domingo, 14 de abril de 2013

Educação: o essencial e o acessório

O ministro Nuno Crato fez recentemente algumas declarações a propósito dos efeitos da decisão do Tribunal Constitucional na reprovação de medidas do Orçamento do Estado num valor próximo de metade do erro de previsão cometido o ano passado pelo ministro das Finanças em relação ao défice.

Disse o ministro que é necessário, mais do que nunca, distinguir o essencial do acessório em Educação e agir em conformidade. Se me esquecer da fórmula vazia do “fazer mais com menos” até me sinto tentado a concordar e a dar o meu humilde contributo para a distinção entre o que é nuclear para que a Educação não se torne, em si mesma, um mero encargo aborrecido e dispensável para os governantes do momento.

Para facilidade e simplicidade da análise, dividiria esta sugestão em cinco pontos essenciais e cinco acessórios.

Entre o que acho essencial e não tem sido tratado desse modo, eu identificaria:
• Despiste precoce de situações indiciadoras de insucesso escolar e disponibilização de meios técnicos e humanos multidisciplinares para as encaminhar de um modo consequente e não meramente burocrático.

• Apoio às famílias que nos últimos meses foram caindo crescentemente em situações de enorme vulnerabilidade económica (desemprego, redução de apoios sociais), o que as impede de dar o devido apoio aos seus educandos em aspectos tão básicos como a alimentação, renovação do material escolar e mesmo vestuário.

• Manutenção de condições de trabalho com um mínimo de dignidade em termos de pessoal auxiliar não docente, a que agora se chamam assistentes operacionais, não o recrutando como se qualquer um, e qualquer remuneração, servisse para o efeito.

• Motivação dos agentes educativos no terreno, em particular os que trabalham diariamente nas salas de aula, ou seja, alunos e professores, sem os quais é impossível manter uma trajectória ascendente no desempenho que se consegue agora verificar para os últimos 10/15 anos.

• Definição de uma política integrada de reformulação do currículo, com base em fundamentos pedagógicos de articulação vertical dos ciclos de escolaridade.

Entre aquilo que considero acessório, embora esteja infelizmente na agenda actual, eu destacaria:
• A retórica política baseada em chavões demagógicos sem qualquer conteúdo substancial e destinados apenas a ocultar da opinião pública que muitas das medidas tomadas o são por causas exógenas à Educação.

• A multiplicação de equipas e grupos de trabalho (internos ao Ministério da Educação e Ciência ou com recurso a nichos académicos de estimação) destinados a estudar o que há muito está estudado, tanto em trabalhos académicos como por organismos com essa mesma função (caso do Conselho Nacional de Educação).

• A reorganização da rede escolar baseada em critérios desajustados, sem qualquer fundamentação empírica das vantagens, permeável a pressões e interesses de protagonistas locais e portadora de elementos perturbadores da coesão das comunidades educativas já existentes e dos respectivos projectos educativos, pelos quais se tem revelado um total desrespeito.

• A ficção construída em torno da avaliação do desempenho docente, que avança em novo ciclo com todos os defeitos dos ciclos anteriores e nenhuma melhoria substancial, desde a ausência de formação até à parametrização prevista para a classificação desse mesmo desempenho a partir da observação de duas aulas.

• A impaciente coreografia de interesses privados em torno da desejada repartição de verbas do orçamento do Ministério da Educação e Ciência, com argumentos falaciosos alegando não demonstradas poupanças, que mais não passam do que da cobrança de favores e apoios em campanhas eleitorais recentes.

Enquanto por essencial não se considerar aquilo que faz com que as escolas e as salas de aula funcionem devidamente e o que mobiliza alunos, professores, famílias e funcionários para um desempenho comum, remetendo para o acessório os jogos de interesses que orbitam a Educação apenas numa perspectiva de ganhos materiais ou de poder pessoal, o caminho a trilhar, com ou sem cortes, não passará de um trajecto ilusório com destino incerto, prejudicando os principais interessados que são os alunos.

O autor é professor do ensino básico e autor do blogue A educação do meu umbigo.

Por: Paulo Guinote

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Conselho Nacional de Educação avisa que "a situação é dramática"

Hoje o jornal Público divulga o relatório do Conselho Nacional de Educação, relatório esse que é"redigido antes de estarem previstos mais cortes, os especialistas já alertavam para os riscos da diminuição do investimento no sector."

Entre várias recomendações deixo-vos apenas uma que tanta gente vem defendendo e que apenas este governo não quer ver:

O documento, em si, tem igualmente referências explícitas à crise e aos cortes orçamentais. No capítulo das recomendações, o CNE defende que a Educação é uma "alavanca" para o país "sair da crise actual", pelo que deve ocupar "o centro das políticas públicas e constituir uma prioridade do investimento público". "Num quadro de escassez de recursos, é fundamental a percepção política de que partimos de um patamar de escolarização muito inferior ao dos nossos parceiros europeus e que, tendo iniciado uma recuperação significativa dos níveis de qualificações de jovens e adultos, rapidamente regrediremos se não se mantiver a mobilização social, o esforço e a prioridade atribuídos ao sector da Educação e Formação", insiste o CNE.

Cerca de 40 mil crianças sobredotadas em Portugal, maioria não está identificada

Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas alerta para falta de estrutura nas escolas para apoiar os professores dos alunos sobredotados.

Cerca de 40 mil crianças até aos 12 anos em Portugal serão sobredotadas, mas a maioria não está identificada, segundo especialistas que apontam como principal lacuna a falta de formação para detectar estes meninos e encaminhá-los de forma adequada.

“A lacuna principal é a falta de conhecimento do fenómeno. Há muito tipo de crianças sobredotadas e temos poucos especialistas para as detectar. Devia haver formação específica entre professores e psicólogos que fizessem destrinça entre os diferentes tipos de sobredotados”, afirma o presidente do Instituto da Inteligência, Nelson Lima.

Para Nelson Lima, além da falta de informação e formação, há ainda muitos mitos, como o de que a criança sobredotada “tem de ser boa em tudo” e, caso não seja, já não se considera sobredotada.

Contudo, há crianças sobredotadas que manifestam uma inteligência geral, ampla, diversificada, enquanto outras dirigem o seu talento apenas para uma área específica, sobretudo para as artes, como a pintura, a dança ou a escrita.

“Geralmente, estes sobredotados talentosos definem uma área de vida e uma trajectória à qual se dedicam inteiramente. Apaixonam-se por uma área e dedicam-se a ela”, explica o mesmo responsável.

Para o presidente do Instituto de Inteligência, o problema existe no grande número de crianças sobredotadas que, finda a adolescência, “ficam sem saber o que fazer”.

“É importante ajudar a definir o projecto de vida, apelando à sua imaginação e à descoberta de quem são. E a forma como a inteligência se manifesta, se é mais analítica, mais prática”, disse.

Aliás, diversos estudos revelam que, apesar da grande expectativa gerada na infância, muitos dos sobredotados apresentam, mais tarde, um grau de insucesso igual ou maior do que o das outras pessoas.

Nelson Lima, que hoje dá uma conferência na Universidade Lusíada, em Lisboa, sobre o futuro dos sobredotados no fim da adolescência, garante que é a escola que tem o papel mais importante na trajectória das crianças sobredotadas, preparando um caminho para as orientar no futuro.

“Quando se fala de sobredotados, a atenção é centrada nas crianças. À medida que entram na adolescência, deixa-se de falar no assunto, mesmo que estejam detectadas. A partir de uma certa idade há um certo abandono, estão um pouco por conta própria. E não se potenciam as suas capacidades e inteligência”, adiantou à Lusa.

Em 1998, o Ministério da Educação produziu um manual com instruções para os professores com indicações para detectar crianças sobredotadas.

“Ainda não encontrei um único professor que diga que o conhece. É altamente provável que os exemplares deste manual tenham ficado numa gaveta do Ministério da Educação”, lamentou Nelson Lima, defendendo que seja criado um novo manual actualizado, dirigido sobretudo aos professores do primeiro ciclo.

Também a Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas considera que falta nas escolas uma estrutura que tenha como função central apoiar os professores dos alunos sobredotados.

Helena Serra, presidente da associação, admitiu que há em Portugal uma baixa cobertura de “respostas de qualidade” ao nível da formação de professores e de apoios nas escolas para detectar e acompanhar os meninos sobredotados.

Mas, para esta associação, é também importante apoiar os pais destas crianças, que enfrentam várias dificuldades.

“São crianças cansativas, que fazem perguntas dificílimas e têm constante necessidade de respostas. E muito cedo afirmam a sua vontade própria e independência. É preciso ensinar os pais a gerir isso”, explicou à Lusa.

A associação organiza, no Porto, a iniciativa “Sábados Diferentes”, que serve para que as crianças sobredotadas estejam com os seus pares numa perspectiva de “desenvolvimento pessoal e social”. Ao mesmo tempo, os pais também podem usufruir, recebendo formação e orientação.

O projecto deverá alargar-se a Lisboa, mas, por enquanto, no resto do país escasseiam iniciativas que dêem este tipo de apoio a crianças e aos seus educadores.


terça-feira, 9 de abril de 2013

Comissão de Proteção de Pais em Risco (CPPR)

Infelizmente, o somatório de relatos de pais que referem ter receio da atitude agressiva dos filhos, muitas vezes na adolescência, vai aumentando, e assim aumenta também a minha suspeita de que esta comissão irá surgir a curto prazo.

Já ouviu falar da Comissão de Proteção de Pais em Risco? Não? Pois eu também não, mas temo que esteja para ser criada muito em breve. Infelizmente, o somatório de relatos de pais que referem ter receio da atitude agressiva dos filhos, muitas vezes na adolescência, vai aumentando, e assim aumenta também a minha suspeita de que esta comissão irá surgir a curto prazo. Recentemente, uma diretora de turma relatava-me, com preocupação, que a mãe de um aluno do 9.º ano admitira, num atendimento, que não tinha capacidade de controlar o comportamento do filho. Este dormia poucas horas, uma vez que passava muito tempo em frente ao computador e que, quando ela tentou contrariar este comportamento, o filho reagiu com tanta agressividade, que temeu que ele usasse de violência física. Face a esta situação, perguntava-me esta diretora de turma: "E agora? Que vamos fazer para ajudar esta mãe?"

Para alguns pais, este parecerá um relato um pouco estranho, e perguntarão a si próprios como é que é possível que a relação entre mãe e filho se torne tão disfuncional. Alguns estarão mesmo a pensar nas estratégias que usariam para pôr fim à situação. Contudo, para esta mãe não será certamente fácil solucionar este problema.

Mesmo não conhecendo ainda bem todo o contexto que envolve este jovem, há uma certeza que tenho, atendendo a outras situações que já acompanhei. Este adolescente, agora com 16 anos, cresceu impondo as suas regras. Neste caso a mãe, elemento da família com quem vive, provavelmente foi procurando dar resposta a todas as suas necessidades. O grande problema é que a dádiva não foi acompanhada da exigência que é indispensável ao crescimento equilibrado. No atendimento de pais, transmito de forma constante a mensagem de que o problema atual em termos educativos não é a falta de amor, o problema é a falta de exigência e regras. Os filhos são desculpabilizados constantemente, não assumindo responsabilidades, porque há sempre alguém que resolve os seus problemas. Este jovem cresceu impondo os seus próprios limites e agora reage com agressividade quando a mãe procura alterar as regras do jogo!

Devido à articulação frequente com a CPCJ de Matosinhos (Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Risco), vou ouvindo os relatos da sua presidente. O número de pais desesperados que recorrem à CPCJ porque não sabem o que fazer com os filhos tem aumentando bastante. Famílias que antigamente tinham uma saúde económica confortável, de repente são empurradas para situações de extrema carência. Como reagem os filhos? Exigem aos pais o que estes já não lhes podem dar, recorrendo muitas vezes à agressividade para obter o que efetivamente já não existe!

"Como vamos ajudar esta mãe?", esta é a pergunta que me foi colocada e à qual eu não soube responder, pois desconheço os recursos de que a senhora poderá dispor. Devido à escassez de dados que possuo sobre este caso concreto, substituo a questão referida por uma outra: "Como evitar estas situações?". E adianto a seguinte resposta: assumindo desde muito cedo uma atitude educativa de exigência para com os filhos. Não chega dar-lhes; é preciso que eles saibam claramente que são os adultos que definem as regras e que sejam obrigados a cumpri-las, não obstante ser importante que as compreendam e possam, até, participar na sua definição. É preciso educar no respeito e afeto, transmitir valores, falar e ouvir as crianças, ensiná-las a aceitar as frustrações, exercer a autoridade sem medo e impor limites desde que nascem. Quando os pais não mandam, mandam os filhos e tornam-se verdadeiros ditadores!

Por: Adriana Campos

In: Educare

PROFESSOR, UMA PROFISSÃO DE RISCO

O DN de hoje trata com chamada a primeira página uma questão que me parece relevante e sintomática. Durante 2012 metade dos docentes portugueses recorreu a baixa médica.

Esta informação não surpreende. Estudos realizados em Portugal mostram níveis altíssimos de stress e risco de burnout no grupo profissional dos professores portugueses que estão em linha com a realidade de outros países, sobretudo no que concerne ao burnout.

Os factores identificados como mais contributivos para este quadro são a indisciplina, desmotivação dos alunos e a pressão para o sucesso e depois insatisfação com as condições de desempenho, carga horária e burocrática, falta de trabalho em equipa, falta de apoio e suporte das lideranças da escola. O cenário agrava-se no ensino secundário.

Na verdade, os dados só podem surpreender quem não conhece o universo das escolas, como acontece com boa parte dos opinadores que pululam pelos media perorando sobre educação.

É fácil avaliar a importância e consequências das situações de mal-estar envolvendo os professores. Alguns dos discursos que de forma ligeira e muitas vezes ignorante ocupam tempo de antena na imprensa, parecem esquecer a importância deste trabalho e das circunstâncias em que se desenvolve.

É complicada a tarefa de professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística e consequente guetização social produziram.

Os valores, padrões e estilos e vida das famílias alteraram-se significativamente fazendo derivar para a escola, para os professores, parte do papel que competia(e) à família. Este trabalho é realizado, muitas vezes, sem qualquer tipo de apoio ou suporte, com cada professor entregue a si mesmo.

Importa ainda considerar as variáveis relativas à estabilidade e segurança profissional com milhares de professores a cumprir a sua carreira de poiso em poiso, sem poiso e sem condições e com milhares em mudanças inesperadas ou mesmo perda de segurança na relação laboral. E não nos esqueçamos também da imprescindível necessidade de que o seu trabalho seja avaliado através de dispositivos sólidos, eficazes e justos de forma a proteger a própria classe, os miúdos e as famílias.

Também deve ser ponderada a deriva política a que o universo da educação tem estado exposto nas últimas décadas, criando instabilidade e ruído permanente sem que se perceba um rumo, um desígnio que potencie o trabalho de alunos, pais e professores. O arranque e funcionamento deste ano lectivo tem sido particularmente elucidativo.

Com muita frequência os professores são injustiçados na apreciações de muita gente que no minuto a seguir à afirmação de uma qualquer ignorante barbaridade, vai, numa espécie de exercício sadomasoquista, entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas. Também são conhecidos os casos sucessivos de agressão e insulto por parte de alunos e famílias.

A forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem e isto contamina a serenidade do processo de trabalho.

É também é imprescindível que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.

Na verdade, ser professor é uma das funções mais bonitas do mundo, ver e ajudar os miúdos a ser gente, mas é seguramente uma das mais difíceis e que mais respeito deveria merecer.

Texto de Zé Morgado