impulsiveness and inability to concentrate, allowing a person’s underlying drive and intelligence to emerge.

But even some of the field’s longtime advocates say the zeal to find and treat every A.D.H.D. child has led to too many people with scant symptoms receiving the diagnosis and medication. The disorder is now the second most frequent long-term diagnosis made in children, narrowly trailing asthma, according to a New York Times analysis of C.D.C. data.

Behind that growth has been drug company marketing that has stretched the image of classic A.D.H.D. to include relatively normal behavior like carelessness and impatience, and has often overstated the pills’ benefits. Advertising on television and in popular magazines like People and Good Housekeeping has cast common childhood forgetfulness and poor grades as grounds for medication that, among other benefits, can result in “schoolwork that matches his intelligence” and ease family tension.

A 2002 ad for Adderall showed a mother playing with her son and saying, “Thanks for taking out the garbage.”

The Food and Drug Administration has cited every major A.D.H.D. drug — stimulants like Adderall, Concerta, Focalin and Vyvanse, and nonstimulants like Intuniv and Strattera — for false and misleading advertising since 2000, some multiple times.

Sources of information that would seem neutral also delivered messages from the pharmaceutical industry. Doctors paid by drug companies have published research and delivered presentations that encourage physicians to make diagnoses more often that discredit growing concerns about overdiagnosis.

Many doctors have portrayed the medications as benign — “safer than aspirin,” some say — even though they can have significant side effects and are regulated in the same class as morphine and oxycodone because of their potential for abuse and addiction. Patient advocacy groups tried to get the government to loosen regulation of stimulants while having sizable portions of their operating budgets covered by pharmaceutical interests.

Companies even try to speak to youngsters directly. Shire — the longtime market leader, with several A.D.H.D. medications including Adderall — recently subsidized 50,000 copies of a comic book that tries to demystify the disorder and uses superheroes to tell children, “Medicines may make it easier to pay attention and control your behavior!”

Profits for the A.D.H.D. drug industry have soared. Sales of stimulant medication in 2012 were nearly $9 billion, more than five times the $1.7 billion a decade before, according to the data company IMS Health.

Even Roger Griggs, the pharmaceutical executive who introduced Adderall in 1994, said he strongly opposes marketing stimulants to the general public because of their dangers. He calls them “nuclear bombs,” warranted only under extreme circumstances and when carefully overseen by a physician.

Psychiatric breakdown and suicidal thoughts are the most rare and extreme results of stimulant addiction, but those horror stories are far outnumbered by people who, seeking to study or work longer hours, cannot sleep for days, lose their appetite or hallucinate. More can simply become habituated to the pills and feel they cannot cope without them.

Tom Casola, the Shire vice president who oversees the A.D.H.D. division, said in an interview that the company aims to provide effective treatment for those with the disorder, and that ultimately doctors were responsible for proper evaluations and prescriptions. He added that he understood some of the concerns voiced by the Food and Drug Administration and others about aggressive ads, and said that materials that run afoul of guidelines are replaced.

“Shire — and I think the vast majority of pharmaceutical companies — intend to market in a way that’s responsible and in a way that is compliant with the regulations,” Mr. Casola said. “Again, I like to think we come at it from a higher order. We are dealing with patients’ health.”

A spokesman for Janssen Pharmaceuticals, which makes Concerta, said in an email, “Over the years, we worked with clinicians, parents and advocacy groups to help educate health care practitioners and caregivers about diagnosis and treatment of A.D.H.D., including safe and effective use of medication.”

Now targeting adults, Shire and two patient advocacy groups have recruited celebrities like the Maroon 5 musician Adam Levine for their marketing campaign,“It’s Your A.D.H.D. – Own It.” Online quizzes sponsored by drug companies are designed to encourage people to pursue treatment. A medical education video sponsored by Shire portrays a physician making a diagnosis of the disorder in an adult in a six-minute conversation, after which the doctor recommends medication.

Like most psychiatric conditions, A.D.H.D. has no definitive test, and most experts in the field agree that its symptoms are open to interpretation by patients, parents and doctors. The American Psychiatric Association, which receives significant financing from drug companies, has gradually loosened the official criteria for the disorder to include common childhood behavior like “makes careless mistakes” or “often has difficulty waiting his or her turn.”

The idea that a pill might ease troubles and tension has proved seductive to worried parents, rushed doctors and others.

“Pharma pushed as far as they could, but you can’t just blame the virus,” said Dr. Lawrence Diller, a behavioral pediatrician in Walnut Creek, Calif. “You have to have a susceptible host for the epidemic to take hold. There’s something they know about us that they utilize and exploit.”

(Continuação do texto aqui)

domingo, 19 de maio de 2013

Por que as crianças francesas não têm Deficit de Atenção?

Nos Estados Unidos, pelo menos 9% das crianças em idade escolar foram diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e estão sendo tratadas com medicamentos. Na França, a percentagem de crianças diagnosticadas e medicadas para o TDAH é inferior a 0,5%. Como é que a epidemia de TDAH, que tornou-se firmemente estabelecida nos Estados Unidos, foi quase completamente desconsiderada com relação a crianças na França?

TDAH é um transtorno biológico-neurológico? Surpreendentemente, a resposta a esta pergunta depende do fato de você morar na França ou nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, os psiquiatras pediátricos consideram o TDAH como um distúrbio biológico, com causas biológicas. O tratamento de escolha também é biológico – medicamentos estimulantes psíquicos, tais como Ritalina e Adderall.

Os psiquiatras infantis franceses, por outro lado, vêem o TDAH como uma condição médica que tem causas psico-sociais e situacionais. Em vez de tratar os problemas de concentração e de comportamento com drogas, os médicos franceses preferem avaliar o problema subjacente que está causando o sofrimento da criança; não o cérebro da criança, mas o contexto social da criança. Eles, então, optam por tratar o problema do contexto social subjacente com psicoterapia ou aconselhamento familiar. Esta é uma maneira muito diferente de ver as coisas, comparada à tendência americana de atribuir todos os sintomas de uma disfunção biológica a um desequilíbrio químico no cérebro da criança.

Os psiquiatras infantis franceses não usam o mesmo sistema de classificação de problemas emocionais infantis utilizado pelos psiquiatras americanos. Eles não usam oDiagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM. De acordo com o sociólogo Manuel Vallee, a Federação Francesa de Psiquiatria desenvolveu um sistema de classificação alternativa, como uma resistência à influência do DSM-3. Esta alternativa foi a CFTMEA (Classification Française des Troubles Mentaux de L’Enfant et de L’Adolescent), lançado pela primeira vez em 1983, e atualizado em 1988 e 2000. O foco do CFTMEA está em identificar e tratar as causas psicossociais subjacentes aos sintomas das crianças, e não em encontrar os melhores bandaids farmacológicos para mascarar os sintomas.

Na medida em que os médicos franceses são bem sucedidos em encontrar e reparar o que estava errado no contexto social da criança, menos crianças se enquadram no diagnóstico de TDAH. Além disso, a definição de TDAH não é tão ampla quanto no sistema americano, que na minha opinião, tende a “patologizar” muito do que seria um comportamento normal da infância. O DSM não considera causas subjacentes. Dessa forma, leva os médicos a diagnosticarem como TDAH um número muito maior de crianças sintomáticas, e também os incentiva a tratar as crianças com produtos farmacêuticos.

A abordagem psico-social holística francesa também permite considerar causas nutricionais para sintomas do TDAH, especificamente o fato de o comportamento de algumas crianças se agravar após a ingestão de alimentos com corantes, certos conservantes, e / ou alérgenos. Os médicos que trabalham com crianças com problemas, para não mencionar os pais de muitas crianças com TDAH, estão bem conscientes de que as intervenções dietéticas às vezes podem ajudar. Nos Estados Unidos, o foco estrito no tratamento farmacológico do TDAH, no entanto, incentiva os médicos a ignorarem a influência dos fatores dietéticos sobre o comportamento das crianças.

E depois, claro, há muitas diferentes filosofias de educação infantil nos Estados Unidos e na França. Estas filosofias divergentes poderiam explicar por que as crianças francesas são geralmente mais bem comportadas do que as americanas. Pamela Druckerman destaca os estilos parentais divergentes em seu recente livro, Bringing up Bébé. Acredito que suas idéias são relevantes para a discussão, por que o número de crianças francesas diagnosticadas com TDAH, em nada parecem com os números que estamos vendo nos Estados Unidos.

A partir do momento que seus filhos nascem, os pais franceses oferecem um firme cadre- que significa “matriz” ou “estrutura”. Não é permitido, por exemplo, que as crianças tomem um lanche quando quiserem. As refeições são em quatro momentos específicos do dia. Crianças francesas aprendem a esperar pacientemente pelas refeições, em vez de comer salgadinhos, sempre que lhes apetecer. Os bebês franceses também se adequam aos limites estabelecidos pelos pais. Pais franceses deixam seus bebês chorando se não dormirem durante a noite, com a idade de quatro meses.

Os pais franceses, destaca Druckerman, amam seus filhos tanto quanto os pais americanos. Eles os levam às aulas de piano, à prática esportiva, e os incentivam a tirar o máximo de seus talentos. Mas os pais franceses têm uma filosofia diferente de disciplina. Limites aplicados de forma coerente, na visão francesa, fazem as crianças se sentirem seguras e protegidas. Limites claros, eles acreditam, fazem a criança se sentir mais feliz e mais segura, algo que é congruente com a minha própria experiência, como terapeuta e como mãe. Finalmente, os pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não” resgata as crianças da “tirania de seus próprios desejos”. E a palmada, quando usada criteriosamente, não é considerada abuso na França.

Como terapeuta que trabalha com as crianças, faz todo o sentido para mim que as crianças francesas não precisem de medicamentos para controlar o seu comportamento, porque aprendem o auto-controle no início de suas vidas. As crianças crescem em famílias em que as regras são bem compreendidas, e a hierarquia familiar é clara e firme. Em famílias francesas, como descreve Druckerman, os pais estão firmemente no comando de seus filhos, enquanto que no estilo de família americana, a situação é muitas vezes o inverso.

Via Facebook

O meu comentário:

Começo por relembrar algumas palavras que escrevi num artigo na Revista Educação Inclusiva - Vol. 2 . n.º 1 - junho 2011: "Muitas são as afirmações, frequentemente proferidas com alguma leveza, que actualmente levam a uma banalização do termo hiperactividade. Tudo isto resultou numa vulgarização no diagnóstico desta perturbação, o que faz com que qualquer criança que apresente modificações a nível comportamental possa ser, desde logo, identificada como uma criança hiperactiva, sem muitas vezes se tentar compreender quais as circunstâncias ou as variáveis que podem justificar tais comportamentos." Isto vai de encontro ao que costumo dizer que nem sempre os diagnósticos são feitos de forma correta...O diagnóstico deve ser feito por uma equipa, mas infelizmente são poucos dos diagnósticos que são realizados efetivamente por uma equipa. 
Algo que também vai causando muita discussão é a utilização de medicação. Na minha opinião essa deve ser a última opção, existe outro tipo de estratégias que podem surtir muito mais efeito. "
intervenção junto destas crianças requer a articulação e colaboração estreita entre vários profissionais constituída pelos pais, professores, psicólogo, pediatra e, eventualmente, neurologista bem como outros profissionais. A criança deverá ser uma participante activa na intervenção, devendo ser informada de todo o processo que a envolve. 
Os pais têm um papel muito importante, pois crianças com esta perturbação exigem a modificação do funcionamento familiar de forma a poderem responder às suas necessidades de acompanhamento, que são muito particulares. 
Acreditamos que só com diálogo e articulação, numa lógica de trabalho em equipa, entre todos os intervenientes, que intervêm directa ou indirectamente, com esta criança, poderemos ajudá-la a melhor compreender e lidar com o problema, bem como a adaptar-se aos mais diversos contextos. Uma realidade que só é possível, tal como referimos anteriormente, com o envolvimento da família."

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O Défice de Atenção não existe só nas crianças

A aproximação do final do ano lectivo e das provas de avaliação leva a que, todos os anos, por esta altura, surjam anúncios, notícias e debates sobre medicamentos que visam aumentar as capacidades de atenção e memória e, consequentemente, melhorar o rendimento escolar.

Sejam de venda livre (na maioria dos casos só vantajosos para quem os vende, quando não prejudiciais para quem os toma), sejam princípios activos que carecem de prescrição cuidadosa e indicação específica (que, quando as não têm, podem acarretar riscos acrescidos para a saúde) são, por norma, todos tratados por igual, sem distinção de eficácias ou de contra-indicações e, muito menos, de possíveis indicações clínicas.

As dificuldades de aprendizagem podem contudo ter causas que devem ser esclarecidas. Algumas delas são do foro médico ou psicológico e podem ser tratadas. Entre estas, uma das mais estudadas é a Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção (PHDA).

A PHDA é caracterizada por um conjunto de sinais e sintomas de desatenção, impulsividade e agitação motora que perturbam o rendimento escolar e profissional, a vida familiar e as relações sociais das pessoas que dela sofrem. Claramente exagerados, atendendo à idade e às situações, estes sinais manifestam-se em todas, ou quase todas, as circunstâncias da vida. Presentes logo desde a infância, prolongam-se pela adolescência e, frequentemente, pela vida adulta.

A PHDA resulta de uma perturbação no desenvolvimento do sistema nervoso (antes ainda do nascimento) e tem um componente hereditário. A probabilidade de um adulto com PHDA ter um filho com o mesmo problema é de 50%. Por isso, é frequentemente identificada nos pais e nos irmãos de crianças a quem foi inicialmente feito o diagnóstico.

Cerca de 5 a 8% das crianças em idade escolar têm PHDA. Destas, cerca de metade, continuarão a ter sintomas de PHDA ao longo de toda a vida.

Nas crianças a PHDA é diagnosticada mais frequentemente nos rapazes (eventualmente por a hiperactividade ser mais exuberante nestes). As raparigas, mais sossegadas e com menos sinais de hiperactividade, serão menos notadas, apesar de sofrerem igualmente de Défice de Atenção.

Contudo, é o Défice de Atenção que, a médio prazo, conduz a uma maior taxa de insucesso (escolar, profissional, mesmo social…). O Défice de Atenção traduz-se na grande dificuldade em fixar e manter a atenção e a concentração, sobretudo quando se trata de assuntos que o próprio considera menos interessantes ou mais monótonos. A dificuldade de controlar a atenção pode ainda manifestar-se por uma atenção exagerada e desadequada em determinadas situações, com tendência para se “arrastar nas coisas”. A isto chamamos “hiperfocagem” e é tão típica da PHDA como o é a desatenção.

A forma como a PHDA se apresenta nos adultos é necessariamente diferente da forma como se manifesta nas crianças. O crescimento, a vivência e, consequentemente, o “amadurecimento” da personalidade, contribuem para que algumas das manifestações mais exuberantes, como a extrema irrequietude ou agitação, sejam raras no adulto.

A impulsividade e, sobretudo, a desatenção tendem porém a persistir e podem causar incapacidades importantes no funcionamento emocional e social, particularmente evidentes nas relações interpessoais e no desempenho profissional. As mudanças de humor, as práticas de risco, o insucesso académico, a mudança repetida de emprego, as mudanças de objectivos, os projectos que se iniciam com entusiasmo e se largam de seguida, o desencontro dos ritmos de sono e vigília, a dificuldade em estabelecer prioridades e em gerir o tempo, são sinais que surgem associados à PHDA.

Em todos os casos, há que ter a certeza que as manifestações de hiperactividade, de impulsividade ou mesmo as de desatenção, não são explicáveis por outras causas (alterações do sono, consumo de substâncias, doença psiquiátrica, etc.). O diagnóstico de PHDA é clínico, e não existem análises ou exames médicos que o permitam fazer. Tem como base a avaliação da história clínica e a análise do comportamento nos vários locais (escola, emprego, casa, tempos livres). 

No caso de suspeita de PHDA, deverá ser consultado um médico ou psicólogo com experiência nesta perturbação. Só eles poderão fazer o diagnóstico.

É grande a importância de diagnosticar e tratar a PHDA. O tratamento adequado não só diminui os sintomas da perturbação, como restitui à pessoa a possibilidade de usar as capacidades que realmente tem. Finalmente, tratando a PHDA diminuem os riscos de aparecimento de outras perturbações que frequentemente lhe estão associadas (ansiedade, depressão, comportamentos de risco, etc.).

Por: Carlos Nunes Filipe

O autor é médico psiquiatra e director científico do CADIn – Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil

In: Público