terça-feira, 27 de abril de 2010

Bullying foi mais duro do que o tumor cerebral

Há quem lhe chame ‘xamuar macua’ por ter nascido em Moçambique, onde viveu uma infância risonha. Lizete Lopo, não é só a autora do livro que narra a história de Miguel, é também a mãe da criança. «Quero viver», com o prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa, é uma obra de 400 páginas onde cabe um pouco de tudo – angústia e esperança, crítica e agradecimento, lágrimas e força, mas especialmente amor… materno. O lançamento foi em Viseu, no dia 28 de Novembro passado, e ontem, no Porto, a publicação, de novo apresentada, deu origem a um breve debate sobre ‘bullying’.

"Pior do que ter um tumor cerebral, para mim, foi ter sido vítima de ‘bullying’". João Miguel, agora com 15 anos, tinha sete quando a doença lhe fora diagnosticada e após travá-la, embora ainda fragilizado, regressou para a escola onde foi agredido verbalmente, humilhado e desrespeitado pelos seus colegas, segundo contou ao «Ciência Hoje».

“As pessoas diziam que eu devia escrever este livro, mas eu brincava com isso. No entanto, um dia fui picada por uma abelhinha, isso dói, mas também nos dá força para mudar aquilo que nos faz mal”. A autora não quis revelar qual foi a “abelhinha” que a picou e apenas salientou que o importante é "deixar uma mensagem à sociedade marginalizada".

Daniel Serrão, especialista em Bioética, sublinhou claramente que “pode parecer, mas não é um livro lamechas. É factual e conta uma situação que pode acontecer a qualquer um, sem passar pela pieguice”. O médico confessou que quando recebeu a obra não a queria ler, talvez por ter vivido momentos semelhantes. Daniel Serrão foi vítima de bullying em criança e teve, igualmente, um filho com cancro, mas este acabou por não resistir à doença.

O especialista deambulou entre diferentes aspectos do livro, sem fazer nenhuma concessão. “Primeiro, quase que podemos dizer que inaugura um estilo narrativo porque faz um balanço permanente dos factos. É um tema difícil, duro, mas real e contado em estilo claro. Segundo, é também uma poderosa análise ao nosso Serviço Nacional de Saúde – enquanto conta a sua odisseia, tanto revela aquilo que encontrou de mau como de bom – e, por fim, é uma demonstração exuberante do poder do amor”, referiu.

Para Daniel Serrão, a atitude positiva e a esperança foram a melhor terapêutica no caso de Miguel. “Já foi demonstrado que uma atitude de confiança tem um efeito positivo nos linfócitos T, permite que estes reforcem a eliminação de bactérias e agentes microbianos. Temos de ter em conta que a Medicina não é uma ciência exacta, é uma prestação de meios”, assinalou ainda.

Defesa/Punição

A apresentação/debate contou com a participação de Paulo Santos, advogado e comentador jurídico. “Se o ‘bullying’ já é uma situação difícil, a intimidação, a agressão em cima disto [combater o cancro] é mais do que perverso”. Segundo o defensor, o quadro normativo é claro: “O papel do professor é prevenir e intervir em aspectos comportamentais e o estatuto do aluno prevê que tenham salvaguardada a sua segurança e integração, mas aqueles que tenham um comportamento desviante não podem ser tratados como os outros”, afirmou. E continuou: “O tecido das escolas é o espelho das sociedades e quando estas não actuarem podem ser atacadas civil e criminalmente, porque é tempo de dizer chega!”

Contudo, para Paulo Santos, é imperativo que cada indício seja investigado para se descobrir “se, de facto, existe bullying ou calúnia” e acredita que os pais devem ser intolerantes e inflexíveis relativamente ao primeiro caso.

Miguel frequenta agora o 10º ano, numa escola do Porto, que disse gostar "muito", com um sorriso bem delineado. “Aconselho a aqueles que passem por uma situação destas que desabafem para terem a possibilidade de serem ajudados”, concluiu.

«Quero viver» é uma edição de autor e parte das receitas do livro (cinco por cento) reverte para a Associação Acreditar. A discussão foi moderada pelo jornalista da RTP, Mário Augusto e trata-se de mais uma iniciativa apoiada pela Universidade Católica, no âmbito do projecto Porto Cidade Solidária.

2 comentários:

  1. Estamos num caminho sinuoso!!! Felizmente existem vitórias e experiências fantásticas de sujeitos corajosos!!O papel do professor,sempre, fundamental, na prevenção, intervenção e uma vez mais mediador da INCLUSÃO total de quem agride e de quem é vitima. De facto:
    “O tecido das escolas é o espelho das sociedades e quando estas não actuarem podem ser atacadas civil e criminalmente, porque é tempo de dizer chega!”
    Mais um livro a ler, sem dúvida e a divulgar!!

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